Quando eu tinha 9 anos e me perdi da minha mãe no Réveillon de Copacabana

Adoro Réveillon. Ai, como eu adoro Réveillon! Todo mundo em comunhão, com pensamento positivo, aquela multidão vestida de branco, bebendo espumante barato, distribuindo sorrisos felizes com a chance de recomeçar do zero (poderiam ter uma perspectiva diferente e pensar “mais um ano perdido e nada aconteceu”, mas os depressivos ficam em casa e a positividade impera). Sempre preferi o Réveillon ao Natal. Não que você tenha que comparar as duas festas, absolutamente. Mas eu prefiro. Os Natais tendem a ser repetições de si mesmos, enquanto o Réveillon é sempre diferente. Você se cerca de pessoas diferentes, em lugares diferentes, pede ao universo coisas diferentes, reza por inquietações diferentes, joga flor pra Iemanjá por desejos diferentes… e, o melhor de tudo, não tem ninguém para te lembrar “do verdadeiro significado da data”. O verdadeiro significado do Ano Novo é ser o Ano Novo mesmo. Fim de papo.

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Sem Título

São quase duas horas da manhã e eu já deveria estar dormindo, porque amanhã (ou hoje, como você preferir) acordarei cedo. Mas eu não estou com sono. Geralmente, não sinto vontade de dormir quando devo – e passo o resto do dia bocejando. É, é sempre assim. Tenho que mudar isso. Vou colocar na minha lista de projetos.

Ah, a minha lista… ela está grande demais no momento. Eu deveria parar e analisar o que é realmente importante para o meu crescimento, e excluir todo o resto. Mas não. Prefiro viver nessa ilusão de que conseguirei estudar, trabalhar (meus planos incluem vários empregos), escrever livros, atualizar sites, blogs e ainda ter tempo para viajar e namorar – o que está intimamente relacionado, no meu caso.

Penso em todos os meus projetos sempre que me deito. Eles me tiram o sono. Às vezes, deprimo, porque percebo que alguns planos não vingarão. Meus pensamentos chegam a um futuro tão distante, que consigo visualizar o fracasso de algo que nem existe. Consequentemente, me pego arrasado. Eu sofro por antecedência – puxei isso da minha avó.

Mais de uma vez, quero desistir de algo que ainda não tentei, com medo de dar errado. É, estou assumindo uma fraqueza publicamente. Sou meio covardão. Preciso que alguém me incentive a seguir em frente e me arriscar (felizmente, tenho essa pessoa).

Eu não sei lidar com o fracasso. Aquela história de cair e levantar é bem triste na prática. Eu me levanto, mas passo a me arrastar. Não gosto de tombos. Eles me deixam com os joelhos ralados. Não gosto de errar, não gosto de críticas. Me estresso, me irrito, me arraso. Para mim, as críticas são sempre destrutivas.

Acho que é um trauma de infância. Quando eu era criança, minha mãe fazia os deveres de casa comigo, quando eu ainda nem sabia escrever (não lembro que trabalhinhos eram esses, que não exigiam minha escrita, mas eles existiam). Se eu errasse algo, ela gritava e me chamava de burro. “Nem parece meu filho!”.

Ela não fazia por mal. Essa época não durou muito (no resto de minha vida, ela foi só elogios), mas me marcou bastante. Virei perfeccionista. Não queria errar, não queria decepcioná-la. Eu cobro muito de mim, talvez mais do que o saudável. Também é difícil lidar com erro dos outros – mas é melhor que o erro seja do outro do que meu. Quando eu tirava nota baixa, eu dizia para mamãe que a turma toda tinha ido mal.

Mas eu cresci. Não dou mais satisfações a ela. Não comento vitórias, para não ter que comentar derrotas também. Ela diz que eu a excluo da minha vida, o que é verdade. Seria melhor que não fosse assim, mas é. Eu prefiro desse jeito. Não gosto de compartilhar os maus momentos, não gosto de ser consolado, porque não acredito em nada do que ouço. Sou estranho.

Acho que falei demais. Vou terminar esse texto assim, bruscamente, para não soltar mais monstros. A madrugada é perigosa.

Oh baby dance dance dance, remexendo assim não pare não pare não parê

Ew! Essa barriga não é minha, ok?

Não tenho lembranças de uma vida na qual eu não me achasse gordo. Dizem os relatos que eu fui o bebê mais pesado da maternidade no dia do meu nascimento. E isso não é motivo de orgulho, minha gente. Um serzinho que já nasce com mais quilos que o normal passará a vida toda encucado. E assim eu passo. Também contribuem para isso os casos de obesidade na família. Tive um tio e uma avó paterna que… pelamor. Eles sim eram realmente pesados. Lembro que minha avó entrava no carro e todo mundo conseguia perceber nitidamente o automóvel abaixando. Era uma cena assustadora para uma criança, garanto.

E ela era cozinheira. Isso me soa mais a vingança do que a ironia do destino. Queria engordar a todos com toda aquela sua comida. Meu maior medo sempre foi ser gordo que nem a vovó. Óbvio que eu nunca levei em consideração o fato de toda a família da minha mãe ser magra: minha avó materna – com quem convivo – vive numa luta oposta com a balança. É algo mais ou menos assim: Viva! Ganhei 15 gramas! Não a entendo. Em vez de ser feliz, simplesmente.

O Ministério da Saúde, por meio da Vigitel, divulgou recentemente que o índice de sobrepeso e obesidade dos brasileiros aumentou significativamente nos últimos quatro anos. Foram entrevistadas aproximadamente 54 mil pessoas adultas em todos os Estados no Brasil, dentre as quais 51% dos homens e 42,6% das mulheres, estavam acima do peso adequado. (Infonet 06/07/2010)

 Minha dieta balanceada

Quando era criança, vivia me pesando. Ganhava peso por estar crescendo e super sofria com isso. Acompanhei o aumento de cada númerozinho na balança. Não queria que ninguém gritasse gordo baleia saco de areia para mim. Tive uma fase de antipatia declarada aos gordos, confesso. Não gostava mesmo. Aquilo de gordinhos simpáticos e risonhos. Não colava comigo. Mas com o tempo superei. Hoje em dia não tenho nada contra. Acho legal que saibam lidar com toda essa pança. Eu não sei lidar com a minha. Mas um dia eu chego lá.

Então, eu cresci e deixei de me pesar. Resolvi parar de pensar nisso – é um grilo que não adianta de nada, sabe? E obviamente que esse estilo de vida despreocupado não deu certo. Me desvinculei dos números da balança, mas me apeguei à figura do espelho. É aperta daqui, aperta de lá, vira daqui, vira aculá. Um nojo. Sérião. Não gosto desse barrigão que tenho. Mas também não consigo comer menos ou fazer exercícios. Tenho alma de gordo. Foi a alma que me foi dada há 20 anos atrás, lá naquela maternidade, com todos aqueles quilos. Não podia ser diferente.

Mas a gente vive no mundo da cirurgia plástica, não é mesmo? É só levantar uma graninha que entro na faca. Faço uma lipoaspiração bem bacana, porque apesar da alma de gordo, sequer sou simpático. E gordinho antipático é uó.

Uma pesquisa do Ministério da Saúde revelou que no município do Rio de Janeiro está a maior concentração de pessoas obesas do Brasil. A capital com maior número de obesos ocupava em 2006 a 12ª posição neste ranking, com 12,5% de sua população com o problema, em 2009 passou a encabeçar a lista, com índice de 17,7%, de acordo com os dados do ministério. (Corpo Saun 28/06/2010)

Cuidado com o que você deseja!

Esse ano, uma pessoa me disse que consigo tudo que desejo – que, mais cedo ou mais tarde, acontece. Engraçado ouvir isso justamente em 2009, um ano de merda para mim. Isso me fez pensar. Lembrei do que desejei no último reveillon. Eu queria uma paixão. Uma coisa louca que me tirasse do sério, que não me deixasse agir com a razão. Até virei o ano com uma bermuda vermelha. Dizem que vermelho atrai.

Eu apelando pro esquema das cores na última virada de ano

E aí, não sei se foi graças à bermuda ou não, eu tive a paixão que eu tanto queria. Aquela que te faz faltar o ar, que deixa sua cabeça nas nuvens, com os pés fora do chão e te permite fazer loucuras achando tudo normal. Aquela avassaladora. A mesma que me fez sofrer praticamente o ano inteiro. Aquela que me disse não quando pedi em namoro, aquela que me sacaneou no meu próprio aniversário, e a que, mais recentemente, ficou com um amigo meu.

OBS: Rever conceito de amizade.

Mas não foi exatamente isso que eu pedi? ‘Uma coisa louca que me tirasse do sério’? E, ah, meu bem, estou completamente fora do sério agora. Tô tão pirado, mas tão pirado, que já desejei a morte de meio mundo em menos de quinze minutos. E se aquilo de que ‘desejei, aconteceu’ estiver mesmo certo, seus filhos da puta, passem a tomar cuidado. That’s all.

Dica de fim de ano: cuidado com o que você deseja – vai que acontece!

Dur dur d’être bébé – eu podia ter cantado isso

Eu podia ter sido o Jordy, mas…

Xuxa sempre me disse pra acreditar nos meus sonhos e gritá-los pro mundo, porque se ninguém soubesse dele, ninguém nunca poderia me ajudar. Foi assim que eu cheguei na minha mãe, que tava deitada na cama e falei:

– Mãe, sabe o que eu quero ser quando crescer?
– Não, o que?

Veterinário. Professor. Bombeiro. Astronauta. Essa era a hora que eu devia ter falado qualquer uma dessas profissões e ter dado fim à conversa. Mas não, eu não era desses. Eu falei:

– Eu quero ser cantor.
– Ah, é? E você sabe cantar?
– Sei ué.
– Então canta pra mim.

Qual era a da minha mãe afinal? Tava me testando? Aquilo era uma audição surpresa do American Idol? Eu hein. Mães normais dariam um sorrisinho, diriam ‘que legal’ e passariam a mão na cabeça do filho. Mães que apóiam os filhos comprariam um microfone no dia seguinte e o matricularia em aulas de canto. Minha mãe não. Minha mãe estava ali, fazendo o Miranda.
– Canta pra mim.

E eu cantei, né. Botei a boca no trombone me sentindo a Mili, que na época era a maior referência de ‘cantar bem’ para mim. Eu arrasei nos agudos, gente. Vocês podem imaginar como não foi minha apresentação exclusiva para mamãe. Só não cheguei na melhor parte, aquela hora em que eu ia mostrar que era um artista completo cantando&dançando, porque a minha mãe me interrompeu.

– Não. Tá muito ruim. Tenta de novo.

Como assim tá muito ruim, gente? O que ela entende de música? Minha mãe tava começando a me irritar. Agora ela era a Angélica dizendo que eu não ia pra Academia do Fama? Perguntei porque tava ruim. Ela disse que eu era só desafinação. E cantou pra mim. E aquilo me fez achar que ela era realmente uma ótima cantora, só não tinha sido descoberta. Diferente de mim, que seria.

– Tenta fazer que nem eu fiz.

E eu comecei a cantar de novo.

– Não. Para! Não adianta. Você não tem voz pra isso. Desiste.

Foi assim que não fui Jordy e muito menos Frank Sinatra. Minha mãe dizia que meus desenhos mais horríveis estavam lindos. Então para ela dizer que eu cantava mal, eu devia mesmo ser o erro. Desde então, só dublo.

Desmiolada é a vovózinha

Minha mãe estudava comigo quando eu era menininho, o que me ajudava muito. Eu gostava de fazer os trabalhinhos de casa com ela. As vezes, ela até passava outros trabalhos pra eu fixar a matéria. Pra mim, minha mãe tudo sabia e conhecia. Mais inteligente que ela não existia. O ruim era quando eu errava alguma coisa. Funcionava mais ou menos assim:

– Meu Deus! Que burro! Nem parece meu filho!

Climão. Minha mãe era adepta do tratamento de choque. Dizia que não admitiria notas baixas e que se eu repetisse de ano alguma vez na vida, me mataria. (talvez por amor a vida, eu nunca tenha chegado nem perto desse desastre)

No entanto, ela não tinha muito do que reclamar. No início da minha vida escolar, era difícil eu tirar uma nota diferente de 10. Eu me cobrava muito (também pudera!).

– Mãe, meu coleguinha tirou 8 e a mãe dele deu um presente pra ele.
– E você tirou quanto?
– Dez.
– Parabéns!
– Você podia me dar presente também né?
– Você não faz mais do que sua obrigação.

Lá na escola, teve uma época que os professores diziam as notas dos alunos em voz alta: “Alicinha, 5. Bruninho, 8. Camilinha, 6.” Eu detestava isso. Não existia tensão maior que aquela. Quando o professor dizia o meu nome, a turma toda gritava “deeeeez”. Eu repetia baixinho pra mim mesmo “dez! dez! dez!” – pensamento positivo – e dizia em voz alta, fazendo charme: “Para com isso, gente!” Era muita pressão psicológica. E se eu não tirasse dez? Eu sempre tirava, mas e se alguma vez isso não acontecesse? Ia ser horrível. E um dia aconteceu, com uma professora nova, que não me conhecia.

Professora: Leonardo…
Turma interrompe gritando: Deeeeeeez!
Eu falo baixinho: Dez! Dez! Dez!
Eu falo alto: Para com isso, gente!
Professora continua: Dez? Só se for de dez-miolado. 8,5!
– Só se for de desmiolado! hihihi

Hã? Ela tava brincando, né? Minha cara era de taxo. Tenho certeza que fiquei transparente. Que humilhação era aquela? Quanto ela falou que eu tinha tirado mesmo? Não era dez. Sequer era um nove, isso eu tinha certeza. Fracassei. Me desse um zero logo! Meu Deus! E agora? A professora continuava a dar as notas. Agora, a turma seguia em silêncio. Eu decepcionei a todos, não decepcionei? Eu sei que sim. Eu ouvi um 9 agora. De quem foi esse 9? Será que não trocaram as provas? Ainda acho que a professora tá brincando. De péssimo gosto essa brincadeira, por sinal. Ela termina os nomes. Alguém pergunta o que eu errei. Sei lá o que eu errei. Não tô acostumado a conferir prova, gente. Comecei a chorar. Eu era desses. Resolvia no choro.

– Minha mãããããe *funga* vaaaaa-aaaai! *funga, funga* me mataaaaaaaa-aaaaaaar!

E foi assim que minha mãe foi chamada na escola para uma conversa. E, diferente dos outros casos, não era pra reclamar de mim que a escola a chamou. Era pra dar bronca nela. Diziam que ela não podia exigir tanto de mim. Ela disse que ia exigir sim, que não admitia burrice. E até hoje, quando eu tiro uma nota um pouco mais baixa, eu acho que dava pra ter sido melhor.

Eu sou um assassino!

Ih, gente. Uma vez fui com meu pai num petshop e vi umas tartaruguinhas nadando numa bacia d’água. Não deu outra: eu queria ter uma tartaruguinha pra botar pra nadar também. Pedi pra ele. Pergunta se ele me deu? Claro que não.

Mas minha mãe me deu! Fiquei super feliz na época. Até que eu percebi que a minha tartaruga era totalmente terrestre (ou seja, deprimente). Não ficava nada feliz na água. Achei o bichinho sem graça. Além de tudo, era horrível brincar com ela. “Vem cá, vem cá”. Ela demorava muito. Vinha a passos de… tartaruga!

Logo deixei aquele bicho de lado. Acho que não cheguei nem a dar um nome. Pelo menos, não me lembro do nome. Sei que ela ficava no nosso quintal. Um dia, cheguei em casa afim de vê-la. Fui pro quintal, olhei e nada vi. Comecei a procurar embaixo das coisas. Meu quintal era cheio de caixas apoiadas em calços naquela época. Ela poderia ter se enfiado embaixo de alguma daquelas caixas. Comecei a levantar as caixas e nada. Não achei. Bem, era só a tartaruga. Eu nem tava tão afim assim de vê-la. Segui minha vida.

No dia seguinte, minha avó disse que achou a tartaruga esmagada embaixo de uma caixa. Esmagada. “Não sei como isso aconteceu, a caixa deve ter caído do apoio dela“, vovó disse. Eu sabia como isso tinha acontecido. Era culpa minha. Quando levantei a caixa, não devo ter apoiado no calço de novo. Eu matei a martaruga.

Eu a matei. Eu era um assassino, então. Assassino. E se as pessoas descobrissem? Iam me julgar. Talvez até me prendessem. Um castigo, no mínimo. Iam achar que era de propósito. Mas foi sem querer! Foi! Eu juro! Mas matei, né? Não tinha mais jeito. Matei. Matei um animalzinho indefeso. Que mau eu era! Ninguém podia saber disso. Eu não ia deixar. Fiz cara de espanto e enganei a todos.

Escapei da Sociedade Protetora dos Animais. Ufa.

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