Resenha: Anitta – Chá da Anitta – Fundição Progresso

As cortinas se abrem e expõem o cenário de uma floresta encantada. Da parte superior da boca de cena, a personagem Alice cai no palco. Ainda suspensa, Anitta aparece em uma gaiola, vestida como a Rainha de Copas, e começa a cantar “Show das Poderosas”. É o início do “Chá da Alice” (que ganhou uma edição especial chamada “Chá da Anitta”) – festa temática que lotou a Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, no fim da noite de sábado (22/6).

Fui parar lá a trabalho, com a missão de entrevistar a cantora, que tem sido associada às palavras “fenômeno”, “inovação” e “funk melody”. Ela, certamente, não faz minha cabeça e não é o tipo de música que eu ouço ou aprecio. Mas respeito todo e qualquer tipo de trabalho e, assim, lá estava eu – até um pouco curioso. Será que ela era mesmo isso tudo que diziam?

1009906_493584050713839_1353921660_n

Bem, Anitta é, de fato, um fenômeno: ingressos esgotados, casa abarrotada de gente, filas enormes, fãs com as músicas na ponta da língua. Não há dúvidas de que ela conquistou rapidamente um patamar invejável. De uma artista de nicho, ela vem se tornando cada vez mais mainstream, e isso se reflete também na sua produção. A estrutura do show não parece de iniciante. Os cenários são ousados e bem acabados; e, além da banda, há 25 dançarinos no palco. Número, aliás, exagerado. Às vezes, ela desaparece no meio de tanta gente.

Só que, pelo menos nesse show a que assisti, Anitta não trouxe nenhuma inovação, pelo contrário. O show-espetáculo existe na indústria brasileira há décadas. Sandy & Junior, por exemplo, ficaram conhecidos por esse formato, e a dupla não existe mais há seis anos. Musicalmente, Anitta também não traz novidades. Ela não é a primeira a propor um funk “família” – sem palavrões, temáticas explicitamente sexuais ou apologia ao tráfico de drogas. MC Koringa, Mc Bola, Mc Leozinho, entre outros, fazem o mesmo – com o potencial vocal nivelado por baixo, da mesma maneira. E Kelly Key? Lembra dela? Tenho a impressão de que Anitta faz e conquista o que Kelly fez e conquistou na década passada. Os produtores do seu álbum, aliás, são os mesmos do primeiro CD da então esposa do Latino. Inovação, então, deveria dar lugar para apropriação. Anitta é a Kelly Key contemporânea.

Isso é o chamado funk melody – ou pop funk, como define o verbete da Wikipedia: “estilo musical que faz grande uso de samplers e baterias eletrônicas”. Só que aí eu tenho que concordar com Anitta, que rejeita esse rótulo, porque o considera restritivo. No show, ela canta funk, pop, axé, rock. Kelly Key está entre os covers, mas Mariah Carey, Claudia Leitte e Los Hermanos também. Parece até que falta um norte para ela. Além disso, o número de covers é exagerado. Ela está prestes a lançar um álbum e se desculpa com o público quando canta “músicas novas”. Complicado. Optar por versões em vez do trabalho autoral pode ser ótimo para animar blocos – como Preta Gil – mas não para consolidar uma carreira e um nome.

De qualquer forma, erros são comuns no início da carreira. Na entrevista que fiz com ela, a própria admitiu que a convenceram a dar um passo para trás em suas ambições para o primeiro CD. “Eu queria chocar”, Anitta disse. Mas, em vez disso, ela só vai se apresentar ao país – o que é uma boa decisão. Ela está só começando e, se bem aconselhada, pode, sim, trazer algo inovador. Faltam bons mentores. Disposição para trabalhar a menina tem.

Alguns vídeos que fiz:

Uma resposta para Resenha: Anitta – Chá da Anitta – Fundição Progresso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s