Born this way: fazendo o maluco e pagando mico

A professora de Semiótica do Jornalismo Cultural nas Artes Cênicas, que decidiu arbitrariamente só dar aulas sobre dança contemporânea, pediu para que cada aluno da turma escrevesse um ensaio sobre um espetáculo de dança diferente. Mas não existem 17 – somos 17 estudantes – peças de dança no Rio de Janeiro. Não que a gente saiba. Problemas.

Uma amiga já tinha decidido assistir a um espetáculo no Teatro Cassilda Becker e, como era uma sessão dupla, me chamou para acompanhá-la. Eu escreveria sobre uma peça, ela sobre a outra. Era o último dia em cartaz. Sessão às 20h. Tomei banho, comi e corri.

Cheguei cedo demais: 18h30. Já tinham algumas pessoas por ali, ocupando todos os assentos disponíveis na sala de espera. Muitos em pé, como eu, que comprei logo meu ingresso, para adiantar o processo. Ainda bem que eu tinha o jornal do dia, ainda não lido, para passar o tempo, porque minha amiga demoraria para chegar.

Quando o relógio marcou 19h, a porta do teatro abriu e todo mundo que estava ali entrou. E eu achando que eles iriam à mesma sessão que eu. Realmente, cheguei cedo demais. Pelo menos, vagaram os lugares. Joguei-me no sofá, contente, e continuei lendo as notícias. O segurança me perguntou:

– Você não vai assistir não?
– Eu não. – “sou da outra sessão”, pensei.

Minha amiga chegou minutos depois, quando simultaneamente a atendente fechou a bilheteria. Cumprimentamo-nos.

– Nossa, que silêncio!
– É que todo mundo entrou agora. A bilheteria fechou, dá uma batidinha ali, não estou entendendo nada. – se a atendente fosse ao banheiro ou algo assim não precisava fechar, né?

De qualquer forma, ainda tínhamos tempo. 19h10. Mas o quiosque de guloseimas também fechou e a vendedora pegou a bolsa para ir embora. Tudo muito estranho. Mesmo assim, ainda tinham mais cinco pessoas ali sentadas, que concluí que iriam assistir à sessão das 20h. A porta da sala já havia sido fechada a sete chaves. Todo mundo olhava para gente com cara de curiosidade.

– Tô sentindo uma vibe estranha…
– Tá, não tá?

Neste momento, uma mulher, sentada em uma poltrona, virou para gente e falou:

– Dá para ouvir tudo lá de dentro. Por isso que todo mundo fica falando baixinho aqui… (a.k.a. “cala a boca, porra!”)
– Ah tá, desculpa.

Minha amiga, então, leu o panfleto da peça e descobriu: a sessão começava às 19h e não às 20h, como informava o site. Primeiro, ela arregalou os olhos e, depois, os semicerrou, como quem quer ler melhor e tem esperança de ter entendido errado.

– Mas são duas peças, Léo, a gente não pode entrar entre uma e outra?
– Não sei se você notou que a bilheteria fechou.
– Mas você tem ingresso. Tenta entrar. – já eram 19h15.
– Eu não. Vamos embora. Já fiz papel de maluco. O segurança perguntou se eu assistiria e eu disse que não, com ingresso no bolso. Tá todo mundo pensando que sou doido.

Terminamos a noite no Mc Donald’s, falando mal dos outros para nos sentirmos melhor.

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