[Dica da semana] The Bling Ring – A Gangue de Hollywood

Era para o novo filme da Sofia Coppola – The Bling Ring: a Gangue de Hollywood – chegar aos cinemas brasileiros nesta sexta (2/8), mas a estreia foi adiada para o dia 16. Muita gente ficou decepcionada, porque há certa expectativa com relação a esse projeto, principalmente por causa da cineasta e da atriz Emma Watson (a Hermione de “Harry Potter”), que encabeça o elenco. Mas o que mais chama minha atenção no filme é sua história, que pode ser lida no livro homônimo da jornalista americana Nancy Jo Sales, lançado pela Intrínseca.

O longa-metragem da Coppola é, na verdade, baseado em uma reportagem escrita pela autora para a revista Vanity Fair em 2010: “The Suspects Wore Loubotins”. A matéria aprofundava um tema que estava mexendo com Hollywood: o grupo de jovens que assaltava a casa de celebridades, como Paris Hilton, Orlando Bloom e Lindsay Lohan. Eles furtaram joias, roupas, acessórios, quadros e diversos outros itens das residências dos famosos, muitas vezes indo à mesma casa mais de uma vez. Aparentemente destemidos, exibiam suas “compras”, como chamavam os furtos, nas baladas e em redes sociais.

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Um grupo de assaltantes sem noção, você está pensando. Sim! Mas… não! Não é só isso. Eles eram obcecados pela fama e achavam que tinham direito de roubar as celebridades. Só assaltavam famosos. E mais: não precisavam. Não eram pobres. Uma das envolvidas – Alexis Neiers – até teve seu reality show na TV. Para entender, então, porque fizeram tudo isso, Nancy Jo Sales viajou a Los Angeles para entrevistá-los. O resultado foi a reportagem da Vanity Fair e, agora que a história ganhou um filme, ela apressou um livro para pegar carona nesse sucesso. E, bem, vale a pena ler. Se você não entendeu ainda, essa é a dica da semana.

Eu fiz questão de ler a obra antes de assistir ao filme e, com o adiamento, você também tem a chance de fazer isso. Vale muito a pena, porque não é nem uma crítica nem uma ode aos assaltantes. A autora realmente tenta fazer um retrato psicológico deles e de toda uma geração influenciada por reality shows que geram celebridades instantâneas e sites de fofoca que, da mesma maneira, mitificam protagonistas de sex tapes. É uma narrativa muito inteligente (de verdade!) e com potencial para agradar tanto os fãs de “Gossip Girl” quanto os haters do “Big Brother Brasil”. É crítico, mas com pitada de futilidade que o assunto pede.

Tem zumbis no meu bairro – Volume 2

Acordei com os gritos dos zumbis por volta das 4h. Cada vez mais inconvenientes, agora não só evacuam nas calçadas, como gritam de madrugada. Da minha cama, enrolado nas cobertas, pude ouvir claramente o diálogo estabelecido à minha janela. Somado ao barulho da movimentação, montei a cena na minha cabeça, mesmo com sono.

– Você tá maluco? Ele é morador! – gritou um zumbi.

Barulho de empurra-empurra. Passos corridos.

– ‘Deixa ele’ ir! É morador! – gritaram outros, indignados.

Meu vizinho, cujo rosto desconheço, foi embora – pelo que entendi. Os zumbis se dedicaram a dar esporros (aos berros) no traidor, que devia reconhecer seu erro, porque não se manifestou oralmente. Ele conhece as regras – as regras de convivência com os humanos de sua comunidade. Sim, sua.

Ele pode revirar o lixo dos humanos; fazer suas calçadas de vaso sanitário; assustá-los; acordá-los; pedir-lhes dinheiro ou cigarros; mas nunca, em hipótese alguma, assaltá-los. Não os humanos de sua vizinhança. Para roubos e furtos, deve-se dirigir a outros bairros. Quem decidiu assim? O mestre dos zumbis, responsável por sua manutenção. Mas esse zumbi espeficiamente se esqueceu. Sua abstinência não raciocina.

A velha, o hospital e o roubo do livro

Ela é velha. Ela é gorda.
Ela é velha e gorda.
Ela é resmungona. Ela é mal humorada.
Ela é resmungona e mal humorada.
Ela tem o cabelo pateticamente dourado. Ela tem um buraco na arcada dentária.
Ela tem o cabelo pateticamente dourado e um buraco na arcada dentária.

Mas qualquer antipatia à primeira vista é colocada de lado quando você a observa deitada no leito de uma unidade de pronto atendimento, sem nenhum acompanhante. Uma enfermeira revela que ela está “hospedada” lá desde terça-feira. Já é sexta. Você sente, inevitavelmente, pena. Cadê os filhos dessa senhora?

Horas depois, aparece uma mulher para visitá-la. Parece que os familiares se revezam para dar um apoio no horário de visita. Mas ninguém dorme com ela. Ninguém acorda com ela. Seu braço está cheio de marcas de agulhas, porque os enfermeiros não conseguem encontrar sua veia nunca. A cada dia, diferentes profissionais perfuram seu braço, ignorando suas súplicas para que tentem direto nas mãos. Nenhum parente nunca assistiu a cena e acham que ela exagera.

Sem saco para conversar com a visita, ela pede à mulher que pegue seu livro na mesa de cabeceira ao lado da maca.

– Eu pedi à enfermeira hoje de manhã e ela disse que não tinha livro nenhum.
– Deixa eu ver…
– Se deixei o livro aí ontem, ele tem que estar aí hoje.
– Olha…
– Só não reclamei porque não estava com paciência para discutir.
– Não tem nada aqui mesmo não.
– Não?
– Será que roubaram? Hospital público, sabe como é, um entra e sai.
– Ainda mais se veem uma velha abandonada.
– Pelo menos, é um bandido culto.

Assalto ao Banco Central é um bom filme sim

Eu apoio totalmente o cinema nacional, então fiquei bastante feliz quando minha mãe me convidou para assistir a “Assalto ao Banco Central”. Primeiro, pela razão óbvia de ver o filme. Segundo, porque ela costuma ser bastante preconceituosa com a produção cinematográfica brasileira, então foi uma feliz surpresa essa iniciativa dela.

Mas, na verdade, eu estava com um pé atrás com relação a esse filme desde que vi uma entrevista da Giulia Gam (“Chico Xavier”) e Antonia Fontenelle (“Malhação”) no “Programa do Jô”. Antonia é mulher do diretor Marcos Paulo (ele a dirigiu em “Malhação”), que estreia no cinema com esse longa. É informação demais para mim. Mas resumindo a situação, fica assim: o cara coloca sua mulher para trabalhar no seu primeiro filme. Hum, patotinha demais. Sei não.

Assisti. Gostei. Para meu conforto, Antonia não faz mais do que uma única e medíocre cena (por que ela estava divulgando o filme no Jô hein?).  O filme conta a história real do roubo de R$ 164,7 milhões do Banco Central do Brasil, em Fortaleza, em 2005. Eu não conhecia a história (aos 15 anos, eu não era chegado no noticiário), que é interessantíssima. Até hoje, não conseguiram capturar o mandante do crime – nem o dinheiro (apenas R$ 20 milhões foram intencionalmente deixados para trás, como tática de ganhar tempo).

O elenco conta com Lima Duarte (“2 Filhos de Francisco”), sempre ótimo, no papel de um delegado e; Eriberto Leão (“Um Homem Qulquer”) como um bandido malandro (muito mais carismático que o banana do Pedro de “Insensato Coração”). Giulia Gam é uma policial lésbica, com ótima química com Lima.

Apesar de ser um filme de ação, ainda é uma produção nacional: há doses significativas de erotismo – desnecessárias no meu ponto de vista (a menos que você queira ver Eriberto Leção em ação) – e de humor. Mas as tiradas cômicas são ótimas e divertem bastante. Não chegam a confundir o gênero.

Nesse sentido, o destaque é para o ator Vinícius de Oliveira (“Central do Brasil”), na pele do religioso Devanildo. Ele se envolve no crime acidentalmente. No fim do roubo, ganha R$ 2 milhões pelo seu “trabalho” e se sente culpado por isso. Se consulta com o pastor da igreja (Milton Gonçalves, de “Quincas Berro D’Água”) e este diz para que ele doe tudo a Deus. Contrariado – e contaminado pelo pecado – ele dá apenas uma parcela à igreja e fica com o resto. Essas cenas são ingenuamente engraçadas.

Marcos Paulo mandou bem na direção. Ao contrário do esperado, o filme não lembra um capítulo de novela estendido. Antonia Fontenelle já tinha dito isso naquela entrevista – eu devia ter acreditado.

Acusado de roubo no Paraguai

Estava em Posadas, cidade argentina que se interessa pela cultura brasileira, mas faz fronteira é com Encarnación, cidade paraguaia. Quis aproveitar a oportunidade, atravessar a ponte e conhecer mais um lugar.

Nunca me interessei pelo Paraguai. Pelo contrário. Não vou disfarçar minha aversão ao país. Sempre achei que fosse um lugar feio – ou melhor, horroroso. Paraíso das muambas e dos produtos falsificados.

Assim que cheguei lá, confirmei tudo isso. As pessoas se comportam com selvageria na migração – tanto quem está em trânsito quanto os funcionários – e o local tem um quê de faroeste, de abandono. E é quente, ainda que fosse inverno.

Encarnación é, segundo o Wikipedia, a terceira maior cidade do país, economicamente falando, atrás apenas de Asunción e Ciudad del Este. “Imagina o resto”, pensei.

Recorremos algumas lojas de eletrônicos, vimos alguns produtos e, a todo momento, desconfiávamos estar lidando com mercadoria falsa. Quanto mais barato, maior a desconfiança.

Os vendedores eram meio lentos. Não sabiam explicar as características e o funcionamento do que vendiam. A sensação é de que eles vendem com tanta facilidade que já não se importam mais com nada.

– Tem gravador de voz?
– Sim.

E quem disse que eles iam buscá-lo? Nada. Te encaram como se você tivesse sido pouco claro na sua abordagem. “Você pode me mostrar?”. E aí, sim, eles te encaminhavam até o produto. Era bizarro.

Mas o pior mesmo aconteceu quando um vendedor saiu correndo atrás de mim e do Nico pelas ruas, gritando por um cabo USB que ele achava que tínhamos roubado. Para completar, ele tinha uma ascendência árabe – ou algo assim – que nos impossibilitava entender seu espanhol. Era algo como “pnsjnfwemkfmabfskfd USB”.

Nico começou a mostrar os bolsos, para provar que não tinha pego nada. Eu não pensava em fazer o mesmo. Pensei na vergonha que era aquela situação: ser acusado de roubo no Paraguai. Justo lá. Que situação…

O cara começou a olhar para mim – que não tinha mostrado meus bolsos ainda – e passou a pedir para que voltássemos à loja. Não faríamos isso. Expliquei que o produto que vimos sequer tinha cabo. “Se eu fosse roubar, roubaria o gravador e não o cabo”, pensei. O cara não entendia.

Começou a se alterar, dizendo coisas incompreensíveis. “Não tô entendendo nada”, falei com firmeza e raiva. Expliquei de novo que sequer existia um cabo para ser roubado, mas ele estava convencido do furto. Resolvi mostrar meus bolsos também.

Outro vendedor o gritou – provavelmente percebeu que a caixa não continha cabo mesmo – e o cara foi embora, nos deixando ali, no meio da rua, com cara de tacho. E nem pediu desculpa. Bem vindo ao Paraguai, Leonardo.

Da série: empregada folgada – Parte 165953

Minha mãe e minha avó cansaram de tentar encontrar a empregada perfeita para a casa da vovó, porque parece que essa abstração está longe de existir. Foi então que resolveram reciclar um velho problema. Para poupar a identidade dela, a chamarei de, hum, Fortaleza.

Te dou um mini flashback: Fortaleza já trabalhou na casa da minha avó no mínimo duas vezes. Na primeira, ela não era querida, mas teve a dignidade de sair de lá antes de ser demitida. Disse que voltaria para a sua terra natal. Obviamente, isso nunca aconteceu e ela ficou aqui pelo Rio de Janeiro mesmo. Um dia, ela voltou. E aí não prestou. Entre inúmeras confusões, te destaco a mais grave: ela foi demitida acusada de roubar R$50 da minha avó. Foi climão.

Mas o tédio bateu e vovó resolveu dar uma terceira chance a Fortaleza. Vovó também gosta de agitos, tá pensando o quê? Tentei lembrar a ela e a minha mãe de que Fortaleza não presta. Ela é maluca, cara-de-pau, de caráter duvidoso. Mas elas já sabem. E não se importaram. Momentaneamente.

Então, Fortaleza voltou. E voltou para causar. Certo dia, minha avó pediu para ela ir à padaria comprar pão de queijo para ela. Fortaleza respondeu: Por que você não vai? Tá tão arrumadinha. Minha avó perdeu a compostura. E minha mãe? Explicou severamente a Fortaleza que o salário que ela recebia deveria ser justificado. Fortaleza fez que entendeu. Mas logo aprontou de novo.

O piso da minha avó é daqueles de madeira, sabe? E vovó gosta que ele esteja sempre brilhando. Ela vive passando cera no chão para ele ficar tinindo. Fortaleza achou isso um exagero. O que ela fez? Jogou a cera fora, para dar uma lição na vovó. Climão. Vovó ficou irritada. Minha mãe, mais uma vez, intercedeu: Fortaleza, acho que você não está entendendo. Você não pode jogar fora as coisas da sua patroa. Agora, você vai ter que ropor. Fortaleza riu, meio sem graça, meio achando graça. Fortaleza é dessas.

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