2014 foi um ano difícil

2014 foi um ano difícil. Geralmente, quem diz isso é porque perdeu algum familiar próximo e passou o primeiro Natal de luto. Não é meu caso. Ainda bem. Compadeço-me de quem teve essa experiência. Seu ano foi difícil mesmo. Sinto até um pouco de culpa por dar continuidade a esse texto, mas cada um carrega a sua cruz. O meu ano não foi difícil dessa maneira óbvia. Foi difícil do tipo “um ano inteiro na terapia tentando aceitar o quanto a vida estava em oposição ao que deveria ser”. É péssimo – e péssimo significa mais que difícil – quando tudo o que te resta é tentar lidar melhor com algo insatisfatório, em vez de reverter a situação. Ao menos, acho que cheguei a dezembro melhor do que estava em janeiro. Sofro e me desespero menos hoje do que ontem. Mas ainda não me resigno, e me questiono se essa suposta evolução é de fato boa.

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Quando olho minha lista de resoluções para este ano, sinto-me estagnado. Quase nada foi feito. Não eram exatamente pontos inalcançáveis. Nada como comprar minha primeira mansão ou dar a volta ao mundo da noite para o dia. Eram metas dentro da realidade, e ficaram apenas no plano das ideias. Algumas se repetiram e entraram nas resoluções de 2015, no maior estilo “agora vai!”. Outras eu deixei para lá, assumidamente desistente. Acho que é assim com a maioria das pessoas. Devo estar me tornando, se já não me tornei, um clichê social: do tipo que faz resoluções e não realiza. Do tipo sem determinação, que promete começar uma dieta na segunda e sempre prorroga para a outra semana. Eu fiz isso com abdominais neste ano: autoboicote seguido de autoboicote. No momento, minha desculpa é que não é viável fazer qualquer abdominal nesse verão de 45ºC. Convenhamos. Vamos deixar para o outono. Não sei como você aguenta.

Eu estou me segurando para não dizer que meu ano foi e que minha vida é uma bosta. Tendo a essas declarações exageradas para expressar como me sinto – que é uma bosta. Mas, você sabe, 2014 também abriu meus olhos para realidades que me impedem de falar algo parecido. Fico envergonhado de pensar assim, de ter um drama burguês, um sofrimento de classe média. Não dá para remoer muito uma tristeza por algo inalcançado do topo da pirâmide com pessoas em situação de necessidade na base dessa mesma pirâmide. Só que uma chateação frívola ainda é uma chateação genuína.

INVEJA

Vou apresentar minha questão de outra maneira. 2014 foi o ano da inveja – e fiz esse balanço há pouco, nessas reflexões que a maioria de nós faz na proximidade da virada do ano. A inveja pautou os últimos meses, com diferentes caras e em diversas situações. Vale aqui um adendo: eu odeio inveja. O fato de 2014 ser o ano da inveja é bem nítido de um ano de bosta, na opinião de alguém que despreza a inveja (no caso, eu). Para mim, ela expressa o pior que alguém pode sentir por outra pessoa, às vezes camuflado de algo mais brando.

Eu sei que fui invejado, mais de uma vez e por mais de uma pessoa. Sempre tem aquela pessoa que curte tudo que você posta no Facebook, e não está exatamente a fim de você. Você sabe que é uma curtida do tipo “queria estar no seu lugar”. E é uma bobeira, porque eu não sou uma pessoa invejável, mas as pessoas se esbaldam com bem pouco mesmo. E vivemos a época da autoexposição e, consequentemente, da inveja. Ao mesmo tempo em que sinto nojo, sei que provoco esse sentimento nos outros ao fazer uma edição virtual e mostrar apenas o que minha vida tem de melhor (ou seja, de invejável). Só que o melhor é 5% do todo. Quem me inveja, pode-se dizer, inveja uma vida inexistente e artificial. E falo de mim porque sou eu que escrevo, mas me atrevo a generalizar. Olhe sua timeline e diga-me se não é uma vitrine de autoexposições com o único intuito de provocar inveja: seja da comida japonesa, do banho de piscina, da viagem internacional, do tanquinho, da nova aquisição, do novo namorado, enfim, as possibilidades são infinitas ou perto disso.

Tanto é que nem eu resisti. Levei a questão para o consultório este ano, devastado e decepcionado comigo mesmo: senti inveja. Eu culpo nossa geração virtual, com a provocação de inveja via ostentação em Facebook e Instagram, mas eu me dei conta que estava sentindo-a na mesa de um bar. E, você pode não acreditar, mas acho que foi a primeira vez que senti (não garanto, porque posso ter sentido na infância, sem autoconsciência). Fiquei mal comigo mesmo, porque achava que era imune a isso. Para mim, era uma questão de caráter, e o meu se tornou frágil naquela situação. Minha psicóloga tentou me mostrar que inveja é um sentimento humano e eu sou humano, como todo mundo, sujeito a senti-la também. Mas eu realmente achava que estava acima disso. Descobri que não.

2014 foi um ano difícil, e eu sintetizá-lo com a palavra inveja é a maior prova disso. Por isso, em 2015, tentarei fugir para outro lado. Fazer a minha parte. Vou tentar passar três meses sem postar fotos, para não gerar inveja no universo. Sei que essa declaração é pedante, mas garanto que não é uma questão de ego: qualquer um pode gerar inveja em qualquer um. Quando você posta uma foto de sua cadelinha de banho tomado e enfeitadinha com um laço na cabeça, alguém está te invejando, querendo seu bichinho para si. São coisas simples assim, que a gente não se dá conta. Por isso, vou fazer essa experiência. E, com relação a mim, acho difícil me pegar invejando os outros. Espero que tenha sido um episódio pontual e que demore outras décadas para acontecer de novo. Inveja é um sentimento horrível, de verdade, mas que vem pautando a rotina da sociedade contemporânea, com uns se informando sobre a vida dos outros por suas timelines, sem a necessidade de trocar um “bom dia”. Quando todo mundo quer mostrar que está bem (porque a felicidade se tornou uma obrigação), tornamo-nos todos artificiais, invejáveis e invejosos. Não quero compactuar com isso. Xô, sentimento ruim! Que venha 2015 e que sirva para alguma coisa.

A experiência de Jardim Gramacho

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Quando saí do carro, não vou mentir, não vi nada. Só senti, e foi calor. Houve o choque término entre o ar condicionado do automóvel e o ar abafado da comunidade de Jardim Gramacho. Em seguida, olhei ao redor. Ainda não sei se enxerguei. Senti certa confusão. Apesar de ter muita gente (à nossa espera), o cenário parecia abandonado, devastado, esquecido. Notei que o chão era de terra batida e pensei “antes sol do que chuva”, já com o suor escorrendo instantaneamente. Por fim, enxerguei as pessoas. Era muita gente – adultos, ainda. Alguns já estressados pela fila, pela demora, pelo calor, pela desordem. Vi as crianças, então, andando descalças, alheias a qualquer questão de higiene. Uma menina com aparência de sete anos atravessando a rua com o irmão menor pela mão. Questionei-me sobre os pais deles e pude perceber que a cena se repetia: crianças descalças, indefesas, expostas. A metros dali, havia bocas de fumo – eu não sabia disso naquele momento, mas já achava a situação perigosa. Rapidamente entendi: era outra realidade. Não a minha.

Fui parar lá quase que por obra do acaso. Semanas antes, havia visto a publicidade de uma campanha de arrecadação de brinquedos e cestas básicas no Instagram, e senti vontade de participar. Entrei em contato com a organizadora, Paula Passos, e me engajei. Comprei alguns brinquedos, divulguei, convoquei amigos, pedi para pessoas influentes divulgarem… Não tenho muito dinheiro, mas estava com vontade de ajudar, e colaborei com contatos e contatos de contatos. Deu certo. É curioso, mas, quando algo é para o bem, acontece! Graças a uma amiga, a namorada do Zezé Di Camargo divulgou a campanha e uma seguidora dela enviou mil brinquedos para doação! Mil! Antes mesmo do dia da entrega, eu já estava com a sensação de missão cumprida. Mas fui lá… Não ia perder a melhor parte.

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Formamos um grupo, no qual eu não conhecia ninguém, e seguimos em direção ao Jardim Gramacho, mais precisamente à sede do projeto Ide Missões. Acho que, neste caso, minha mãe perdoaria o fato de entrar no carro de estranhos. Eu não teria chegado lá sozinho. Não é perto. Eu já tinha pensado nisso antes: por que Gramacho? Não poderíamos ajudar crianças de outro lugar, de uma comunidade mais próxima? Mas depois me repreendi: por que não Gramacho? Eu já estive em outras favelas antes, mas lá realmente é diferente. Como disse, é um lugar abandonado – não só pelo governo, mas parece que por tudo e todos. É diferente. Lembrei da cidade de Encarnación, no Paraguai, na fronteira com Posadas, na Argentina. Um lugar que achei bem feio quando visitei, há alguns anos. Com a desativação do lixão, muitas famílias de Jardim Gramacho perderam sua renda. Para aquelas crianças que nós fomos levar presentes, a primeira oportunidade de emprego é no tráfico de drogas. Entende a situação? Há falta de perspectiva.

Primeiro, foram entregues as cestas básicas. Participei pouco dessa parte, porque estava ajudando a separar os brinquedos por faixa etária e sexo, mas vi algumas cenas impressionantes. Uma cesta ou outra era mais caprichada e tinha panetone para o Natal. Quem a recebia ficava extremamente agradecido. Eu vi uma mulher comemorar o panetone como quem ganha algo muito valioso. Foi quando me toquei que nem sei quanto custa isso, mas que todo ano jogo um fora, quase inteiro. Eu e minha mãe compramos só para a vovó comer na ceia, mas nenhum de nós gosta, então acaba indo para o lixo depois.

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Tinha também muita roupa – mas muita mesmo, resultado de várias doações – e os adultos eram ávidos em fazer uma busca na torre amontoada, selecionando o que interessava. Os organizadores diziam que as roupas seriam entregues outro dia, mas muitos não resistiam. Eu fiquei particularmente tocado quando um menininho de seis anos não gostou do presente que recebeu (crianças tão sinceras!) e eu fui lá dentro pegar algo legal para ele.

– O que você gosta?

– O que tem aí?

Achei a réplica ousada e quase pensei que ele não precisasse tanto dos brinquedos, fazendo exigências, mas fui paciente:

– Tem um monte de coisa. Você tem que me dizer o que você gosta (felizmente, tínhamos muitas opções e as crianças podiam sim escolher).

– Tem roupa?

Ele estava descalço e sem camisa – algo que, naquela altura, eu já estava erroneamente acostumado a ver (estava calor, mas algo me dizia que ele estaria da mesma maneira se a temperatura fosse outra) – e só então notei que aquele menino tinha outras necessidades. Ele estava tentando conseguir uma vestimenta como presente, e não um brinquedo, porque sua carência era mais acentuada, talvez. Afinal, que criança prefere ganhar roupa ao invés de brinquedo? Fiquei espantado, mas compreendi as entrelinhas. Ele não era eu.

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Também me chamou a atenção como essas pessoas pensam sempre em alguém mais. Não posso dizer que não são egoístas, porque vi sim muita criança disputando brinquedos específicos. Duas meninas arrancaram da minha mão uma boneca maneira e ficaram puxando a caixa de um lado para o outro ao som de “peguei primeiro!”. Mas acho isso normal, principalmente no contexto social deles. O que quero dizer é outra coisa. Ouvi tanto “posso levar para minha irmã?”, “posso levar para meu neto?” e similares. Podia ser mentira, claro, podia ser ganância de querer pegar mais do que os outros, mas eu acreditei em todos. Quem me pediu levou. Felizmente, acumulamos muitos brinquedos, então não tinha porque ficar de miséria. Mesmo quem já tinha pegado algo e me pedia outra coisa, eu entregava. Uma garota, que devia ter uns 12 anos, estava saindo com uma caixa de presente, uma boneca e mais alguma bobagem e, quando me viu cheio de arcos de cabelo no braço, pediu um, esperando um não como resposta. Deu para ver no rosto dela que ela achava um excesso ganhar um arco. Só que obviamente não era. Era só um arco! Qual você quer?

Uma enormidade me separava daquelas pessoas, e eu nem sabia que isso era possível. Eu me considero pobre e pé no chão. A maioria dos meus amigos tem situação financeira melhor do que a minha. Mas, lá em Gramacho, eu me senti tão privilegiado e percebi que sou tão alienado. Algumas cenas e algumas perguntas me pegavam de surpresa, porque eu não esperava que elas existissem realmente. E, mesmo o que eu vislumbrava… há um mundo entre saber que existem pessoas que passam fome e, de fato, passar fome. Nunca cheguei perto disso. Sempre tive todos os brinquedos que queria e sempre que precisei de roupa pude comprar. Talvez eu, e muita gente, não me atente para a saciedade de necessidades básicas, justamente porque não saciá-las nunca foi uma questão. A gente naturaliza o que para os outros é uma batalha diária: o que comer, por exemplo.

Eu entendo todas essas pessoas que vivem fazendo caridade e dizem “quem mais ganha sou eu”, porque foi exatamente assim que me senti. Você volta para casa revitalizado, com ótimos sentimentos. Mas não dura muito, confesso. Quando você para e pensa que ajudou apenas um dia daquelas pessoas e elas têm outros 364 para enfrentar, bate uma tristezinha. Quando você pensa no futuro daquelas crianças, cercadas de boca de fumo, bate um desespero. Há alguma perspectiva? Dá medo até de pensar no assunto. Mas tem que pensar. Você não consegue fechar os olhos depois de ter visto tanto.

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Sonho ≠ Sonho

Sempre achei estranho que sonho, como objetivo de vida, tivesse o mesmo nome que sonho, aquele filminho que passa quando a gente dorme. E é assim em outros idiomas também. Dream. Sueño. Você não acha esquisito? Entendo que ambos são saídas da realidade, mas de maneiras tão distintas que mereciam palavras diferentes. Se passarmos do substantivo pra o verbo, o primeiro é quase sempre conjugado no presente, em menção a algo a conseguir no futuro, enquanto o segundo é sempre no passado, em referência à história assistida na última noite de sono. Isso atesta os lados opostos para os quais se direcionam. Sonho. Sonhei.

De volta ao substantivo, o que motivo essa reflexão, temos ainda um sentimento de posse com relação ao primeiro. Esse é quase sempre meu sonho, seu sonho, nosso sonho. Ao segundo não se refere assim – embora ele também seja meu, seu, nosso. Mas é involuntário. O primeiro é consciente, escolhido, criado. O segundo vem do inconsciente (ou do subconsciente, não lembro mais a termologia correta para o que quero comunicar). Mas o primeiro sonho implica quase sempre uma ação, tanto de motivação quanto de realização. O segundo, obviamente, não. Não se tem poder de controle sobre ele. Sonho. Sonho.

Tem gente que não sonha – nem um, nem outro. Não tem algo grande que queira conseguir ou realizar, e tampouco vivencia historinhas quando dorme. Considero dopado, em ambos os casos, quem é assim. Sem sonho. Sem sonho. E tem gente que sonha, mas não sonha, e vice-versa. Sempre pela metade. Meio dopado, aqui ou acolá.

Falando isso, lembro-me que o primeiro sonho é sempre ideal. O segundo às vezes teima em ser pesadelo. Vê como são diferentes? Um sonho pesadelo, nunca. Um sonho pesadelo, possível. No primeiro sonho, ninguém sonha o pior. Ou sonha? Aprendi a não gostar muito de expressões generalizadoras: ninguém, todos, tudo, nada. Quase sempre há exceções. Mas, ao que me refiro, é no mínimo incomum que alguém sonhe algo ruim, principalmente para si. Mas, no segundo sonho, é praxe – independente da idade, do sexo, da cultura ou da religião: tem-se pesadelos. Não se sonha em encontrar o Bicho Papão. Mas se sonha com o Bicho Papão.

Sonho às vezes não se explica, ou se explica muito mal. Em ambos os casos. Sonho. Sonho. Mas o primeiro move uma vida. O segundo, se duvidar, até paralisa. Mas também serve como indicador. Há quem mude uma vida inteira por causa de um sonho ou de um sonho. Mas a maioria leva a vida ao redor de um sonho, sem dar muita importância para um sonho. Sonho. Sonho.

Sonho x sonho. Mereciam palavras diferentes, talvez não por suas diferenças, mas pelo menos para evitar confusões textuais. Você talvez tenha se atrapalhado. E eu nem mencionei o da padaria.

Esse post é muito mais para mim do que para você

Esse post é muito mais para mim do que para você. É algo que vou querer ler daqui a alguns anos e lembrar que foi assim algum dia. O post anterior, sobre os músicos latinos no metrô, me inspirou a escrever esse, porque me dei conta que a última semana foi, de um modo geral, completamente incomum.
Estive fazendo a maratona anual para ver vários filmes do Festival do Rio, e vários são dezenas. Esse foi meu foco até o fim do evento, mas tantas outras situações aconteceram, e o inusitado sempre merece registro.

Domingo, 28 de setembro
Tive uma hora vaga entre um filme e outro, e fui passear na praia. Surpreendentemente, encontrei meu amor platônico do último Carnaval. Estava distraído e, quando me dei conta, caminhávamos lado a lado. Achei que era obra do destino. Tomei coragem e puxei papo. Conversamos pela primeira vez. Descobri o nome, mas não o Facebook.
De noite, tive uma conversa sobre os males da maconha com um amigo recém-saído da rehab, porque, sim, eu tenho um amigo recém-saído da rehab. E isso é muito louco.

Segunda-feira, 29 de setembro
Na fila para “Whiplash” (que é um filmão!), encontrei meu flerte da época de curso para o concurso da Ancine. Pensei: “que domingo louco!”. Ele não esboçou qualquer reação ao me ver. Foi como se, de fato, não me conhecesse. Terminei o dia com a sensação de que sou facilmente esquecível. E talvez seja mesmo. O filme, pelo menos, não é.

Terça-feira, 30 de setembro
Estreia do filme “Encantados”, produzido e dirigido pela família da minha amiga. Senti orgulho de todos eles. É tão bom ver os projetos dando certo, e as pessoas felizes, realizadas, satisfeitas consigo mesmas. Eu tenho um carinho enorme pelo Festival do Rio, então fiquei ainda mais tocado por estrearem o longa nesse evento.
Terminei a noite conversando sobre o filme com José Mayer. Bizarro. E ele é uma simpatia.

Quarta-feira, 1º de outubro
Talvez o dia mais WOW de todos que aqui narro. Fui ao colégio no qual estudei toda minha vida para participar de um fórum de literatura, no papel de ex-aluno escritor. Fui convidado por causa do “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai” e compartilhei a mesa com outras duas ex-alunas, contando nossas experiências para a galera do 3º ano. Foi uma experiência incrível, do tipo que nunca imaginei que eu teria na vida. Os estudantes foram muito receptivos, atenciosos e interessados, e alguns vieram conversar comigo individualmente depois. Estão em ano de vestibular e pediam dicas sobre a profissão de jornalista, por exemplo. Tão legal quanto assustador eu dando conselho para alguém. Eles tinham 17 anos e usavam uniforme, que nem eu ontem. Passa uma viagem pela cabeça.
De lá, corri para a Cidade das Artes para a coletiva de imprensa do espetáculo “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”, estrelado pelo Renato Aragão. Sim, o Didi. Outra cena que nunca imaginei que se passaria na minha vida: sentar e fazer perguntas para o Didi. Insano. E perguntei sobre Mussum e Zacarias, porque eu sou desses. Foi divertido. Pra mim, pelo menos.
A coletiva terminou às 19h e eu tinha que estar em Botafogo para a sessão de um filme às 19h50. Tomei um táxi e consegui chegar exatamente em 50 minutos. Engoli um pastel e assisti a “Listen Up Philip”, que não gostei.
Voltei pra casa em um ônibus lotado, para me lembrar quem eu sou.

Quinta-feira, 2 de outubro
Assisti a um filme equatoriano e, no fim da sessão, o diretor e uma atriz entraram na sala para responder perguntas dos espectadores. Não fiz nenhuma, mas matei a saudade do idioma. Adoro espanhol, essa sonoridade. Não tem jeito. É uma língua que me leva a um outro lugar, de uma maneira que não sei explicar.
Cheguei em casa e, animado pelo dia anterior, tentei escrever algo novo. Não consegui, vencido pelo cansaço.

Sexta-feira, 3 de outubro
Neste dia, sinceramente, acho que não ocorreu nada fora do comum. Não dá para ser legal todo dia. Mas os filmes foram bons: “Mommy” e “Homens, Mulheres e Filhos”.

Sábado, 4 de outubro
Foi o dia dos músicos latinos no metrô, que já contei aqui. E também foi o dia que vi “Prop 8: O Casamento Gay em Julgamento”, que acompanha o processo de legalização do casamento igualitário na Califórnia. Saí do cinema influenciado.
– Tô bem a fim de casar. – disse para um amigo.
– Com quem?
– Com ninguém específico. Só tô nessa vibe de casar. Tô com vontade.
Assim, como quem quer comer um Big Mac.

O valor de um sorriso (e de dois, de três e de quatro também)

Quando a gente viaja, fica aberto ao novo, ao diferente, ao inusitado. A gente para e ouve o artista de rua na praça histórica. Compra artesanato, que quase sempre é igual ao que tem perto da sua casa. Compra pinturas que jamais compraria em território conhecido. Solta dinheiro com agrado. Acha tudo lindo. É mais generoso e feliz, com a moeda internacional. A gente enxerga o mundo, e não apenas olha com automatismo. Esse pensamento tinha me vindo à cabeça durante uma caminhada pela orla de Copacabana, há sete dias, quando vi esculturas de areia, hippies com seus artefatos e músicos em quiosques. Com inveja dos turistas, parei e apreciei. Porque feliz é o turista.

Tal foi a minha surpresa, sete dias depois, eu, imerso no automatismo, surpreendido no vagão do metrô. Estava correndo do Kinoplex São Luiz, no Largo do Machado, para o Estação Botafogo, com cerca de cinco minutos para chegar à sessão do próximo filme. Kinoplex e Estação são, aliás, nomes de redes de cinema, para os desavisados. E ir de um ao outro é algo que só quem faz maratona no Festival do Rio entende. Mas releve. O fato é que eu basicamente estava mergulhado na minha preocupação de não chegar a tempo, quando tomei o metrô, torcendo para que aquilo voasse tipo trem-bala.

Não sei quanto tempo passei dentro daquele vagão. Meu percurso era de apenas duas estações. Foi rápido. Mas foi delicioso. Sim: andar de metrô foi delicioso. Era um sábado, nada de rush. Nada convencional, melhor dizendo. Assim que entrei, percebi dois latinos (não sei de que país, mas falavam portunhol) tocando uma música. Já estavam no fim, mas foi suficiente para que eu fosse contagiado. Arrancaram um sorriso de mim. Dois. Três. Quatro. Como eram carismáticos! Não é que eles chegavam, tocavam e cantavam. Faziam uma apresentação completa, com dancinhas bem humoradas e interação com os espectadores. Era difícil olhar para eles e não sorrir. Algo inexplicável. Desse tipo de cena que só vivendo, porque não dá para passar a frente em relato. Mas eu tento…

Não eram esses, mas podiam ser.

Não eram esses, mas podiam ser.

Quando acabaram aquela música, avisaram que fariam a saideira. E as pessoas quase fizeram um “aaaaaah” como no fim das entrevistas do Jô Soares. Brincaram que era a hora do “chapeuzinho” e que não valia tentar pular pela janela (o que, de qualquer maneira, não é possível, porque a janela do metrô não abre). Eles me faziam sorrir… muito. Quebraram a tensão da correria. E eu mesmo estava triste que minha estação estava chegando (filme? que filme? foi uma bosta, a propósito). Várias pessoas deram moedas, notas. Todas deram sorrisos. Eu dei cinco reais. Pensei: qual o valor do meu sorriso? Quanto merece quem me descontrai em um momento de tensão? Mais, certamente, mas estava com dinheiro contado. Levaram a nota e meus votos de felicidade. Que mudem, para melhor, o dia de outras pessoas, como mudaram o meu.

É, foi tudo bem

Ainda estamos no mês do meu aniversário. E ele já passou, o meu aniversário. Escrevi tantos posts sobre meus medos e expectativas com relação a ele, e não voltei aqui para contar como foi. Típico de mim. Típico de todos nós, talvez. Quando está tudo bem, a gente não dá as caras.

É, foi tudo bem.

Foi bem legal, na verdade. Com as pessoas certas com quem eu precisava estar, e nem sabia. Foi, talvez, a noite mais feliz do ano. Ou, ao menos, dos últimos meses. Minha memória não anda lá essas coisas para eu dar afirmações desse tipo. Mas foi uma noite boa, na qual eu me senti bem como há muito não me sentia. Essas relações de carinho… como a gente se afeta, né? Uns aos outros. Pode ser para o bem, ou para o mal. Cerquei-me de positividade.

Mas parece que já faz um tempão, não vou mentir. Meu aniversário. Depois que passa, passa. No momento, estou fazendo aquela maratona para ver vários filmes no Festival do Rio. Filmes também me afetam, para o bem ou para o mal. Dia desses, voltando para casa, entendi que preciso de outras histórias para viver. Cinema, teatro, literatura, música e, também, jornalismo são maneiras que encontrei para me manter são. Eu me conheço, me monto, me desenvolvo e me reconstruo melhor a partir do olhar do outro. Do outro sobre mim, também, mas do outro sobre a vida, principalmente. Preciso de outras histórias para pausar a minha própria. Preciso de pausas, senão eu não aguento. E acho que sempre foi assim. Só que agora de maneira racionalizada.

Eu acredito que todo mundo tenha pelo menos uma boa história para contar. Às vezes, a pessoa não sabe, mas tem. A vida de cada indivíduo tem algo que a torna interessante aos olhos do outro. Às vezes, é mais aparente, às vezes, não. Mas eu realmente acho que todos temos algo a dizer. Como dizer, nem todo mundo sabe. Poucos sabem, aliás. Muita gente não consegue se expressar. Ou busca a maneira errada de fazer isso.

Como eu cheguei a esse ponto, não sei. Mas tenho pensado nisso ultimamente. Fui convidado para voltar ao meu colégio e conversar com os alunos atuais sobre meu livro, “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai”. Algo descontraído, pelo que eu entendi, se eles estiverem interessados em mim, se eu tiver algo para contar, se tudo fluir bem. O quão insano é isso? É a escola na qual estudei minha vida inteira – da alfabetização até o último ano. É estranho pensar que fazem sete anos que saí de lá. Eu me sinto tão próximo e tão distante ao mesmo tempo daquele Leonardo Torres. Quando penso nesse convite, ainda consigo me ver sentado entre os alunos, pensando: “vamos aplaudir para ele calar a boca logo!”. Eu ainda consigo me ver de uniforme, mas tenho que pensar na roupa que vou usar nesse dia. Não tenho ideia de como vai ser esse encontro, mas sempre que penso no assunto, me vem isso à cabeça: todo mundo tem pelo menos uma história para contar. Se conseguir passar isso para alguém, já vou estar no lucro.

Coisa. Coisa. Coisa.

Toda noite, antes de dormir, ou cochilar, ou passar oito horas seguidas insone, eu tenho um insight. Penso “hum, que ideia legal, vou guardar para desenvolver amanhã”. No dia seguinte, eu não lembro mais de nada, claro. Quer dizer, lembro que tive uma ideia. Mas não consigo recordar qual. Deve acontecer com todo mundo, eu espero. Com todo mundo que tem ideias, ao menos. Os latentes. Os potenciais.

Meu aniversário está chegando e, meu Deus, eu acho que falo isso em todo post. Mas é um assunto que me perturba. Mais alguém com menos de 30 anos fica angustiado com aniversários? Não sei. Mas eu fico, desde que fiz 20. E esse ano, dizem por aí, posso completar 25, que é um número muito importante para mim. Nessa idade, eu gostaria de estar realizado, com a vida feita, em busca de supérfluos. Mas isso não aconteceu. Quer dizer, eu ainda tenho algumas semanas para tentar reverter o quadro, só que duvido que faça em semanas o que não fiz em anos. 25, mais precisamente.

Eu não sou normal. Tenho me dado cada vez mais consciência disso. E não sou normal de um maneira legal – tipo um gênio. Não, eu não sou normal, do tipo meio louco. Do tipo que faz essa afirmação e se preocupa se algum dia algum recrutador de uma vaga de emprego a lerá e a achará suficiente para me desclassificar. Bem, eu não sou normal mesmo. E meio louco não é louco inteiro. E isso aqui pode ser uma obra de ficção. Tenho a meu favor o fato de estar escrevendo às 3h18 da manhã. Nada do que alguém declara depois de meia noite deveria valer. São palavras-abóbora.

Escrevo a essa hora, em vez de fechar o olho e tentar dormir, na esperança do insight aparecer a tempo de ser registrado neste texto. Mas algo me diz que a ideia só virá quando eu relaxar e papar mosca. Papar mosca. Há quanto tempo eu não dizia isso. Papar mosca me remete à mesma época de bobocas e babacas. Ou seja, há duas décadas, porque estou quase fazendo 25 anos, o que é um quarto de século. Tenho certeza que é um problema quando você começa a falar sua idade em frações de século. 100 anos. Não espero chegar lá para dizer “um inteiro”. Já tenho dores de coluna demais. Eu não tinha, mas fui a um homeopata que disse que eu deveria sentir muitas dores, e eu realmente comecei a senti-las. Gostaria de acreditar que são psicológicas, para eu psicologicamente eliminá-las. Sou muito sedentário. Disseram-me que esse estilo de vida acarretaria danos, mas achei que se referiam aos 40 anos. Os 25 são os novos 50, talvez.

E tem esse aniversário… Não sei se comemoro. Não vejo motivos para comemorar nada ultimamente. Não que eu seja um cara deprimido (evito a banalização do termo clínico), mas sim um cara difícil. Do tipo que não quer viver de aparências – mas que também se ressente da ideia de passar o aniversário em branco. Sou filho de pais separados desde sempre, então estou acostumado a ter duas celebrações, dois presentes, tudo em dobro. A ideia de não ter nada é inquietante. Mas também alentadora. Como disse: comemorar o quê? “Cheguei aos 25”. Não é como se eu tivesse duvidado que chegaria… Estou considerando a hipótese de, em vez de reunir a galera (não sei nem se tenho uma mais), encher a mochilinha e me isolar em algum lugar legal. Ou ir para balada, que é uma maneira de reunir as pessoas, sem ter que conversar com elas. Desconsiderando o fato de que eu não gosto de baladas. Cada vez mais, entendo que, por não beber, a vida me é mais difícil. Estou sempre aqui, presente, sóbrio, ciente. Não me dou refresco. Ou só me dou refresco.

E o insight não veio. Acho que não dá para forçar esse tipo de coisa. Coisa. Minha professora de português praticamente não deixava que escrevêssemos essa palavra. É como uma declaração de falta de vocabulário. Coisa. Coisa. Coisa. Sempre evito escrever coisa. Mas, neste texto, liberto-me. Que coisa! C-o-i-s-a. Palavra boa de se dizer. Melhor que coisa só coisinha. Ou treco. E trecotinho. Trecotinho é de uma poesia. Lembra tricô, mas de uma maneira menos sênior.

Às vezes, quase sempre, me pergunto o que será da minha vida. Recentemente, tive provas de que tudo pode acontecer, inclusive nada. Esse clichezão da natureza. Na minha trajetória, especialmente, coisas se vão da mesma maneira que vêm (coisas!). Dizem que tem a ver com Iemanjá. Ou algo assim. Não entendo muito bem, mas é o balanço das ondas do mar – indo e vindo, incessantemente. É como se, para mim, fosse mais custoso agarrar algo, como a água do mar, por exemplo, que você fecha a mão na onda e quando abre ela está vazia. Tudo pode acontecer, inclusive nada. Por isso, sempre é bom ter uma garrafa. Ou um baldinho. Embora eu não entenda porque vá querer guardar a água do mar. Ainda mais poluída.

Nem entro no mar, se está impróprio para o banho. Não é deixar de viver com medo de sofrer (com uma doença de pele, no caso). Viver é se arriscar, e sofrer faz parte. Mas se arriscar é diferente de se suicidar. Quem se arrisca tem uma chance de acerto. Quem se suicida, não. Há controvérsias… mas o que digo é: ter medo de sofrer é antecipar uma possibilidade, diferente de ter certeza do iminente sofrimento. Além do mais, são sempre os mais corajosos que se ferram. Eu me considero bastante corajoso, em vários aspectos, então permito-me ter cautela em tantos outros. Como o mar poluído. Ah, o mar.

Não sou normal. Já começo a bocejar, e minha cabeça tá ficando ruim. Insisto nesse insight, mas isso não se força. Acontece, e nada está acontecendo no meu cérebro agora. Escrevo de olhos fechados, cansado, como a criança que não aguenta e adormece à espera do Papai Noel. Figura boa essa – o Papai Noel. Sempre traz presentes. Estou precisando de mais Papais Noéis e menos, sei lá, duendes. São os duendes que roubam e escondem nossas coisas (!) né? Desagradáveis. Roubaram minha vida inteira, talvez. Sou como Holly, à espera dos acontecimentos: “quando nossa vida vai começar?”. E Gerry diz que já começou. Já? Mas nem Gerry eu tenho. Geralmente, eu sou o Gerry. E Gerry morre. É, “P.S. Eu Te Amo”, você sabe.

Bem, o insight não veio. Não vem. São 4h. Esperei bastante. Boa noite.

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