Sonho ≠ Sonho

Sempre achei estranho que sonho, como objetivo de vida, tivesse o mesmo nome que sonho, aquele filminho que passa quando a gente dorme. E é assim em outros idiomas também. Dream. Sueño. Você não acha esquisito? Entendo que ambos são saídas da realidade, mas de maneiras tão distintas que mereciam palavras diferentes. Se passarmos do substantivo pra o verbo, o primeiro é quase sempre conjugado no presente, em menção a algo a conseguir no futuro, enquanto o segundo é sempre no passado, em referência à história assistida na última noite de sono. Isso atesta os lados opostos para os quais se direcionam. Sonho. Sonhei.

De volta ao substantivo, o que motivo essa reflexão, temos ainda um sentimento de posse com relação ao primeiro. Esse é quase sempre meu sonho, seu sonho, nosso sonho. Ao segundo não se refere assim – embora ele também seja meu, seu, nosso. Mas é involuntário. O primeiro é consciente, escolhido, criado. O segundo vem do inconsciente (ou do subconsciente, não lembro mais a termologia correta para o que quero comunicar). Mas o primeiro sonho implica quase sempre uma ação, tanto de motivação quanto de realização. O segundo, obviamente, não. Não se tem poder de controle sobre ele. Sonho. Sonho.

Tem gente que não sonha – nem um, nem outro. Não tem algo grande que queira conseguir ou realizar, e tampouco vivencia historinhas quando dorme. Considero dopado, em ambos os casos, quem é assim. Sem sonho. Sem sonho. E tem gente que sonha, mas não sonha, e vice-versa. Sempre pela metade. Meio dopado, aqui ou acolá.

Falando isso, lembro-me que o primeiro sonho é sempre ideal. O segundo às vezes teima em ser pesadelo. Vê como são diferentes? Um sonho pesadelo, nunca. Um sonho pesadelo, possível. No primeiro sonho, ninguém sonha o pior. Ou sonha? Aprendi a não gostar muito de expressões generalizadoras: ninguém, todos, tudo, nada. Quase sempre há exceções. Mas, ao que me refiro, é no mínimo incomum que alguém sonhe algo ruim, principalmente para si. Mas, no segundo sonho, é praxe – independente da idade, do sexo, da cultura ou da religião: tem-se pesadelos. Não se sonha em encontrar o Bicho Papão. Mas se sonha com o Bicho Papão.

Sonho às vezes não se explica, ou se explica muito mal. Em ambos os casos. Sonho. Sonho. Mas o primeiro move uma vida. O segundo, se duvidar, até paralisa. Mas também serve como indicador. Há quem mude uma vida inteira por causa de um sonho ou de um sonho. Mas a maioria leva a vida ao redor de um sonho, sem dar muita importância para um sonho. Sonho. Sonho.

Sonho x sonho. Mereciam palavras diferentes, talvez não por suas diferenças, mas pelo menos para evitar confusões textuais. Você talvez tenha se atrapalhado. E eu nem mencionei o da padaria.

Esse post é muito mais para mim do que para você

Esse post é muito mais para mim do que para você. É algo que vou querer ler daqui a alguns anos e lembrar que foi assim algum dia. O post anterior, sobre os músicos latinos no metrô, me inspirou a escrever esse, porque me dei conta que a última semana foi, de um modo geral, completamente incomum.
Estive fazendo a maratona anual para ver vários filmes do Festival do Rio, e vários são dezenas. Esse foi meu foco até o fim do evento, mas tantas outras situações aconteceram, e o inusitado sempre merece registro.

Domingo, 28 de setembro
Tive uma hora vaga entre um filme e outro, e fui passear na praia. Surpreendentemente, encontrei meu amor platônico do último Carnaval. Estava distraído e, quando me dei conta, caminhávamos lado a lado. Achei que era obra do destino. Tomei coragem e puxei papo. Conversamos pela primeira vez. Descobri o nome, mas não o Facebook.
De noite, tive uma conversa sobre os males da maconha com um amigo recém-saído da rehab, porque, sim, eu tenho um amigo recém-saído da rehab. E isso é muito louco.

Segunda-feira, 29 de setembro
Na fila para “Whiplash” (que é um filmão!), encontrei meu flerte da época de curso para o concurso da Ancine. Pensei: “que domingo louco!”. Ele não esboçou qualquer reação ao me ver. Foi como se, de fato, não me conhecesse. Terminei o dia com a sensação de que sou facilmente esquecível. E talvez seja mesmo. O filme, pelo menos, não é.

Terça-feira, 30 de setembro
Estreia do filme “Encantados”, produzido e dirigido pela família da minha amiga. Senti orgulho de todos eles. É tão bom ver os projetos dando certo, e as pessoas felizes, realizadas, satisfeitas consigo mesmas. Eu tenho um carinho enorme pelo Festival do Rio, então fiquei ainda mais tocado por estrearem o longa nesse evento.
Terminei a noite conversando sobre o filme com José Mayer. Bizarro. E ele é uma simpatia.

Quarta-feira, 1º de outubro
Talvez o dia mais WOW de todos que aqui narro. Fui ao colégio no qual estudei toda minha vida para participar de um fórum de literatura, no papel de ex-aluno escritor. Fui convidado por causa do “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai” e compartilhei a mesa com outras duas ex-alunas, contando nossas experiências para a galera do 3º ano. Foi uma experiência incrível, do tipo que nunca imaginei que eu teria na vida. Os estudantes foram muito receptivos, atenciosos e interessados, e alguns vieram conversar comigo individualmente depois. Estão em ano de vestibular e pediam dicas sobre a profissão de jornalista, por exemplo. Tão legal quanto assustador eu dando conselho para alguém. Eles tinham 17 anos e usavam uniforme, que nem eu ontem. Passa uma viagem pela cabeça.
De lá, corri para a Cidade das Artes para a coletiva de imprensa do espetáculo “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”, estrelado pelo Renato Aragão. Sim, o Didi. Outra cena que nunca imaginei que se passaria na minha vida: sentar e fazer perguntas para o Didi. Insano. E perguntei sobre Mussum e Zacarias, porque eu sou desses. Foi divertido. Pra mim, pelo menos.
A coletiva terminou às 19h e eu tinha que estar em Botafogo para a sessão de um filme às 19h50. Tomei um táxi e consegui chegar exatamente em 50 minutos. Engoli um pastel e assisti a “Listen Up Philip”, que não gostei.
Voltei pra casa em um ônibus lotado, para me lembrar quem eu sou.

Quinta-feira, 2 de outubro
Assisti a um filme equatoriano e, no fim da sessão, o diretor e uma atriz entraram na sala para responder perguntas dos espectadores. Não fiz nenhuma, mas matei a saudade do idioma. Adoro espanhol, essa sonoridade. Não tem jeito. É uma língua que me leva a um outro lugar, de uma maneira que não sei explicar.
Cheguei em casa e, animado pelo dia anterior, tentei escrever algo novo. Não consegui, vencido pelo cansaço.

Sexta-feira, 3 de outubro
Neste dia, sinceramente, acho que não ocorreu nada fora do comum. Não dá para ser legal todo dia. Mas os filmes foram bons: “Mommy” e “Homens, Mulheres e Filhos”.

Sábado, 4 de outubro
Foi o dia dos músicos latinos no metrô, que já contei aqui. E também foi o dia que vi “Prop 8: O Casamento Gay em Julgamento”, que acompanha o processo de legalização do casamento igualitário na Califórnia. Saí do cinema influenciado.
- Tô bem a fim de casar. – disse para um amigo.
- Com quem?
- Com ninguém específico. Só tô nessa vibe de casar. Tô com vontade.
Assim, como quem quer comer um Big Mac.

O valor de um sorriso (e de dois, de três e de quatro também)

Quando a gente viaja, fica aberto ao novo, ao diferente, ao inusitado. A gente para e ouve o artista de rua na praça histórica. Compra artesanato, que quase sempre é igual ao que tem perto da sua casa. Compra pinturas que jamais compraria em território conhecido. Solta dinheiro com agrado. Acha tudo lindo. É mais generoso e feliz, com a moeda internacional. A gente enxerga o mundo, e não apenas olha com automatismo. Esse pensamento tinha me vindo à cabeça durante uma caminhada pela orla de Copacabana, há sete dias, quando vi esculturas de areia, hippies com seus artefatos e músicos em quiosques. Com inveja dos turistas, parei e apreciei. Porque feliz é o turista.

Tal foi a minha surpresa, sete dias depois, eu, imerso no automatismo, surpreendido no vagão do metrô. Estava correndo do Kinoplex São Luiz, no Largo do Machado, para o Estação Botafogo, com cerca de cinco minutos para chegar à sessão do próximo filme. Kinoplex e Estação são, aliás, nomes de redes de cinema, para os desavisados. E ir de um ao outro é algo que só quem faz maratona no Festival do Rio entende. Mas releve. O fato é que eu basicamente estava mergulhado na minha preocupação de não chegar a tempo, quando tomei o metrô, torcendo para que aquilo voasse tipo trem-bala.

Não sei quanto tempo passei dentro daquele vagão. Meu percurso era de apenas duas estações. Foi rápido. Mas foi delicioso. Sim: andar de metrô foi delicioso. Era um sábado, nada de rush. Nada convencional, melhor dizendo. Assim que entrei, percebi dois latinos (não sei de que país, mas falavam portunhol) tocando uma música. Já estavam no fim, mas foi suficiente para que eu fosse contagiado. Arrancaram um sorriso de mim. Dois. Três. Quatro. Como eram carismáticos! Não é que eles chegavam, tocavam e cantavam. Faziam uma apresentação completa, com dancinhas bem humoradas e interação com os espectadores. Era difícil olhar para eles e não sorrir. Algo inexplicável. Desse tipo de cena que só vivendo, porque não dá para passar a frente em relato. Mas eu tento…

Não eram esses, mas podiam ser.

Não eram esses, mas podiam ser.

Quando acabaram aquela música, avisaram que fariam a saideira. E as pessoas quase fizeram um “aaaaaah” como no fim das entrevistas do Jô Soares. Brincaram que era a hora do “chapeuzinho” e que não valia tentar pular pela janela (o que, de qualquer maneira, não é possível, porque a janela do metrô não abre). Eles me faziam sorrir… muito. Quebraram a tensão da correria. E eu mesmo estava triste que minha estação estava chegando (filme? que filme? foi uma bosta, a propósito). Várias pessoas deram moedas, notas. Todas deram sorrisos. Eu dei cinco reais. Pensei: qual o valor do meu sorriso? Quanto merece quem me descontrai em um momento de tensão? Mais, certamente, mas estava com dinheiro contado. Levaram a nota e meus votos de felicidade. Que mudem, para melhor, o dia de outras pessoas, como mudaram o meu.

É, foi tudo bem

Ainda estamos no mês do meu aniversário. E ele já passou, o meu aniversário. Escrevi tantos posts sobre meus medos e expectativas com relação a ele, e não voltei aqui para contar como foi. Típico de mim. Típico de todos nós, talvez. Quando está tudo bem, a gente não dá as caras.

É, foi tudo bem.

Foi bem legal, na verdade. Com as pessoas certas com quem eu precisava estar, e nem sabia. Foi, talvez, a noite mais feliz do ano. Ou, ao menos, dos últimos meses. Minha memória não anda lá essas coisas para eu dar afirmações desse tipo. Mas foi uma noite boa, na qual eu me senti bem como há muito não me sentia. Essas relações de carinho… como a gente se afeta, né? Uns aos outros. Pode ser para o bem, ou para o mal. Cerquei-me de positividade.

Mas parece que já faz um tempão, não vou mentir. Meu aniversário. Depois que passa, passa. No momento, estou fazendo aquela maratona para ver vários filmes no Festival do Rio. Filmes também me afetam, para o bem ou para o mal. Dia desses, voltando para casa, entendi que preciso de outras histórias para viver. Cinema, teatro, literatura, música e, também, jornalismo são maneiras que encontrei para me manter são. Eu me conheço, me monto, me desenvolvo e me reconstruo melhor a partir do olhar do outro. Do outro sobre mim, também, mas do outro sobre a vida, principalmente. Preciso de outras histórias para pausar a minha própria. Preciso de pausas, senão eu não aguento. E acho que sempre foi assim. Só que agora de maneira racionalizada.

Eu acredito que todo mundo tenha pelo menos uma boa história para contar. Às vezes, a pessoa não sabe, mas tem. A vida de cada indivíduo tem algo que a torna interessante aos olhos do outro. Às vezes, é mais aparente, às vezes, não. Mas eu realmente acho que todos temos algo a dizer. Como dizer, nem todo mundo sabe. Poucos sabem, aliás. Muita gente não consegue se expressar. Ou busca a maneira errada de fazer isso.

Como eu cheguei a esse ponto, não sei. Mas tenho pensado nisso ultimamente. Fui convidado para voltar ao meu colégio e conversar com os alunos atuais sobre meu livro, “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai”. Algo descontraído, pelo que eu entendi, se eles estiverem interessados em mim, se eu tiver algo para contar, se tudo fluir bem. O quão insano é isso? É a escola na qual estudei minha vida inteira – da alfabetização até o último ano. É estranho pensar que fazem sete anos que saí de lá. Eu me sinto tão próximo e tão distante ao mesmo tempo daquele Leonardo Torres. Quando penso nesse convite, ainda consigo me ver sentado entre os alunos, pensando: “vamos aplaudir para ele calar a boca logo!”. Eu ainda consigo me ver de uniforme, mas tenho que pensar na roupa que vou usar nesse dia. Não tenho ideia de como vai ser esse encontro, mas sempre que penso no assunto, me vem isso à cabeça: todo mundo tem pelo menos uma história para contar. Se conseguir passar isso para alguém, já vou estar no lucro.

Coisa. Coisa. Coisa.

Toda noite, antes de dormir, ou cochilar, ou passar oito horas seguidas insone, eu tenho um insight. Penso “hum, que ideia legal, vou guardar para desenvolver amanhã”. No dia seguinte, eu não lembro mais de nada, claro. Quer dizer, lembro que tive uma ideia. Mas não consigo recordar qual. Deve acontecer com todo mundo, eu espero. Com todo mundo que tem ideias, ao menos. Os latentes. Os potenciais.

Meu aniversário está chegando e, meu Deus, eu acho que falo isso em todo post. Mas é um assunto que me perturba. Mais alguém com menos de 30 anos fica angustiado com aniversários? Não sei. Mas eu fico, desde que fiz 20. E esse ano, dizem por aí, posso completar 25, que é um número muito importante para mim. Nessa idade, eu gostaria de estar realizado, com a vida feita, em busca de supérfluos. Mas isso não aconteceu. Quer dizer, eu ainda tenho algumas semanas para tentar reverter o quadro, só que duvido que faça em semanas o que não fiz em anos. 25, mais precisamente.

Eu não sou normal. Tenho me dado cada vez mais consciência disso. E não sou normal de um maneira legal – tipo um gênio. Não, eu não sou normal, do tipo meio louco. Do tipo que faz essa afirmação e se preocupa se algum dia algum recrutador de uma vaga de emprego a lerá e a achará suficiente para me desclassificar. Bem, eu não sou normal mesmo. E meio louco não é louco inteiro. E isso aqui pode ser uma obra de ficção. Tenho a meu favor o fato de estar escrevendo às 3h18 da manhã. Nada do que alguém declara depois de meia noite deveria valer. São palavras-abóbora.

Escrevo a essa hora, em vez de fechar o olho e tentar dormir, na esperança do insight aparecer a tempo de ser registrado neste texto. Mas algo me diz que a ideia só virá quando eu relaxar e papar mosca. Papar mosca. Há quanto tempo eu não dizia isso. Papar mosca me remete à mesma época de bobocas e babacas. Ou seja, há duas décadas, porque estou quase fazendo 25 anos, o que é um quarto de século. Tenho certeza que é um problema quando você começa a falar sua idade em frações de século. 100 anos. Não espero chegar lá para dizer “um inteiro”. Já tenho dores de coluna demais. Eu não tinha, mas fui a um homeopata que disse que eu deveria sentir muitas dores, e eu realmente comecei a senti-las. Gostaria de acreditar que são psicológicas, para eu psicologicamente eliminá-las. Sou muito sedentário. Disseram-me que esse estilo de vida acarretaria danos, mas achei que se referiam aos 40 anos. Os 25 são os novos 50, talvez.

E tem esse aniversário… Não sei se comemoro. Não vejo motivos para comemorar nada ultimamente. Não que eu seja um cara deprimido (evito a banalização do termo clínico), mas sim um cara difícil. Do tipo que não quer viver de aparências – mas que também se ressente da ideia de passar o aniversário em branco. Sou filho de pais separados desde sempre, então estou acostumado a ter duas celebrações, dois presentes, tudo em dobro. A ideia de não ter nada é inquietante. Mas também alentadora. Como disse: comemorar o quê? “Cheguei aos 25”. Não é como se eu tivesse duvidado que chegaria… Estou considerando a hipótese de, em vez de reunir a galera (não sei nem se tenho uma mais), encher a mochilinha e me isolar em algum lugar legal. Ou ir para balada, que é uma maneira de reunir as pessoas, sem ter que conversar com elas. Desconsiderando o fato de que eu não gosto de baladas. Cada vez mais, entendo que, por não beber, a vida me é mais difícil. Estou sempre aqui, presente, sóbrio, ciente. Não me dou refresco. Ou só me dou refresco.

E o insight não veio. Acho que não dá para forçar esse tipo de coisa. Coisa. Minha professora de português praticamente não deixava que escrevêssemos essa palavra. É como uma declaração de falta de vocabulário. Coisa. Coisa. Coisa. Sempre evito escrever coisa. Mas, neste texto, liberto-me. Que coisa! C-o-i-s-a. Palavra boa de se dizer. Melhor que coisa só coisinha. Ou treco. E trecotinho. Trecotinho é de uma poesia. Lembra tricô, mas de uma maneira menos sênior.

Às vezes, quase sempre, me pergunto o que será da minha vida. Recentemente, tive provas de que tudo pode acontecer, inclusive nada. Esse clichezão da natureza. Na minha trajetória, especialmente, coisas se vão da mesma maneira que vêm (coisas!). Dizem que tem a ver com Iemanjá. Ou algo assim. Não entendo muito bem, mas é o balanço das ondas do mar – indo e vindo, incessantemente. É como se, para mim, fosse mais custoso agarrar algo, como a água do mar, por exemplo, que você fecha a mão na onda e quando abre ela está vazia. Tudo pode acontecer, inclusive nada. Por isso, sempre é bom ter uma garrafa. Ou um baldinho. Embora eu não entenda porque vá querer guardar a água do mar. Ainda mais poluída.

Nem entro no mar, se está impróprio para o banho. Não é deixar de viver com medo de sofrer (com uma doença de pele, no caso). Viver é se arriscar, e sofrer faz parte. Mas se arriscar é diferente de se suicidar. Quem se arrisca tem uma chance de acerto. Quem se suicida, não. Há controvérsias… mas o que digo é: ter medo de sofrer é antecipar uma possibilidade, diferente de ter certeza do iminente sofrimento. Além do mais, são sempre os mais corajosos que se ferram. Eu me considero bastante corajoso, em vários aspectos, então permito-me ter cautela em tantos outros. Como o mar poluído. Ah, o mar.

Não sou normal. Já começo a bocejar, e minha cabeça tá ficando ruim. Insisto nesse insight, mas isso não se força. Acontece, e nada está acontecendo no meu cérebro agora. Escrevo de olhos fechados, cansado, como a criança que não aguenta e adormece à espera do Papai Noel. Figura boa essa – o Papai Noel. Sempre traz presentes. Estou precisando de mais Papais Noéis e menos, sei lá, duendes. São os duendes que roubam e escondem nossas coisas (!) né? Desagradáveis. Roubaram minha vida inteira, talvez. Sou como Holly, à espera dos acontecimentos: “quando nossa vida vai começar?”. E Gerry diz que já começou. Já? Mas nem Gerry eu tenho. Geralmente, eu sou o Gerry. E Gerry morre. É, “P.S. Eu Te Amo”, você sabe.

Bem, o insight não veio. Não vem. São 4h. Esperei bastante. Boa noite.

Afete-me

A proximidade dos meus 25 anos (embora eu vá tentar emplacar um 21 ou 22 nas rodinhas de amigos) tem me deixado especialmente nostálgico. E eu não sou do tipo de pessoa que tem vergonha de olhar para trás, definitivamente. Não acho menor lembrar, e de certa forma reviver, minha(s) história(s). Não acredito que isso me impeça de olhar para frente, nem de viver o presente. Gosto de recordar bons momentos, sim. Mergulhei em álbuns de fotografias, revi lugares, pessoas, comédias, dramas, e cheguei à conclusão de que o que move nossa vida é mesmo a relação com o outro.

Se não fossem os outros seres humanos, poderíamos traçar uma reta desde a infância e segui-la cegamente. Sem nenhuma curva. São os encontros, e os desencontros, que nos proporcionam os contornos. Não é sobre mudar de caminho que eu digo, embora essa também seja uma possibilidade. Falo sobre permitir-se novas experiências, sair do programado, sem perder o rumo. Saber aonde quer chegar, mas aceitar fazer um caminho diferente, entrar em uma rua desconhecida só para ver como é.

Alguém pode te recomendar um livro que você nunca leria por vontade própria. Ou te convidar para conhecer sua casa, em uma cidade que você não tinha a menor intenção de conhecer. Também te levar ao show de uma banda desconhecida, ou simplesmente de uma banda fora de sua playlist. Ou ainda te encaminhar uma oportunidade de emprego; te sugerir um aplicativo que vai te viciar; fazer uma fofoca que vai te destruir ou te enaltecer; e te apresentar outra pessoa, que trará ainda novas possibilidades à sua vida. Ainda que inerte, o outro te afeta. Apaixonado, você mergulha nos interesses da outra pessoa, para entendê-la, para se aproximar, e conhece novos mundos.

Vendo os álbuns de fotos, entendi isso. Tenho fotos com amigos com quem perdi totalmente o contato (o que contraria meu post anterior), e alguns que me custaram até lembrar o nome. Mas todos me proporcionaram alguma experiência diferente, uma história, uma vivência. Tenho achado que ninguém passa pela vida de ninguém sem deixar um rastro, por menos significativo que seja. E não é como se eu quisesse abraçar o mundo, mas abraço o meu mundo.

Não sou do tipo de gente que conversa com quem tá do lado na fila. Mesmo que a fila dure uma hora ou mais, sou capaz de entrar e sair dela calado. Sou introspectivo. Extrovertido, só quando estou com alguém que conheço. Não posso dizer que estou sempre aberto a novas amizades, porque seria uma mentira. Mas tenho consciência disso: nós que movemos uns aos outros. Gente precisa de gente. E que bom que é assim.

“Estou sem amigos!”

Abri o ano com uma discussão introspectiva muito importante sobre os papeis sociais que somos obrigados a interpretar desde que nascemos. Corresponder ao que esperam da gente, exercer atividades a contragosto por consideração, e cuidar da manutenção de relações frágeis por hábito. Meses e muitas sessões de análise depois, não tenho respostas muito definidas, mas estou me desgastando menos pelo que menos me interessa no momento. Estamos em agosto e a proximidade do meu aniversário me faz pensar, pensar, pensar… ainda mais, sobretudo nesse aspecto. Em algum momento, terei uma lista de convidados a fazer, à espera de uma lista de confirmados, cada vez mais incerta e nebulosa para mim. Quem é importante? Quem é recíproco? Quem desconsidero e me dá valor? Quem é só volume?

Pergunto-me frequentemente se estou no caminho certo. Outro dia, declarei à minha psicóloga: “estou sem amigos”. Era uma declaração forte e mentirosa, mas representativa do que eu sentia naquele momento. Também não pude deixar de notar a ironia da situação – eu me sentia solitário justamente no ano em que conscientemente me afastei de pessoas com as quais não me sentia mais conectado. De amigos, de amigas. Transformei-os em colegas, sem rupturas, sem alarde, talvez sem que eles percebessem, porque poderia querer acioná-los em qualquer momento. Os meses passaram, e eu não quis. Uma esquivada de um convite aqui, uma mensagem sem resposta no Facebook ali, e vida que segue.

2014 tem sido um ano muito meu, de investimento em mim mesmo, de muito trabalho, de muitas atividades e compromissos. Por isso, seleciono cada vez mais – gostaria de dizer, “cada vez melhor”, mas não tenho essa certeza – como e com quem gasto meu tempo. A quem o dedico. Aproximei-me mais de umas pessoas do que outras, por afinidades momentâneas e conexões que fazem mais sentido no contexto atual. Na realidade, é muito ruim fazer parte dessa geração de redes sociais virtuais, porque não temos o direito a perder o contato. Relações que teriam se perdido pelas circunstâncias naturais da vida ficam ali, arrastadas, enferrujadas, maquiadas, mas ali. E eu acho que, às vezes, é preciso perder para encontrar, se encontrar, reencontrar. “Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais”.

Temo ser intolerante demais, inflexível demais, radical demais. Mas estou em uma fase em que realmente não estou disposto a gastar energia com o que me parece cênico. À mesa do jantar ou à mesa do bar, é possível divertir-se e sentir-se em casa, da mesma maneira que há espaço para desconforto e animosidade. Não quero estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa, doido para me livrar daquela situação. Não tenho tempo para gastar com isso. Para quê? Para quê? Francamente.

É claro que, da mesma maneira, me conecto com pessoas com as quais acho que não devia, mas elas me entretêm. Amigos que conheço bem os defeitos, que os desaprovo, que os desprezo até, mas dos quais não consigo me afastar. “Já aceitei. Fulano e Sicrana não vão sair da minha vida. Não tem jeito”, eu disse, há alguns meses, para minha psicóloga, que pareceu não gostar do que ouviu. Há relações que fogem ao meu controle, e não me enfadam, então vão ficando. Eu me preocupo, sim, com a qualidade dos relacionamentos que estou levando para o futuro, que não será nada mais do que uma consequência das decisões presentes. Mas minha questão é muito mais interna do que externa. Como posso explicar?

A peneira da minha vida tem refletido menos o que as pessoas são, ou o quanto são merecedoras e admiráveis, e mais como eu me sinto com elas. Há errantes com os quais me sinto bem, e fazer o quê? Há amigos com os quais não vejo mais conexão, sintonia, afinidade; e com os quais a suposta intimidade ultimamente me agride. “Como eu me sinto quando…” estou com Sicrano. É tudo sobre isso. Não é sobre quem Sicrano é. Assim, me entendo melhor, me culpo menos, me aceito mais. “Não é você, sou eu”. Hoje, compreendo o clichê social para rompimentos.

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