Quando eu tinha 9 anos e me perdi da minha mãe no Réveillon de Copacabana

Adoro Réveillon. Ai, como eu adoro Réveillon! Todo mundo em comunhão, com pensamento positivo, aquela multidão vestida de branco, bebendo espumante barato, distribuindo sorrisos felizes com a chance de recomeçar do zero (poderiam ter uma perspectiva diferente e pensar “mais um ano perdido e nada aconteceu”, mas os depressivos ficam em casa e a positividade impera). Sempre preferi o Réveillon ao Natal. Não que você tenha que comparar as duas festas, absolutamente. Mas eu prefiro. Os Natais tendem a ser repetições de si mesmos, enquanto o Réveillon é sempre diferente. Você se cerca de pessoas diferentes, em lugares diferentes, pede ao universo coisas diferentes, reza por inquietações diferentes, joga flor pra Iemanjá por desejos diferentes… e, o melhor de tudo, não tem ninguém para te lembrar “do verdadeiro significado da data”. O verdadeiro significado do Ano Novo é ser o Ano Novo mesmo. Fim de papo.

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Bienvenido (?) a Buenos Aires

Bem, aqui estou eu. Que loucura, né? Ontem mesmo disse que nao sabia quando ia postar e aqui estou eu… postando. Tô em Buenos Aires, entao desculpa a má escrita, mas esses teclados latinos me sao muito comlicados. Nem idéia de onde está o tiu. Enfim.

Gente, tá tudo dando errado. Cheguei no aeroporto daqui e a polícia federal implicou com a minha identidade (preciso de um passaporte pra ontem!), cismaram que era cópia. Mas revolveram tudo e fui pegar a minha mala (morrendo de medo de um segundo extravio) e aí eu vi o Cambio Exchange. Tava todo mundo trocando dinheiro, troquei também. Pensei que era o do La Nación, que todos disseram que era a melhor cotaçao. Nao era nao. Perdi muito dinheiro nessa troca. Mexeu com dinheiro, mexeu com meu humor. Ja fiquei puto. Peguei a minha mala (!!!) e fui tomar um taxi.

O taxista me cobrou uma fortuna por 20 minutinhos de viagem (nao tinha notado que ele nao ligou o taximetro) e me deixou com aquela sensaçao de que fui roubado… de novo. Descobri: odeio taxistas que se aproveitam de turistas. Odeio mesmo. Mas esse nao era meu maior problema naquele momento. Na porta do meu destino (o albergue), nao havia qualquer identifaçao do lugar. Toquei o interfone e confirmaram que era aqui sim.

Uma porta marrom enorme. Estranho. Sensaçao de que estou em um albergue ilegal. I-le-gal! Logo eu! Subi as escadas (ah, mais esse detalhe, muitas escadas, tanto quanto o peso da minha bagagem) com a sensaçao de estar numa grande furada. E acertei. Me mostraram o quarto, o banheiro, tudo, e bem… vamos dizer que a minha experiência com albergues nao ta sendo das melhores (anota aí: nao se hospedar mais no Oho San Telmo). Ponto alto: tem esses computadores com Internet.

Ponto alto = unico ponto positivo.

Museu Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires

Sai correndo pra rua. Busquei um buteco para comer qualquer coisa e tomei um táxi para o Museu de Bellas Artes. Precisava ver coisa bonita, precisava me desfocar da minha chegada. Nao tava me sentindo bienvenido. E deu certo. O acervo de lá é surpreendente! Vi todos obras de todos os pintores que aprendi na escola (valeu Pedro II!) e ia ficando cada vez mais de boca aberta. Cezanne, Van Gogh, Kandisky, Monet, Manet, Picasso… ver a assinatura do Picasso nos quadros me deixou excitado. Tudo aquilo dos livros existe m-e-s-m-o! E é enorme o local, gastei boas horas lá dentro.

A proxima parada era o Palais de Glace, outro museu, que obviamente eu nao tinha noçao de onde era, mas tava ali bem pertinho. Um senhor muito educado e prestativo – talvez o unico ate agora – me explicou como chegar, fez piadas bobas e riu delas sozinho. Coitado. “Todo mundo sabe onde é o Palais de Glace… jajajaja Quer dizer, todo mundo que tem cultura¨.

O Palais? Fechado. Fiquei bolado. Só vai reabrir dia 12. Fui ver a Floraris e a Faculdade de Direito. Quis tirar fotos, mas nao levei a maquina nem a filmadora (tava em estado de choque quando saí). Tirei algumas com o celular mesmo e iniciei a minha peregrinaçao para voltar pro hostel.

Quis fazer o argentino e peguei um onibus. Obviamente, nao deu certo. Saltei no meio do nada, um lugar super feio e quizá perigoso. Vi um Mc Donald´s e pensei: Deus existe. Mc Donald´s sim é onipresente e esta sempre do nosso lado onde quer que a gente esteja. É isso ai. Fui comer um cuarto de libra con queso no quentinho. Na rua, tava um frio da porra. Pior que em Santiago, fica a dica. Desisti dessa vibe de coletivos e caminhadas e me rendi ao bom e velho taxi. Nao adianta, sou fino.

Amanha tem mais. To contando os dias para o Nico chegar à capital. Sério mesmo.

P.S: Aqui no hostel tem um velho maluco que só fala gritando. Tá me irritando…

Eu tenho ingresso, só não tá comigo

Dia das crianças de 2002. Tinha certeza que aquele era o dia mais feliz da minha vida. Tinha acabado de sair do camarim de Sandy e Junior no Maracanã e não tinha chorado (minha mãe havia dito que eu ficaria horrível se saísse chorando na foto)! Eu mal podia acreditar. Agora, o carinha da Central de Fã Clubes nos levava para o gramado. Era a primeira vez que eu ia ao Maracanã.

Foi inevitável dar um giro de 360º com a boca aberta quando chegamos no gramado. Tudo tão grande. Tão cheio de gente. Assustador. O carinha levou todo mundo para um setor lá atrás, muito ruim. Não era ali o meu lugar. Eu tinha comprado ingresso para a primeira fila. A minha mãe estava lá esperando por mim.

– César (era esse o nome dele), você disse pra minha mãe que você ia me levar até ela depois do camarim, lembra?
– E cadê ela?
– O nosso setor é o VIP PREMIUM.
– Você tá com o ingresso?
– Não. Tá com ela.
– Assim não dá! Não posso entrar com você lá sem o ingresso! Você tinha que ter pego!

O-ou. Climão. Fazia sentido o raciocínio dele. Mas pegar o ingresso era a última coisa que eu pensaria minutos antes de ir conhecer a Sandy e o Junior. E agora, José? Liguei pra minha mãe. Vivo não tava funcionando lá. Quem patrocinava o show era a Oi. Daí já viu, né. Não conseguia contato com mamãe. Fui andando pra entrada do Vip Premium numas de acenar pra ela.

De onde eu tava, eu nem a via. Contei o meu drama pro recepcionista do setor. A príncipio, ele não acreditou, mas diante da minha insistência, ele chamou outros funcionários. O cara perguntou qual era a cadeira que minha mãe estava. Eu disse. Ele foi lá chamar ela. Voltou sem ela. Não a encontrava. Repeti. Ele foi e voltou várias vezes e nada. As vezes, o Maracanã começava a gritar. Parecia que o show ia começar. Ficava desesperado. Quase chorando. O recepcionista do setor falou:

– Olha, garoto, vou fingir que não tô vendo, aí você pula essa grade e vai encontrar a sua mãe.

Adorei a idéia, né. E lá fui eu pular. Só que, gente, eu nunca fui bom com nada radical. E pular grade, pra mim, é radical. Torci o meu pé. Chorei. E, sentindo o filho em apuros, apareceu a minha mãe.

– Que que você tá fazendo aí? Tô te esperando há um tempão! Nosso lugar é ótimo! Vem!
Sandy e Junior ignorando meu sofrimento – tipo a minha mãe

E aí o show começou. E eu esqueci que meu pé tava doendo. Afinal, eu era fã.

No escurinho do cinema

Tava no cinema com Marina. A Manzano tava atrasada e disse que era melhor nós entrarmos e, quando ela chegasse, levassemos o ingresso dela lá na porta. Beleza. Tava eu e Marina lá, já tinham se passado 15 minutos do início da sessão e nada da outra ligar. Peguei o celular indignado, tava lá:

Manzano is calling.

Atendi. E Manzano estava puta, dizendo que estava esperando lá fora. Não entendi nada. Não era exatamente esse o combinado? Fui levar o ingresso dela. Saí da sala, olhei pra um lado, olhei pro outro, nada dela. Cadê essa garota, gente? Nada dela. Já tava voltando pra dentro da sala, quando a avistei, longe, caminhando a passos de formiguinha.

– Vambora!
– Tô te ligando há um tempão e você não atende! Já tava indo embora!
– Deve tá no silencioso o meu celular. Só vi agora.
– E não vibra não?
– Se tá no silencioso, é óbvio que não vibra. Vamos!

Mostramos os ingressos e entramos. A sala tava numa escuridão nível prova de liderança do BBB. Sério. Sem brincadeira. Eu não conseguia ver nada. Fui andando me apoiando nas poltronas das pessoas. Andei, andei, andei. No escuro, os caminhos parecem mais longos, penso eu.

– Manzano, tá vindo?

Não obtive resposta. Perguntei mais uma vez e nada. Segui andando. Cheguei no corredor. Sabia que tinha que entrar naquele corredor. Entrei e andei. Fui pra frente. Fui pra trás. Não achava a Marina. Que ótimo. Perdido numa sala de cinema. Sem uma nem outra. Peguei meu celular pra iluminar. Iluminei a cara de um monte de gente e nada de achar Marina. Climão. As pessoas começavam a ficar incomodadas comigo. Que merda. Logo agora que eu planejava gritar Mariiiiiina! Manzaaaaano! Cadê vocêêêês? e me direcionar à voz mais próxima. Continuei iluminando um e outro, sem sucesso. Não havia sequer um lugar vazio no meu campo de visão para eu desistir de procurá-las e me sentar.

Foi então que Marina fez a fina e pegou o celular dela. Vi o rosto dela iluminado. A iluminada, dá nome de novela. Corri pra perto dela e me sentei.

– Cadê a Manzano?
– Perdi.

O 247 é mais rápido!

– Mãe, tô indo pro Odeon. O 249 passa lá, né?
– O 247 é mais rápido. Pega esse.

Adoro ônibus mais rápido. Minha mãe é o auge com essas dicas. Fui pro ponto de ônibus e já avistei ele chegando. Tudo dando certo. Entrei todo feliz. Depois de um tempo, tô eu lá no busão ouvindo Paramore (sempre presente em bons momentos!) e noto um desvio no caminho rumo à Zona Sul. Estranho. Será que ele vai dar a volta? Não, não vai, né? Minha mãe disse que isso aqui era mais rápido. Eu tô no ônibus errado, né? Minha mãe é uó! Odeio burrice. Ligo pra ela na hora. Preciso descontar em alguém.

– Ô sua poia! Tô aqui no 247 e ele tá me levando pra Botafogo!
– O quê?!
– Tô num túnel indo pra Botafogo!
– Eu pego 247 sempre pra ir ao médico. Certeza que passa no Odeon!
Não, não passa, mãe! Que inferno!
– Mas..
– QUE INFERNO!

E desliguei a ligação, puto da vida. Minha mãe sempre me botando em furada. Saltei no primeiro ponto que vi. Estava ali no clube do Fluminense, em Laranjeiras. Nada a ver com o Odeon. Aliás, bem longe. Minha mãe ligou de novo.

– Não adianta ficar me ligando toda hora, mãe!
– Você pegou 457, seu burro! Eu falei 247!
– Eerr… tá! beijo!

Que vergonha. Então, quer dizer que a culpa era toda minha? O poio era eu? Atravassei a rua tentando manter a calma. Afinal, era só eu pegar um ônibus no sentido oposto e eu logo estaria lá. Ainda tinha tempo. Atravessei. Pablo me ligou.

– Onde você tá?
– Perdido no Rio de Janeiro. Mas já vou chegar… assim que encontrar um ponto de ônibus.

Andei, andei, andei. E tudo que eu não achava era um ponto de ônibus. Já começava a me desesperar. Tiraram os pontos de ônibus de Laranjeiras! Como faz? Andei mais. Avistei o ponto. Corri pra lá todo feliz. Agora tava tudo resolvido. Perguntei que ônibus eu pegava pro Centro.

– Que parte do Centro?
– Cinelândia.
– Ih, não tem ônibus pra lá não. Só metrô.
– E onde é o metrô?
– Longe.

E a mulher me apontou o caminho. Andei, andei, andei. Muito. Comecei a subir um viaduto. Tenso. A paisagem começava a enfeiar. Fiquei com medo de estar subindo uma favela. Aqui no Rio é assim: se a gente não tomar cuidado, tá no morro. Andei horrores, gente. Vocês não tem noção. Quando finalmente cheguei do outro lado do viaduto, continuava sem ver sombra de metrô. Veio um velhinho. Abordei.

– Como faço pra chegar o metrô?
– É no sentido contrário que você tá fazendo.
– Não acredito. Sério?
– Sim. De onde você tá vindo?
– Do Fluminense.
– Mas o Fluminense é logo aqui. *aponta pro lado que ele tava vindo*
– Não acredito! Me fizeram dar uma volta!
– Uma volta muito grande mesmo!
– Só acontece comigo isso, moço! (leia-se: “SOCORRO, ME AJUDA!”)
– Eu te levo no metrô.

E eu fui, né. Afinal, o que aquele velhinho poderia fazer comigo? Nada. O que é um peido pra quem tá cagado? E ele foi um amor. Desconfio que ele era Deus me guiando, sabe? Podem rir. Me deixou na porta do metrô e desapareceu em seguida. Certeza que era Deus.

E, mew, passei isso tudo pra quê? Pra chegar na pré-estréia de um filme sobre Waldick Soriano, dirigido por Patrícia Pilar. Uma bosta o filme.

Mas é aquilo, né: o talento da dupla era Donatella.
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