“Estou sem amigos!”

Abri o ano com uma discussão introspectiva muito importante sobre os papeis sociais que somos obrigados a interpretar desde que nascemos. Corresponder ao que esperam da gente, exercer atividades a contragosto por consideração, e cuidar da manutenção de relações frágeis por hábito. Meses e muitas sessões de análise depois, não tenho respostas muito definidas, mas estou me desgastando menos pelo que menos me interessa no momento. Estamos em agosto e a proximidade do meu aniversário me faz pensar, pensar, pensar… ainda mais, sobretudo nesse aspecto. Em algum momento, terei uma lista de convidados a fazer, à espera de uma lista de confirmados, cada vez mais incerta e nebulosa para mim. Quem é importante? Quem é recíproco? Quem desconsidero e me dá valor? Quem é só volume?

Pergunto-me frequentemente se estou no caminho certo. Outro dia, declarei à minha psicóloga: “estou sem amigos”. Era uma declaração forte e mentirosa, mas representativa do que eu sentia naquele momento. Também não pude deixar de notar a ironia da situação – eu me sentia solitário justamente no ano em que conscientemente me afastei de pessoas com as quais não me sentia mais conectado. De amigos, de amigas. Transformei-os em colegas, sem rupturas, sem alarde, talvez sem que eles percebessem, porque poderia querer acioná-los em qualquer momento. Os meses passaram, e eu não quis. Uma esquivada de um convite aqui, uma mensagem sem resposta no Facebook ali, e vida que segue.

2014 tem sido um ano muito meu, de investimento em mim mesmo, de muito trabalho, de muitas atividades e compromissos. Por isso, seleciono cada vez mais – gostaria de dizer, “cada vez melhor”, mas não tenho essa certeza – como e com quem gasto meu tempo. A quem o dedico. Aproximei-me mais de umas pessoas do que outras, por afinidades momentâneas e conexões que fazem mais sentido no contexto atual. Na realidade, é muito ruim fazer parte dessa geração de redes sociais virtuais, porque não temos o direito a perder o contato. Relações que teriam se perdido pelas circunstâncias naturais da vida ficam ali, arrastadas, enferrujadas, maquiadas, mas ali. E eu acho que, às vezes, é preciso perder para encontrar, se encontrar, reencontrar. “Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais”.

Temo ser intolerante demais, inflexível demais, radical demais. Mas estou em uma fase em que realmente não estou disposto a gastar energia com o que me parece cênico. À mesa do jantar ou à mesa do bar, é possível divertir-se e sentir-se em casa, da mesma maneira que há espaço para desconforto e animosidade. Não quero estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, doido para me livrar daquela situação. Não tenho tempo para gastar com isso. Para quê? Para quê? Francamente.

É claro que, da mesma maneira, me conecto com pessoas com as quais acho que não devia, mas elas me entretêm. Amigos que conheço bem os defeitos, que os desaprovo, que os desprezo até, mas dos quais não consigo me afastar. “Já aceitei. Fulano e Sicrana não vão sair da minha vida. Não tem jeito”, eu disse, há alguns meses, para minha psicóloga, que pareceu não gostar do que ouviu. Há relações que fogem ao meu controle, e não me enfadam, então vão ficando. Eu me preocupo, sim, com a qualidade dos relacionamentos que estou levando para o futuro, que não será nada mais do que uma consequência das decisões presentes. Mas minha questão é muito mais interna do que externa. Como posso explicar?

A peneira da minha vida tem refletido menos o que as pessoas são, ou o quanto são merecedoras e admiráveis, e mais como eu me sinto com elas. Há errantes com os quais me sinto bem, e fazer o quê? Há amigos com os quais não vejo mais conexão, sintonia, afinidade; e com os quais a suposta intimidade ultimamente me agride. “Como eu me sinto quando…” estou com Sicrano. É tudo sobre isso. Não é sobre quem Sicrano é. Assim, me entendo melhor, me culpo menos, me aceito mais. “Não é você, sou eu”. Hoje, compreendo o clichê social para rompimentos.

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Uma resposta para “Estou sem amigos!”

  1. […] os álbuns de fotos, entendi isso. Tenho fotos com amigos com quem perdi totalmente o contato (o que contraria meu post anterior), e alguns que me custaram até lembrar o nome. Mas todos me proporcionaram alguma experiência […]

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