O stalker e a mãe da vítima

Falta uma hora para que a peça comece, mas a sessão já está esgotada e continuam chegando pessoas na bilheteria. O teatro é pequeno, é verdade, mas a sensação é de ter conseguido um ingresso disputado.

– Você é a mãe da Aline? – ouço uma produtora perguntar.
– Sou. – responde a senhora sentada do meu lado.
– Vou pegar o ingresso para você.
– Já peguei!
– Ah, então tá. – disse a mulher, voltando para dentro da sala.

Estou lendo meu livro e, embora ouça a conversa alheia, não dou atenção. Mas um cara, de aparentemente 30 anos, se aproxima.

– Mãe da Aline?
– Sim.
– Sou muito fã da sua filha.

Só então entendo que a Aline é a Alinne Moraes, protagonista do espetáculo. Dou uma olhada de rabo de olho para ver se a mãe é tão bonita quanto a filha. É sim. É de família. Sempre é. Que raiva.

– Comprei ingresso para todas as apresentações da temporada. – revela o homem.
– Nossa! Isso que é gostar.
– Você já viu quantas vezes?
– Verei hoje pela primeira vez. – diz a mãe da atriz.
– Vai gostar. Mas tem que ver como humor, senão não gosta. E no final você não vai nem reconhecer sua filha. Ela fica muito feia! – seria um spoiler, se ele não estivesse resumindo a sinopse de “Doroteia”, de Nelson Rodrigues.

A mãe responde com uma risadinha sem graça, começando a ficar desconfortável. Eu também adoro a Alinne, desde seu primeiro trabalho na TV, “Coração de Estudante”. Por um momento, pensei em dizer isso à mãe, mas desisto, porque imagino que deva ser chato ouvir isso o tempo todo. Elogios cansam, principalmente quando não são para você.

– Já disse que comprei para todos os dias?
– Disse. Gostou mesmo, né?
– Venho só para ver a Alinne, né. – ele dá uma risadinha assustadora – Quem sabe algum dia ela se casa comigo?

Alerta stalker. Alerta psicopata. Alerta obsessão.

A mãe, mais uma vez, dá uma risadinha sem vontade, meio assustada.

– Não sei, não sei. Quem sabe.
– Tá gostando do Rio?
– Um pouco.
– Se quiser ir à praia, podemos marcar. – ele quer chegar à filha através da mãe.
– Amanhã volto pra São Paulo.
– A peça vai pra lá no fim do mês.
– Não é agosto?
– Estreia no fim de julho.
– Ah, sabia que a temporada era em agosto.
– É, fim de julho e agosto. – ele sabe mais do que a mãe.
– É…
– Não sei se vou assistir lá também, depois de ter visto todas as sessões daqui.
– É, né?

Na meia hora seguinte, o fã se calou. A mãe, também. Mas ele não saiu do lado dela um segundo sequer, de pé o tempo todo, pensando na próxima abordagem. Quem sabe pedir a mão da filha.

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