Amizade depois dos 25

Sabe aquele papo de que, com o amadurecimento, a gente descobre quem é amigo de verdade? Balela. Quem cunhou e disseminou essa teoria apenas envelheceu e viu que os amigos não estavam mais tão disponíveis como antes: como na infância, em que se encontravam para brincar todos os dias, ou como na adolescência, em que qualquer hora era hora de se reunir para brigadeiro na panela e fofocas ao vivo. Se esse cidadão, o mesmo de “amigos de verdade se conta em uma mão”, vivesse na era digital, teria popularizado muitas frases amarguradas mais. Afinal, quem ainda reserva tempo para se encontrar?

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Afete-me

A proximidade dos meus 25 anos (embora eu vá tentar emplacar um 21 ou 22 nas rodinhas de amigos) tem me deixado especialmente nostálgico. E eu não sou do tipo de pessoa que tem vergonha de olhar para trás, definitivamente. Não acho menor lembrar, e de certa forma reviver, minha(s) história(s). Não acredito que isso me impeça de olhar para frente, nem de viver o presente. Gosto de recordar bons momentos, sim. Mergulhei em álbuns de fotografias, revi lugares, pessoas, comédias, dramas, e cheguei à conclusão de que o que move nossa vida é mesmo a relação com o outro.

Se não fossem os outros seres humanos, poderíamos traçar uma reta desde a infância e segui-la cegamente. Sem nenhuma curva. São os encontros, e os desencontros, que nos proporcionam os contornos. Não é sobre mudar de caminho que eu digo, embora essa também seja uma possibilidade. Falo sobre permitir-se novas experiências, sair do programado, sem perder o rumo. Saber aonde quer chegar, mas aceitar fazer um caminho diferente, entrar em uma rua desconhecida só para ver como é.

Alguém pode te recomendar um livro que você nunca leria por vontade própria. Ou te convidar para conhecer sua casa, em uma cidade que você não tinha a menor intenção de conhecer. Também te levar ao show de uma banda desconhecida, ou simplesmente de uma banda fora de sua playlist. Ou ainda te encaminhar uma oportunidade de emprego; te sugerir um aplicativo que vai te viciar; fazer uma fofoca que vai te destruir ou te enaltecer; e te apresentar outra pessoa, que trará ainda novas possibilidades à sua vida. Ainda que inerte, o outro te afeta. Apaixonado, você mergulha nos interesses da outra pessoa, para entendê-la, para se aproximar, e conhece novos mundos.

Vendo os álbuns de fotos, entendi isso. Tenho fotos com amigos com quem perdi totalmente o contato (o que contraria meu post anterior), e alguns que me custaram até lembrar o nome. Mas todos me proporcionaram alguma experiência diferente, uma história, uma vivência. Tenho achado que ninguém passa pela vida de ninguém sem deixar um rastro, por menos significativo que seja. E não é como se eu quisesse abraçar o mundo, mas abraço o meu mundo.

Não sou do tipo de gente que conversa com quem tá do lado na fila. Mesmo que a fila dure uma hora ou mais, sou capaz de entrar e sair dela calado. Sou introspectivo. Extrovertido, só quando estou com alguém que conheço. Não posso dizer que estou sempre aberto a novas amizades, porque seria uma mentira. Mas tenho consciência disso: nós que movemos uns aos outros. Gente precisa de gente. E que bom que é assim.

“Estou sem amigos!”

Abri o ano com uma discussão introspectiva muito importante sobre os papeis sociais que somos obrigados a interpretar desde que nascemos. Corresponder ao que esperam da gente, exercer atividades a contragosto por consideração, e cuidar da manutenção de relações frágeis por hábito. Meses e muitas sessões de análise depois, não tenho respostas muito definidas, mas estou me desgastando menos pelo que menos me interessa no momento. Estamos em agosto e a proximidade do meu aniversário me faz pensar, pensar, pensar… ainda mais, sobretudo nesse aspecto. Em algum momento, terei uma lista de convidados a fazer, à espera de uma lista de confirmados, cada vez mais incerta e nebulosa para mim. Quem é importante? Quem é recíproco? Quem desconsidero e me dá valor? Quem é só volume?

Pergunto-me frequentemente se estou no caminho certo. Outro dia, declarei à minha psicóloga: “estou sem amigos”. Era uma declaração forte e mentirosa, mas representativa do que eu sentia naquele momento. Também não pude deixar de notar a ironia da situação – eu me sentia solitário justamente no ano em que conscientemente me afastei de pessoas com as quais não me sentia mais conectado. De amigos, de amigas. Transformei-os em colegas, sem rupturas, sem alarde, talvez sem que eles percebessem, porque poderia querer acioná-los em qualquer momento. Os meses passaram, e eu não quis. Uma esquivada de um convite aqui, uma mensagem sem resposta no Facebook ali, e vida que segue.

2014 tem sido um ano muito meu, de investimento em mim mesmo, de muito trabalho, de muitas atividades e compromissos. Por isso, seleciono cada vez mais – gostaria de dizer, “cada vez melhor”, mas não tenho essa certeza – como e com quem gasto meu tempo. A quem o dedico. Aproximei-me mais de umas pessoas do que outras, por afinidades momentâneas e conexões que fazem mais sentido no contexto atual. Na realidade, é muito ruim fazer parte dessa geração de redes sociais virtuais, porque não temos o direito a perder o contato. Relações que teriam se perdido pelas circunstâncias naturais da vida ficam ali, arrastadas, enferrujadas, maquiadas, mas ali. E eu acho que, às vezes, é preciso perder para encontrar, se encontrar, reencontrar. “Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais”.

Temo ser intolerante demais, inflexível demais, radical demais. Mas estou em uma fase em que realmente não estou disposto a gastar energia com o que me parece cênico. À mesa do jantar ou à mesa do bar, é possível divertir-se e sentir-se em casa, da mesma maneira que há espaço para desconforto e animosidade. Não quero estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, doido para me livrar daquela situação. Não tenho tempo para gastar com isso. Para quê? Para quê? Francamente.

É claro que, da mesma maneira, me conecto com pessoas com as quais acho que não devia, mas elas me entretêm. Amigos que conheço bem os defeitos, que os desaprovo, que os desprezo até, mas dos quais não consigo me afastar. “Já aceitei. Fulano e Sicrana não vão sair da minha vida. Não tem jeito”, eu disse, há alguns meses, para minha psicóloga, que pareceu não gostar do que ouviu. Há relações que fogem ao meu controle, e não me enfadam, então vão ficando. Eu me preocupo, sim, com a qualidade dos relacionamentos que estou levando para o futuro, que não será nada mais do que uma consequência das decisões presentes. Mas minha questão é muito mais interna do que externa. Como posso explicar?

A peneira da minha vida tem refletido menos o que as pessoas são, ou o quanto são merecedoras e admiráveis, e mais como eu me sinto com elas. Há errantes com os quais me sinto bem, e fazer o quê? Há amigos com os quais não vejo mais conexão, sintonia, afinidade; e com os quais a suposta intimidade ultimamente me agride. “Como eu me sinto quando…” estou com Sicrano. É tudo sobre isso. Não é sobre quem Sicrano é. Assim, me entendo melhor, me culpo menos, me aceito mais. “Não é você, sou eu”. Hoje, compreendo o clichê social para rompimentos.

Ainda não encontrei minha turma

Gostaria de anunciar que não haverá mais dicas da semana, mas não sei se isso é verdade. Tinha decidido manter esse formato em 2014, mas não imaginava que criaria o Teatro em Cena – nem como ele me consumiria física e mentalmente. Não sei se semana que vem terá dica, nem se na próxima. Pode voltar tudo ao normal, ou não. Só quero abrir mão da obrigação que criei para mim mesmo, para me dedicar à outra. É sobre isso esse blog: fazer o que quero, quando quero, se quero. E eu estava esquecendo disso… Recado dado?

Nesta semana, então, escrevi algo diferente, porque um filme me inspirou. Está guardado desde domingo passado esse post e quase pensei em não publicá-lo. Quando reli, achei que passava uma mensagem que não condizia com meu estado de espírito. Mas não tem problema. Foi o que senti naquele dia, naquele momento.


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Assisti ao filme “Entre Nós”, do Paulo Morelli, no fim de semana. Eu não tinha noção do que se tratava até decidir ir ao cinema (infelizmente tenho andado estranhamente alheio a esse universo nesse início de ano). Eu queria apenas “ver o filme da Carolina Dieckmann” e abri um site para dar uma olhada nos horários e nas salas mais próximas de casa. Foi aí que li a sinopse, que dizia algo mais ou menos assim: grupo de amigos desenterra cartas escritas por eles dez anos antes e lidam com sentimentos e ressentimentos anestesiados pelo tempo. Na verdade, eles não usavam a palavra “anestesiados”. Mas achei que ficaria bonito dizer agora. Anestesiados pelo tempo. Soa legal, não? Digo, a sinopse.

Quem gosta da Britney Spears inevitavelmente se lembrou de “Crossroads” e, bem, eu me lembrei também. Minha mãe me levou em um cinema do Largo do Machado para ver “o filme da princesinha do pop” na época e, enquanto ela saía da sala reclamando do quanto aquilo havia sido ruim, eu pensava que queria ter amigos para escrever cartas, enterrar em uma caixa e abrir dez anos depois. Naquela época, eu não tinha nenhum amigo que estivesse comigo há dez anos. Okay, eu só tinha 12 anos, mas mesmo assim. A ideia de uma amizade durar tanto tempo não cabia na minha vida, que já apresentava autorrotatividade (é assim na nova gramática?), e eu sabia disso.

“Entre Nós” despertou sentimentos similares. Hoje em dia, tenho amigos que estão há dez anos comigo. Muito mais do que pensei que teria algum dia. Mas eu não me sinto parte de nenhum grupo, como o filme apresenta. Minhas amizades são aleatórias, individuais e retas, se é que posso dizer assim. Retas, porque realmente não fazem curvas. São relações diretas one-to-one. E isso não é ruim. Gosto dos meus amigos. Mas, com esse filme, senti falta de “ter a minha turma”. Eu não tenho a minha turma. EU NÃO TENHO A MINHA TURMA!!!

Já fiz parte de diversos grupos, na adolescência principalmente, mas todos se dissolveram, de forma mais ou menos traumática. Desses grupos, mantenho muitos amigos, mas todos individualmente. De qualquer maneira, sou capaz de reconhecer que há algo diferente na sensação de fazer parte de um time, em vez de ter uma amizade one-to-one. Geralmente, há uma força motora que une aquelas pessoas. Geralmente, são todos diferentes, mas iguais em algum ponto, e é aquele ponto que prevalece. No filme, são jovens aspirantes a escritores.

Eu, o que sou? Digo, para encontrar minha turma. Não sei. Sou tantos em um. Amo cinema, mas não como a turma dos cinéfilos; porque também amo teatro, mas não como a turma do teatro; porque também quero escrever um livro, mas não como a turma dos escritores; porque também amo o jornalismo, mas não como a turma dos jornalistas. Nada consome tanto minha vida em relação de detrimento com outras coisas. Acho que a única época que tive minha turma, porque aquilo estava acima do céu e da terra para mim, foi quando era fã de Sandy & Junior. Aquela era a minha turma – o pessoal que me entendia e era incompreendido igual a mim. Depois disso, nunca mais encontrei um grupo forte na minha vida. E gostaria de encontrar. Fazer parte de algo maior, com a certeza de poder escrever uma carta e reunir todo mundo para ler dez anos depois.

No filme, o grupo de seis amigos (eram sete, mas um morreu) se afasta e mantém pouco contato durante os dez anos. Mas, na hora de abrir a caixa com as cartas, como combinado, todos comparecem. Acho que essa cumplicidade e esse comprometimento que me impressionam. Que eu invejo, talvez. Sei lá, talvez eu tenha sim minha turma, e não tenha percebido. Talvez esteja em um momento que não me sinta conectado com nenhum grupo ao qual por ventura componha. Talvez se tivesse escrito cartas há dez anos poderia estar abrindo-as agora, com pessoas que não teriam mais nenhuma relação com minha rotina. Talvez, talvez, talvez. Por hora, acho que ainda não descobri minha turma. Até quando dá tempo de encontrá-la?

Não sou ruína

Eu tinha escrito um texto, que até era bom, apoiado em uma metáfora entre mim e as ruínas de San Ignacio, mas não vou postá-lo. Os últimos acontecimentos da minha vida fizeram com que eu não me veja mais nele e até o ache patético. Sabe quando você pega seu diário de pré-adolescente para ler dez anos depois? Então, é mais ou menos esse meu sentimento com relação àquele texto, do fim de semana passado.

Por que estou falando isso, afinal? Não sei. Esse é um post que começo a escrever sem ter certeza de aonde quero chegar. Mas preciso deixar registrado o quanto eu sinto-me envergonhado por, volta e meia, acreditar que minha vida é uma droga. Ou que está tudo perdido. Ou que eu tenho o maior problema do mundo – esse é recorrente. É só eu conversar com meia dúzia de pessoas para descobrir que meus dramas são, na verdade, bem bobos. Não que alguém tenha me dito isso alguma vez, mas eu mesmo percebo depois de ouvir seus problemas concretos (e não criados por uma cabeça perturbada).

Eu sofro por medo que aconteça e por medo que não aconteça. É tudo por medo. É por antecedência. Eu estou falando com você agora, mas pensando em como será minha vida aos 30, aos 40 anos. E sofrendo com a possibilidade de fracasso. Essa hipótese – “e se” – se torna uma certeza na minha cabeça, de uma maneira que a vitória não consegue. Logo, me desespero. Por algo que não existe e não sei se existirá. O que existe é meu medo.

E aí eu converso com os amigos iluminados que eu tenho. Pessoas com problemas sérios, mas que eu não vejo reclamar. Pessoas com problemas graves, mas com tempo para ouvir minhas besteiras. Amigos que me contam o que estão passando, mas se antecipam em dizer que tudo ficará bem. Eles podem ter medo, o que é natural do ser humano, mas não deixam o pânico tomar conta e sobrepor a esperança. É gente assim que eu admiro.

É gente assim que me faz perceber que estou no caminho errado. Não posso ser tão negativo. Não posso pedir para sair na primeira fraquejada. Viver é para os fortes, definitivamente, mas alcançar o sucesso exige ainda mais. Sucesso é para quem tem foco e persistência. Se ninguém disse que seria fácil, porque achei que seria? Bola pra frente, camarada.

Carta do Tio Léo #1: Parapente, amizade à distância e livro

Oi queridos, tudo bem?

Hoje é o último domingo do mês e, como prometido, é dia “da carta do tio Léo” – a primeira de muitas, eu espero. Janeiro também passou incrivelmente rápido para vocês? Para mim, voou, infelizmente. Preferia que tivesse dado uma arrastada para que eu pudesse fazer tudo que tinha planejado (não fiz quase nada). Ainda choveu o mês inteiro, o que fez com que eu passasse a maior parte do tempo em casa.

Comprei um voo de parapente no fim do ano passado e não tive a chance de usá-lo. Choveu sempre que liguei para marcar. Incrível. O tempo parecia melhorar, eu telefonava e começava a chover de novo. Fiquei até com medo de que fosse uma espécie de aviso do destino para eu não me arriscar. Mas… eu quero voar! E voarei, possivelmente, no mês que vem. Ansioso.

Enquanto isso não acontece, desfruto de outras alegrias. Um superamigo de São Paulo está aqui no Rio, e eu me divirto muito sempre que nos encontramos. Além disso, também planejo ir à Curitiba conhecer pessoalmente um amigo de anos pela internet (já tô de passagens compradas!). Não gosto do termo “amigo virtual”, porque ninguém é virtual. Somos reais, com sentimentos de verdade. A convivência que pode ser virtual. Só isso. Não vejo nenhum demérito, aliás. Sou muito mais próximo de amigos geograficamente distantes, com quem mantenho contato pela internet, do que outros que vivem perto de mim. Qualquer desmerecimento nesse sentido é uma grande bobagem. O que importa é a vontade das pessoas de estarem perto.

Eu e Filipe, de Sampa, aqui no Rio

Eu e Filipe, de Sampa, aqui no Rio

Quando era novinho, tive a chance de conhecer uma garota chamada Rúbia, com quem tive uma amizade intensa e efêmera. O pouco tempo que passamos juntos foi o suficiente para que ela me passasse um ensinamento: o mundo é grande demais para ficarmos presos em um único lugar. A gente tem que circular, conhecer pessoas. Há muita gente incrível por aí. Eu que não vou deixar de manter amizades verdadeiras e sinceras com pessoas encantadoras só porque estão distantes geograficamente. Bobeira! Contra isso, a gente dá um jeito 😉

Mudando de assunto, também há novidades sobre “Condenáveis”. Saíram mais quatro resenhas: no Palavras ao vento (“Foi triste observar os momentos constrangedores que o Leonardo vivenciou”), no Ponto Livro (“…o autor tem talento para narrativa”), no Enquanto Escrevo um Livro (“Me fez pensar tanto esta leitura. Ficou um pedaço da história aqui comigo”) e no Magia Literária (“Posso dizer que o livro mexeu muito comigo. Me identifiquei muito com os pensamentos de Leonardo”). O interessante é que os blogueiros também passaram por conflitos com os pais, então pudemos ter ótimas conversas via e-mail. É bom que, ao compartilharmos nossas experiências, nos ajudamos. Esse livro está me fazendo conhecer muita gente fofa!

Há mais resenhas para sair neste ano. Muitos blogueiros estão com o e-book para ler e já fiz uma pressão neles para que não se esqueçam. De qualquer forma, o ano está só começando! 2013 será ano de monografia da pós, de esboço do livro novo, de muita coisa boa. Vamos torcer 😉

Abraço,

Tio Léo

O Facebook e a visita cruel do tempo

Jennifer Egan, uma autora que descobri com o livro “A Vida Cruel do Tempo” (e com quem já vivo uma relação de amor e inveja), disserta com bastante propriedade sobre a interferência da Internet nos relacionamentos contemporâneos. Não aceitamos perder ninguém de vista e deixar simplesmente o tempo passar.

No livro, a autora fala mais de uma vez sobre como qualquer pessoa é encontrável no Google. Sobre as redes sociais, ela diz que incentivam questionamentos como “o que terá acontecido com [fulano]?”. Um trecho específico diz que “os reencontros levarão à descoberta mútua de que ter feito um safári juntos 35 anos antes não significa que se tenha muita coisa em comum”. O mesmo vale para colegas do jardim de infância, companheiros antigos de esporte ou vizinhos que nem sabemos mais de onde eram. Todos ficam reunidos na mesma lista de contatos, lado a lado, como um álbum da vida.

O problema é a constância do álbum, como se o tempo deixasse de passar com todos aqueles rostos te olhando diariamente pela tela do computador. Afinal, não passa disso: uma maneira de não deixar a vida seguir adiante. Você não precisa conversar com nenhum deles, mas é inadmissível não tê-los adicionados no Facebook. Mesmo aquele garoto que você detestava na época do colégio e que, seguindo o rumo natural dos acontecimentos, nunca mais voltaria a ver está adicionado. As redes sociais tornam todos amigos. “Amigos”.

Ter 787 pessoas adicionadas – é esse o meu número exato de contatos no Facebook – não expressa popularidade, mas vivência. Já conheci muita gente ao longo da vida, mas quem não? Tê-los todos ao alcance de um clique é uma ilusão, porque não comparecem mais de 20 pessoas nos meus aniversários. Não passa de uma maneira de impedir que certas épocas passem definitivamente e que a vida faça sua seleção natural.

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