Estrela, a cadela que tive por apenas algumas horas

Era meu último dia em Arraial do Cabo. Não lembro o ano, mas Maurício Manieri fazia sucesso. Tinha viajado com meus tios, mas minha mãe e minha avó foram passar o dia lá e me buscar. Voltando da praia, uma senhora, no portão de casa, nos abordou desesperada.

– Vocês não podem levar essa cachorrinha? – ela se referia a uma poodle grande no seu colo – Uma mulher passou aqui, a deixou comigo e disse que voltaria logo. Mas já passaram duas horas! Ela não vai voltar né? Eu não tenho condições de cuidar de um animal.

Pegamos a Estrela, que foi como eu imediatamente batizei a cadela, e levamos para a casa do meu tio, não sem algum estresse. Minha avó não queria novos animais de estimação. Já tínhamos um cachorro, um gato e um passarinho. “Quem fica em casa cuidando sou eu!”, ela argumentava, com razão. Mas eu já tinha me apegado. Já amava Estrela, com aqueles olhinhos indefesos e incertos do seu futuro, que pareciam me pedir socorro.

Minha avó estava angustiada com a ideia de sair de Arraial do Cabo com aquela cadela. Sabia que tinha que cortar o mal pela raiz e fazia cara de desaprovação. Minha mãe admitiu a inconsequência ao pegar Estrela, “uma cachorra velha, cheia de doenças”, e disse que tentaria achar um novo dono para ela antes que nosso ônibus saísse.

Me desesperei. Chorei. Implorei. Mas minha tia veio com um papo de que não permitem que cachorros sejam levados nos ônibus sem uma espécie de autorização. “A gente pede autorização!”, eu dizia. Mas havia muita burocracia e o processo levava dias para ser autorizado, segundo ela. Não sei se dizia a verdade. Não sabia na época, não sei hoje. Mas achei que ela estava me enrolando.

De repente, percebi que minha mãe não estava mais presente. “Cadê ela?”. Saiu. “Cadê a Estrela?”. Levou. Senti-me lesado. Estava todo mundo contra mim. Contra Estrela, que não tinha feito nada a ninguém. Como eles podiam não gostar dela? Como podiam repassá-la a um estranho?

Mas foi isso que minha mãe fez. “Demorei, porque não queria dá-la para qualquer um. Busquei alguém que tivesse condições de cuidar dela, porque os cachorros ficam muito doentes na velhice”, discursou. Voltei de cara feia a viagem inteira. Só tive Estrela por algumas horas.

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