No meio de tanta gente, foi você que eu vi

Eu te vi na praia. Ou era uma festa? Um show? Não sei, só sei que te vi, de novo, depois de tanto tempo. Tive aquela reação física que sempre tenho ao te olhar – uma mistura de angústia, adrenalina e medo. Uma sensação ruim, mas que eu gostava. Você estava no meio da multidão, a uma distância segura de mim. Eu poderia não ter te olhado, mas a vida é assim, cheia de situações inexplicáveis e, no meio de tanta gente, foi você que eu vi.

De repente, você me avistou, parou o que quer que estivesse fazendo, e me encarou. Naquele momento, eu soube: estava sonhando. Consciente do meu estado, classifiquei a cena como um pesadelo, mas evitei acordar. Foquei-me na experiência e fingi que não te vi, mas você veio, driblando as pessoas, até mim. Desde que descobri estar sonhando, sabia que passaríamos por isso.

Com sua falsa timidez, que me enganou por tanto tempo, você me cumprimentou. Em respota, dei minha melhor cara de desdém. “Oi”, “oi”. Você olhou para baixo, para os lados, colocou as mãos nos bolsos. Que jeitinho! Como se fosse frágil, inofensivo, indefeso! Você não me engana mais. Virei-me de costas, dando o encontro casual por encerrado. Enjoado da sua figura.

Pensei em abrir os olhos e dar um fim à cena constrangedora. “Ainda bem que é só sonho”, pensei, dentro do próprio sonho. Às vezes, acontece: sei que estou sonhando. O porquê de ser com você já não sei. Nada a ver meu inconsciente ainda se lembrar da sua pessoa. Sinto raiva de mim por te incluir no meu processo criativo dormente.

Você, como sempre, fica na minha cola. Diz que vai me pagar o que me deve. “Ah, você se lembra”, digo. “Ah, eu me lembro”, penso, em seguida, incomodado com meu inconsciente. Você se lembrar, neste caso, significa que eu me lembro. Sou eu quem crio suas falas, de certa maneira. Eu poderia te fazer pedir desculpas honestas, já que estou no comando. Mas não preciso passar por isso. Não dessa forma.

Abro os olhos e te extermino. Bom dia, dia. Adeus, você.

Anúncios

3 respostas para No meio de tanta gente, foi você que eu vi

  1. Ótimo texto.

    Acabei de me lembrar que preciso tomar vergonha na cara e comprar Condenáveis.

    RESPOSTA DO LÉO – Hahaha Compra, compra!

  2. Achei muito interessante o texto 🙂 EU pensei que ia ser o cara do cinema! hehehehe ….

    RESPOSTA DO LÉO – Outro, porque eu sou desses.

  3. Olá, Leonardo.
    Tu tens um jeito interessante de inverter os pontos de vista nas tuas narrativas. Não sei explicar bem,mas gosto disso. Tu pensas, tu-narrador deixa isso bem claro e leva a gente junto nessa a bordagem. Ou não?
    Percebi isso lendo “Condenáveis”, aliás a leitura está boa demais, mas falo sobre isso em outro momento.
    Abraços,
    Cármen Machado.

    RESPOSTA DO LÉO – Obrigado, Cármen. Que bom que está gostando do livro! Fico feliz com os elogios. Quando terminar de ler, me conta 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s