Magia de Carnaval

Eu sei que não é todo mundo que entende o poder de comoção de uma escola de samba. E lamento. É pura arte. O maior espetáculo do planeta, realmente. Quem me conhece sabe que eu amo. Desde criança, o que eu mais gostava no Carnaval era ir à concentração das escolas ver os carros alegóricos na rua. Eu ficava absolutamente encantado com aquilo tudo. Na época, apenas sonhava em um dia assistir aos desfiles lá dentro da Sapucaí. E foi um passo após o outro até que isso acontecesse. A primeira vez que fui, minha mãe não tinha as informações e ficamos na arquibancada popular, já na dispersão – muito ruim. Depois, fui ao desfile das escolas mirins, em outro ano entrei para o desfile do grupo de acesso… Já era grande quando vi pessoalmente minha Beija-Flor, que eu sempre assistia só pela TV. Foi uma emoção inexplicável, e sempre que vou à Sapucaí sou tocado de alguma maneira, seja desfilando ou curtindo.

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O que eu vou lembrar do Carnaval de 2014

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Meus primeiros desfiles na Sapucaí. Assim, no plural: na Caprichosos de Pilares e na Vila Isabel.
Os ensaios da Vila duas vezes por semana. O suor. A comunidade pulando e cantando.
Meu amor platônico. Nossa troca de olhares. Nossa incapacidade de aproximação.
O monstro.
O Mosquito.
A Thati, óbvio.
O ensaio técnico da Caprichosos de Pilares e a emoção de pisar na avenida pela primeira vez, com as arquibancadas lotadas.
Os sambas, que ficam na minha cabeça por dias.
O estresse na quadra da Vila para pegar a camisa para o ensaio técnico.
A surpresa de esbarrar no Spike Lee.
A Sabrina Sato. A Aline Riscado.
O Marquinhos. O aparente ódio dele por minha existência.
As fugas.
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Os compromissos que descartei por causa dos ensaios.
Pela TV, minha Beija-Flor. O orgulho do desfile impecável. A alegria de ver Laíla satisfeito.
O sonho adiado de desfilar na escola que escolhi ainda criança. A escola que sempre quero ver campeã.
O medo e a certeza da queda da Vila Isabel para o acesso.
Pé frio?
A fantasia quente e pesada. O sapato amarrado para não sair do pé. A ombreira desconfortável.
O medo da Marcella desfalecer do meu lado.
A tensão por quem não recebeu a fantasia. O minuto a minuto no Facebook. O atraso. A pena.
As pessoas se ajudando. Os remendos.
“Quer fantasia leve vai para bloco”.
A fantasia leve da Caprichosos. Uma benção.
A diversão do desfile da Caprichosos. A vontade de emendar outro desfile em seguida.
A camisa encharcada após o desfile da Vila. O desespero para tirar a fantasia logo na dispersão.
A bateria. Sempre a bateria.
Os sorrisos. A alegria. O clima de festa. O carnaval.
O Carnaval de 2015, que já é assunto, que já quero.

Festival do Rio 2012 estreia nesta semana com “Argo”, “Moonrise Kingdom” e “Ruby Sparks”

O Festival do Rio começa nesta quinta (27/9), com mais de 400 filmes em sua programação, que estará em cartaz em várias salas de cinema da cidade até o dia 11 de outubro. Trata-se de uma ótima oportunidade para assistir a produções que jamais chegariam aqui fora do evento, ver antes de todo mundo os filmes que bombarão nos próximos meses, e prestigiar a nova safra do cinema brasileiro. Há muita coisa imperdível, de verdade. A lista completa pode ser vista aqui.

Como bom cinéfilo que sou, já assisti a oito longas dos que serão exibidos no festival e quero dedicar esse post a eles. Vou fazer uma espécie de ranking, começando da 8ª posição até chegar ao primeiríssimo. Okay? Vamos lá!

8) TWIXT – É o novo filme do Francis Ford Coppola (trilogia “O Poderoso Chefão”), mas não se deixe impressionar. O longa já passou pelos festivais de Toronto, Turin, São Francisco e Munique, e, não sem razão, nunca foi premiado. A história começa sem pé nem cabeça e, no desenvolvimento, perde também o pescoço, as pernas e os braços. É um martírio assistir. Elle Fanning (que eu amei em “Um Lugar Qualquer”) está minimamente interessante.

Sinopse oficial: Hall Baltimore é um decadente escritor de terror que vende seus livros por conta própria. Em visita à cidade de Swann Valley, Hall se vê envolvido no misterioso assassinato de uma jovem, morta por uma estaca de madeira. Naquela noite, durante o sono, ele recebe a visita de um fantasma que o convence a ir a fundo nesta história repleta de crianças assassinadas e almas amaldiçoadas. Uma cidade feita de mistérios, onde as respostas estão muito mais próximas de sua vida do que o próprio Hall pode imaginar.

7) ELEFANTE BRANCO (ELEFANTE BLANCO). Filme argentino do Pablo Trapero (“Abutres”), com a sensação latina Ricardo Darín (“O Segredo dos Seus Olhos”) no elenco. Exibido no Festival de Cannes, o longa repete o elenco e os problemas de “Abutres”, filme do mesmo cineasta, que em nada me agradou. O meio da narrativa é estagnado e parece ficar se repetindo para ganhar tempo sem objetivo. É cansativo, mas vale pela atuação do Darín e pelas imagens fortes da villa portenha.

Sinopse oficial: Depois de sobreviver a um violento ataque durante uma missão na selva, o padre Nicolas é levado por Julian, um padre que também se dedica a projetos sociais, para a favela de Villa Virgen, em Buenos Aires. No local, considerado um dos mais violentos da cidade, Julian supervisiona a construção de um hospital. Nicolas sente que está perdendo sua fé e, ainda atormentado pela violência e desestabilizado, se interessa por Luciana, uma atuante assistente social. No entorno, os conflitos entre os cartéis de drogas da região crescem e o governo interrompe as obras do hospital.

6) ELENA – Filme russo, dirigido por Andrey Zvyagintsev (“O Retorno”) e premiado em Cannes com o prêmio especial do júri na mostra Um Certo Olhar. Algumas cenas são excessivamente longas e sem conteúdo, um acompanhamento profundo da rotina dos personagens principais. Isso me incomodou bastante, mas a história é ótima e desperta boas reflexões quando termina. Quais são os nossos valores? Quais são os nossos limites?

Sinopse oficial: Elena é uma mulher madura e humilde que vive uma relação desapaixonada com Vladimir, homem de uma certa idade e bastante rico. Ambos têm filhos de casamentos anteriores. Desempregado, o filho de Elena vive lhe pedindo dinheiro. Já a filha de Vladimir mantém uma relação distante e conflituosa com o pai. Hospitalizado após sofrer um ataque cardíaco, Vladirmir se dá conta de que pode morrer em breve e decide fazer seu testamento, deixando quase tudo para sua filha. Desesperada, Elena decide traçar um plano para ajudar seu filho.

5) MAGIC MIKE – Novo longa do Steven Soderbergh (“Contágio”), com Channing Tatum (“Para Sempre”), Matthew McConaughey (“O Poder e a Lei”) e Alex Pettyfer (“Eu Sou o Número Quatro”). Como a temática do filme é a vida dos strippers masculinos, há muitas cenas sexy, com músculos e bundas à mostra (mas também há as fantasias de gosto duvidoso e as dancinhas constrangedoras). Faltou sensibilidade para ir além disso e alcançar algo mais dramático. Filme raso, mas tem Channing Tatum em trajes mínimos, garotada. Vale o ingresso. Exibido nos festivais de Sundance, Provincetown, Locarno e Deauville.

Sinopse oficial: Mike é um experiente stripper que trabalha no clube noturno Xquisite. Ele incumbe-se de ensinar um jovem dançarino, The Kid, a arte da dança e também apresentar o mundo da noite, das festas, da conquista e do dinheiro fácil. Ao conhecer Brooke, irmã do garoto, Mike pensa que pode ter alguma chance com ela, mas seu estilo de vida atrapalha seus planos. Inspirado na antiga carreira de Channing Tatum, que interpreta o papel do protagonista Magic Mike.

4) BACHELORETTE – Nova comédia feminina sobre os bastidores de uma festa de casamento – dessa vez com Isla Fischer (“Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”), Kirsten Dunst (“Melancolia”), James Marsden (“Sob o Domínio do Medo”) e Adam Scott (série “Parks and Recreation”) no elenco. O roteiro, da novata Leslye Headland, abusa das drogas ilícitas, lícitas e da temática sexual, mas também toca em pontos delicados, que dão certa credibilidade à história. Isla Fischer, mais uma vez, está impagável.

Sinopse oficial: Reagan, Gena e Katie ficam surpresas ao saberem que Becky, sua amiga gordinha da época do colégio, vai se casar. No fundo, Reagan se ressente que alguém esteja se casando antes dela. Como as três serão madrinhas do casamento, elas decidem que o melhor a fazer é aproveitar a ocasião para curtir uma arrasadora despedida de solteira. O problema é que Becky não compartilha dos mesmos planos. Mesmo sem a noiva, Reagan, Gena e Katie partem para uma farra regada a álcool, drogas e encontros amorosos, na qual o que importa é viver, a qualquer custo, um final de semana inesquecível.

3) RUBY SPARKS – A NAMORADA PERFEITA (RUBY SPARKS) – Primeiro filme dos diretores de “Pequena Miss Sunshine” em seis anos, escrito pela protagonista Zoe Kazan. O elenco traz ainda Paul Dano (“Os Acompanhantes”), Annette Bening (“Minhas Mães e Meu Pai”), que está maravilhosa, e Antonio Banderas (“A Pele Que Habito”). O filme segue aquela linha de “500 Dias Com Ela”: fofo e triste. A história é bem bolada e bem explorada, mas o roteiro perdeu o ritmo na reta final e ficou repetitivo. Mesmo assim, o elenco faz valer a pena.

Sinopse oficial: Calvin é um jovem escritor que alcançou um sucesso fenomenal muito cedo e agora vive um momento de crise em sua carreira. Mas ele não enfrenta problemas só na esfera profissional, precisa resolver também sua vida afetiva. Finalmente, ele cria um inspirador personagem chamado Ruby, uma suposta namorada. Uma semana depois, Ruby surge em carne e osso sentada no seu sofá. Calvin fica atônito com a aparição da moça, mas começa a gostar da ideia de ter encontrado um amor. Agora ele terá que saber lidar com a própria criação.

2) MOONRISE KINGDOM – Novo filme do Wes Anderson (“O Fantástico Sr. Raposo”), que estreou no Festival de Cannes. O elenco adulto é impressionante, com Tilda Swinton (“Eu Preciso Falar Sobre Kevin”), Frances McDormand (“Aqui É o Meu Lugar”), Edward Norton (“Homens em Fúria”), embora o foco seja um casal de criancinhas. A fotografia é linda, lúdica, assim como a história, que reveza momentos de total lucidez com profunda fantasia. É uma boa experiência cinematográfica – e o menininho (Seamus Davey-Fitzpatrick) é um fofo.

Sinopse oficial: Suzy e Sam vivem em uma ilha tranquila da costa da Nova Inglaterra. Ela mora com os pais e três irmãos mais novos. Sam, é orfão e vive com os pais adotivos e uma tropa de escoteiros. Os dois têm em comum a idade, 12 anos, e o sonho de serem livres. No verão de 1965, eles vivem a experiência do primeiro amor. Apaixonam-se, fazem um pacto secreto e fogem juntos. Enquanto toda a cidade se mobiliza para encontrá-los, uma violenta tempestade se aproxima da costa e vai causar ainda mais transtornos à vida da pacata comunidade.

1) ARGO – Terceiro longa dirigido pelo Ben Affleck (“Atração Perigosa”), premiado pelo público no Festival de Toronto. O elenco traz Bryan Cranston (série “Breaking Bad”), John Goodman (“Os Flinstones” – eterno Fred), Victor Garber (série “Alias”) e Alan Arkin (“Pequena Miss Sunshine”) – um time de peso. O roteiro é ótimo, com a dificuldade de tratar de uma tensão política histórica, e soube dosar as cenas tensas e as bem humoradas. O que mais me agradou, aliás, são as alfinetas à Hollywood, considerando o contexto da produção. Há um momento em que uma piada é seguida de outra e é impossível não rir com a autoconsciência alheia. Filmão mesmo. Já está nas listas precoces de apostas para o Oscar.

Sinopse oficial: Em 4 de novembro de 1979, durante a invasão de militares iranianos na embaixada americana em Teerã, 6 entre os 58 americanos presentes no local conseguem se refugiar na casa do embaixador do Canadá. Ciente da iminência da captura e da possível morte dos seis refugiados, Tony Mendez, um especialista da CIA, bola um ousado plano para tirá-los do país: forjar a produção de um filme americano de ficção científica em pleno Irã. É iniciada uma insólita operação secreta que se desenrolou nos bastidores de uma crise histórica, escondida durante décadas. Baseado em fatos reais.

Adele faz a limpa no Grammy 2012 e deixa Lady Gaga rolling in the deep

Adele, com os seis troféus que ganhou por “21”, seu segundo álbum, superando o sucesso de Amy Winehouse em 2008

De pretinho básico, Adele sobe ao palco, emocionada e acompanhada de toda a sua equipe, para receber o prêmio de Álbum do Ano (“21”), o sexto que ela leva na noite do Grammy Awards, em Los Angeles. Lady Gaga, que perdeu em todas as categorias para a inglesa, tenta sair à francesa do Staples Center, apoiada em seu cajado dourado, por trás da rede negra que cobre todo o seu corpo, inclusive o rosto. Os também derrotados Bruno Mars, Rihanna e Dave Grhol aplaudem de pé o momento.

Essa foi a cena emblemática da premiação que marcou o domingo (12/1) e confirmou o resgate de uma vertente da música desvalorizada nos últimos anos: a do bom gogó. Aplaudida de pé ao cantar “Rolling in the Deep”, que lhe rendeu dois troféus, Adele não apenas mostrou que estava recuperada da cirurgia na garganta, mas também alentou os ouvidos cansados de playbacks e auto-tunes.

As apresentações bem produzidas de Katy Perry, Rihanna, Chris Brown e David Guetta também fizeram parte da cerimônia, mas serviram apenas para realçar o poder dos simples e eficazes Paul McCartney, Foo Fighters, Bruce Springsteen e The Beach Boys, gente que dispensa firula para impressionar. Lady Gaga não teve a oportunidade de se reinventar e foi obrigada a assistir sentada – posição que não abandonou durante todo o show – à performance desastrosa de Nicki Minaj, que tentou inutilmente polemizar.

Também do time das performances boas, bonitas e baratas, Whitney Houston, que morreu na véspera do Grammy, foi lembrada em um vídeo no telão e homenageada por Jennifer Hudson no palco. Dessa forma, a noite anunciava a mudança de rumos do mercado fonográfico – agora mais para Whitney que para Madonna – e aplaudia os artistas capazes de se virar sem artifícios high tech. Os outros se fantasiaram para assistir a própria derrocada.

Lady Gaga não sobe ao palco do Grammy 2012

Ser a Sandy deve ser incrivelmente chato!

Desde que me tornei fã da Sandy, aos nove anos de idade, ouço críticas e comentários de aversão. “Ai, a Sandy? Mas ela é tão chata!” Eu, claro, não compartilhava dessa opinião. Na verdade, me irritava bastante, porque sempre me identifiquei com ela e, por isso, tomava suas dores. Cresci e passei a não me importar mais – posição que ela também diz ter tomado. “É chata? Ok. Mas eu gosto.”

A impressão que eu sempre tive é que as pessoas a julgavam sem conhecê-la, rotulando-a baseados em fatos isolados e pretéritos. Não que eu fosse íntimo dela. Pelo contrário: Sandy é um mistério para mim. Mas eu tive a oportunidade de estar com ela – na posição de fã e de jornalista – um bocado de vezes nos últimos dez anos. Acredito que a conheço consideravelmente mais do que a maioria do público. Já a vi revirando os olhos, preocupada com prova, irritada com tumulto, incomodada com paparazzi, fazendo brincadeiras, ironizando… até pisando na bosta, eu já vi.

A Sandy é educada (sempre!) e solícita (na medida do possível). Mas santa nunca foi. Ela é apenas resguardada, o que é muito diferente. Se ela não mostra a casa (ou o lençol manchado de sangue) para as revistas, não quer dizer que ela não tenha uma. O mesmo se aplica a declarações sobre a vida pessoal – e, no caso dela, o que mais desperta curiosidade: a sexual. “Essas quietinhas são as piores”, já dizia uma inspetora do meu colégio.

Por isso, quando a declaração da Sandy sobre o sexo anal foi parar na capa da revista Playboy, eu não cheguei a me assustar. Achei divertido. “É possível ter prazer anal”, estamparam. Não vou falar que costumo imaginá-la na cama, porque estaria mentindo. Mas, ao ler a frase, tampouco imaginei. Primeiro, porque ela não estava dizendo em momento algum que dava a bunda. Segundo, porque o mínimo que eu conheço dela é suficiente para saber que Sandy não fala sobre suas práticas íntimas.

Mas, se estivesse falando, não seria um choque. Repito: não é porque ela não fala, que não faz. A maior surpresa seria, na verdade, ela estar abrindo sua vida dessa forma – já que uma característica forte de sua personalidade é justamente buscar a privacidade. Mas as pessoas mudam e, se ela quiser, tem o direito de virar, hum, uma devassa – no sentido de escancarar a vida.

Não é todo mundo que tem o meu discernimento (cof cof), e instalou-se uma polêmica. De sites de fofoca a programas familiares, o anal da Sandy virou pauta recorrente, sensacionalista. No Twitter, a hashtag #sandyfazanal foi uma das mais usadas. Ela explicou que a declaração tinha sido tirado do contexto, mas ninguém quis saber disso. Aliás, da mesma forma que ignoram o fato dos ingressos para a gravação do seu DVD estarem esgotados. Ela vai gravar um DVD e tudo o querem saber é da sua vida sexual. Ela não é atriz pornô, gente. Nem Mulher Fruta.

“Falou e agora não assume”, “Até parece que não falou”, “Ela tá ridícula querendo fazer a devassa”, “A Sandy tá forçando”, “Tá devassa mesmo”, “Ela quer mudar essa imagem de santa à toda custa”, “Nem dá pra acreditar…”, “Me decepcionou…”, “Nunca me enganou” – tanta coisa foi dita!

Afinal, o que vocês querem: que ela faça ou não faça, que fale ou não fale? Não dá para entender. Como deve ser chato ser a Sandy: se ela não fala sobre sexo, é puritana; se fala, está forçando; se não aceita responder esse tipo de perguntas, é santa; se aceita, está decepcionando (a imagem de “virgem do Brasil”, como ela mesma disse na entrevista). Ela está sendo vigiada e cobrada a cada respirada. É quase um personagem do The Sims, que todo mundo quer controlar.

Comprei a revista (foi uma situação engraçada) e li a entrevista ontem, no ônibus mesmo, tamanha a ansiedade. Contextualizada, a frase do anal passa sem a menor importância, quase despercebida. Várias outras declarações são mais polêmicas e interessantes, e dariam ótimas manchetes: ela diz, por exemplo, que é boa no strip-tease e revela o desejo de conhecer uma casa de swing (conhecer é diferente de fazer troca de casais, é bom ressaltar).

Na real, é apenas mais uma entrevista. Não achei sensacional, nem conheci uma nova Sandy por meio daquelas páginas, como disse o jornalista Zeca Camargo em seu blog. Uma entrevista dela que me marcou muito mais foi uma para a revista Época, em 2003. Na época com 20 anos, ainda solteira, a cantora falou pela primeira vez que tinha tomado um porre, assumiu um namorado desconhecido e disse que costumava mentir para a imprensa.

ISTOÉ – O que pode ter contribuído para isso?
Sandy – De certa forma, eu correspondi a esse estereótipo. Além de ser muito caseira, não sabia dizer não. Se um repórter me perguntava se já havia dado meu primeiro beijo, em vez de dizer que isso era assunto meu, eu respondia. Sem ter como me preservar, abria várias coisas ou acabava contando mentiras.
ISTOÉ – A Sandy, então, conta mentiras.
Sandy – Muitas. Meu primeiro beijo não aconteceu quando eu tinha 16 anos e não foi com o Lucas (da Família Lima). Foi com 14 para 15, na festa de formatura da oitava série. Beijei um menino da minha classe, com quem convivia há tempos. Namoramos durante um ano e
dois meses, em segredo.

Ela ser uma mentirosa pública e confessa não é mais polêmico? Para mim, sim. Não dá para confiar nela! Na época, essa entrevista teve certa repercussão – não pela mentira e sim pelo porre – com a manchete “Não sou santinha” (frase que ela voltou a declarar em entrevistas posteriores).

Com a entrevista da Playboy, só comprovei a minha teoria: é chato ser a Sandy. Desde o início, as entrevistadoras a metralharam com perguntas supostamente constrangedoras, querendo arrancar algo dela a toda custa (e ainda escreveram que ela se comportou como se estivesse em um inquérito policial…). Constrangedor me pareceu o desespero delas, que saíram da redação com uma missão: conseguir um deslize. “Olha, já que você quer um furo, vou te dizer: eu sou boa em strip-tease”, disse a cantora, mantendo a entrevista sob controle, dando o que as repórteres precisavam e evitando um deslize qualquer.

Deve ser horrível a sensação de ter sempre gente à espreita, querendo que ela solte algo “proibido” ou faça algo inusitado (para quem?) – ou não querendo nada disso também (é pressão dos dois lados!!!). Na entrevista, ela disse que tem um alerta do Google que a avisa sempre que surge algo novo com seu nome. Falou também que evita ir a lugares com medo de ser vista: “Confesso que até agora só não fui [a uma casa de swing] fora do Brasil, porque tenho medo de encontrar brasileiros e eles saírem falando”. Ou seja, nem no exterior a neurose desaparece.

Tá aí um outro dado: Sandy se importa muito com o que falam sobre ela, o que é muito compreensível, já que as pessoas estão sempre comentando sobre sua vida, dando opiniões (como eu faço agora) e inventando mentiras. Ela sempre foi famosa e vigiada: imagina. Que sufoco! Ela faz que não, mas a verdade é que sempre está dando satisfações.

A cobrança pra continuar virgem (“Isso tomou uma proporção absurda”)… a cobrança para deixar de ser (“Nunca preguei que se deveria casar virgem”)… a cobrança pra manter o mistério (“Virei a virgem do Brasil”)… a cobrança para colocar fim às especulações (“A imagem de virgem é um mito”). Não sei se ela se sente sufocada, mas eu me sentiria. Ela já é casada e cogita ter filhos, mas ainda falam do seu hímem.

O cúmulo da entrevista, para mim, foi quando ela disse que, no dia do casamento, se preocupou com a opinião dos fãs, “que começaram a ficar chateados, acharam que estávamos sendo arrogantes” (por não mostrar a festa para ninguém), e aí ela e o Lucas resolveram postar no blog dando um olá (a história do blog!). Deus me livre: era o dia dela (no máximo, do marido), mas nem aí, ela pôde pensar só nela.

Sandy não pode ser egoísta, nem se desejasse. Ela tem que mudar, porque as pessoas querem. Mas não pode mudar, porque seus fãs gostam dela assim. E mesmo que ela tente ficar alheia a tudo isso – e apenas ser ela mesma – a mudam e desmudam por ela. Que horrível lidar com expectativas e cobranças, sejam elas quais forem, de tanta gente, de um país inteiro. Deixem ela em paz. Já é chato demais ser ela, facilitem.

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