[Dica da semana] O Clube do Livro do Fim da Vida

Os dias têm voado e eu quase sempre me encontro sem saber o que falar na Dica da Semana. Não por falta de sugestões, mas por falta de tempo para racionalizar. Como anunciei na semana passada, o site Teatro em Cena estava para estrear e, no momento em que você lê esse post, ele já está no ar. Então, clique aqui para dar uma olhada.

Minha vida tem sido teatro ultimamente. Faz tempo que não vou ao cinema ou a um show, por exemplo. Também são coisas que gosto muito, mas o momento agora é de investir e dar toda a atenção para esse projeto. Quero ver “Ninfomaníaca 2” no cinema, pelo menos. Acho que vou no fim de semana. Mas, para não indicar uma peça aqui, depois de ter indicado o site, vou falar de um livro que me pegou de jeito.

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Estou lendo três ao mesmo tempo – o que significa pegar cada um aleatoriamente, quando me dá vontade. Não tenho um método, mas faz uma semana mais ou menos que deixei os outros dois de lado em prol de “O Clube do Livro do Fim da Vida”. Eu o comprei na última Bienal do Livro do Rio, mas só comecei a lê-lo recentemente. Minha mãe já tinha lido, e adorado. Agora entendo.

O livro é narrado por um filho, que acompanha o câncer terminal da mãe, uma mulher engajada em ativismo social e muito mais preocupada com os outros do que com si mesma. Com a doença, que é um veredito de que a morte está próxima, eles se aproximam ainda mais e passam a ler os mesmos livros quase que simultaneamente, o que serve de suporte para as conversas durante as horas de quimioterapia, por exemplo. É uma história real, vivida pelo autor Will Schuralbe.

Ainda não terminei a leitura, mas estou na reta final. É muito inspiradora a narrativa, e não tem nada de mórbida, pela maneira como eles encaram as circunstâncias. São tantos livros citados e discutidos com afinco, que dá vontade de sublinhar o título de vários para comprar depois. Vez ou outra, foi exatamente o que fiz: marquei a página com citação de alguma obra que me interessou.

A relação do filho com a mãe também é muito bonita. A maneira como eles se dedicam tempo um ao outro, e como isso é prazeroso, e não uma obrigação, consideração ou qualquer outra praxe. Recomendo.

[Dica da Semana] Antes da Meia-Noite

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Coincidentemente, meu primeiro contato com a franquia de filmes “Antes do Amanhecer” (1995) aconteceu às vésperas da estreia do terceiro longa aqui no Brasil, o Antes da Meia-Noite (2013), que chegou aos cinemas no Dia dos Namorados. Um mês antes, li a sinopse de “Antes do Pôr do Sol” (2004) – o segundo da série – no verso do DVD em uma loja, assisti e me apaixonei. Valeu cinco estrelinhas. Então, descobri que havia um filme anterior, que deu origem àquilo tudo, e também o vi, aguardando ansiosamente pelo terceiro, que teve sua primeira exibição no Festival de Sundance. E eu gosto de Sundance.

Como disse, eu vi antes o segundo filme da franquia – que continua sendo meu favorito. Mas hoje quero falar do “Antes da Meia-Noite”, esse que está nos cinemas e você deveria ir assistir. Estrelado por Julie Delpy e Ethan Hawke, que dão vida ao casal Céline e Jesse, e também co-assinam o roteiro com o diretor Richard Linklater, o filme acompanha o casal em uma viagem à Grécia, 18 anos depois do seu primeiro encontro em um trem rumo à Viena.

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Logo na segunda cena, descobre-se que os dois se casaram após o segundo encontro, em Paris (retratado no segundo filme), e tiveram duas filhas. Assim, o espectador entende que eles tiveram uma vida em comum, finalmente, e que a gente perdeu isso! Ineditamente, não acompanhamos todos seus dias! É um cenário completamente novo, com os dois íntimos, envelhecidos e mais cômicos do que românticos – como acontece com toda relação de amor, que tende para a amizade com o passar dos anos. Sim, eles ainda estão apaixonados e, sim, ainda são nosso casalzinho favorito, mas agora eles se conhecem mais e se idealizam menos.

“Antes da Meia-Noite” traz tudo o que um relacionamento de anos pode trazer: ressentimentos, cobranças, rotina, cumplicidade, confiança e comprovação do amor. Basicamente, tudo o que eles não tinham nos filmes anteriores. Antes, as situações dos encontros eram muito especiais, com personagens muito realistas e carismáticos. Agora, as situações são realistas e carismáticas e eles que se tornaram especiais. Não há mais espaço para o ideal.

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A experiência, repito, é totalmente diferente dos roteiros anteriores. Até mesmo o título – “Antes da Meia-Noite” – induz ao erro. Agora, eles não têm mais um limite de tempo para passarem juntos, como no primeiro, que poderiam se conhecer até o amanhecer, ou no segundo, quando matariam a saudade até o anoitecer. Pelo contrário, agora têm uma vida inteira para trás e para frente. Dos anteriores, permanece a linguagem: os diálogos incríveis, as cenas longas, e o fluxo de pensamento oral da Céline. A segunda cena é um plano sequência interminável (de bom) dos dois dentro de um carro, dirigindo para o hotel. A sensação é a de assistir ao pay per view de um reality show.

Eu gostei e acho que você também vai gostar 😛 Caso não tenha visto os filmes anteriores, não tem problema. Dá para assistir independentemente disso. Mas, claro, tudo fica melhor se você conhece a história completa da trilogia. Os filmes são facilmente acháveis na Internet. Aproveite. São românticos, mas não são melosos, com potencial para agradar a todos. A dica da semana é essa.

Eles, a janta e os filhos que nunca nasceriam

Eles chegaram ao apartamento dele, mortos de fome e loucos para cozinhar qualquer gororoba para comer. Ela sabia que não era o momento mais adequado para discutir a relação, mas não se aguentava mais de curiosidade. O futuro era maior que a barriga.

– Você quer ter filhos? – tentou parecer casual, enquanto roía uma unha.
– Não. – ele respondeu tranquilamente.

Ela levou um baque. Por essa, não esperava. A pergunta era apenas a primeira de uma série que ela pensava em fazer, mas a resposta dele automaticamente cancelava todas as outras. Como assim ele não quer ter filhos?

– Não?
– Não.

Ele estava concentrado na dispensa, com a porta do armário aberta, olhando o que poderia ser aproveitado. Macarrão? Molho de tomate? Pão de forma? Biscoitos? Ela estava atrás, desnorteada, se apoiando na pia.

– Nunca? – ela ainda tinha esperanças.
– Não quero ter filhos. Já disse. – por um momento, ele achou que ela estava surda – O que você quer comer?

Como ele podia mudar de assunto assim, tratando os filhos deles como uma trivialidade? Como? Eles já estavam juntos há 1 ano. Tinham mais de 25 anos de idade. Já era hora de pensar nas crianças. Ela também não queria engravidar agora – embora estivesse muito envolvida emocionalmente com o chá de bebê de uma amiga – mas achava necessário pensar no futuro, planejar. Começou a chorar. No início, poucas lágrimas, enquanto ele remexia os itens na dispensa. Depois, abriu o berreiro, se descontrolou.

Ele olhou pra trás, assustado.

– O que houve? – pensou que ela havia se machucado ou algo assim.
– Você não quer filhos! – ela estava com raiva.
– Ah, não. Mas você está chorando por isso? – ele não podia acreditar. Ele queria comer.
– Como você pode fazer isso comigo?
– Eu não tô fazendo nada. – pegou o saco de macarrão na dispensa e se dirigiu ao fogão.
– Você não quer filhos! Nunca! Não quer nem discutir a situação! – ela chorava e tremia de nervoso. Estava decepcionada.
– Eu nunca quis. Isso não está em discussão. – ele estava um pouco assustado com ela. Nunca a tinha visto dessa forma. Parecia que estava conhecendo-a agora.

Ela sentia o mesmo com relação a ele. Embora o namorado não percebesse, estava, de repente, abandonando-a sozinha em um sonho que ela sempre pensou que fosse dos dois: a construção de uma vida juntos. Eles se davam tão bem. Não era natural que pensassem em filhos? Mas o sonho era só dela. Só dela.

Você aceita vender sua alma até que a morte os separe?

O Diabo queria que ele, com pouco mais de 40 anos, vendesse sua alma. Acreditava que o homem já tinha vivido demais e aproveitado tudo o que tinha para aproveitar. Um casamento fracassado, dois filhos e uma carreira estremecida com uma recente demissão estavam no histórico. Agora era o momento certo para colocar fim em tudo.

– Estou te avisando para depois não dizer que te enganei. Não quero saber de você saindo com os amigos. Se quiser se divertir, será comigo. Se não posso ir junto, não vai se divertir.

O Diabo assumia a forma de sua futura esposa, deixando claras as regras do suposto casamento.

– Se quiser sair com os amigos, será todo mundo acompanhado de suas mulheres. Eu hein.

O Diabo propunha onipresença.

– Sei muito bem como é isso. O álcool entra, chega uma piranha, os amigos fazem pressão.. “Olha lá, tá te dando mole!”. E rola. Não estou aqui pra isso.

Ele gostava dela. Mas também dos amigos.

– São péssimas influências, tudo alcóolatra. Homem que sai pra beber em pleno dia de semana, para mim, é alcóolatra. Não trabalha, não tem mulher. Não percebem para onde tão caminhando.

Ouvindo assim…

– É o quê? Pelo visto você não mudou nada. Vai ser assim ou não vai ser.

E ele vendeu a alma para um período de testes. Acontece.

OBS: Nada contra casamento. Acho lindo, quando saudável. Apenas queria compartilhar essa história.

Peça aborda relacionamentos virtuais com desconhecidos reais

Assisti à peça “Inbox”, que é uma obra brasileira, apesar do título inglês. O texto é de Clarice Falcão (última versão de “Confissões de Adolescente”) e Gregório Duvivier (“Z.É. –Zenas Emprovisadas”). O segundo é também o protagonista da história, ao lado da atriz Maria Eduarda (“Roda Viva”).

Na peça, Gregório é John, um publicitário que entra em contato por e-mail com a escritora Clara (Maria Eduarda). Dizendo-se o seu maior fã, ele se esforça para chamar a atenção dela e engatar uma amizade virtual. Consegue.

Os dois passam a trocar experiências, histórias e confissões sobre suas vidas, validos da segurança que a tela do computador dá às pessoas. Com o tempo, Clara fica dependente das mensagens do seu suposto fã – olhando a caixa de entrada (inbox) a cada minuto e deixando cada vez mais de lado o seu marido (é, ela tem um).

Apaixonando-se, ela pergunta a John se poderia ligar para ele, porque quer conhecer sua voz. Antes que o fã possa respondê-la, ela manda outro e-mail, pedindo uma foto, porque também quer saber como ele é. Não obtêm resposta.

Paralelamente a isso, Clara pergunta à maior publicitária de São Paulo se ela conhece John. Não conhece, mas pergunta a outros colegas de trabalho, baseada nas referências que ele passou, e não descobre nada. Conclusão: a amiga passa a desconfiar que John pode ser um criminoso, uma mulher ou até mesmo uma velhinha farsante. Mas a surpresa que Clara terá é maior do que qualquer uma dessas suposições.

Eu adorei a peça, o texto, a construção dos personagens – que tem surtos terapêuticos e se abrem cada vez mais um ao outro, à medida que vão ganhando confiança (ou convivência?) – e a crítica aos relacionamentos virtuais em detrimento dos reais. A gente se fecha tanto na tela do computador e se esquece de olhar pro lado. Senti-me diretamente agredido, mas estranhamente gostei do toque.

SERVIÇO

Inbox

Centro Cultural Justiça Federal

Av. Rio Branco, 241, Centro – Rio de Janeiro

Sexta à domingo, às 19h, até 18/09

R$20 e R$10 (meia)

80 min

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