Saí para um encontro com X e peguei Y na frente de X

Estou lendo o terceiro livro da Bridget Jones, aquele que ela é uma mãe viúva, e me lembrei de uma história para contar aqui. Às vezes, acontecem tantos causos interessantes na vida, mas não posso contar na época, por medo de ofender e expor as pessoas. Depois de um tempo, no entanto, é como se eles se tornassem incapazes de machucar alguém e aí chega a hora de gritar para o mundo ouvir. Esse aconteceu há dois ou três anos, e não tem nada a ver com ser mãe ou perder um marido. É sobre primeiro encontro. A Bridget tem uns dois primeiros encontros neste livro, pelo menos até a parte em que li, e estipula uma série de regras para se sair bem nesse tipo de situação, daquele jeitinho cômico-loser-atrapalhado dela.

Quem gosta de primeiro encontro, afinal? Eu adoraria ser capaz de pular para o segundo de uma vez. Mas, nessa história que vou contar, não houve um segundo. Eu tinha conhecido o menino por algum desses aplicativos de celular. Eu realmente não lembro mais o nome dele, mas vamos supor que fosse Gabriel. Ele era bonito, regulava mais ou menos com minha idade, embora fosse um pouco mais novo, morava perto da minha casa e, se não me engano, era enfermeiro. Trabalhava em um hospital, sem sombra de dúvidas. Parecia uma boa pedida. A gente conversou por webcam e marcou um encontro pessoalmente. Eu tinha um par de cortesias para a The Week, uma boate famosa aqui no Rio, e o convidei para ir comigo. Eu não sou muito chegado em balada, mas tinha que ir dessa vez por algo envolvendo o POPline, site para o qual trabalho. Então, chamei o Gabriel visando tornar a experiência mais divertida.

Como ele mora realmente perto da minha casa, a gente combinou de ir junto, o que significa

( ) que ele ia me buscar de carro

( ) que eu ia buscá-lo de carro

( ) que íamos rachar um táxi

(X) que pegaríamos o mesmo ônibus.

A gente se encontrou no ponto, e ele realmente era tão gato quanto nas fotos e na webcam, o que me deixou feliz. Mas assim que começamos a conversar eu percebi o quanto ele era chato também. Gabriel era arrogante, só contava histórias sobre vinganças que demonstravam como ele se sentia superior a qualquer pessoa, e ainda falava mal do ex-namorado. Obviamente, é inadmissível falar do ex-namorado no primeiro encontro, muito menos na primeira meia hora. E eu, particularmente, julgo quem fala mal do ex para os potenciais futuros. Acho fino fazer a politicagem. Gabriel, então, era o erro. O trajeto do ônibus durava uma meia hora que, para mim, foi a eternidade. Ele era um porre. Um tipo de pessoa horrível mesmo, e eu só pensava no quanto ia ser ruim passar a noite com ele. Mandei várias mensagens para uma amiga minha narrando tudo em tempo real.

O menino é um saco.

Meu Deus! Socorro! Ele se acha DEMAIS.

Cara, que furada.

Vou pegar uma vez pra nunca mais.

Foi isso: decidi pegar e sumir. Ali no ônibus mesmo, pensei: “ok, vou ter que ir com ele, visto que não tenho como fugir desse ônibus, mas pego e sumo”. Como morávamos perto, voltar junto estava implícito, acho até que tínhamos conversado sobre rachar o táxi, mas eu já estava pensando em quando eu daria um perdido, porque sou desses.

Corta para a boate. Chegamos, eu vi o que tinha que ver – era uma espécie de painel, para dar o ok para meu chefe – e fomos dançar. Eu não bebo, e ele também não bebeu, o que eu achei quase legal. Querendo terminar logo com aquilo tudo, me aproximei para beijá-lo e ele não deixou. Disse para irmos com calma, que ainda estava cedo. Fiquei mais puto ainda, porque naquela altura da noite, eu já estava achando um favor pegá-lo antes de sumir. Fiz uma cara feia e continuamos dançando. Foi quando ele me disse assim: “você não vai acreditar, mas meu ex-namorado está bem ali”. O ex. De novo. Olhei para onde ele estava indicando, e me lembrei que estava sem óculos e naquela época eu ainda não tinha aderido às lentes de contato. Para o primeiro encontro, tinha preferido ir sem enxergar do que ir quatro olhos. Não vi o ex dele, portanto. Até hoje, não sei como era o cara. Mas fui compreensível:

– Você quer ir para a outra pista?

– Eu não.

Notei que ele começou a dançar com mais vontade, visivelmente me usando para mandar qualquer tipo de recado para o ex-namorado. Tentei pegar de novo. Ele me brecou, de novo. “A noite está só começando”. Juro que ele falou isso. Juro que me perguntei se atirei pedra na cruz, porque se a noite estava só começando e estava uma bosta, imagine o fim… Ficamos assim um tempão, eu tentando, ele não deixando, eu não entendendo, e imaginando que tinha a ver com a presença do ex. Estávamos na pista pop e eu tinha me oferecido várias vezes para irmos para a eletrônica do tuntz tuntz tuntz que detesto. Ele não quis. As horas passavam e nada acontecia. Eu já havia desistido. Não tentaria mais. Quando ele quisesse, que tentasse. Eu já não tinha mais certeza se corresponderia, também.

Em determinado momento da noite, ele foi ao bar comprar água. Ele já tinha ido antes, e eu também, não era nada demais. Continuei no meu lugar, encostado na parede, dançandinho, pensando “será que fujo?”. É verdade. Vi ali uma deixa. Mandei mensagem para outro amigo, perguntando o que fazer, mas não obtive resposta. Estava sozinho. Era minha vida, minhas escolhas, minhas consequências. Enquanto eu divagava, um cara que esteve ali o tempo todo começou a roçar em mim, e me trouxe de volta à realidade. Olhei e ele era bem gato. Quero dizer, muito mais gato que o Gabriel. Tinha um corpão saradão, desse tipo que sempre me deixa surpreso de querer algo comigo, a pessoa mais sedentária do mundo. E aquele deus estava me querendo. Olhei para o Gabriel, de costas no bar, uns três metros distante. Olhei para o cara. Ele me beijou. Juro que não foi o contrário. Eu jamais teria feito isso: sair para um primeiro encontro com um, e pegar outro. Que tipo de gente faz isso?

Eu.

Fiquei lá me pegando com o cara e tendo esses pensamentos culposos. Eu tinha medo de abrir os olhos e ver o Gabriel de volta ao meu lado. E foi exatamente o que aconteceu. Climão. O Gabriel estava bem do meu lado, de costas para mim, e eu só podia pensar no quão ele devia estar me achando um cafajeste. Apesar de ele ser um chato, claro.

– Você está sozinho? – o fortão me perguntou.

– Pois é. – eu ri – Na verdade, não. Estou com ele. Vamos para a outra pista?

Fugi com o cara para a outra pista, do tuntz tuntz tuntz. Nos pegamos mais um pouco, mas eu não conseguia parar de pensar no que estava fazendo. Aquilo não era legal. Gabriel devia estar puto. Repito: ele era um chato, mas eu… eu me sentia a pior pessoa do mundo. Não é porque ele era chato que eu tinha o direito de ser escroto, entende? Despedi-me do fortão e me vi sozinho naquela boate. Subi para o camarote, me joguei no sofá e comecei a incomodar todos meus amigos em busca de conselhos via celular. Eu não percebia, mas o meu sinal estava uma bosta e as mensagens nem estavam indo para ninguém. Sozinho na pista, decidi pedir desculpas ao Gabriel. Ali de cima, eu olhava para baixo, e não o via. Não sabia onde ele estava, nem se estava lá ainda. E, depois de eu ter ficado com outra pessoa na frente dele, a ideia de ir embora sozinho e deixá-lo para trás me parecia muito feia. Eu tinha que me explicar, e foi o que fiz. Mandei um textão. Mas ele não respondeu. Desci, então, para dar uma olhada de outro ângulo e, caso não o achasse, voltar para casa. Eu sentia a obrigação moral de acertar as contas com ele, mas, na verdade, torcia para não encontrá-lo, porque seria uma cena desagradável.

De repente, ele apareceu por trás, me abraçando e dizendo “você sumiiiiiu!”, “te procurei por toda parte!”, “me largou sozinho aqui!” e coisas do tipo. Parecia meu melhor amigo, o que me deixou muito confuso. Ele perguntou com quantos eu tinha ficado – não em tom irônico, mas de animação, de curiosidade. Fiquei perplexo, e disseque só tinha ficado com aquele cara, claro, e emendei um pedido de desculpas. Mas Gabriel falou que, depois, aquele cidadão havia voltado para lá e ficado com ele também. “Está tudo bem, acontece, vamos curtir a noite. Você ficou, eu fiquei, está tranquilo. Você notou que ele era broxa?”, ele lançou essa pérola e me abraçou de novo. Eu realmente não estava entendendo nada. Para mim, aquela já era a segunda noite mais estranha da minha vida (a primeira conto outro dia…). Dancei. Dancei, porque era só o que me restava. Gabriel não demonstrou qualquer possibilidade de irmos embora separados, e muito menos juntos tão cedo. Eram umas 3h. Será que o cara realmente havia ficado com ele, dentre tantas outras pessoas naquele local? Até hoje, acho mentira, mas não sei. Só sei que, enquanto eu pensava isso, Gabriel me cutucou, disse “olha aqui”, virou para o lado e beijou um cara (feio) na minha frente. Eu ri. Aquilo fazia muito sentido. Gabriel sempre queria sair por cima – com o ex, com os colegas de trabalho, com todo mundo, como havia me contado no ônibus. A vingança dele, se é que se pode chamar assim, de alguma maneira, me tranquilizou. Ele estava atuando de amiguinho só para me dar o tapa na cara em seguida. Aleluia. Eu podia ir embora sem culpa. Fui.

A história terminaria aqui, se eu não estivesse lidando com um psicopata. Quando acordei no dia seguinte, meu celular estava repleto de ligações perdidas e mensagens do Gabriel. Ele perguntava onde eu estava, dizia que estava me procurando, enfim, narrava passo a passo até sua volta para casa e, depois, emendava um rosário de desculpas. Pensei: louco. Era tão mais fácil fingirmos ambos que nunca tínhamos existido. Mas ele estava disposto a falar comigo. Continuou me ligando o dia inteiro, e eu rejeitando as chamadas. E aí vinham as mensagens. Ele dizia que “havia sentido algo especial” e que “nós poderíamos dar certo”. Pedia uma segunda chance. Falava que ambos havíamos errado. Perguntava meu endereço para ir conversar comigo. Foram 24 horas em cima de mim até que entendi que ele não pararia (que mel é esse que eu tenho, se nem cheguei a beijá-lo?). Bloqueei-o em todos aplicativos e redes sociais e atendi sua ligação somente para mandar parar de me ligar. Ele repetiu tudo que já havia dito o dia inteiro, e eu expliquei que, para mim, ele não errou, apenas me livrou da sensação de culpa. Foi pio, porque ele realmente queria me convencer a termos um segundo encontro, o que nitidamente consistia na maior doideira da história das doideiras. Falei que não. Ele insistiu. Perdi as estribeiras.

– Gabriel, eu te achei um chato. Desde o ponto de ônibus. Mesmo que tudo tivesse corrido bem na boate, não haveria segundo encontro. Eu já estava disposto a nunca mais te ver. Especialmente, te ouvir. Não suporto pessoas arrogantes como você. Por favor, me deixe em paz.

Tá. Não foi bem assim. Foi algo como: GABRIEL, VOCÊ É CHATO PRA CARAMBA! PELO AMOR DE DEUS, ME ERRA. SAI DE MIM! NÃO TE AGUENTO MAIS. CHATO, CHATO, CHATO! TÁ ENTENDENDO? TE ACHO CHATO PRA BURRO! NÃO QUERO TE VER MAIS, PORQUE VOCÊ É C-H-A-T-O!

Ele parou de me ligar. Consegui me livrar.

Dois meses depois, ele me deu um “oi” em um desses aplicativos. Tinha criado uma conta nova e conseguido me ver online. Não respondi, claro. Mas ele disse que já tinha passado “tanto tempo” que podíamos começar de novo, porque eu realmente era um cara legal. Eu ri olhando para o celular. Eu sou um cara legal mesmo, mas ele é uma pessoa nessa cidade que deveria achar o contrário. Como diz um trecho do livro da Bridget Jones: todo mundo se conhece online hoje em dia, e descobrir que o cara é louco é o maior clichê.

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2 respostas para Saí para um encontro com X e peguei Y na frente de X

  1. Liliane

    Acho que ele falou que o fortão pegou ele, só pra dizer que vc nem era tao foda assim por pegar um gatão sarado, fato!

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