Quando eu tinha 9 anos e me perdi da minha mãe no Réveillon de Copacabana

Adoro Réveillon. Ai, como eu adoro Réveillon! Todo mundo em comunhão, com pensamento positivo, aquela multidão vestida de branco, bebendo espumante barato, distribuindo sorrisos felizes com a chance de recomeçar do zero (poderiam ter uma perspectiva diferente e pensar “mais um ano perdido e nada aconteceu”, mas os depressivos ficam em casa e a positividade impera). Sempre preferi o Réveillon ao Natal. Não que você tenha que comparar as duas festas, absolutamente. Mas eu prefiro. Os Natais tendem a ser repetições de si mesmos, enquanto o Réveillon é sempre diferente. Você se cerca de pessoas diferentes, em lugares diferentes, pede ao universo coisas diferentes, reza por inquietações diferentes, joga flor pra Iemanjá por desejos diferentes… e, o melhor de tudo, não tem ninguém para te lembrar “do verdadeiro significado da data”. O verdadeiro significado do Ano Novo é ser o Ano Novo mesmo. Fim de papo.

Tenho vários Réveillons inesquecíveis, como aquele em que me perdi da minha mãe em plena Praia de Copacabana logo após a queima de fogos. Sei que esse trauma, de alguma maneira, vai me acompanhar a vida inteira. Vem chegando o dia 31 de dezembro e eu SEMPRE me lembro desse episódio. Mesmo se eu tiver Alzheimer mais velho, vou lembrar disso. Certeza. Acho até esquisito eu nunca ter contado essa história aqui (procurei no arquivo e não achei). Eu tinha nove anos, e não era a primeira vez que íamos virar o ano na praia. Minha mãe, que era uma jovem de 30 anos, gostava de ver os fogos e carregava a família junto. No ano anterior, não tínhamos ido, porque era muito difícil voltar para casa e minha avó ficava estressada. Lembro que, no ano anterior, minha mãe havia ido sozinha com as amigas e se atrasado no engarrafamento: virou a noite dentro do ônibus ou quase isso. Mas, naquele ano, minha avó havia sido convencida. Minha mãe estava de namorado novo, um cara que todos nós adorávamos, então seria mesmo muito legal. Fomos, os quatro, e mais dois milhões de pessoas, mais ou menos.

Tudo ocorreu bem ao longo da noite, mas depois dos fogos… Gente, tudo era muito diferente de hoje em dia. É preciso explicar. Não havia esse esquema especial de metrô, que é ótimo. O metrô era uma loucura, superlotado, todo mundo indo embora junto, filas enormes para pagar, gente sem paciência pulando roleta, policial dando cacetada. São as lembranças que eu tenho. Era um tumulto inexplicável. E os ônibus… Sério. Super ultra mega power lotados, com pessoas penduradas pelas janelas e surfando no teto. E isso não é brincadeira. Era assim mesmo. Tudo parado, porque era muito carro e ônibus na rua. Não tinha qualquer administração. Era cada um por si. As duas milhões de pessoas que iam para praia sabiam disso, então todo mundo tentava ir embora assim que acabava a queima de fogos, porque sabia que passaria uma ou duas horas TENTANDO. Mesmo que entrasse de cara em um ônibus, ficaria ali umas duas horas engarrafado na Zona Sul. Era caótico. Voltar para casa era uma missão. Então, naquela noite, quando os fogos acabaram, o que a gente fez? Correu para ir embora. Estava chovendo, o que era um incentivo a mais.

Demos as mãos. Eu estava com uma mão dada à minha avó, e outra mão dada à minha mãe. Minha avó, que tinha uns 60 anos mas era sagaz, ia na frente puxando o bonde. Como ela é magrinha e baixinha, conseguia ir se enfiando na muvuca e abrindo espaço para nós atrás. Só que teve um problema… De repente, passou uma outra fileira de pessoas, que cortou minha mão dada com minha mãe. Eu gritei para minha avó esperar, mas ela não ouviu e seguiu me puxando. Quando consegui fazê-la parar, cadê minha mãe? Não víamos mais. Era dado início à saga – e ao trauma. Obviamente, a chuva que caía virou um temporal, porque a vida é assim: trolla. Eu torcia minha blusa no corpo com frequência, para tirar um pouco do peso. Eu e minha avó fomos a uns policiais perguntar sobre minha mãe, ingenuamente, e eles obviamente não sabiam de nada. Como eu estava com minha avó, não era considerado um menor perdido, então ninguém dava muita atenção. Minha mãe conta que ela foi ao posto de crianças perdidas e fez todo um cadastro de mim lá. Mas de nada adiantou, se ninguém me ouvia. Rodamos Copacabana inteira procurando minha mãe. E ela idem. Então, inevitavelmente, com ninguém parado, ia cada um para um lado sem nunca se encontrar.

As horas passaram e minha avó decidiu que tínhamos que ir embora. Eu não queria. Na minha cabeça de criança, se não encontrasse minha mãe ali, não encontraria nunca mais. Ir embora era aceitar a perda. Estava desesperado. Mas minha avó me explicou que minha mãe sabia o caminho de volta e que seria mais fácil nos encontrarmos em casa do que naquela multidão. Aí você pergunta: por que não se telefonaram? Dã. Eu realmente tinha um celular, mas as linhas ficavam todas fora do ar no Ano Novo. Ninguém conseguia se comunicar na virada. O Brasil não era o Brasil que é hoje, minha gente. Fiquei tentando muito no meu tijolão Gradiente, mas não consegui. Fomos, então, tentar pegar o metrô. Mas a verdade é: nem eu nem minha avó sabíamos onde era. É engraçado, porque hoje em dia eu domino a área e tenho noção de que estávamos praticamente do lado da estação, mas naquela época eu não sabia disso. Nem minha avó. As informações das pessoas não batiam. Procurando o metrô, quase atravessamos aquele túnel que dá para Botafogo. Foi quando falei:

– Vó. Minha mãe tinha mostrado o metrô, e não tinha nada a ver com túnel.

Minha avó falou que a boa era pegar ônibus, porque de ônibus ela entendia e tinha visto vários que serviam. Ônibus: com pessoas penduradas na janela e surfando no teto. Desesperei. “Como vamos entrar nos ônibus, vó?”. Minha avó, que é a pessoa mais sem frescura que existe, realmente tentou nos enfiar em um coletivo mais-que-super-lotado, mas eu a puxei para trás. “Não vou entrar aí”. Não é que eu fosse fresco. É que aquela lei da física sobre dois corpos não ocuparem o mesmo lugar no espaço já estava cansada de ser quebrada, gente. Eram três, quatro, cinco corpos no mesmo lugar no espaço. Não dava para mais dois. Pelo amor de Deus.

Criou-se um conflito entre mim e minha avó. Ela viu que eu ia dificultar as coisas. Propôs, então, que nos deitássemos embaixo de uma marquise (ainda chovia, caso você tenha esquecido), dormíssemos e fôssemos embora de manhã, quando estivesse mais tranquilo. Muita gente estava fazendo isso. Olhei para aqueles corpos estirados no chão, nojentamente, e falei: “não vou dormir na rua!!!”. Que saudade da minha mãe. Se ela estivesse comigo, estaria tudo resolvido, claro. Minha avó propunha essas ideias loucas.

Ela propôs uma terceira opção: andarmos a Barata Ribeiro inteira, contra o fluxo, para pegar os ônibus menos cheios, antes das pessoas se pendurarem nas janelas e surfarem no teto. Topei. Deu certo. Conseguimos pegar um ônibus – em parte porque já eram umas 3h30 da manhã, também. Chegamos em casa por volta das 5h, exausto, porque eu era uma criança, no fim das contas, e só então conseguimos falar com minha mãe. Ela estava ligando para o fixo, porque aí as linhas já tinham voltado a funcionar, aparentemente. Entrei em casa e atendi rapidamente. Era ela. Chorei, por ver que ela estava viva e que eu a veria em breve. Minha mãe ainda se encontrava em Copacabana, porque tinha decidido que não ia embora sem me encontrar antes. Ela temia que eu não estivesse com a minha avó. Tinha essa: ela não sabia se, assim como minha mão tinha soltado dela, a outra não tinha soltado da minha avó. Imagina o desespero dela, como mãe. Devia ser maior que o meu, que sabia que tinha minha avó ao lado. Esse foi o Réveillon de 1998 para 1999. Outro milênio, grandes problemas, minha gente.

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