Você se tornou o adulto que queria?

Estava lendo uma coluna da Martha Medeiros, que tratava de algum outro tema qualquer, quando essa pergunta me veio à mente. É comum que eu me desprenda da leitura de um texto para um devaneio introspectivo, enquanto meus olhos continuam percorrendo as letras e as palavras, frase a frase, sem que eu assimile nada. Sou capaz de ler uma reportagem inteira sobre demissões em massa de operários pensando em um assunto completamente diferente – como, sei lá, “o que vou responder caso ele venha falar comigo?”. Obviamente, chego ao fim da matéria sem saber do que ela se trata, e tenho que voltar para o início, forçando a concentração. Isso é normal? Sempre que me acontece, fico com medo de estar desenvolvendo um analfabetismo funcional, o que é duro de admitir, mas eu admito, porque é assim que a gente consegue ajuda. Mas, nesta leitura específica, isso me valeu. Não lembro sobre o que era a coluna da Martha (desculpa aí!), só me recordo que me despertou essa questão: “você se tornou o adulto que queria?”.

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A sorte vista pelo microscópio

Ela engravidou e foi morar com o pai da criança, rejeitada pelo próprio pai, que não aceitou a “gravidez sem casamento”. Ambos pobres, muito pobres. Ela se mudou para o lote da família dele, em Belford Roxo, dividindo o espaço com a sogra, a cunhada e um monte de gatos vira-lata em um barraco improvisado. Um ambiente quente, claustrofóbico, cheio de mosquitos, com o chão de terra batida e o teto repleto de goteiras. Oito anos se passaram, e a situação se agravou. Em vez de um, agora ela tinha três filhos – tidos antes da ligação das trompas. Ela e o marido desempregados, vivendo com R$ 182 do Bolsa Família.

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Um dia é tempo suficiente para eu saber se vou te amar ou não

“Se você gosta dele, e ele gosta de você, por que não ficam juntos?”. Criança costuma pensar assim, com sabedoria e simplicidade. Eu, até bem pouco tempo, também era adepto desse raciocínio tão lógico quanto inocente. Mas parece que, quando você começa a envelhecer, se torna inevitável dificultar a matemática. Não sei quando ocorreu essa transição, mas ela ocorreu. 1+1 passa a não dar 2 necessariamente, porque você descobre outras nuances e variáveis nessa que, de uma soma básica, se torna uma equação complexa. É quando você passa a jogar – contra aquele com quem você deseja fazer par no futuro. Note bem: joga-se contra, e não com.

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2014 foi um ano difícil

2014 foi um ano difícil. Geralmente, quem diz isso é porque perdeu algum familiar próximo e passou o primeiro Natal de luto. Não é meu caso. Ainda bem. Compadeço-me de quem teve essa experiência. Seu ano foi difícil mesmo. Sinto até um pouco de culpa por dar continuidade a esse texto, mas cada um carrega a sua cruz. O meu ano não foi difícil dessa maneira óbvia. Foi difícil do tipo “um ano inteiro na terapia tentando aceitar o quanto a vida estava em oposição ao que deveria ser”. É péssimo – e péssimo significa mais que difícil – quando tudo o que te resta é tentar lidar melhor com algo insatisfatório, em vez de reverter a situação. Ao menos, acho que cheguei a dezembro melhor do que estava em janeiro. Sofro e me desespero menos hoje do que ontem. Mas ainda não me resigno, e me questiono se essa suposta evolução é de fato boa.

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A experiência de Jardim Gramacho

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Quando saí do carro, não vou mentir, não vi nada. Só senti, e foi calor. Houve o choque término entre o ar condicionado do automóvel e o ar abafado da comunidade de Jardim Gramacho. Em seguida, olhei ao redor. Ainda não sei se enxerguei. Senti certa confusão. Apesar de ter muita gente (à nossa espera), o cenário parecia abandonado, devastado, esquecido. Notei que o chão era de terra batida e pensei “antes sol do que chuva”, já com o suor escorrendo instantaneamente. Por fim, enxerguei as pessoas. Era muita gente – adultos, ainda. Alguns já estressados pela fila, pela demora, pelo calor, pela desordem. Vi as crianças, então, andando descalças, alheias a qualquer questão de higiene. Uma menina com aparência de sete anos atravessando a rua com o irmão menor pela mão. Questionei-me sobre os pais deles e pude perceber que a cena se repetia: crianças descalças, indefesas, expostas. A metros dali, havia bocas de fumo – eu não sabia disso naquele momento, mas já achava a situação perigosa. Rapidamente entendi: era outra realidade. Não a minha.

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