[Dica da semana] Série “Vai que Cola”, do Paulo Gustavo

A dica da semana é a série Vai que Cola – o melhor programa nacional de comédia da TV paga desde “Comédia MTV” (2010-2012). O programa, criado e protagonizado pelo ator Paulo Gustavo (do blockbuster “Minha Mãe é uma Peça”), é exibido de segunda à sexta no canal Multishow, às 22h30. A trama se passa em uma pensão do Méier, bairro do subúrbio carioca, onde todos os personagens querem se dar bem e passar a perna uns nos outros. Um dos destaques é Samantha Schmutz (o Juninho Play do “Zorra Total”), que interpreta a piriguete filha da dona da pensão (Catarina Abdalla).

vaiquecola

Os episódios são gravados como uma peça teatral, em um palco com plateia – mais ou menos como Miguel Falabella fazia em “Sai de Baixo” (1996-2002). A diferença é que só havia um cenário (a sala) no programa do Caco Antibes, e o palco é giratório na sitcom nova, o que possibilita mostrar todos os ambientes da casa, inclusive o banheiro. A proposta de acompanhar os personagens em tempo integral funciona muito, e a resposta vem de imediato do público presente, que serve de termômetro para os telespectadores.

A história começa com a chegada de Valdomiro Lacerda (Gustavo) à pensão. Sócio minoritário de uma empresa metida em falcatruas, ele só conhecia a área nobre do Rio de Janeiro antes de ter que se esconder na Zona Norte para escapar da Polícia Federal, adotando outra identidade – Valdo Pinto. Lá, ele passa a conviver com a dona da pensão, sua filha oportunista, os dois namorados dela (Emiliano D’Ávila, de “Avenida Brasil”; e Sílvio Guindane, de “Balacobaco”), a viúva de um bicheiro (Cacau Protásio, também de “Avenida Brasil”), um zelador preguiçoso (Marcus Majella, de “220 Volts”), um desocupado (Fernando Caruso, de “Os Buchas”) e uma gringa golpista (Fiorella Mattheis, do “Vídeo Show”).

O programa estreou na semana passada e tenho visto os episódios pelo Youtube. Eles sempre giram em torno de ideias mirabolantes para ganhar dinheiro facilmente: roubar uma maleta, ganhar na loteria, explorar o trabalho alheio, e leiloar a virgindade (de um homem!) foram os temas dos episódios a que assisti. É muito engraçado! E Paulo Gustavo por vezes me lembra MESMO o Caco Antibes, em uma versão ainda mais decadente. E, claro, nós todos amávamos Caco. Na verdade, é como se todos os personagens fossem como esse, achando que são mais do que são, e ansiosos para garantirem a riqueza fácil.

Segue o primeiro episódio:

Minha experiência num puteiro argentino

Quando eu era mulequinho, meu pai queria me levar em um puteiro para perder a virgindade. Enrolei, enrolei, enrolei e nao fui. Nao sou desses. Me interesso demais pela vida de garotas de programa, mas nao tenho interesse nenhum em ser um cliente. Grave essa informaçao.

Entao, estava eu hoje caminhando pela Corrientes – depois de ter turistado na Plaza de Mayo e na Plaza de la Republica – todo alegre, pensando em como as coisas mudaram e como estava ficando tudo bem por aqui. Aí fui parado por um desses caras que dao filipeta. Aceitei. Sempre aceito. Tenho pena deles. Ficam ali na rua o dia inteiro, entregando papéis, ninguem aceita, ninguem olha nas suas caras… mas aí esse cara, além de me entregar o papel, puxou papo.

– Oi, meu nome é Leonardo. Posso falar com você um minutinho?
– Pode sim. Também me chamo Leonardo.
(eu, achando divertido isso de ser xará)
– Da onde você é?
– Brasil
– Ah, notei pelo seu sotaque.
(ele, dizendo que meu espanhol é uma merda)
– hehe
– Estamos inaugurando essa boate aqui.
(me mostrando a filipeta)
– Ah, que legal. (fingindo interesse para ser legal)

E aí nao sei bem como ele me levou no papo e me fez entrar. Tinha que descer umas escadas. Era um subsolo. No final da escada, uma cortina. Passamos por ela. Tudo escuro, com luzes vermelhas bem fracas iluminando o ambiente (como a parte que ficam os morcegos no zoôlógico). Veio uma mulher falar comigo e me levou para um sofá.

Obviamente, a essa altura do campeonatoeu já havia entendido que nao era uma boate e sim um puteiro. Mas já era tarde demais. Como sair dali sem parecer estar repudiando-as? Me sentei com a puta. Me falou seu nome, mas nao lembro qual era. Nao importa, porque provavelmente nao era verdadeiro. Começou a conversar comigo, super simpática, e eu pensando em como cortá-la.

Aí ela começou a falar do local. Disse que faziam shows privados e que eu poderia escolher qualquer uma das meninas. Eu disse que tava com pressa, que nao ia rolar. Mas fingi interesse e perguntei se funcionava o dia todo. Ela disse que sim e que na próxima vez eu ia ter um desconto (o cara lá na rua havia me falado algo sobre isso) e que eu nao pagava nada pra entrar, apenas a consumaçao e as meninas. Okay, okay, okay, respondia.

Aí veio outra mulher com uma bandeija com três copos de refrigerante. Eu disse que nao queria. A puta que estava comigo antes falou que nao tinha alcool e que aquilo era o minimo que me ofereciam. Falei que nao queria mesmo (vai que era Boa Noite, Cinderela)? Mas ela falou pra nao fazer desfeita. Brindamos. A essa altura a segunda puta já estava sentada também. Fingi tomar, mas nao tomei.

Aí a puta que me recebeu começou a mudar o tom de voz. Disse que eu pagava agora, e na proxima nao precisaria pagar.

– Mas eu nao pedi nem pra entrar! Pagar o que?
– As bebidas.
– Eu nao pedi bebidas!
– Você nao pede, as meninas* pedem. Sao 60 pesos.
– Nao tenho dinheiro.
 (eu, horrorizado com o golpe e com três Cocas custando 60 reais).
– Assim você prejudica as meninas. Vai ficar devendo. A proxima vez vai ter que pagar.
– Tá bom.
– Mas voce nao tem mesmo?
– Nao. Tenho que ir no banco sacar e venho pagar.
(mentindo)
– Assim você prejudica as meninas…
– Desculpa.

E nesse momento chegou uma terceira mulher, essa mais velha, com uma lanterninha na minha cara. Cafetina, creio. Loira, de óculos, coroa enterona, administradora de empresas. A puta que tava de papo comigo falou: “Ela vai te revistar pra ver se voce nao tem dinheiro mesmo”. Me levantei assustado e tentei sair dali. Notei que tava encurralado. Tudo estrategicamente planejado. Eu, contra a parede, com uma puta e um sofá de cada lado, e a cafetina na frente com a lanterna. Ameacei andar pra frente, passar por cima. Nao assustei ninguém nao.

– Você nao pode entrar aqui e nao pagar.
– Mas eu nao pedi pra entrar! Me trouxeram aqui!
– Você entrou porque você quis.
– Nao!

 Tentei escapar mais uma vez. A loira chamou uns capangas. Dois brutamontes assustadores. Perguntei quando era antes que eles tocassem em mim. Ela repetiu que eram 60 pesos. Eu sabia que só tinha uma nota de 100 na carteira. Perguntei se tinha troco. A loira disse que sim. Abri a carteira, dei a de 100 pensando que aquele era o pagamento para sair do inferno. Que nada.

– Falta o da bebida das meninas.
– Que?
– 360 no total.
– Nao tenho!
(eu, falando a verdade)

E aí, minha gente, eu fui tratado como bandido no puteiro (sendo que eu que tava sendo roubado!). Me revistaram os bolsos da calça e do casaco. O fim! Eu tremia de pânico. Queria sair dali. A loira disse que eu ia ficar devendo e que quando voltasse ia ter que pagar. Achei que era melhor entrar no teatro e respondi positivamente. Fui ao balcao e tentei ter meu troco de volta, nao tive. Me deram um papelzinho cômico:

INVITACIÓN ESPECIAL
X 30 DIAS
DEBE 260 PESOS

E saí de lá correndo, em panico, com medo do mundo. Nao se pode confiar em ninguém. Sempre fui defensor das putas, cara, e elas fizeram isso comigo. Filhas da…

*Como eu sou brasileiro, ela falava ´meninas´ em português a todo tempo.

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