Primeiro capítulo do meu livro novo, Rumor

Porque, sim, eu tenho um livro novo :O

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Quarentonas, traição e fofoca

Papo de duas quarentonas ao telefone:

– Mas não dê ouvidos à sua filha. Ela não sabe nada da vida. Tá revoltada.
– Eu sei, mas me sinto escolhendo entre ela e o pai.
– Que nada. Depois ela esquece.
– Mas e eu?
– Aí você tem que pensar. A decisão é sua. Mas se eu fosse você, passava por cima.
– Ele sempre foi um bom marido…
– Pois é. Não é de sair com os amigos, beber, nada. Foi um deslize.
– Mas que deslize, né?
– Verdade. Mas foi só na viagem. Isso é até melhor pra você, porque ele não vai ficar encontrando-a por aí. Não tem chance de ter recaída.
– Mas e o chip?
– Que chip?
– Não te contei? Ele comprou um chip com o DDD de lá e fica escondendo na carteira.
– Ah, sim. Mas isso você não pode reclamar, senão terá que admitir que mexeu nas coisas dele.

Fofoca de duas quarentonas ao telefone:

– A situação dela está complicada. Jamais imaginei que ele fosse traí-la.
– Isso estava na cara desde o início. Não pode deixar homem viajar sozinho não. Ela pediu.
– Mas ele foi visitar o irmão doente. Que horror. Como pôde ter tempo para arrumar alguém?
– Homem é homem. Sempre arruma. Não prestam.
– Falei para ela que talvez seja uma enfermeira que ele conheceu e está mantendo contato.
– Será?
– Não acredito. Mas ia falar o quê? Eu já tinha me separado no lugar dela.
– Eu também.
– Mas falei para ela passar por cima.
– Claro. Depois eles ficam bem e você sai como a venenosa.

Fim de namoro, sadismo e clichê mexicano

Quando alguém descobre que você terminou um namoro (e hoje em dia, todo mundo toma conhecimento ao mesmo tempo, quando você muda seu status no Facebook), imediatamente quer saber o motivo (e todo mundo pergunta ao mesmo tempo, em uma espécie de coletiva de imprensa). Ninguém pergunta se você tá bem, se você tá mal, querem saber o porquê. A fofoca fala mais alto.

Você responde, diz que tudo ocorreu amigavelmente, que não houve conflito. O ouvinte murcha, broxa com a falta de emoção da história. A euforia dá espaço a uma desconfiança. “Mas será que foi só isso mesmo? Será que não tem outra/outro na história?” Você acredita que não. “Hm, não sei hein. Você não percebeu nada diferente?”.

As pessoas querem te ver no fundo do poço: arrasado, aos prantos, corno, como nas novelas mexicanas. De preferência, trocado(a) pelo(a) melhor amigo(a). Senão, por que terminar? Não há motivo. Tem que ter bafo, polêmica, fuzuê. Caso contrário, ninguém vai se interessar. Não dá audiência.

Outro dia, uma pessoa, que vive um relacionamento totalmente destrutivo, me disse “pelo menos, não nos traímos”, como se isso explicasse tudo, como se fosse 100% de uma relação. Não é. Há tantas formas de se trair, além da infidelidade sexual. Tenho a impressão de que tem muita gente suportando namoros de merda, mas monogâmicos, por conveniência ou conformismo.

Só isso explicaria a sede das pessoas por ter um vodu para alfinetar quando um namoro termina. Um não, dois. As pessoas querem odiar, xingar, tomar partido e se voltar contra o/a traidor(a) e o/a amante. É a forma de mostrar solidariedade. A única forma.

Sabe Sicrano? Ih, menina…

Costumo recorrer à vida dos amigos quando o assunto morre. Quero dizer, quando estou no meio de uma conversa e percebo que as minhas próprias experiências não são suficientes para dar continuidade ao papo, lanço na roda a história sobre um amigo que não esteja presente. Não sei se deveria estar confessando isso aqui. Vai ter gente se irritando.

Mas eu tenho um cuidado todo especial. Há regras para isso. Não é assim: sair explanando a vida alheia. Não se trata de fofoca. Claro que não. Se me pedirem segredo, não conto. Sei guardar segredo. Mas se não pedem, cabe a mim a decisão. Se A e B são amigos, não vou falar de A para B. Vou falar de A para C. Mas C tem que conhecer A, de alguma forma, senão o assunto se torna irrelevante.

É mais ou menos assim: “Sabe Fulana? Vai casar/ter filho/trair o namorado”. Eu não caso, não tenho filho e não traio o namorado, então tenho que me valer das vidas estapafúrdias dos outros. Tenho amigos que sabem melhor do que eu a vida de outros amigos, de tanto que conto. Vira tipo uma novela. Eles passam a perguntar as novidades… alheias e não as minhas. Isso é errado?

Fofoquinhas

Sei que não tenho contado muitas histórias aqui, mas falta tempo para isso. Tenho estado em um estado latente de ansiedade no qual eu quero ler livros, assistir filmes e peças… todas… tudo… ao mesmo tempo. Aí acabo só falando disso. Ainda rola o Festival do Rio, que me alimenta nesse sentido. Totalmente. Fora isso, provas (nem tudo é perfeito). Mas vou compartilhar aqui alguns casos engraçados que ocorreram no próprio festival.

Eu de papagaio de pirata do Eriberto Leão, no EGO

Caso 1 – Cine Odeon. Tô eu lá, de bobeira, desatento como sempre  e alguém passa por mim dando três tapinhas nas minhas costas. Me viro pra ver quem é. O cara segue andando, de costas. Não vejo a cara. Lanço: Ih, louco. Ele olha de volta e ri. Era Eriberto Leão. Ri também e pensei de novo (mas dessa vez não verbalizei): Ih, louco.

Caso 2 – Fila para entrar em ‘Malu de Bicicleta’. Marjorie Estiano e namorado na minha frente. Chega a vez deles e o segurança pede o ingresso. Ela diz que faz o filme. Ele ri com cara de ‘Aham, Cláudia, senta lá’. Ela repete: Eu faço o filme… Eu, atrás, não sei se rio ou compartilho do clima de tensão. Mas a tensão me contagia. O segurança chama uma recepcionista. Marjorie conta pra ela que tá no elenco do filme, etc e tal. Recepcionista pede pra ela ficar no cantinho (para não atrapalhar a fila): Já vou ver isso pra você. Eu penso: Tento ajudar a esclarecer isso? Conto pra eles que ela faz mesmo o filme? Dou meu ingresso e entro.

Caso 3 – Fim da sessão de ‘Cópia Fiel’ e eu encontro a minha professora de Filosofia do colégio. E aí, gostou do filme? Penso: não. Respondo: Mais ou menos. Ela curtiu. Notei que as pessoas tavam com cara feia, de quem não tava entendendo. Eu entendi! Mas não gostei! Por que as pessoas tem essa mania feia de pensar que se alguém não gostou é porque não entendeu? Tenho direito de entender e não gostar. Eu hein.

Caso 4 – Estréia do Festival, jornalistas apertados atrás de uma grade pequena. Celebridades passando, dando tchauzinho e fingindo não entender que precisamos de umas palavrinhas delas. Só paravam os aspirantes a fama, com aquele ar de por-favor-me-faça-qualquer-tipo-de-pergunta-que-eu-juro-que-respondo. Uma mulher que já devia ter seus 30 ou 40 anos, mas ainda tá aspirando, ficou um tempão ali com a gente dando entrevista. Não tinha a menor idéia de quem era. Não anotei as respostas. Apenas sorria e fingia interesse, enquanto na verdade tentava ver se estava chegando alguém mais top. Os outros repórteres anotaram tudo que ela falou, mas ninguém usou. Até agora, não sei quem ela era.

Caso 5 – Perguntei pro Murilo Rosa, que faz um gay em ‘Como esquecer’, se ele é a favor do casamento gay. Iiiih rapaz… sabe que eu nunca pensei nisso? Rio amarelo (leia-se então pensa rápido, por favor, porque eu quero ir embora). Oooooi fulano, Murilo me ignorando. Hahaha tá vendo como se foge de uma pergunta?, Murilo deixando claro que tá me ignorando. Anoto a situação, as falas e penso: é essa a matéria: Murilo Rosa evita falar de casamento gay. Na saído do cinema, ele me vê. Você!, agarrando meus braços. Eu, assustado. Não te respondi! Você ia colocar que eu não respondi, né? Mulher dele: Ah, era dele que você tava falando? Como assim eles tavam falando de mim? Ah, sim, eu até anotei aqui, olha. Falando que você fingiu cumprimentar um amigo, hesitou e não respondeu. Murilo ri: Você ia colocar isso mesmo? Sério? Mulher interfere: É que ele nunca pensou nisso! Respondo: É, ele me disse. Murilo: Eu sou a favor de qualquer união feliz. Tá anotado.

Caso 6 – Essa não é do festival. É da estréia da peça do Paulinho. Bianca Bin, de Passione. Todos fotógrafos tirando fotos. Tento entrevistá-la, mas ela é um tanto quanto monossilábica. Qual seria a primeira coisa que você faria se fosse um homem? Bianca: Sei lá. Veria meu pau. Ok, resposta desagradável. Não tenho como publicar ‘pau’. E se publico ‘pênis’, a declaração perde todo o sentido. Agradeço e saio de perto. Vem ela atrás de mim um minuto depois: Hey! Não põe isso não! Muito feio! Coloca que eu faria xixi em pé, é mais sútil. Pra fazer xixi, tenho que ver meu pau. Ah, valeu. Toda a imprensa começa a se perguntar qual o nome dela. Garanto que é Bianca, mas não sei o sobrenome. Deixa eu pensar…Bianca Rabin! Fotógrafos anotam o nome para passar para os sites. Eu começo a pensar. Rabin? Nome estranho hein. Gente, não ponho a minha mão no fogo não hein… é Bianca, mas não sei se é Rabin. Põe ‘Bianca Passione’!

Bianca Bin: para mim, Rabin.

É segredo. Não conta pra ninguém, tá?

Um cara, que vamos chamar de Pato Donald, descobriu que dois coleguinhas de trabalho estavam se pegando e a regra da empresa é clara: funcionários não podem dar uns amassos. Pato Donald conversou com as duas pessoas, falou pra elas disfarçarem melhor, porque se ele descobriu, mas gente poderia descobrir, não é mesmo?

Os dias se passaram e Pato Donald precisava compartilhar esse bafão com alguém. Contou pra Lia (nome fictício) tudo que sabia, com riqueza de detalhes, porque ele é desses. Mas frisou: isso é segredo, não conta pra ninguém, tá? Lia, que é telefonista da mesma empresa, ligou pro seu namorado, que chamaremos de Visconde de Sabugosa: Não conta pra ninguém, pelo amor de Deus!, disse. Visconde também trabalha lá e percebeu que a informação era quente de verdade. Repassou para o seu amigo, Alexandre Frota (nome fictício também hein! Não é uma empresa pornô não), e pediu segredo: A Lia não pode saber que eu te contei hein?.

Quando contou pro Visconde a fofoca, Lia viu que a pegação do outro casal era mesmo muito interessante, porque seu namorado não era de fofoca não e mesmo assim se interessou pelos detalhes. Lia, então, não viu mal em contar para a sua amiga, a outra telefonista, que chamaremos de Mônica. Ela é de confiança, pensou. Mesmo esquema: pediu segredo. Só que Mônica, minha gente, também é filha de Deus e contou tudo pro Alexandre Frota, que fez cara de novidade e fingiu que não sabia de nada ainda.

Com tanta gente contando pra ele esse babado, Frota não se fez de rogado. Resolveu contar pra alguém também. Correu pro Pato Donald e contou tim tim por tim tim. O pato fez cara de surpresa, fingindo não saber de nada, enquanto pensava “A Lia é uma vaca!”.

Indignado, porque só ele sabia da pegação alheia  e havia contado apenas para a Lia, não havia dúvidas: ela estava espalhando sua fofoca por aí. E isso não se faz. Ele pediu segredo, pô. Ele pensou mais um pouco e chegou a outra conclusão: Lia não fala com Alexandre Frota, então tem mais gente aí sabendo desse bafo. Resolveu colocar a amiga contra a parede.

– Lia, pra quem você contou aquela história?
– Err.. eu? Eu não…
– Eu sei que você contou. O Alê veio me contar a história exatamente como eu te contei. Sei que você não fala com ele, então quero saber pra quem você contou.
– Tá bom! Eu confesso: contei pro Visconde! Mas ele é meu namorado, Pato! Eu confiei nele.

Decepcionado com a confissão da amiga, Pato Donald avisou que ia conversar com Alexandre pra saber quem tinha contado a fofoca pra ele e também ia falar com Visconde pra ele não continuar espalhando isso por aí, senão todo mundo ia sair mal. Lia se desesperou com essa história e ligou pra Mônica:

– Mônica, você contou pra alguém aquilo?
– Eu não.
– Jura?
– Juro.
– O Frota tá sabendo. Contou pro Pato Donald. Ele me colocou contra a parede e perguntou pra quem eu contei.
– E o que você respondeu?
(it means: Você me deixou fora dessa, néééeéé?)
– Que falei pro Visconde. Mas fiquei com medo de você ter falado pro Alê. Porque se ele fala isso pro Donald, eu saio como mentirosa duas vezes.
– Não, pode ficar tranquila. Não contei não.
– Então foi o Visconde. Filho da puta. Só queria confirmar.
– Filho da puta mesmo, menina.

– Visconde, você contou aquilo pro Frota, né?
– Contei.
– Quê? Como assim?
– Ué, contei. Você não perguntou isso?
– Mas como você me diz nessa naturalidade!? Eu te pedi segredo!
– Saiu. Soltei. Sem querer.
– Ele contou tudo pro Pato! O Donald veio tirar satisfação comigo. Tô queimada! Nunca passei por isso. Tive que assumir que te contei.
– Caramba! O Frota não tinha nada que ter contado pro Donald. Eu pedi segredo.
– Quem errou foi você! Já disse que tô queimada? Fui confiar em você e olha no que deu? Não posso te contar mais nada que você vai contar pros outros?
– É.
– Aaaaarrrg!

– Alexandre, sabe aquela fofoquinha que você me contou?
– Bafão, né?
– Sim, sim. Quem te falou aquilo?
– A Mônica.
(it means: Não vou entregar o Visconde, meu brother)

– Lia, tá tudo resolvido.
– Como assim?
– O Frota falou pro Donald que quem contou pra ele foi a Mônica e não eu. Então, não temos nada a ver com isso.
– Quêêêê?
– Ele não me entregou. É amigão.
– A Mônica não sabe de nada!
– Ele disse que ela que contou pra ele.
– Mas ela não sabe! Não sabe! Ele quer jogar a culpa pra alguém agora que a merda estourou.
– Pelo menos não foi na gente.
– Eu agora tô pior que antes, Visconde! Acorda. Por isso que o Pato não tá falando comigo. Agora eu entendi.

Resultado:

  • Lia está mais queimada do que nunca com Pato Donald.
  • Mônica está queimada com a Lia, porque disse que não tinha contado pra ninguém e foi desmascarada.
  • Frota está queimado com a Mônica, porque a entregou, e com a Lia, porque piorou o lado dela na história.
  • Visconde não está queimado com ninguém, porque Lia o perdoou. O amor perdoa.
  • Donald tá queimado com todo mundo, porque ninguém gostou dele se sentir o dono da fofoca. O bafão é da galera toda, eu hein.

Qualquer semelhança com a reliadade, não é mais do que mera coincidência.

– Olha no meu olho!

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