Eu, ilhado; Rio, inundado

Tipo de coisa que a gente nunca pensa que vai passar: que uma chuva vá inundar o lugar que você está, te ilhando

Tipo de coisa que acontece: chove e inunda o lugar que você está, te ilhando

Estava eu, morto de fome e dor cabeça, voltando para casa depois de um dia cansativo (faculdade+estágio) com uma lista extensa de preocupações, quando começou a chover. Que saco, vou ter que abrir o guarda-chuva, pensei, ao saltar na Praça da Bandeira para fazer a minha troca de ônibus. Mas, logo, minha reclamação pareceu ridícula. A chuva vinha de todos os lados e, em pouco tempo, eu tava todo úmido. O guarda-chuva não adiantava de nada. Mas meu ônibus chegou. Que sorte!

Entrei e todos os lugares estavam ocupados. Que azar! Não vou poder ler o meu livro (A República – Platão, que passeia entre os extremos de interessante e tedioso), pensei. Fui para perto da porta e lá fiquei curtindo uma música no fone de ouvido (Someone like you – Adele). É impressão minha ou esse ônibus não tá andando?, me questionei. Já faziam mais de 10 minutos que estavamos parados ali, entre a UERJ e o Maracanã. Uma gringa (coitada!) me perguntou:

– fkfspenfsbsfdjsfosfjsfjsfowksffskf?
– Quê?
– Aqui é o antigo Jardim Zoológico?
– Nãããão! Ainda falta muito!
*ela faz cara de tédio*
*eu faço cara de pois é*

Dou uma ligadinha para a minha mãe para contar a novidade. Tô parado aqui na UERJ. Tá engarrafado, não sei bem. Ligo para a minha amiga

– Tá alagado aí na tua casa?
– Não. Ainda não.
– Estranho, porque estou aqui parado há mais de dez minutos. O ônibus tá até desligado.
– Deve tá alagado em alguma parte.
– Pois é. Tô vendo que vou passar a minha noite aqui no ônibus.
– Cidade olímpica!

Minha mãe liga de novo. Quer saber se já tô chegando. Explico para ela que a situação é preocupante e que estou exatamente no mesmo lugar da ligação anterior, sem perspectiva de mudança. Ela, com algum esforço, me convence a descer do ônibus e tentar a sorte. É o que eu faço.

OBS: Mães não sabem de nada. Não as escute.

Foi só eu ficar do lado de fora para entender o que estava se passando do outro lado daqueles vidros embaçados. Estávamos ilhados. Para onde quer que eu olhasse, só via água. Me cercando, uns carros estacionados (com motoristas dentro) tentando não se afogarem. Há cinco metros, carros com água até o capô. E eu, ali. Péssima idéia, mãe, pensei. Passei por cima dos carros – vamos evitar detalhes – e logo resolvi fechar o guarda-chuva, que era um acessório ridículo naquele momento, e tirar a camisa para não pegar uma pneumonia. Entrei na lagoa (porque aquilo era uma lagoa, imunda, mas era).

Olha pra cima, Leonardo, me ordenei, para evitar ver a água amarronzada e as sujeria na qual eu estava me metendo. Essa água é de esgoto, Leonardo!, um anjo da guarda me dizia. Cala a boca, anjo, ordenava. E caminhei no esgoto, sem nenhum dom similar ao de Moisés para abrir caminhos nas águas. Com algum esforço, entrei na UERJ e cortei caminho por dentro dela – ou achei que fazia isso. Na saída principal, lagoa de novo. Mas aí eu já tava cheio de leptospirose mesmo. Já não ligava mais. Encarei. Alguns loucos faziam o mesmo que eu. Os passivos, que prezam a saúde, ficavam embaixo de marquizes e pendurados em grades fugindo da água e esperando o sol aparecer para secar tudo e salvar suas vidas.

Vim nadando, evitando mergulhar, até a Vinte Oito de Setembro, que tinha alguns trechos caminháveis e outros com igual correnteza. Andar na inundanção exige pernas fortes, que eu nem sabia que tinha. Exige, também, coragem e alienação (eu não pensava, por exemplo, que podia tomar um choque elétrico, um raio na cabeça ou cair ali e morrer afogado na correnteza, como aconteceu com companheiros meus – li as notícias hoje). E segui. Minha mãe me ligava.

Mas eu não conseguia atendê-la. Meu celular não ligava mais. Perda total. Eu sentia coisas nojentas no meu pé. As minhas coxas doíam e ardiam quando roçavam uma na outra. Eu havia me machucado. Bem, era claro e evidente que eu tava na merda (literalmente), então, eu ia até o fim. Vamos batalhar e chegar em casa!, me estimulava. Quando via as pessoas nos pontos de ônibus, esperando sabe-se lá Deus o quê, me dava pena. Vão ficar aí até amanhã. Comecei a pensar nos chocolates que me esperavam em casa, como uma espécie de objetivo ou prêmio depois da tormenta.

Passei por poucas e boas até chegar ao Engenho Novo, onde já me sentia em casa. Ali, eu conhecia as áreas que alagavam. Há! “Alagavam”. Meu conceito desse verbo mudou. O que antes era alagado, para mim, é agora uma poça d’água, na qual passo por cima tranquilamente. Só me preparo mentalmente quando noto que a água vai passar do meu joelho. Senão, vamos lá. Eu devia ter sido escoteiro…

No caminho, vi pessoas completamente perdidas, sem entender o que estava acontecendo e por que os ônibus não passavam. Pensei em explicar, mas não o fiz. Não queria perder tempo. Às 23h30, ou algo assim, consegui entrar no meu lar – e perceber que tudo que estava na minha bolsa de carteiro era um caso de perda total (inclusive aquele livro da biblioteca). Eu havia saído do trabalho às 20h. Geralmente, chego em casa 21h15.

Googleei:

Fiz 5km de caminhada, na água. Uma hidroginástica.

Saldo da chuva: todo conteúdo do fichário, molhado; prova da minha amiga, molhada; livro da biblioteca, encharcado; carteira, com todos, exatamente todos, os meus documentos, completamente molhada; celular, afogado (perda total); perna, ferida; tênis, no lixo.

Medo: que isso se repita.

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3 respostas para Eu, ilhado; Rio, inundado

  1. […] que não se tem nessa vida e desconfio que seja inútil buscá-la. Perda de tempo. Vem uma chuva, como essa que inundou a cidade, e leva tudo. Mesmo que você já não tenha nada. Na Região Serrana, naquele caso já esquecido, […]

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