Memórias de um taxista infiel

Fiquei feliz com a volta da coluna do Arthur Xexéo à revista O Globo neste domingo. Ele escreveu sobre os taxistas peculiares que encontra em Nova York. Nunca fui à cidade, mas lembrei de, pelo menos, uma dúzia de marcantes motoristas de táxi que passaram pela minha vida. Já compartilhei aqui neste blog alguns exemplos – como o tarado, o aproveitador de turistas e o Tio Edson – mas nunca contei sobre o escrachado.

Eu recém chegara de alguma viagem – não me lembro qual – e ele me levava do aeroporto à casa. Eu estava com aquela sensação horrível de não querer estar de volta à cidade (principalmente quando você passa pela Linha Vermelha/Avenida Brasil, achando tudo horrível) – e me culpando por isso, porque aqui é meu lar – quando o celular dele tocou. Eu não queria ouvir a conversa, mas foi inevitável. Ele estava despachando uma mulher, dizendo que ia trabalhar até tarde.

Normal. Mas ao terminar a ligação, ele se sentiu na obrigação de me dar algum tipo de satisfação. Não sei o porquê, mas tinha esse peso de satisfação no ar. Talvez por ele atender o celular enquanto dirigia, talvez por eu ser seu cliente. Há alguma regra sobre não atender ligações pessoais na frente de clientes? Não sei…

– Era a outra.
– Ah, é? – me perguntei porque ele estava me contando isso.
– Ela quer sair hoje, mas não dá.
– Acontece…
– É aniversário da patroa.
– Hmmm. – eu já não sabia se queria que ele calasse a boca ou continuasse a história.
– Ela quer que eu largue a rainha, então tenho que inventar desculpas.

Não são só as oficiais que sofrem com desculpas esfarrapadas, então. As amantes também.

– Como é que eu vou abandonar minha mulher e minha filha? Nunca!

Vários questionamentos vieram à minha cabeça, mas decidi não compartilhar nenhum. Ele não era a pessoa certa e poderia se ofender. Preferi seguir a corrente:

– É, não dá…
– Olha só que coisa linda! – me mostrou a foto da filha e não da mulher. Era fofa mesmo a criança.
– Nossa, que fofa. Tem quantos anos?
– Sete. Não abandono isso por nada.

Quem foi que disse que filho não segura casamento mesmo hein?

O celular tocou de novo. Agora era a mulher querendo saber onde eles iriam jantar. A conversa se estendeu por mais tempo, o que interpretei como algum tipo de consideração pela mãe de sua filha. Até a cafajestagem tem as suas regras.

2 respostas para Memórias de um taxista infiel

  1. ericaff

    adoro historias de taxistas e vc e eu ja vivemos algumas c nosso taxista preferido hahaha, tio Marcos/Marcio, sei la hahhaha

    RESPOSTA DO LÉO – Acho que era Márcio! Hahaha MUITA saudade desse. Mas ele só atendia quando era você que ligava.

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