A sorte vista pelo microscópio

Ela engravidou e foi morar com o pai da criança, rejeitada pelo próprio pai, que não aceitou a “gravidez sem casamento”. Ambos pobres, muito pobres. Ela se mudou para o lote da família dele, em Belford Roxo, dividindo o espaço com a sogra, a cunhada e um monte de gatos vira-lata em um barraco improvisado. Um ambiente quente, claustrofóbico, cheio de mosquitos, com o chão de terra batida e o teto repleto de goteiras. Oito anos se passaram, e a situação se agravou. Em vez de um, agora ela tinha três filhos – tidos antes da ligação das trompas. Ela e o marido desempregados, vivendo com R$ 182 do Bolsa Família. A obra na qual ele trabalhava chegou ao fim, e foi dispensado. Na mesma época, a chuva intensificou e fez transbordar o valão que é a vista de sua casa. O barraco encheu, e eles perderam o pouco que tinham. O marido não aguentou o tranco. Surtou. Passou a tomar remédios controlados e a se dopar manhãs e tardes inteiras, com as noites em transe. Crises de ansiedade, que assustavam as crianças e consumiam o tempo e o pouco dinheiro dela com idas a hospitais. Mesmo passado tanto tempo, seu pai ainda não aceitava o relacionamento sem casamento, e se negava a ajudá-la, embora pudesse. Mônica tem um pai que nega apoio, um marido inutilizado e três filhos para criar. Sua miséria virou capa de jornal, como retrato das pessoas que vivem abaixo da linha pobreza no Rio de Janeiro. A coroação de uma vida que ela já sabia que não era fácil.

– Mas ela tem sorte. – diz a sogra.

Eu não consigo entender. Rio por educação, aquela risadinha singela que se dá para não ter que falar nada. Como mera confirmação da recepção da mensagem. Mas podia ser também uma risadinha irônica, lamentavelmente irônica, tristemente irônica.

– Sua sogra disse que você tem sorte. – eu comento pouco depois, como quem aponta o absurdo da sentença.

– É! Eu tenho mesmo. – ela me diz, enquanto me mostra as caixas de remédio que o marido toma, a papelada do processo para conseguir aposentadoria por invalidez (para ele), e outros problemas que eu não consigo nem assimilar. Ela me pede uma palmilha ortopédica para o menino, cuja receita ela não consegue encontrar no meio da bagunça. E um colchão, que ela não precisa dizer o porquê, é evidente. Onde que essa mulher tem sorte? Aquilo começa a latejar na minha cabeça, e termino o dia com fortes dores. Mônica tem sorte. Mônica está na miséria e é sortuda. Isso não é uma antítese?

Por fim, entendo. Ela sabe que tem gente em pior situação. Sim, sempre tem. Seus filhos são bonitos e saudáveis. Inteligentes. Os remédios do marido podem ser comprados na Farmácia Popular, o que a faz gastar menos com medicação. Ela, mal ou bem, tem um teto – em condições precárias, mas tem. O barraco é quente como o inferno, mas ela tem um ventilador. Apenas um, que fica no quarto com o marido que dorme, mas podia ser nenhum. E tem o Bolsa Família. R$ 182 é muito pouco, mas imagine se a renda total fosse traço. Mônica tem sorte, porque saiu no jornal, em uma reportagem que poderia ser a humilhação pública e a rotulação do seu fracasso como mulher. Mas, ao contrário disso, atraiu doações – comida, itens de higiene e limpeza, brinquedos, material escolar. Mônica sabe que há muitas pessoas em situação de miséria como ela, e nem todas estão recebendo ajuda. Então, sim, Mônica tem sorte. Claro que tem.

Um dia é tempo suficiente para eu saber se vou te amar ou não

“Se você gosta dele, e ele gosta de você, por que não ficam juntos?”. Criança costuma pensar assim, com sabedoria e simplicidade. Eu, até bem pouco tempo, também era adepto desse raciocínio tão lógico quanto inocente. Mas parece que, quando você começa a envelhecer, se torna inevitável dificultar a matemática. Não sei quando ocorreu essa transição, mas ela ocorreu. 1+1 passa a não dar 2 necessariamente, porque você descobre outras nuances e variáveis nessa que, de uma soma básica, se torna uma equação complexa. É quando você passa a jogar – contra aquele com quem você deseja fazer par no futuro. Note bem: joga-se contra, e não com.

“Jogar com” seria a forma infantil, franca, transparente: dizer o que sente, expor as cartas na mesa, fazer questionamentos, tirar tudo a limpo e ir curtir o recreio. Mas não é isso que acontece. Você “joga contra”, escondendo cartas, fazendo mistério, guardando curingas, blefando e, quem sabe, até roubando, com uma carta na manga. Não dá para curtir o recreio, porque você perdeu o intervalo inteiro nesse desgaste. Porque o jogo é puro desgaste.

Eu não sei jogar, aliás. Agir de forma x para conquistar a reação y. O infalível sempre falha comigo, porque não dou conta da missão. Se o correto é ir atrás, para esperar que venham… eu não aguento esperar. Se quero falar, falo. Se o ideal é demorar a responder as conversas virtuais, para não parecer que está dando muita atenção àquilo, eu não consigo. Respondo imediatamente, e fico roendo as unhas esperando a resposta, que sempre tarda. Se é proibido em hipótese alguma demonstrar seus sentimentos antes de determinado tempo, eu esbravejo o que sinto nas primeiras 24 horas. Um dia é tempo suficiente para eu saber se vou te amar ou não. Essa frase é forte, mas me caracteriza, e eu gosto de como ela soa. Vou botar no título.

Bem, esse sou eu em minha essência. Não eu jogando. Chega um momento no qual ir atrás e responder as conversas imediatamente soa como desespero. E não importa se você está desesperado ou não, o que importa é a imagem que você imprime. Pagar paixão, então, é loucura. E não do tipo de loucura boa igual da Dercy Gonçalves (“ela é louca, um barato!”). Não. Do tipo de loucura insana: “foge dele, pois mal me conheceu e achou que estava apaixonado”. Abrir o jogo, então, vira entregar sua insensatez, e você não pode fazer isso. Se quer conquistar, tem que agir diferente do que você quer fazer, o que é sim muito estranho. Por isso os casamentos não duram, eu acho. A gente joga tanto contra que depois não sabe jogar com. A gente esconde tanto quem a gente é, para não parecer maluco, que o outro se decepciona quando descobre que casou com um ideal e não com um real. E eu falando de casamentos… a maioria dos jogos dão “game over” muito antes do altar. Ainda se usa casar?

Como a gente complica!

Faz assim, faz assado, é melhor desse jeito, não pode isso, não pode aquilo, ignora, dá um gelo, some, aparece, marca território, dá mole, não dá mole, pergunta, não pergunta, beija, não beija, dá, não dá, fala, não fala, pede desculpas, não pede desculpas, perdoa, não perdoa, põe contra a parede, não põe, faz o blasé, não faz, prende, solta, demonstra ciúme, esconde ciúme, simula ciúme, faz surpresa, não faz surpresa para não ter surpresa, pega outros, não pega outros, finge que pega outros, finge que não pega outros, mostra seus interesses, esconde seus interesses, aceita o convite, não aceita, dá presente, não dá presente, é cedo demais, é tarde demais… tem que fazer diferente do que quer. Esse é o jogo social.

Menos fotos, mais vida

Venho tentando voltar a escrever aqui, mas sempre me falta tempo ou inspiração. Cheguei a esboçar alguns textos, e quase todos começavam com essa frase anterior, que eu julgo ser uma maneira sincera de reaparecer aqui depois de tanto tempo. Eu, mal ou bem, sou conhecido entre os que me cercam pela sinceridade, e não poderia deixar isso de lado na retomada. Quando houve as manifestações de 15 de março, cheguei a escrever um texto inteiro, sobre como as pessoas andam encarando política como torcida de futebol, mas o deixei de molho para dar tempo ao tempo. Ontem, li um texto da Eliane Brum sobre os mesmos protestos e tive certeza que seria imprudente da minha parte publicar minha perspectiva dos fatos. A dela é ótima e vocês deveriam lê-la. Sobre o que eu falo então?

Eu venho experimentando uma nova forma de viver. Quer dizer, nova para mim. Um passo para trás na história da humanidade, talvez, para poder dar dois para frente. Desde o dia 1º de janeiro, não posto fotos minhas nas redes sociais. Foram vários os motivos que me levaram a tomar essa decisão, mas basicamente eu entendi que todos nós vivemos para mostrar aos outros que estamos vivendo, e isso não me parece saudável. A maioria de nós só posta fotos de bons momentos da vida, o que revela muito de cada pessoa, mas também causa um efeito negativo, na minha opinião. Amigos, colegas, conhecidos e pessoas que a gente nem lembra que existem passam a acompanhar nossas vidas por essas fotos, que são, na verdade, uma compilação pessoal de “greatest hits”. Então, todo mundo acha que sabe da vida de todo mundo, mas, na verdade, só se sabe uma parte mínima, a publicável. De alguma forma, isso passou a me incomodar. Por que ficar mostrando minha vida para os outros? Por que querer aparecer dessa forma? Certa vez, a mãe de um amiguinho de infância – com quem eu não falo desde a infância – me encontrou no supermercado e me parabenizou porque eu “estou sempre com os famosos”. Aquilo me incomodou tanto, que gastei uma sessão inteira de análise falando sobre o assunto. Era uma pessoa sobre quem eu não sabia nada, e ela estava tirando conclusões sobre minha vida. Meus problemas financeiros, familiares, emocionais, ela não sabia. Mas julgava minha vida boa pelo que eu mesmo estava mostrando para ela, e para o mundo.

Acredito que toda minha geração foi induzida a se comportar assim, primeiro com blogs, depois flogs, e por fim as redes sociais e aplicativos de celular. Eu exponho minha vida – parte dela – na Internet desde que eu tinha dez anos de idade. Nos últimos anos, consegui que o Fotolog e o Flogão apagassem minhas contas antigas. Elas registravam com detalhes todo meu crescimento, minha escrita e meus pensamentos da pré-adolescência aos 18 anos. Isso não é normal. Minha mãe não viveu assim. Minha avó não viveu assim. Quem queria saber da vida delas, tinha que procurá-las, telefonar ou mandar uma carta. E elas contavam apenas se quisessem. Para saber da minha vida, bastava digitar o www – e eu nem saberia que você estava se inteirando. Então, de alguma forma, precisei de uma pausa para respirar. Estipulei três meses off de imagens, o que acabará no dia 2 de abril. Como toda mudança brusca, essa foi penosa. Tirei fotos que quis muito postar, pelo hábito, mas não morri quando não postei. Mostrei para alguns amigos próximos e pronto.

Meu egocentrismo me levou a registrar, em uma espécie de diário breve, todo esse processo e vou compartilhar aqui no blog no mês que vem. Digo as vezes que preferi não tirar fotos com medo e não resistir e divulgá-las, e as vezes em que tirei sim, mas não postei, por mais que quisesse muito. Mas essa experiência me mostrou uma nova forma de viver. Sinto que passei a viver mais para mim mesmo, em vez de viver para mostrar aos outros. E isso é, sem dúvidas, um aprendizado. Recomendo a todos menos exibicionismo, pelo menos por um período, curto que seja.

2014 foi um ano difícil

2014 foi um ano difícil. Geralmente, quem diz isso é porque perdeu algum familiar próximo e passou o primeiro Natal de luto. Não é meu caso. Ainda bem. Compadeço-me de quem teve essa experiência. Seu ano foi difícil mesmo. Sinto até um pouco de culpa por dar continuidade a esse texto, mas cada um carrega a sua cruz. O meu ano não foi difícil dessa maneira óbvia. Foi difícil do tipo “um ano inteiro na terapia tentando aceitar o quanto a vida estava em oposição ao que deveria ser”. É péssimo – e péssimo significa mais que difícil – quando tudo o que te resta é tentar lidar melhor com algo insatisfatório, em vez de reverter a situação. Ao menos, acho que cheguei a dezembro melhor do que estava em janeiro. Sofro e me desespero menos hoje do que ontem. Mas ainda não me resigno, e me questiono se essa suposta evolução é de fato boa.

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Quando olho minha lista de resoluções para este ano, sinto-me estagnado. Quase nada foi feito. Não eram exatamente pontos inalcançáveis. Nada como comprar minha primeira mansão ou dar a volta ao mundo da noite para o dia. Eram metas dentro da realidade, e ficaram apenas no plano das ideias. Algumas se repetiram e entraram nas resoluções de 2015, no maior estilo “agora vai!”. Outras eu deixei para lá, assumidamente desistente. Acho que é assim com a maioria das pessoas. Devo estar me tornando, se já não me tornei, um clichê social: do tipo que faz resoluções e não realiza. Do tipo sem determinação, que promete começar uma dieta na segunda e sempre prorroga para a outra semana. Eu fiz isso com abdominais neste ano: autoboicote seguido de autoboicote. No momento, minha desculpa é que não é viável fazer qualquer abdominal nesse verão de 45ºC. Convenhamos. Vamos deixar para o outono. Não sei como você aguenta.

Eu estou me segurando para não dizer que meu ano foi e que minha vida é uma bosta. Tendo a essas declarações exageradas para expressar como me sinto – que é uma bosta. Mas, você sabe, 2014 também abriu meus olhos para realidades que me impedem de falar algo parecido. Fico envergonhado de pensar assim, de ter um drama burguês, um sofrimento de classe média. Não dá para remoer muito uma tristeza por algo inalcançado do topo da pirâmide com pessoas em situação de necessidade na base dessa mesma pirâmide. Só que uma chateação frívola ainda é uma chateação genuína.

INVEJA

Vou apresentar minha questão de outra maneira. 2014 foi o ano da inveja – e fiz esse balanço há pouco, nessas reflexões que a maioria de nós faz na proximidade da virada do ano. A inveja pautou os últimos meses, com diferentes caras e em diversas situações. Vale aqui um adendo: eu odeio inveja. O fato de 2014 ser o ano da inveja é bem nítido de um ano de bosta, na opinião de alguém que despreza a inveja (no caso, eu). Para mim, ela expressa o pior que alguém pode sentir por outra pessoa, às vezes camuflado de algo mais brando.

Eu sei que fui invejado, mais de uma vez e por mais de uma pessoa. Sempre tem aquela pessoa que curte tudo que você posta no Facebook, e não está exatamente a fim de você. Você sabe que é uma curtida do tipo “queria estar no seu lugar”. E é uma bobeira, porque eu não sou uma pessoa invejável, mas as pessoas se esbaldam com bem pouco mesmo. E vivemos a época da autoexposição e, consequentemente, da inveja. Ao mesmo tempo em que sinto nojo, sei que provoco esse sentimento nos outros ao fazer uma edição virtual e mostrar apenas o que minha vida tem de melhor (ou seja, de invejável). Só que o melhor é 5% do todo. Quem me inveja, pode-se dizer, inveja uma vida inexistente e artificial. E falo de mim porque sou eu que escrevo, mas me atrevo a generalizar. Olhe sua timeline e diga-me se não é uma vitrine de autoexposições com o único intuito de provocar inveja: seja da comida japonesa, do banho de piscina, da viagem internacional, do tanquinho, da nova aquisição, do novo namorado, enfim, as possibilidades são infinitas ou perto disso.

Tanto é que nem eu resisti. Levei a questão para o consultório este ano, devastado e decepcionado comigo mesmo: senti inveja. Eu culpo nossa geração virtual, com a provocação de inveja via ostentação em Facebook e Instagram, mas eu me dei conta que estava sentindo-a na mesa de um bar. E, você pode não acreditar, mas acho que foi a primeira vez que senti (não garanto, porque posso ter sentido na infância, sem autoconsciência). Fiquei mal comigo mesmo, porque achava que era imune a isso. Para mim, era uma questão de caráter, e o meu se tornou frágil naquela situação. Minha psicóloga tentou me mostrar que inveja é um sentimento humano e eu sou humano, como todo mundo, sujeito a senti-la também. Mas eu realmente achava que estava acima disso. Descobri que não.

2014 foi um ano difícil, e eu sintetizá-lo com a palavra inveja é a maior prova disso. Por isso, em 2015, tentarei fugir para outro lado. Fazer a minha parte. Vou tentar passar três meses sem postar fotos, para não gerar inveja no universo. Sei que essa declaração é pedante, mas garanto que não é uma questão de ego: qualquer um pode gerar inveja em qualquer um. Quando você posta uma foto de sua cadelinha de banho tomado e enfeitadinha com um laço na cabeça, alguém está te invejando, querendo seu bichinho para si. São coisas simples assim, que a gente não se dá conta. Por isso, vou fazer essa experiência. E, com relação a mim, acho difícil me pegar invejando os outros. Espero que tenha sido um episódio pontual e que demore outras décadas para acontecer de novo. Inveja é um sentimento horrível, de verdade, mas que vem pautando a rotina da sociedade contemporânea, com uns se informando sobre a vida dos outros por suas timelines, sem a necessidade de trocar um “bom dia”. Quando todo mundo quer mostrar que está bem (porque a felicidade se tornou uma obrigação), tornamo-nos todos artificiais, invejáveis e invejosos. Não quero compactuar com isso. Xô, sentimento ruim! Que venha 2015 e que sirva para alguma coisa.

A experiência de Jardim Gramacho

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Quando saí do carro, não vou mentir, não vi nada. Só senti, e foi calor. Houve o choque término entre o ar condicionado do automóvel e o ar abafado da comunidade de Jardim Gramacho. Em seguida, olhei ao redor. Ainda não sei se enxerguei. Senti certa confusão. Apesar de ter muita gente (à nossa espera), o cenário parecia abandonado, devastado, esquecido. Notei que o chão era de terra batida e pensei “antes sol do que chuva”, já com o suor escorrendo instantaneamente. Por fim, enxerguei as pessoas. Era muita gente – adultos, ainda. Alguns já estressados pela fila, pela demora, pelo calor, pela desordem. Vi as crianças, então, andando descalças, alheias a qualquer questão de higiene. Uma menina com aparência de sete anos atravessando a rua com o irmão menor pela mão. Questionei-me sobre os pais deles e pude perceber que a cena se repetia: crianças descalças, indefesas, expostas. A metros dali, havia bocas de fumo – eu não sabia disso naquele momento, mas já achava a situação perigosa. Rapidamente entendi: era outra realidade. Não a minha.

Fui parar lá quase que por obra do acaso. Semanas antes, havia visto a publicidade de uma campanha de arrecadação de brinquedos e cestas básicas no Instagram, e senti vontade de participar. Entrei em contato com a organizadora, Paula Passos, e me engajei. Comprei alguns brinquedos, divulguei, convoquei amigos, pedi para pessoas influentes divulgarem… Não tenho muito dinheiro, mas estava com vontade de ajudar, e colaborei com contatos e contatos de contatos. Deu certo. É curioso, mas, quando algo é para o bem, acontece! Graças a uma amiga, a namorada do Zezé Di Camargo divulgou a campanha e uma seguidora dela enviou mil brinquedos para doação! Mil! Antes mesmo do dia da entrega, eu já estava com a sensação de missão cumprida. Mas fui lá… Não ia perder a melhor parte.

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Formamos um grupo, no qual eu não conhecia ninguém, e seguimos em direção ao Jardim Gramacho, mais precisamente à sede do projeto Ide Missões. Acho que, neste caso, minha mãe perdoaria o fato de entrar no carro de estranhos. Eu não teria chegado lá sozinho. Não é perto. Eu já tinha pensado nisso antes: por que Gramacho? Não poderíamos ajudar crianças de outro lugar, de uma comunidade mais próxima? Mas depois me repreendi: por que não Gramacho? Eu já estive em outras favelas antes, mas lá realmente é diferente. Como disse, é um lugar abandonado – não só pelo governo, mas parece que por tudo e todos. É diferente. Lembrei da cidade de Encarnación, no Paraguai, na fronteira com Posadas, na Argentina. Um lugar que achei bem feio quando visitei, há alguns anos. Com a desativação do lixão, muitas famílias de Jardim Gramacho perderam sua renda. Para aquelas crianças que nós fomos levar presentes, a primeira oportunidade de emprego é no tráfico de drogas. Entende a situação? Há falta de perspectiva.

Primeiro, foram entregues as cestas básicas. Participei pouco dessa parte, porque estava ajudando a separar os brinquedos por faixa etária e sexo, mas vi algumas cenas impressionantes. Uma cesta ou outra era mais caprichada e tinha panetone para o Natal. Quem a recebia ficava extremamente agradecido. Eu vi uma mulher comemorar o panetone como quem ganha algo muito valioso. Foi quando me toquei que nem sei quanto custa isso, mas que todo ano jogo um fora, quase inteiro. Eu e minha mãe compramos só para a vovó comer na ceia, mas nenhum de nós gosta, então acaba indo para o lixo depois.

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Tinha também muita roupa – mas muita mesmo, resultado de várias doações – e os adultos eram ávidos em fazer uma busca na torre amontoada, selecionando o que interessava. Os organizadores diziam que as roupas seriam entregues outro dia, mas muitos não resistiam. Eu fiquei particularmente tocado quando um menininho de seis anos não gostou do presente que recebeu (crianças tão sinceras!) e eu fui lá dentro pegar algo legal para ele.

– O que você gosta?

– O que tem aí?

Achei a réplica ousada e quase pensei que ele não precisasse tanto dos brinquedos, fazendo exigências, mas fui paciente:

– Tem um monte de coisa. Você tem que me dizer o que você gosta (felizmente, tínhamos muitas opções e as crianças podiam sim escolher).

– Tem roupa?

Ele estava descalço e sem camisa – algo que, naquela altura, eu já estava erroneamente acostumado a ver (estava calor, mas algo me dizia que ele estaria da mesma maneira se a temperatura fosse outra) – e só então notei que aquele menino tinha outras necessidades. Ele estava tentando conseguir uma vestimenta como presente, e não um brinquedo, porque sua carência era mais acentuada, talvez. Afinal, que criança prefere ganhar roupa ao invés de brinquedo? Fiquei espantado, mas compreendi as entrelinhas. Ele não era eu.

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Também me chamou a atenção como essas pessoas pensam sempre em alguém mais. Não posso dizer que não são egoístas, porque vi sim muita criança disputando brinquedos específicos. Duas meninas arrancaram da minha mão uma boneca maneira e ficaram puxando a caixa de um lado para o outro ao som de “peguei primeiro!”. Mas acho isso normal, principalmente no contexto social deles. O que quero dizer é outra coisa. Ouvi tanto “posso levar para minha irmã?”, “posso levar para meu neto?” e similares. Podia ser mentira, claro, podia ser ganância de querer pegar mais do que os outros, mas eu acreditei em todos. Quem me pediu levou. Felizmente, acumulamos muitos brinquedos, então não tinha porque ficar de miséria. Mesmo quem já tinha pegado algo e me pedia outra coisa, eu entregava. Uma garota, que devia ter uns 12 anos, estava saindo com uma caixa de presente, uma boneca e mais alguma bobagem e, quando me viu cheio de arcos de cabelo no braço, pediu um, esperando um não como resposta. Deu para ver no rosto dela que ela achava um excesso ganhar um arco. Só que obviamente não era. Era só um arco! Qual você quer?

Uma enormidade me separava daquelas pessoas, e eu nem sabia que isso era possível. Eu me considero pobre e pé no chão. A maioria dos meus amigos tem situação financeira melhor do que a minha. Mas, lá em Gramacho, eu me senti tão privilegiado e percebi que sou tão alienado. Algumas cenas e algumas perguntas me pegavam de surpresa, porque eu não esperava que elas existissem realmente. E, mesmo o que eu vislumbrava… há um mundo entre saber que existem pessoas que passam fome e, de fato, passar fome. Nunca cheguei perto disso. Sempre tive todos os brinquedos que queria e sempre que precisei de roupa pude comprar. Talvez eu, e muita gente, não me atente para a saciedade de necessidades básicas, justamente porque não saciá-las nunca foi uma questão. A gente naturaliza o que para os outros é uma batalha diária: o que comer, por exemplo.

Eu entendo todas essas pessoas que vivem fazendo caridade e dizem “quem mais ganha sou eu”, porque foi exatamente assim que me senti. Você volta para casa revitalizado, com ótimos sentimentos. Mas não dura muito, confesso. Quando você para e pensa que ajudou apenas um dia daquelas pessoas e elas têm outros 364 para enfrentar, bate uma tristezinha. Quando você pensa no futuro daquelas crianças, cercadas de boca de fumo, bate um desespero. Há alguma perspectiva? Dá medo até de pensar no assunto. Mas tem que pensar. Você não consegue fechar os olhos depois de ter visto tanto.

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Sonho ≠ Sonho

Sempre achei estranho que sonho, como objetivo de vida, tivesse o mesmo nome que sonho, aquele filminho que passa quando a gente dorme. E é assim em outros idiomas também. Dream. Sueño. Você não acha esquisito? Entendo que ambos são saídas da realidade, mas de maneiras tão distintas que mereciam palavras diferentes. Se passarmos do substantivo pra o verbo, o primeiro é quase sempre conjugado no presente, em menção a algo a conseguir no futuro, enquanto o segundo é sempre no passado, em referência à história assistida na última noite de sono. Isso atesta os lados opostos para os quais se direcionam. Sonho. Sonhei.

De volta ao substantivo, o que motivo essa reflexão, temos ainda um sentimento de posse com relação ao primeiro. Esse é quase sempre meu sonho, seu sonho, nosso sonho. Ao segundo não se refere assim – embora ele também seja meu, seu, nosso. Mas é involuntário. O primeiro é consciente, escolhido, criado. O segundo vem do inconsciente (ou do subconsciente, não lembro mais a termologia correta para o que quero comunicar). Mas o primeiro sonho implica quase sempre uma ação, tanto de motivação quanto de realização. O segundo, obviamente, não. Não se tem poder de controle sobre ele. Sonho. Sonho.

Tem gente que não sonha – nem um, nem outro. Não tem algo grande que queira conseguir ou realizar, e tampouco vivencia historinhas quando dorme. Considero dopado, em ambos os casos, quem é assim. Sem sonho. Sem sonho. E tem gente que sonha, mas não sonha, e vice-versa. Sempre pela metade. Meio dopado, aqui ou acolá.

Falando isso, lembro-me que o primeiro sonho é sempre ideal. O segundo às vezes teima em ser pesadelo. Vê como são diferentes? Um sonho pesadelo, nunca. Um sonho pesadelo, possível. No primeiro sonho, ninguém sonha o pior. Ou sonha? Aprendi a não gostar muito de expressões generalizadoras: ninguém, todos, tudo, nada. Quase sempre há exceções. Mas, ao que me refiro, é no mínimo incomum que alguém sonhe algo ruim, principalmente para si. Mas, no segundo sonho, é praxe – independente da idade, do sexo, da cultura ou da religião: tem-se pesadelos. Não se sonha em encontrar o Bicho Papão. Mas se sonha com o Bicho Papão.

Sonho às vezes não se explica, ou se explica muito mal. Em ambos os casos. Sonho. Sonho. Mas o primeiro move uma vida. O segundo, se duvidar, até paralisa. Mas também serve como indicador. Há quem mude uma vida inteira por causa de um sonho ou de um sonho. Mas a maioria leva a vida ao redor de um sonho, sem dar muita importância para um sonho. Sonho. Sonho.

Sonho x sonho. Mereciam palavras diferentes, talvez não por suas diferenças, mas pelo menos para evitar confusões textuais. Você talvez tenha se atrapalhado. E eu nem mencionei o da padaria.

Esse post é muito mais para mim do que para você

Esse post é muito mais para mim do que para você. É algo que vou querer ler daqui a alguns anos e lembrar que foi assim algum dia. O post anterior, sobre os músicos latinos no metrô, me inspirou a escrever esse, porque me dei conta que a última semana foi, de um modo geral, completamente incomum.
Estive fazendo a maratona anual para ver vários filmes do Festival do Rio, e vários são dezenas. Esse foi meu foco até o fim do evento, mas tantas outras situações aconteceram, e o inusitado sempre merece registro.

Domingo, 28 de setembro
Tive uma hora vaga entre um filme e outro, e fui passear na praia. Surpreendentemente, encontrei meu amor platônico do último Carnaval. Estava distraído e, quando me dei conta, caminhávamos lado a lado. Achei que era obra do destino. Tomei coragem e puxei papo. Conversamos pela primeira vez. Descobri o nome, mas não o Facebook.
De noite, tive uma conversa sobre os males da maconha com um amigo recém-saído da rehab, porque, sim, eu tenho um amigo recém-saído da rehab. E isso é muito louco.

Segunda-feira, 29 de setembro
Na fila para “Whiplash” (que é um filmão!), encontrei meu flerte da época de curso para o concurso da Ancine. Pensei: “que domingo louco!”. Ele não esboçou qualquer reação ao me ver. Foi como se, de fato, não me conhecesse. Terminei o dia com a sensação de que sou facilmente esquecível. E talvez seja mesmo. O filme, pelo menos, não é.

Terça-feira, 30 de setembro
Estreia do filme “Encantados”, produzido e dirigido pela família da minha amiga. Senti orgulho de todos eles. É tão bom ver os projetos dando certo, e as pessoas felizes, realizadas, satisfeitas consigo mesmas. Eu tenho um carinho enorme pelo Festival do Rio, então fiquei ainda mais tocado por estrearem o longa nesse evento.
Terminei a noite conversando sobre o filme com José Mayer. Bizarro. E ele é uma simpatia.

Quarta-feira, 1º de outubro
Talvez o dia mais WOW de todos que aqui narro. Fui ao colégio no qual estudei toda minha vida para participar de um fórum de literatura, no papel de ex-aluno escritor. Fui convidado por causa do “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai” e compartilhei a mesa com outras duas ex-alunas, contando nossas experiências para a galera do 3º ano. Foi uma experiência incrível, do tipo que nunca imaginei que eu teria na vida. Os estudantes foram muito receptivos, atenciosos e interessados, e alguns vieram conversar comigo individualmente depois. Estão em ano de vestibular e pediam dicas sobre a profissão de jornalista, por exemplo. Tão legal quanto assustador eu dando conselho para alguém. Eles tinham 17 anos e usavam uniforme, que nem eu ontem. Passa uma viagem pela cabeça.
De lá, corri para a Cidade das Artes para a coletiva de imprensa do espetáculo “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”, estrelado pelo Renato Aragão. Sim, o Didi. Outra cena que nunca imaginei que se passaria na minha vida: sentar e fazer perguntas para o Didi. Insano. E perguntei sobre Mussum e Zacarias, porque eu sou desses. Foi divertido. Pra mim, pelo menos.
A coletiva terminou às 19h e eu tinha que estar em Botafogo para a sessão de um filme às 19h50. Tomei um táxi e consegui chegar exatamente em 50 minutos. Engoli um pastel e assisti a “Listen Up Philip”, que não gostei.
Voltei pra casa em um ônibus lotado, para me lembrar quem eu sou.

Quinta-feira, 2 de outubro
Assisti a um filme equatoriano e, no fim da sessão, o diretor e uma atriz entraram na sala para responder perguntas dos espectadores. Não fiz nenhuma, mas matei a saudade do idioma. Adoro espanhol, essa sonoridade. Não tem jeito. É uma língua que me leva a um outro lugar, de uma maneira que não sei explicar.
Cheguei em casa e, animado pelo dia anterior, tentei escrever algo novo. Não consegui, vencido pelo cansaço.

Sexta-feira, 3 de outubro
Neste dia, sinceramente, acho que não ocorreu nada fora do comum. Não dá para ser legal todo dia. Mas os filmes foram bons: “Mommy” e “Homens, Mulheres e Filhos”.

Sábado, 4 de outubro
Foi o dia dos músicos latinos no metrô, que já contei aqui. E também foi o dia que vi “Prop 8: O Casamento Gay em Julgamento”, que acompanha o processo de legalização do casamento igualitário na Califórnia. Saí do cinema influenciado.
– Tô bem a fim de casar. – disse para um amigo.
– Com quem?
– Com ninguém específico. Só tô nessa vibe de casar. Tô com vontade.
Assim, como quem quer comer um Big Mac.

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