Primeiro capítulo do meu livro novo, Rumor

Porque, sim, eu tenho um livro novo :O

Continue lendo

Anúncios

A verdade não é nada

“A verdade não é nada. O que você acredita ser verdade é tudo” – escutei essa frase no filme “Waiting for Forever” (2010) ontem, em um dos poucos intervalos que tive desde o início do ano, e twittei. Mas fiz isso sem refletir muito, apenas queria destacar a mensagem de efeito que havia escutado. Fui dormir pensando-a.

A verdade não é nada. E não é mesmo. Ela tem cada vez menos valor. Talvez a minha visão esteja atrelada ao curso que escolhi fazer – Jornalismo – porque ali aprendemos a lidar mais com as versões da verdade do que com ela própria. A verdade, pura e objetiva, é elevada a um nível acima, inalcançável, quase utópico. Se não existe, de fato, é nada.

Meu encantamento primário com a carreira também tinha a ver com isso. Há uma sensação de poder mascarada. Só é verdade o que é publicado. “Só acontece o que é publicado”, eu costumava pensar. Se o jornal não deu, não aconteceu. O fim do mundo, por exemplo, nunca teria registro, o que o tornaria um evento irrelevante. O gol que não foi repercutido é esquecido.

Mas não quero me perder nessas reflexões bobas. “O que você acredita ser verdade é tudo” me soa muito interessante. É como pais de assassinos que preferem acreditar em sua inocência. Ou parceiros que ignoram a traição dos namorados, noivos, maridos. É um analgésico eficaz como morfina. Se você não sabe, ou finge que não sabe, não existe. A sua verdade te vale.

Nesse sentido, há pessoas que vivem no mundo da lua, em um mundo paralelo (eu mesmo já tive um fotolog referencialmente nesta linha). O triste é quando a verdade verdadeira, de repente, aparece na sua frente, te encarando, forçando ser vista. É um baque. Há os que não resistem…

O certo é que somos um povo insatisfeito por natureza. Quem tem tudo, tem tudo, inclusive problemas. Quem não tem nada, pior. Criar sua própria verdade é uma válvula de escape para a infelicidade da vida real. Daí o sucesso dos simuladores como The Sims e Second Life (ainda existe?). Somos a geração do perfil fake, que nos permite criar uma pessoa mais interessante que nós mesmos. A nossa verdade brinca com a mentira.

Eu sempre me assusto com quem acredita em suas próprias mentiras. Se minto, quero quase tatuar no meu corpo para não esquecer aquilo nunca mais e não dar vexame depois. Mas muita gente tem uma facilidade incrível para lidar com isso, apimentando as próprias vidas medíocres. Consigo me lembrar, no momento, de, pelo menos, cinco pessoas assim. A empregada Fortaleza é uma. Ela diz que rodou a Europa e deveríamos fazer o mesmo, quando é claro que ela não viajou nem a Duque de Caxias. Fortaleza é, evidentemente, o exemplo menos maléfico.

Quem mente e acredita vive sua própria mentira – a verdade em que acreditam. É um estado de demência, na minha opinião. Em vez de inventar algo, poderiam correr atrás da realização disso. Ou ao menos se dedicar a escrever ficções. É como viver em um constante estado de sonolência, em que não se sabe o que é sonho e o que é pesadelo.

Já toquei nesse assunto mais de uma vez, eu sei. Mas é algo que me incomoda de verdade. Não consigo levar na esportiva as pessoas que maquiam suas vidas, no sentindo fake. Tudo bem ocultar problemas e frustrações e só postar no Facebook o que lhe convém. Mas tudo mal se você posta uma foto com uma legenda falsa. Uma foto do mar é a verdade, é nada. Uma tarde na praia é a sua verdade, é tudo.

Yvone? Podia ser eu

Dissimulado e sonso? Eu tive a minha época. Lembro que quando estava na quinta ou sexta série, havia na minha turma um menino afetado que adorava um barraco. Ele se achava o poderoso e comprava briga com todo mundo. Um estilo Vera Verão, sabe como é? Não preciso dizer que, mesmo ele nunca tendo comprado briga comigo, eu não o suportava.

Cheguei mais cedo na escola um dia e fui, com minha amiga, para a nossa sala de aula. Resolvemos aprontar para o William, era esse o nome da Vera Verão em questão. Nossa idéia era escrever um bilhetinho anônimo para ele e colocar no mural. Ditei o que minha amiga deveria escrever, alertando-a para disfarçar a própria letra. Ditei várias barbaridades. De arrombado-sem-vergonha pra baixo, porque eu era desses amargos.

Quando a turma chegou, leu o bilhete. William começou a fazer auê e perguntar quem tinha escrito aquilo. Ele tava indignado. As pessoas se olhavam tentando descorbrir quem era o autor. Me comportei como os demais – fazendo cara de espanto e desconfiança:

– A que ponto as pessoas chegaram, né? Mandando bilhetinhos ofendendo os outros! Ridículo! Falta do que fazer.

Os anos de teatro tinham, portanto, servido pra alguma coisa. O William começou a abordar as pessoas que ele sabia que não gostavam dele perguntando se eram elas as autoras do bilhete. E chegou a minha vez.

– Leonardo, foi você? Se tiver sido, pode falar.
– Eu? Claro que não! Porque eu faria isso? Não tenho nada contra você!

Eu arrasava muito antes da Yvone pensar em existir, gente. Como faz? Completei dizendo:

– Eu acho que você devia chamar o inspetor e reclamar disso.

E ele chamou mesmo. Climão. O inspetor disse que olharia os cadernos para reconhecer a letra. Minha amiga ficou tensa. Eu não fiquei não. Ela que tinha escrito, não eu. Ia ser difícil eu me ferrar.

– Leonardo, e se descobrirem que foi a gente que escreveu?

A gente? Ela tava fazendo a maluca. Quem escreveu foi ela. Eu hein.

– É, se reconhecerem a SUA letra, vai ser uó. Você disfarçou direitinho?
– Disfarcei, mas sei lá, né.
– Já muda a sua letra no caderno também. Faz diferente.
– Tô com medo. Falaram que vão transferir as pessoas que fizeram isso pra outra unidade da escola.
– As pessoas não, né. A pessoa.
– É, mas fomos nós dois.

Nessa hora, eu entendi a dela. Se ela fosse pega, ia me levar junto. Não se fazem amigos como antigamente. Eu já começava a me preparar para o momento que iam reconhecer a letra dela, ela me acusar, e eu fazer cara de espanto novamente. Chamaria ela de maluca e pediria provas. Não haveria nenhuma. Se a situação chegasse ao extremo, eu escreveria um bilhetinho pra mim mesmo me ofendendo e colocaria no mural. Aí seria mais uma vítima, livre de suspeitas.

Felizmente, o inspetor não pegou caderno de ninguém e tudo acabou em pizza. Fiz a Yvone e reinei.

Sem mais publicações