Ataques no Rio lembram guerra e dividem a população

Carro de civil incendiado a mando dos traficantes cariocas: um caso em tantos

Quando eu era pequeno (e, na verdade, até pouco tempo atrás), guerra era para mim uma idéia muito remota. Coisa da Europa. Coisa do Iraque. Coisa dos Estados Unidos e, quando mais próximo, coisa da Colômbia com a Farc. Não mais que isso. E, de repente – ou não tão de repente assim – acordei em uma cidade citiada. Pelos traficantes.

Um arrastão ali, três ônibus queimados acolá, quatro carros queimados aqui, uma ameaça de bomba logo ali. Já perdi a conta. Uma colega de classe viu um carro ser incendiado na Tijuca ontem e a mãe de uma amiga ficou aos prantos quando outro foi queimado na rua da sua casa, que é suficientemente perto da minha para me deixar em estado de alerta. Mais do que isso, não vivi. Ou conto o helicóptero da polícia sobrevoando mais baixo do que eu desejava o ponto de ônibus que eu estava?

Com tanta gente sendo diretamente atingida pelos ataques dos traficantes querendo mostrar o quanto eles são poderosos – embora ninguém duvidasse disso – eu fico agradecido por nada ter acontecido a meus familiares, amigos e a mim. Mas é impossível não se envolver. Os ataques, que estão acontecendo desde o fim de semana e culminaram hoje com a invasão da polícia à favela Vila Cruzeiro, onde os traficantes estavam todos refugiados, impressionam.

A Globo Rio cancelou a programação de toda a tarde e proporcionou aos cariocas tal espetacularização do caos que eu me senti vendo um reality show dos bons. Para criar um paralelo, posso associar o fato com a transmissão da queda das Torres Gêmeas, da invasão estadunidense ao Iraque e, numa versão mais cute, do resgate dos mineiros no Chile. Mas, mesmo assim, todos esses eventos pecavam quanto à proximidade. Agora é aqui, no Rio, nos lugares que eu freqüento. É diferente.

E assustador, sim. Aqueles tanques de guerra eu só tinha visto nos museus e achava que nem funcionavam mais, que eram apenas artigos exibitórios. Mas não, tão aí, circulando pelas ruas e invadindo favelas. That´s so war! E os traficantes? Não é que eles existem mesmo? As imagens de dezenas – talvez centenas – de bandidos armados fugindo para a favela do lado, brotando de tudo quanto é canto, é mais uma cena chocante.

Tanques de guerra usados para invadir a favela Vila Cruzeiro, de onde tem saído as ordens do caos

Não tenho lembrança do Rio de Janeiro ter vivido anteriormente algo parecido com essa situação. Claro, é a resposta do tráfico às UPPs e, diante desse nervosismo todo, não me estranham as críticas ao governador Sérgio Cabral. É natural isso acontecer.

Mas eu tenho uma opinião diferente quanto a isso. O projeto falhou? Parece que sim. Talvez não. Pode ser que esse seja o preço do combate ao tráfico. Ou alguém achou mesmo que ia ser tudo muito tranqüilo? Ao menos, houve um projeto. Eu não gosto de expor minhas opiniões políticas publicamente, porque a divergência é cansativa, mas me parece irracional ver apenas o lado mal da UPP.

Os moradores das favelas pacificadas estão agradecidos. Os bairros próximos, também. Ok, os traficantes apenas mudaram de localização e passaram a incomodar diretamente e frequentemente a gente aqui do asfalto. Mas isso é basicamente o que viviam há anos aqueles que você chama de favelados. Repito: tudo tem um preço.

O projeto pode ter sido, sim, mal formulado, precipitado e oportunista. Não discuto quanto a isso. Mas, pelo menos, existiu um projeto que foi colocado em prática. E esse mérito ninguém pode tirar do governador. O Rio já teve uma série de políticos que, em vez de combater essa realidade, preferiram se aliar a ela. Então, Sérgio Cabral merece ao menos o respeito dos fluminenses por tentar fazer algo. Indiscutivelmente pioneiro.

Ônibus incendiados já estão banalizados

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