Dani Calabresa estreia na TV aberta e salva estreia da nova temporada do “CQC”

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Parei para ver a estreia da Dani Calabresa na TV aberta na segunda (18/3). Desde que soube que ela havia sido contratada pela Band para integrar o elenco do “CQC”, fiquei curioso e, porque não dizer, receoso. Gostava muito do seu trabalho na MTV e, a princípio, achei que ela estava fazendo um mau negócio com a mudança. “Dani só tem a perder”, arrisquei.

Um canal aberto não daria a ela a mesma liberdade criativa que a MTV – muito menos o “CQC”, que afastou o Rafinha Bastos de sua bancada por causa de uma piada de mau gosto. Também não conseguia visualizar como ela se enquadraria no programa, após as notícias de que Dani não seria repórter nem apresentadora, mas ganharia um quadro de ficção. Esquetes no “CQC”? Estranho…

Ao contrário do que pensava, funcionou. Dani abriu o humorístico contracenando com o resto do elenco, simulando uma disputa de egos com a veterana repórter Mônica Iozzi e fazendo sua certeira imitação da Narcisa Tamborindeguy. Para completar, contou com as participações da Val Marchiori e da Sabrina Sato. Foi engraçado, claro, mas não parecia o “CQC” – o que foi bom, nesta altura do campeonato.

A ex-“Furo MTV” conseguiu dar novo fôlego ao programa com sua primeira aparição, mas ficou sem sintonia com os quadros seguintes, que continuam iguaizinhos em sua 6ª temporada. Vieram matérias sobre a Comissão dos Direitos Humanos, um show sertanejo e o conclave católico, nem sempre divertidas. Interessantes, bem produzidas, mas não engraçdas. Para salvar, Dani voltou – ao vivo – e mostrou de novo a que veio.

Apresentada ao público por Marcelo Tas, como se isso fosse necessário, ela comemorou que agora será vista pelas massas (motivo alegado para sair da MTV, onde registrava audiência de 0,2 pontos) e apresentou seu novo quadro, que mescla notícias reais com humor (isso te lembra alguma coisa?). De novo, funcionou – e dessa vez fez mais sentido com o formato do “CQC”.

Aos poucos, Dani Calabresa encontrará seu espaço no programa da Band. Ela é ótima e mostrou isso em todas suas aparições, que deixaram gostinho de “quero mais”. Não acho mais que ela só tem a perder com essa contratação. Dani, de fato, ganhará visibilidade e novas oportunidades. A MTV perdeu. A Band ganhou. O “CQC” ganhou. E Dani? Que use o programa como porta de entrada na TV aberta. Mas não crie raízes.

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[Dica da semana] Livro “A Visita Cruel do Tempo”, da Jennifer Egan

A dica desta semana é um livro que eu li no ano passado e fiquei maravilhado. Se chama “A Visita Cruel do Tempo” e foi escrito pela estadunidense Jennifer Egan. Todo mundo deveria ler. De verdade. Sério. Pra ontem.

Segue um texto que escrevi sobre a obra para um trabalho da pós:

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Ausência de travessões ou aspas para indicar falas. Confusão entre a voz do narrador e a do personagem. Parênteses de mais de um parágrafo. Alternância no foco narrativo. Narrativa não-linear. Mas, mais do que tudo isso, o descompromisso com qualquer padrão – inclusive esses. Jennifer Egan continua quebrando os paradigmas da linguagem em “A Visita Cruel do Tempo” (A Visit From The Goon Squad, 2010), sem perder o encantamento típico de suas obras. Não é à toa que o livro ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2011 – uma aprovação oficial para todas as suas esquisitices, que podem indicar tanto um novo caminho como a consagração de uma vertente alternativa.

As peculiaridades da autora tornam difícil até mesmo o enquadramento do livro em um gênero: são contos interligados ou um romance não-linear? Podem ser os dois. Cada capítulo é focado em um personagem diferente, em uma trama específica e em um momento distinto da cronologia – que vai de 1970 a “um futuro próximo” (estimado em 2020) – não nesta ordem, claramente, senão não seria Egan. Os personagens ora são protagonistas, ora são coadjuvantes, em episódios que vão de um safári na África aos bastidores da indústria musical em Nova York.

Se a autora apostou em um protagonista evidente em “O Torreão” (The Keep, 2006), cuja narrativa também ia e vinha cronologicamente, ela foi além em “A Visita Cruel do Tempo”. Todos os personagens são responsáveis por conduzir a história, sem ser o centro da trama, e estão, de alguma maneira, conectados uns aos outros por encontros e desencontros. Essas conexões e suas consequências no destino de cada pessoa são o tema do livro, que se apropria das redes de contatos do Facebook (há críticas diretas ao site e às relações contemporâneas na trama), reproduzindo-as em suas páginas. O filme “360”, dirigido por Fernando Meirelles, fez algo parecido no cinema.

Ela é assim: de personalidade literária a prori despretensiosa e até equivocada, mas engenhosa e profundamente técnica para tornar viável e acessível uma narrativa complicada e cheia de costuras. A quebra dos paradigmas da linguagem não assusta o leitor, como poderia acontecer, mas o atrai e o encanta. É perceptível que cada parágrafo, cada linha e cada palavra têm uma razão para ter sido escrito como foi. Mais do que a temática, a autora e sua obra impressionam pela estrutura da narrativa. Altamente recomendável.

Rock in Rio: festival de excentricidades públicas

Semana passada, Katy Perry desembarcou no Rio de Janeiro usando uma máscara de Carmem Miranda – pelo que entendi, aquele cabelo rosa não era o suficiente para chamar a atenção. Hoje, a cantora Ke$ha chegou à cidade com um tubarão de pelúcia amarrado na cara – uma máscara improvisada.

O crítico musical Jamari França falou sobre ela no Twitter dia desses. “Essa Ke$ha pelo menos é sincera, mete o cifrão no nome para dizer que apela para ganhar dinheiro. Mas é uma sub sub sub Madonna” (sic).

Posso estar errado, mas comparar Ke$ha com Madonna me parece, no mínimo, incoerente. A mais velha apelou bastante ao longo de sua carreira – eroticamente falando – mas nunca foi muito adepta do culto ao grotesco. Isso é coisa da geração Lady Gaga.

A cantora de Poker Face levou as excentricidades do palco e dos bastidores dos shows (na maioria, clássicos como as centenas de toalhas brancas e outros pedidos exóticos para os camarins) para o dia-a-dia. Li uma entrevista da Lady Gaga para Billboard – acho – e ela dizia que era aquilo 24 hora por dia. Não existia mais Stefani Joanne Angelina Gemanotta (seu nome verdadeiro).

Ela levou isso ao extremo quando passou no tapete vermelho do Grammy deste ano dentro de uma cápsula (lembra?). Geralmente, os artistas posam para as fotos com uma roupa e se apresentam com outro figurino. Ela não. Chegou dentro de uma cápsula e só saiu dali no palco, misturando realidade e performance. Louquinha, eu sei. Mas interessante.

Katy Perry e Ke$ha me parecem discípulas, com relação esse fato específico das máscaras no aeroporto. É como se essas artistas tornassem a vida uma grande performance, só sendo elas mesmas na segurança dos quartos de hotéis trancados. Talvez nem isso – se elas não tiverem autocontrole emocional.

Clandestinos – o sonho começou

Quando vi as primeiras chamadas de Clandestinos na Globo, fiquei bastante interessado. Depois, li uma matéria na Revista da Tv que acabou com a minha curiosidade: dizia que a série era inspirada em uma peça de teatro. Imaginei um programa teatral como Capitu e Hoje é dia de Maria. Não gostei de nenhum. Não tenho paciência para teatro na televisão. Ou é teatro ou é Tv.

Baseada na famosa peça de João Falcão e adaptada para a TV pelo autor, Flavia Lacerda e Guel Arraes, a série de sete capítulos conta histórias de jovens dos quatro cantos do Brasil que sonham com o estrelato. Mas o que a torna mais especial é que ela surgiu a partir de experiências próprias de atores anônimos e suas lutas para conseguirem um lugar ao sol na profissão. “Eu queria pessoas que estivessem representando algo que eles estariam vivendo de verdade”, explica João.

http://clandestinos.globo.com/programa/2010/11/04/o-sonho-comeca-aqui/

Mas aí eu me informei mais um pouquinho e descobri que a peça em questão – uma obra de João Falcão – era uma que eu já havia quase assistido mais de uma vez. Dei uma chance: assisti ao primeiro episódio, semana passada. Para quê? Adorei. O marketing do projeto foi tão bem feito que, em alguns momentos, eu não sabia o que era real e o que era faz de conta.

Fora os rostos das irmãs gêmeas Giselle e Michelle Batista – que já fizeram Malhação e são, portanto, conhecidos por parcela do público – todos os outros atores são, ainda, totalmente anônimos. E melhores do que muita gente que já estourou por aí (atores de teatro costumam mesmo dar um banho). Talvez passem essa impressão também pela familiaridade que tem com as histórias que interpretam: muitas são baseadas nas suas próprias experiências.

E essa é a magia de Clandestinos: a mistura da realidade com a ficção. Fiquei encantado com o que vi. Tem como não se emocionar com a história da Adelaide (Adelaide de Castro)? É muito tocante. Não sei como vão ser os próximos episódios, mas esse primeiro teve um lado dramático bastante acentuado.

Drama que não há na peça – essa semana, eu finalmente fui assistir – mas também não faz falta no palco. O espetáculo é risada do início ao fim. Pura comédia. E sem apelação, o que é raro hoje em dia. Nesse sentido, peça e série se completam. O programa de Tv aprofunda as histórias dos personagens do teatro – sem forçar a barra, apenas explorando o potencial de cada um. Vale a pena ver os dois. Na Globo, toda quinta-feira, depois da Grande Família. E no Teatro Leblon, toda terça e quarta, às 21h.

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