É, foi tudo bem

Ainda estamos no mês do meu aniversário. E ele já passou, o meu aniversário. Escrevi tantos posts sobre meus medos e expectativas com relação a ele, e não voltei aqui para contar como foi. Típico de mim. Típico de todos nós, talvez. Quando está tudo bem, a gente não dá as caras.

É, foi tudo bem.

Foi bem legal, na verdade. Com as pessoas certas com quem eu precisava estar, e nem sabia. Foi, talvez, a noite mais feliz do ano. Ou, ao menos, dos últimos meses. Minha memória não anda lá essas coisas para eu dar afirmações desse tipo. Mas foi uma noite boa, na qual eu me senti bem como há muito não me sentia. Essas relações de carinho… como a gente se afeta, né? Uns aos outros. Pode ser para o bem, ou para o mal. Cerquei-me de positividade.

Mas parece que já faz um tempão, não vou mentir. Meu aniversário. Depois que passa, passa. No momento, estou fazendo aquela maratona para ver vários filmes no Festival do Rio. Filmes também me afetam, para o bem ou para o mal. Dia desses, voltando para casa, entendi que preciso de outras histórias para viver. Cinema, teatro, literatura, música e, também, jornalismo são maneiras que encontrei para me manter são. Eu me conheço, me monto, me desenvolvo e me reconstruo melhor a partir do olhar do outro. Do outro sobre mim, também, mas do outro sobre a vida, principalmente. Preciso de outras histórias para pausar a minha própria. Preciso de pausas, senão eu não aguento. E acho que sempre foi assim. Só que agora de maneira racionalizada.

Eu acredito que todo mundo tenha pelo menos uma boa história para contar. Às vezes, a pessoa não sabe, mas tem. A vida de cada indivíduo tem algo que a torna interessante aos olhos do outro. Às vezes, é mais aparente, às vezes, não. Mas eu realmente acho que todos temos algo a dizer. Como dizer, nem todo mundo sabe. Poucos sabem, aliás. Muita gente não consegue se expressar. Ou busca a maneira errada de fazer isso.

Como eu cheguei a esse ponto, não sei. Mas tenho pensado nisso ultimamente. Fui convidado para voltar ao meu colégio e conversar com os alunos atuais sobre meu livro, “Condenáveis – Uma História de Filho e Pai”. Algo descontraído, pelo que eu entendi, se eles estiverem interessados em mim, se eu tiver algo para contar, se tudo fluir bem. O quão insano é isso? É a escola na qual estudei minha vida inteira – da alfabetização até o último ano. É estranho pensar que fazem sete anos que saí de lá. Eu me sinto tão próximo e tão distante ao mesmo tempo daquele Leonardo Torres. Quando penso nesse convite, ainda consigo me ver sentado entre os alunos, pensando: “vamos aplaudir para ele calar a boca logo!”. Eu ainda consigo me ver de uniforme, mas tenho que pensar na roupa que vou usar nesse dia. Não tenho ideia de como vai ser esse encontro, mas sempre que penso no assunto, me vem isso à cabeça: todo mundo tem pelo menos uma história para contar. Se conseguir passar isso para alguém, já vou estar no lucro.

[Dica da semana] O Clube do Livro do Fim da Vida

Os dias têm voado e eu quase sempre me encontro sem saber o que falar na Dica da Semana. Não por falta de sugestões, mas por falta de tempo para racionalizar. Como anunciei na semana passada, o site Teatro em Cena estava para estrear e, no momento em que você lê esse post, ele já está no ar. Então, clique aqui para dar uma olhada.

Minha vida tem sido teatro ultimamente. Faz tempo que não vou ao cinema ou a um show, por exemplo. Também são coisas que gosto muito, mas o momento agora é de investir e dar toda a atenção para esse projeto. Quero ver “Ninfomaníaca 2” no cinema, pelo menos. Acho que vou no fim de semana. Mas, para não indicar uma peça aqui, depois de ter indicado o site, vou falar de um livro que me pegou de jeito.

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Estou lendo três ao mesmo tempo – o que significa pegar cada um aleatoriamente, quando me dá vontade. Não tenho um método, mas faz uma semana mais ou menos que deixei os outros dois de lado em prol de “O Clube do Livro do Fim da Vida”. Eu o comprei na última Bienal do Livro do Rio, mas só comecei a lê-lo recentemente. Minha mãe já tinha lido, e adorado. Agora entendo.

O livro é narrado por um filho, que acompanha o câncer terminal da mãe, uma mulher engajada em ativismo social e muito mais preocupada com os outros do que com si mesma. Com a doença, que é um veredito de que a morte está próxima, eles se aproximam ainda mais e passam a ler os mesmos livros quase que simultaneamente, o que serve de suporte para as conversas durante as horas de quimioterapia, por exemplo. É uma história real, vivida pelo autor Will Schuralbe.

Ainda não terminei a leitura, mas estou na reta final. É muito inspiradora a narrativa, e não tem nada de mórbida, pela maneira como eles encaram as circunstâncias. São tantos livros citados e discutidos com afinco, que dá vontade de sublinhar o título de vários para comprar depois. Vez ou outra, foi exatamente o que fiz: marquei a página com citação de alguma obra que me interessou.

A relação do filho com a mãe também é muito bonita. A maneira como eles se dedicam tempo um ao outro, e como isso é prazeroso, e não uma obrigação, consideração ou qualquer outra praxe. Recomendo.

Malu Rodrigues conta tudo sobre os bastidores do filme “Confissões de Adolescente” em longa entrevista

A atriz Malu Rodrigues, a Bia da série “Tapas & Beijos”, tem 20 anos e cara de 15. Por isso, ganhou um dos papeis principais no filme Confissões de Adolescente, que chega aos cinemas na sexta (10/1), como uma adaptação atualizada do livro da Maria Mariana e da série de TV homônima. Mas é só a cara que é de garotinha. Seu discurso é de uma veterana, decidida e firme em suas posições. Foi ela, por exemplo, que contestou algumas das decisões do diretor Daniel Filho (dos dois “Se Eu Fosse Você”) durante as filmagens. Conhecido por ser um carrasco, como ela mesma o define nessa entrevista ao Fala, Leonardo!, o cineasta colocava medo em Sophia Abrahão, Bella Camero e Clara Tiezzi – as três atrizes que completam o elenco protagonista. Em Malu? Não. Nela, ele despertava seu instinto assassino. “Eu queria matar o Daniel algumas vezes”, confessa. “Ele pegava muito no meu pé”.

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Aclamada em musicais como “O Mágico de Oz” e “Despertar da Primavera”, Malu foi a única das quatro que não foi submetida a testes para entrar no elenco do filme, orçado em R$ 5,9 milhões. Daniel Filho lhe ofereceu o papel em uma reunião. Na conversa, ele contou que sua personagem, Alice, interpretada por Daniele Valente na TV, teria cenas de sexo. O mote de sua história é a perda da virgindade. “Tudo bem pra você?”, perguntou. Ela, que polemizou ao ficar nua no teatro, quando ainda era menor de idade, mostrou logo sua personalidade: “Depende. Pelada por quê?”. Outras poderiam ter dito imediatamente sim ou não. É conhecida, por exemplo, a história de que Regina Duarte, aos 28 anos, recusou o convite para protagonizar o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (o 2º mais assistido da história do cinema nacional) justamente porque não queria tirar a roupa. Para Malu, isso não é um problema, desde que exista contexto. Ela topou, mas fez Daniel convencê-la da necessidade.

Foi a primeira vez que ela fez o diretor se explicar. Já vinculada ao projeto, descobriu que ele queria praticar um método muito particular de filmar: impedir o elenco de ler o roteiro, escrito por Matheus Souza (de “Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida”). O script de cada cena só seria entregue no dia de filmá-las. O objetivo era imprimir o frescor adolescente na telona, valorizando a espontaneidade e o improviso. Malu não gostou. “Fui mandante de uma revolução”, lembra. “Fazer um filme que a gente não tem ideia de como é o personagem? A gente implorou, pediu pelo amor de Deus, para poder ler o roteiro pelo menos uma vez”. Deu certo: conseguiu. Mas só leu uma vez. “Tiraram o texto da gente de novo, mas pelo menos sabíamos como era a história e lembrávamos algumas coisas”.

Menos assustador, mas tão perturbador quanto, foi quando ele avisou que não queria nenhum tipo de maquiagem em cena. As adolescentes do filme não podiam parecer patricinhas, maquiadas para ir à escola. Malu concordava, mas também não queria aparecer destruída na tela do cinema. “A gente contrabandeava maquiagem!”, brinca a atriz. “Eu estava fazendo três trabalhos ao mesmo tempo. Tinha dia que acordava às 4h de manhã para apresentar peça em São Paulo e voltava para o Rio de Janeiro à noite para filmar. Falei ‘pelo amor de Deus, vou chegar com cara de ‘dormindo’”. Mas não adiantou. Ele não cedeu dessa vez. Pelo menos, ela tentou. “Um dia, ele falou que eu ia assistir ao filme e terminar amando-o. A primeira coisa que disse para ele quando assisti foi ‘Daniel, eu te amo’. E ele disse ‘eu também’.

Você tem 20 anos, e “Confissões de Adolescente” também. Você tem alguma memória da série e da dimensão desse projeto para os adolescentes daquela geração?
Com a série, não tive contato, porque era muito nova. Mas eu li o livro quando era pequena e gostei muito. Sempre quis ver a peça, mas nunca consegui, porque estava em cartaz com algum musical. Trabalho desde criança, então não conseguia parar para assistir. Algumas amigas minhas fizeram as montagens mais recentes, e eu ficava sabendo das coisas por elas, cheia de vontade de ir ver.

Muitas atrizes importantes passaram pelo elenco da peça, ao longo dessas duas décadas. É diferente fazer um trabalho que outras, reconhecidamente tão boas, já fizeram antes? Você teme comparações?
Eu acho que a responsabilidade existe em qualquer trabalho. A gente não ficou pensando muito em comparações ou em como fizeram antes. A gente teve uma reunião com o Daniel no início e perguntou se devia assistir à série ou a algum episódio específico para cada personagem. Ele disse que preferia que não assistíssemos, porque não queria nenhuma referência. Então, acho que a cobrança era muito maior por trabalhar com ele e por saber do peso do projeto, do que por medo de comparações.

O elenco não teve acesso ao roteiro completo antes das filmagens e só recebia as falas do dia na hora de filmar. Como foi essa dinâmica de trabalho?
Foi meio assustador. Eu sou muito caxias e gosto de estudar em casa para chegar com tudo pronto. Foi difícil, mas funcionou no fim das contas. O Daniel queria esse frescor adolescente de não saber falar, e falar um em cima do outro. Às vezes a gente mudava uma palavra ou outra, porque tinha acabado de decorar o texto, e ele foi super compreensível neste ponto. A gente ensaiava bastante e conseguia gravar quase tudo de primeira. Mas, na verdade, eu fui a mandante de uma revolução. Ele não queria que a gente lesse o roteiro inteiro nem uma vez, mas falei ‘Ah, não. Fazer um filme que a gente não tem ideia de como é o personagem?’ A gente implorou, pediu pelo amor de Deus, para poder ler o roteiro pelo menos uma vez. Aí ele deixou. Senão como ia saber como era a personagem? Eu faço a menina que tem a primeira vez e fica grávida, mas ela é como? Lemos o roteiro uma vez e ele falou ‘Agora quero que vocês esqueçam tudo e vamos filmar’. Tiraram o texto da gente de novo, mas pelo menos sabíamos como era a história e lembrávamos de algumas coisas.

O Daniel Filho tem fama de rígido. A Sophia Abrahão contou que tinha medo das broncas dele. Como foi sua relação com o diretor no set?
Eu queria matar o Daniel algumas vezes, né? (risos) Mentira. Acho que é uma coisa dele, por ser daqueles diretores mais antigos. Ele tenta puxar o melhor de você. Pegava muito no meu pé, porque minha personagem tem uma dramaticidade maior, eu acho. Não é nada pessoal e ficava só no estúdio. Sabia que era para tirar o melhor de mim. Sem dúvida, ele tirou o melhor de mim. Um dia, ele falou que eu ia assistir ao filme e terminar amando-o. A primeira coisa que disse para ele quando assisti foi “Daniel, eu te amo”. E ele disse “eu também”. Então, ele é um pouco carrasco, mas também é super carinhoso fora de cena. Nas minhas cenas mais complicadinhas, nas quais tinha que ficar pelada, ele foi um amor. Era tudo com respeito, com carinho, com cuidado. Foi um processo bem intenso, mas gostoso. O resultado é o que importa.

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Qual foi o momento mais difícil das filmagens?
Acho que a cena mais difícil de fazer foi a que a Alice descobre que está grávida. Não tenho nada próximo a mim nesse sentido – nenhuma amiga ou familiar que tenha ficado grávida muito nova. Então, tive que procurar algumas pessoas que não eram tão amigas, conversar e descobrir como era. Algumas fizeram aborto, nunca contaram pra ninguém e contaram pra mim. Foi um processo bem legal em termos de estudo. Mas, em termos de sensação, foi a cena mais difícil.

Como só recebiam as falas na hora de gravar, você sabia que ia fazer essa cena no dia de filmá-la ou foi uma surpresa?
Sabia. Eles avisavam mais ou menos um dia antes o contexto da cena, explicando o que ia acontecer. A gente só não tinha as falas, então ia meio preparada para o que ia acontecer. Eu lembro que esse foi o dia que o Daniel mais pegou no meu pé. Eu estava muito exausta, e foi a última cena do dia, então… foi bem difícil.

E de onde você tirou a carga emocional para fazê-la?
Acho que cada um tem uma coisa que lhe faz chorar. Eu sou muito ligada à música, porque faço musical desde criança. É algo muito presente na minha vida e acho que cada um tem uma música que desperta um sentimento assim. Então, sempre que tinha que chorar em alguma cena, o Daniel me deixava quietinha em um canto, me concentrando, e só me chamava na hora de gravar. Ele falou “Bota uma música e fica na fossa”. Falei “ok”, botei a música e, em dois segundos, estava chorando aos prantos e pensando nas meninas com quem conversei.

E qual era a música?
Ah, é uma música que ninguém deve conhecer. Inclusive, mostrei para os outros depois e todo mundo falou que era uma música linda, que não tinha porque chorar com ela. Mas, gente, é uma música que me toca. É “Falling Slowly”, que é daquele filme que virou musical na Broadway e fez um sucesso enorme – “Once”. Eu tinha acabado de voltar de viagem e assistido lá.

Escute a música:

O Daniel Filho pediu que vocês ficassem sem maquiagem em cena. Sei que isso é um drama para as mulheres. Como isso afetou sua vaidade?
A gente contrabandeava maquiagem! (risos) Mentira! Quando começou, o Daniel falou que não queria maquiagem nenhuma e que era para ser o mais natural possível. A gente implorou para usar pelo menos um corretivo nos dias em que tivéssemos com mais olheira. Eu estava fazendo três trabalhos ao mesmo tempo: “Tapas & Beijos”, o musical “O Mágico de Oz” e o filme. Tinha dia que eu acordava às 4h da manhã para apresentar peça em São Paulo e voltava para o Rio de Janeiro à noite para filmar. Eu falei: “Pelo amor de Deus, eu vou chegar com cara de ‘dormindo’!”. Acabou que ficou por isso mesmo e a gente aceitou. O filme é muito naturalista, muito bonitinho, muito fofo. Tinha que ser assim mesmo. Se fosse de outro jeito, pareceriam adolescentes patricinhas montadinhas e não era isso que ele queria. Realmente, uma menina de 16 anos não vai para a escola de blush e rímel de manhã.

O Christian Monassa faz seu par romântico e vocês têm muita química em cena. Já se conheciam antes?
Então, não! (risos) Na verdade, o Christian me conhecia de vista, porque tinha alguns amigos que faziam musical comigo. Nada muito próximo. Mas o Daniel fez questão de deixar as cenas mais íntimas para os últimos dias de filmagem, então a gente já estava junto há praticamente dois meses. Tivemos uma preparação com a Luiza Thirré, que também ajudou todo mundo a se conhecer bem e ficar mais próximo – todas as meninas, todos os namorados, enfim. Todo mundo virou muito amigo, então foi tranquilo. Que bom!

Em quase toda entrevista que você deu sobre o filme, teve que falar sobre a cena de sexo e de nudez. Na época de “Despertar da Primavera”, também houve uma polêmica com relação a essa questão. Na sua opinião, o erotismo artístico ainda é um tabu para as pessoas?
Eu acho que o sexo é um dos assuntos mais polêmicos para o adolescente e não poderia deixar de ter no filme. É o mais complexo também. Ficar menstruada não muda muita coisa. Pra mim, pelo menos, não mudou nada. Mas, quando você tem a primeira vez, o primeiro namorado, o primeiro amor, o corpo e a cabeça mudam mesmo. Mexe com muita coisa. Então, você realmente cresce. Por isso que eu acho que quanto mais cedo pior! Então, realmente não podia deixar de ter, e dessa maneira, sem nenhum pudor, nenhuma restrição, nenhuma censura. Não tem porque não mostrar o peito… Acho que sexo sempre vai ser meio tabu. Há famílias e famílias, e cada um é educado de uma forma. A conversa deveria ser a principal coisa entre pais e filhos. Eu estudei em colégio de freira e sei que muitos colégios têm aula de sexualidade, então acho que quanto mais informação menos problemas, como a gravidez na adolescência.

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Ok. Você estudou em colégio de freira. De onde vem esse despudor para tirar a roupa em cena?
Acho que quem quer ser ator se entrega de corpo e alma. A gente não pensa muito. Se tem contexto e tem a ver com a cena, porque não? Se tivesse que raspar a cabeça, pintar o cabelo, qualquer coisa, eu faria. Claro que tudo tem limite. Tem coisas que realmente não são necessárias. Depende muito do contexto, da cena, da história. O ator tem que se despir de qualquer vergonha e qualquer medo. Isso não existe na nossa profissão. A gente está ali para se doar por inteiro e contar a história daquele personagem. Não é a Malu que está ali, é outra pessoa, é a Alice. Já passei por poucas e boas, desde o sapatinho da Dorothy me apertando por três horas na peça até pegar cachorro que faz cocô e xixi em cena. Então, é isso, né? A gente se entrega de uma maneira inexplicável.

Ter feito uma cena de sexo no teatro facilitou o trabalho no cinema? Afinal, são menos pessoas assistindo no estúdio…
No teatro, é mais longe, né? (risos) No cinema, é uma tela gigantesca e, na hora de gravar… as pessoas estão mais próximas. No teatro, a gente ensaia tanto, que acaba ficando algo muito orgânico, então você não pensa que tem 600 ou mil pessoas te assistindo. Se você pensar, você entra em pânico e não faz nada. Tem que entrar, se jogar, fazer o seu melhor e pronto. Eu sou muito tímida, então acho que foi pior no filme, que é tudo muito minimalista. No estúdio, está todo mundo muito próximo, é frio, tem uma luz em cima e, quando corta, você está lá pelada. O Daniel foi um querido e tirou todo mundo do estúdio no dia. Só ficou quem realmente precisava ficar. Foi tudo muito coreografo – não há uma mão fora do lugar, é tipo um balé -, então foi melhor, porque não tinha quase ninguém. Mas acho que teatro é mais fácil.

Que situação te faria dizer não para um diretor?
A gente está ali para mentir um pouco, então nada que precisasse ser de verdade, como uma cena de sexo real ou consumo de drogas. Tudo bem, desde que dentro de um contexto. Precisa ficar pelada? Precisa. Por quê? Tem que entender o conceito com o diretor. Eu não fiz teste [para “Confissões”], então na primeira vez que me encontrei com o Daniel, em uma conversa, ele virou e perguntou se eu teria problemas em ficar pelada. Falei: “Depende. Pelada por quê?”. Ele me contou a história e concordei, tudo bem. Acho que depende de cena para cena, de personagem para personagem. Tudo tem que ser conversado.

Depois de “Confissões”, quais serão seus próximos projetos?
Volto com “Tapas & Beijos” na Globo. Começo a gravar de novo no fim de fevereiro e entra no ar assim que terminar o “Big Brother Brasil”. Talvez tenha também o “Confissões 2” para a gente filmar no fim do ano. Além disso, estou com minha peça, que é linda de morrer, para comemorar os 70 anos do Chico Buarque. É o novo musical do Charles Möeller e Claudio Botelho, “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”.

Clarice Falcão e Gregório Duvivier, o casal do momento

Clarice Falcão e Gregório Duvivier dominaram 2013 e começaram 2014 mostrando que não vai ser diferente. Estão em cartaz com o filme “Eu Não Faço a Menor Ideia Do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida”, do jovem cineasta Matheus Souza (de “Apenas o Fim”), e continuam com o “Porta dos Fundos” na Internet. São, definitivamente, o casal onipresente da vez. No ano passado, puderam ser encontrados, juntos ou separados, na televisão, na música, no cinema, na literatura, no teatro e, claro, na web. Tanta exposição os colocou na lista dos cariocas do ano da revista Veja Rio e na dos entertainers de 2013 do blog do Zeca Camargo. O apresentador do “Video Show” os pôs ao lado de nomes como David Bowie, Kanye West e Daft Punk, e argumentou que eles são uma nova versão da expressão inglesa “power couple” (casal poderoso): poderosos, mas sem pretensão de ser.

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É mais ou menos como a nossa versão de Brangelina – forma como a imprensa americana se refere ao casal de atores Brad Pitt e Angelina Jolie. Aliás, se Clarice e Gregório ganhassem um apelidinho, qual seria? Clagório? Grerice? Os termos soam cômicos, como eles. Quando questionados sobre o assunto, ambos acham graça. “Brangelina! Adoro!”, exclama o ator. “Acho que, para a gente, faltam os filhos e, claro, aquela conta bancária”. Clarice também ri, mas fala sério quando emenda que a exposição deles é resultado do trabalho. Os dois conseguem se manter distantes do rótulo de celebridade.

De fato, ela e Gregório não costumam viajar para ilhas ou castelos para aparecer nas capas das revistas. Eles também não vivem tirando fotos com o celular e postando no Instagram, para que os sites de fofoca repliquem as imagens. Não há paparazzi atrás deles. Mas há muitos fãs. Não é mais possível sair de casa sem ouvir pedidos de fotos ou autógrafos, o que eles garantem que não lhes incomoda. A proximidade com o público, aliás, gerou convites para rentáveis campanhas publicitárias, dispostas a explorar a credibilidade deles com os jovens. Na internet, os vídeos comerciais se tornam virais. Uma publicidade da Clarice para a rede de supermercados Pão de Açúcar, por exemplo, teve mais de 1,4 milhão visualizações no Youtube em quatro meses. Outra, do Gregório para o lava roupas Ariel, registrou 4,6 milhões de acessos no mesmo período.

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O audiovisual é a maior praia do casal, mas eles também se aventuram por outras áreas. Gregório é escritor e recentemente lançou o livro “Ligue os Pontos – Poemas de Amor e Big Bang”, que, em suas próprias palavras, foi todo inspirado na namorada. Como não poderia deixar de ser, o livro é dedicado a ela, que também aparece na lista de agradecimentos. Clarice, por sua vez, mantém uma carreira paralela de cantora e compositora, que lhe rendeu uma indicação Grammy Latino em 2013, por seu trabalho no álbum “Monomania”. A música-título, adivinha, é sobre o namorado.

Juntos há quatro anos, desde que “ficaram” pela primeira vez, após uma apresentação da peça “Confissões de Adolescente”, Gregório e Clarice só se desentendem quando ficam afastados. Gostam de escrever e contracenar juntos. “Amo trabalhar com o Gregório”, declara a atriz, filha dos roteiristas Adriana e João Falcão. “Meus pais sempre trabalharam juntos. Cresci numa família em que todos trabalhavam e se divertiam trabalhando juntos. Foi assim que aprendi”, explica ao Fala, Leonardo!. A intimidade é benéfica nas parcerias profissionais, na opinião do Gregório. No fake reality show “O Fantástico Mundo de Gregório” (2012), programa que acompanhava a vida dele e, portanto, também dela, os dois improvisavam muito, graças à sintonia. “Quando um fala, o outro já sabe onde a frase vai dar. A gente entende muito o tempo, o timing cômico, um do outro”.

Isso pode ser comprovado com facilidade no “Porta dos Fundos”, onde recebem a aprovação popular. Os esquetes “Essa É Pra Você” e “O Homem Que Não Sabia Mentir” – protagonizados pelos dois – estão entre os dez mais assistidos do canal. São mais de 11 milhões de acessos no que ela canta desaforos para o namorado. “É muito legal ter o trabalho admirado”, observa Clarice, que está acostumada a ser indagada sobre Gregório quando é vista sozinha em qualquer lugar. Com ele, acontece o mesmo. Durante a sessão de autógrafos do lançamento do seu livro, no Shopping Leblon, uma fã perguntou onde estava Clarice. Como se fossem siameses.

Para felicidade de quem gosta de vê-los lado a lado, o casal retoma a parceria neste filme novo, “Eu Não Faço a Menor Ideia Do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida”. Na trama, Clarice é a protagonista, na pele de uma universitária de Medicina que mata as aulas para descobrir à sua maneira qual profissão realmente quer seguir. Gregório faz uma participação, interpretando seu tio de 27 anos, diagnosticado com câncer. Contracenam em duas cenas, que fizeram a sala inteira rir, na pré-estreia realizada no Rio de Janeiro, no mês passado. “Admiro muito a Clarice como comediante. A gente gosta muito de improvisar e é muito bom improvisar com alguém que você conhece tão bem”, enfatiza Gregório. “A gente tem as mesmas referências, gosta do mesmo tipo de humor… Temos muita química”. É o que Clarice canta na música “De Todos Os Loucos do Mundo”, que faz parte do seu álbum de estreia. A primeira estrofe diz exatamente isso: “De todos os loucos do mundo eu quis você / Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha / De todos os loucos do mundo eu quis você / Porque a sua loucura parece um pouco com a minha”. Isso é Grerice. Ou Clagório.

LEIA TAMBÉM:
>> Entrevista com Clarice Falcão.
>> Entrevista com criadores do “Porta dos Fundos”.

[Dica da Semana] “Vidas Provisórias” – Edney Silvestre

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Terminei de ler Vidas Provisórias, do jornalista Edney Silvestre, há pouco. Li em uma semana, apenas em viagens de ônibus, e fiquei muito preso na história. Ou nas histórias, melhor dizendo. O livro acompanha paralelamente, em capítulos intercalados, dois personagens: Bárbara e Paulo.

Bárbara se muda de São Paulo para os EUA, ainda menor de idade, para tentar a sorte ilegalmente, com passaporte falso, sem a companhia dos pais e sem domínio do inglês. Os poucos conhecidos que tinha na terra do Tio Sam logo a abandonam e ela se vê sozinha em Nova York, tendo que lidar com um mundo assustadoramente desconhecido. Faz faxinas por diárias de US$ 50. Perde os laços com suas raízes, e não cria vínculos onde está.

Paulo, por sua vez, é obrigado a deixar o Rio de Janeiro após sofrer nas mãos dos torturadores da ditadura militar. Acusado e maltratado pelo próprio irmão, integrante da repressão, ele é forçado a abandonar o país se quiser sobreviver. Passa pela Argentina, pelo Chile e vai parar na Suécia. No Brasil, seus documentos e diplomas são queimados e apagados dos arquivos, como se ele nunca tivesse existido.

Situação parecida com a de Bárbara – que a história faz questão de sugerir o tempo todo que talvez nem se chame assim. Os dois não existem: ela, nos EUA; ele, no Brasil. As tramas se passam em períodos diferentes, com avanços e retrocessos no calendário, mas ambas se assemelham pela sensação de ser um outsider. É muito interessante, porque, na verdade, não precisa-se ir muito longe para se sentir assim.

Quero ler outras obras do Edney. Ele tem uma escrita envolvente e uma ótima noção de ritmo. É como a novela dos sonhos: aquela em que acontece alguma coisa toda hora, sem embromação. A gente pode até desconfiar o fim (eu desconfiei), mas não tem noção de como será o desenvolvimento. Indico demais.

[Dica da semana] “Fim” – Fernanda Torres

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Passeava entre os corredores da livraria quando vi “Fim”, da atriz Fernanda Torres. Já havia escutado sobre o livro em uma entrevista que ela deu recentemente para o Jô Soares, então o tomei da prateleira para dar uma olhada. Li o primeiro parágrafo e comecei a rir. Não tinha jeito: tinha que comprar. Comprei.

Fernanda escreveu sobre a morte – o fim ao qual se refere o título – e principalmente sobre a vida. O livro acompanha os momentos finais dos amigos Álvaro, Ciro, Ribeiro, Sílvio e Neto desde a juventude até a velhice (ou, melhor, da velhice à juventude). Ela narra a morte de um a um; de trás para frente. Partindo do princípio de que a morte é a única certeza da vida, o livro dispensa qualquer expectativa quanto ao seu desfecho, e entrega logo no primeiro capítulo quem foi o último a morrer (Álvaro, velhinho, ranzinza). Sabemos de antemão que todos morrerão, e o interessante é saber como viveram.

Ela foi perspicaz nesta abordagem, porque a vida também é assim. A morte é o que dá valor à existência de cada um de nós. A última página de todo ser humano é basicamente igual, e o que nos torna diferentes um dos outros é como vivemos. Álvaro, por exemplo, é um típico velho chato, que enterrou todos os amigos, invejando uns e em dívida com outros. É cômico para quem lê, mas um tédio para quem convive. Já Ciro era pura energia e morreu novo, com dezenas de viúvas no velório. Ah, o Ciro…

Chama a atenção também a capacidade da Fernanda Torres de dar diferentes vozes para cada personagem – parece que seu talento de atriz respingou na literatura. As histórias são narradas em 1ª pessoa por cada um dos homens, e eles não são confundíveis em nenhum trecho. Cada um tem uma personalidade e um timbre muito próprios. E Fernanda é uma mulher, meu Deus! Em nenhum momento, soa como uma mulher escrevendo na pele de um homem. São todos muito masculinos, aliás.

Fernanda também não é mórbida. Não é uma leitura depressiva ou alentadora sobre o fim da vida, e sim uma perspectiva bem humorada. Como eu esperava de um livro dela, com certeza. O humor é seu forte. Ela faz isso muito bem. Espero que ela dê continuidade à carreira literária, porque começou com o pé direito. Mais merda pra ela!

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