Resenha: remake de “Chiquititas” – primeiro capítulo

– Ué. Você vendo SBT? – perguntou minha mãe.
– “Chiquititas”! – respondi, sem conseguir segurar o sorriso feliz.
Ela me olhou perplexa, e nós sabíamos que era um deja vú.
– Você não acha que tá grande demais para isso?
– Acho.

Começava o primeiro capítulo do remake de “Chiquititas”, novela argentina que já ganhou uma versão brasileira nos anos 1990 e agora é reescrita por Íris Abravanel (do remake de “Carrossel”). A trama, idealizada por Cris Morena (de “Floribella”, “Rebelde”, “Quase Anjos”), provavelmente todo mundo já conhece – aquela dos órfãos que driblam a tristeza de sua condição com música, sonhos e muita magia, protegidos pela Tia Carolina. O papel, que marcou a carreira da Flávia Monteiro, ficou para Manoela do Monte (de “Malhação”) dessa vez.

Por que eu, um cara de 23 anos, dou tanta atenção para uma novela infantil, você deve estar se perguntando. Vou tentar te explicar, mas não sei consigo. Bem, eu era uma criança quando a primeira versão brasileira estreou em 1997, e virei um fã fiel. “Chiquititas” foi um fenômeno sem precedentes, alavancando a audiência do SBT a números que assustavam a TV Globo, e conquistou as crianças de todo o país. Todo mundo queria ser chiquitito. E todo mundo podia ser! Esse era o grande barato. Nós amávamos a Xuxa, também, mas nunca poderíamos ser ela. Havia essa relação de fã-ídolo estabelecida. Com as chiquititas, não. Elas eram crianças como a gente e, a cada ano, o elenco era renovado – o que dava a falsa ilusão de que qualquer um poderia estar ali algum dia, brincando, cantando, dançando, atuando. Estabeleceu-se, assim, um laço que não era de idolatria, mas de identificação. Já contei aqui a história de quando pedi para que minha mãe me deixasse morar em um orfanato, como as da novela. “Chiquititas” é isso: ilusão. Mas, claro, muita gente viu e só tem isso como uma lembrança da infância. Comigo, é mais do que isso. “Chiquititas” – não a novela, mas todo o universo que ela proporcionava – fez parte da formação do meu caráter, e faz parte de mim até hoje. As letras das músicas ainda conduzem meus atos, na vida adulta, e me mantêm de pé, sonhando e acreditando no ser humano.

As Chiquititas dos anos 1990

As Chiquititas dos anos 1990

Por isso, tive muito medo quando soube que iriam regravar a novela. A primeira versão, a que eu vi, foi acompanhada de perto pela Cris Morena, já que as gravações ocorriam em Buenos Aires. Nessa nova, isso não acontece, o que torna tudo muito perigoso. “Vão estragar tudo! Não vai ficar bom! Ai, meu Deus! Destruirão uma recordação perfeita!”. Essa foi minha primeira reação, como muitos fãs. E isso é bom! Mostra que a gente se preocupa com a imagem de algo já tão antigo, mas não desgastado, e ainda recente no nosso coração. É puro carinho, por mais que seja bobo. O pé atrás, no entanto, nunca me fez duvidar de que iria assistir ao primeiro capítulo para dar meus pitacos. E, conforme as notícias e as primeiras prévias surgiam, comecei a acompanhar o projeto. Apesar de resistente, a ideia das crianças da nova geração poderem consumir “Chiquititas” passou a me agradar. O mundo precisa dos conceitos que essa novela passa. Para melhorar a humanidade, o segredo é apostar nas crianças, e eu acredito na mensagem que a trama prega. Pode parecer ingênuo, mas acho que as pessoas evoluem se abraçam o que prega Cris Morena.

Assim, lá estava eu na frente da TV na segunda-feira (15/7). A sensação era mesmo de deja vú. Apesar de várias mudanças – de personagens, de cenários, de estética – a essência ainda estava lá, e era isso que eu temia que se perdesse. Se antes eu tinha ciúme por acreditar que as crianças novas não dariam conta do recado, agora eu as acho umas fofas. Os destaques, para mim, são Pata (Julia Oliver), Bia (Raissa Chaddad), Vivi (Lívia Inhudes) e Tati (Gabriella Saraivah) – muito competentes em sua infantilidade. Dão um banho no elenco adulto, que não me agradou muito. Manuela do Monte está rígida, mecânica, sem nenhuma naturalidade, que dirá carisma. As cenas sem as crianças, pelo menos neste primeiro capítulo, foram todas bem ruins. A exceção é Carla Fioroni, que vive a zeladora Ernestina, e conseguiu acertar o tom do personagem.

As Chiquititas de 2013

As Chiquititas de 2013

Fora isso, a novela é, de um modo geral, excessivamente colorida. Sei que os tempos são outros, mas ainda se trata de um orfanato (que mais parece uma mansão). Todos os cenários parecem quartos de princesa ou parques de diversões. A estética é visualmente incômoda e inverossímil – algo que a própria Cris Morena explorou em suas “Chiquititas” de 2006, também extremamente coloridas. Até os uniformes parecem fantasias e são berrantes. Acredito mesmo que a direção de arte errou a mão e não entendeu a proposta. É infantil, mas não é desenho animado.

Por outro lado, acertaram nas músicas. “Até Dez” sofreu poucas modificações, inclusive na coreografia, o que estabeleceu um vínculo afetivo com quem assistiu à outra versão. Só houve uma falha na dublagem do clipe, que estava fora de sincronia. Tem que consertar isso aí. A nova coreografia de “Remexe” é meio atrapalhada, mas a canção em si também manteve a força. E a inédita “Todo Mundo Chique” – que abriu a novela – tampouco é má. Acho que as crianças vão gostar.

De qualquer forma, com erros e acertos, repito: a essência está lá. É isso que mais importa em “Chiquititas”: os valores, o lúdico, a crença em um dia seguinte melhor. Em vez de comparar as versões, o melhor é assistir a essa como uma nova temporada, como um tributo. Ter nascido a tempo de assistir à primeira versão brasileira foi uma sorte, de verdade. Para quem nasceu uma década depois, é a vez de vocês. Meninos e meninas, não percam. Não acredito que tenha alguma criança lendo esse texto, então, pais, coloquem seus filhos para ver a novela. Isso é o melhor que a TV pode fazer pelos seus filhos.

10 respostas para Resenha: remake de “Chiquititas” – primeiro capítulo

  1. Aline

    Adorei a resenha!
    Também fiquei apreensiva com esta nova versão, achando que iriam estragar tudo…
    Concordo com tudo plenamente, principalmente com esta parte:

    “Chiquititas – não a novela, mas todo o universo que ela proporcionava – fez parte da formação do meu caráter, e faz parte de mim até hoje. As letras das músicas ainda conduzem meus atos, na vida adulta, e me mantêm de pé, sonhando e acreditando no ser humano.”

  2. Denner

    Nossa.. eu li isso, parecia que era eu falando!! Eu tb tive o privilégio de acompanhar a primeira versão de Chiquititas, tinha 5 anos quando começou a 1º temporada mas me lembro de tudo!! Hoje voltei a ser criança, voltei 16 anos atrás quando parava tudo que tava fazendo e ia correndo ligar a televisão e acompanhar essa história.. quando começou o clipe de “Até dez” então, eu cantei a musica todinha, parecia criança de novo realmente kkkkkkkkk.. muito bom saber que as crianças dessa geração vão poder acompanhar essa história!! Essa nova Chiquititas com certeza vai marcar assim como a primeira versão!! =D

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s