Quando eu tinha 9 anos e me perdi da minha mãe no Réveillon de Copacabana

Adoro Réveillon. Ai, como eu adoro Réveillon! Todo mundo em comunhão, com pensamento positivo, aquela multidão vestida de branco, bebendo espumante barato, distribuindo sorrisos felizes com a chance de recomeçar do zero (poderiam ter uma perspectiva diferente e pensar “mais um ano perdido e nada aconteceu”, mas os depressivos ficam em casa e a positividade impera). Sempre preferi o Réveillon ao Natal. Não que você tenha que comparar as duas festas, absolutamente. Mas eu prefiro. Os Natais tendem a ser repetições de si mesmos, enquanto o Réveillon é sempre diferente. Você se cerca de pessoas diferentes, em lugares diferentes, pede ao universo coisas diferentes, reza por inquietações diferentes, joga flor pra Iemanjá por desejos diferentes… e, o melhor de tudo, não tem ninguém para te lembrar “do verdadeiro significado da data”. O verdadeiro significado do Ano Novo é ser o Ano Novo mesmo. Fim de papo.

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Vai ter brigadeiro no casamento?

– Mãe, vai ter brigadeiro?
– Não sei, filha.
– Mas tem que ter.

A menina, de no máximo nove anos, queria saber se valia a pena ir ao casamento da amiga da mãe. Brigadeiro era o parâmetro.

– Fala para ela não se esquecer dos brigadeiros.
– Ela já encomendou os doces, filha.
– E pediu brigadeiro?
– Não sei. Acho que não.

Nesse momento, uma ouvinte atenta, sensata e estraga prazeres se intrometeu:

– Olha, em casamento, que eu saiba, não tem brigadeiro não.
– NÃO TEM BRIGADEIRO? – exclamou indignada a criança.
– Não…
– É, eu também nunca vi. – confirmou a mãe, sem graça.
– Então não vou não.

Mãe sem papas na língua e filho sem freio

Estava na sala de espera do dentista (não, não me tornei uma dessas pessoas assíduas a consultórios dentários, mas o Crô gosta de dividir o trabalho em várias consultas [odeio!], querendo explorar meu plano de saúde, obviamente), tentando ler minha Billboard, quando chegou uma mãe com o filho de quatro anos.

O garotinho era lindinho, com um corte à la Neymar em seu cabelo loiro e chupeta azul na boca. “Tem namorada?”, a recepcionista perguntou. “Eu não!” – ele respondeu com aversão. O menino era levado e a mãe, daquelas que teve filho muito jovem, não estava preparada para tanto.

– Em pensar que tenho que aturar até fevereiro…
– Fevereiro?
– Quando a creche volta. Não estou aguentando. Mãe tinha que ser remunerada.

Fiquei um pouco chocado por ela dar tais declarações na frente do menino, que saltava de um lado para o outro, hiperativo. Provavelmente ele não escutou. Ou, ainda criança, percebeu que é melhor fingir não ouvir certas coisas.

– Tá sendo um inferno, vocês não têm noção. E ele tem só quatro anos!

Ai. Meu. Deus. Olha o que ela tá falando… Olhei feio, mas ela não notou, porque o filho estava de pé em uma cadeira.

– Ô desocupado, desce daí!

Mães deseducadas querendo filhos comportadinhos. Nunca conseguirão.

Respeito o Kinder Ovo como uma divindade

Eu me pergunto se alguém ainda come Kinder Ovo. Eu não como. Quando era criança, fazia coleção daquelas tranqueiras. Adorava. Amo chocolate, mas queria mesmo era o brinquedinho. Lembro da coleção de Smurfs. Eu não sabia quem eram os Smurfs, mas queria ter a coleção completa. Era do Kinder Ovo!

O chocolate também era bom. Eu gosto disso de preto por fora e branco por dentro. É mais ou menos a proposta do bombom Ouro Branco (adoro também), só que ao inverso. Mas eu não como Kinder Ovo desde os anos 1990. Com certeza. Mais ou menos quando deixei de comer também a Tortuguita (lembra?) – esse um chocolate de péssima qualidade, embora comer as patinhas primeiramente fosse irrestível.

Sei que de repente minha avó parou de comprar Kinder Ovo. Ficou caro. Não sei o preço anterior, nem o atual. Mas todo mundo diz que encareceu assustadoramente. Continuo vendo-o nas prateleiras das lojas, mas não vejo ninguém comprando. E as bugigangas nunca mais fizeram sucesso: as crianças de hoje em dia querem besteiras digitais.

Por mais caro que seja, eu poderia comer um de vez em quando. Às vezes, pago R$1,50 nos bombons da Cacau Show, o que me parece um valor absurdo (mas compensável). A gente se dá o direito de gastar irresponsavelmente, não é? Claro que sim.

Mas a minha relação com o Kinder Ovo é peculiar. Acho que não compro para não deixar de cultuá-lo. O sabor pode não ser tão bom quanto eu lembrava. E o brinquedinho certamente irá pro lixo, o que perderia toda a graça. Prefiro deixar assim, como se o Kinder Ovo fosse um portal para a infância, que só recorrerei em um dia de extremo desespero.

Reflexões sobre a Bienal do Livro do Rio

A Bienal do Livro é o maior evento editorial do país. E, como tal, está aí para vender livros. Muitos livros. Nesta edição, está prevista a venda de 2,5 milhões de exemplares, em apenas 11 dias de exposição. É bastante – principalmente para “um país que não lê”.

Para quem consome literatura (o que vai além de gostar de ler: significa ter dinheiro para comprar livros e, de fato, fazê-lo), é um verdadeiro paraíso. A oferta é tanta, que chega a deixar tonto. Eu mesmo me perco nos pavilhões várias vezes, por mais que tente fazer um caminho lógico.

Ouvi uma garota mineira dizer que “tem que comprar o que faz muita questão”, um malandro carioca falar que “as pessoas vão à Bienal para comprar o que não encontram na Internet” e uma senhora comentar que “não comprou nada, porque é muito tumulto”.

Cada um tem seu ponto de vista e suas regras de consumo, vá lá. Eu comprei mais do que devia, mas fiquei atento à oferta ao público infanto-juvenil, que beira o excessivo. O primeiro pavilhão, o laranja, é das crianças. É tanta cor, vinda de livrinhos, quadrinhos, revistinhas. Não sei esse é um mercado efetivamente bem sucedido ou se é uma estratégia para incentivar a leitura desde cedo (não consigo acreditar que Ziraldo ainda tenha algum efeito). As crianças de hoje são as leitoras de amanhã – você sabe. Talvez seja um pouco dos dois.

Os outros dois pavilhões apresentam bombardeios de literatura vampiresca. Não me lembro de ter visto os livros de “Crepúsculo”, que despertaram essa febre adolescente há alguns anos, mas são tantas as opções genéricas, que chegam a cansar. Praticamente toda editora tem os seus vampiros, para satisfazer a demanda que anseia por sangue. E anseia mesmo: vi muitas garotas carregadas de livros desse tipo.

Para competir com os vampiros, há a figura de Justin Bieber. Ele também está fortemente presente na Bienal: são dezenas de biografias, pôsteres e revistas – tudo em promoção, para não doer no bolso dos pais. De qualquer forma, não vi ninguém comprando nada disso. Os fãs do cantor devem estar na fila do show, que acontecerá em outubro. Ou tem vergonha de consumi-lo em público, em um evento literário.

Mas eram tantas as opções de biografia de Justin, que, por um momento, eu temi virar em um daqueles corredores e vê-lo autografando essas obras. Mas isso não ocorreu. A estrela juvenil que a Bienal trará para uma sessão de autógrafos é, na verdade, uma ex-estrela, ex-jovem e ex-Disney Hilary Duff, que está grávida e partindo para a literatura. Para uma garotada que ouve Bieber, oferecer Hilary a ela é como dar um genérico fora da validade para um doente terminal.

Quem estava lá, representando outra parcela significativa do evento, era o Padre Fábio de Melo, aquele bonitinho. Não sabia que ele escrevia. O cara canta, escreve e, dizem, também evangeliza em missas. A fila para conseguir um autógrafo seu foi a maior que eu vi por lá, o que é uma prova do poder do mercado religioso (lembro de ter lido em algum lugar que “Ágape”, do Padre Marcelo Rossi, aquele do “erguei as mãos e dai glória a Deus”, foi o livro mais vendido do ano passado). No pavilhão verde, uma parte grande era reservada aos stands religiosos.

Tirando os vampiros, Justin, o espiritualismo e a máfia da autoajuda, sobra pouco, é verdade. Mas é legal buscar por esse tesouro. E eu sou adepto dos que preferem que as crianças e adolescentes leiam porcarias a não lerem nada. Com certeza. Eu comecei a me interessar por livros como “Gossip Girl” e Thalita Rebouças (que tava lá!). Então todo mundo tem salvação. [Na verdade, eu admiro o trabalho da Thalita Rebouças, porque ela fala a língua dos jovens e consegue vender pra caramba]

OBS: Assisti a um debate com Ana Maria Machado e Edney Silvestre no Café Literário, que foi muito bacana. Quem for ao evento, esteja atento à programação. Esses encontros com os autores são a melhor parte.

O Dia dos Pais mais antigo que eu lembro é…

O Dia dos Pais é até hoje a data mais desconfortável para mim. Sem dúvidas. Entra ano e sai ano é a mesma coisa: minha mãe começa a me azucrinar três dias antes dizendo que “eu vou ter que ligar hein”. Eu, claro, nunca quero ligar (o que, na maioria das vezes, consigo deixar de fazer). Tenho os meus motivos, claro, e vão muito além de uma infância frustrada com meu pai. Mas é bem verdade que os motivos começaram todos lá, na infância. Freud explica.

Quem já foi criança, sabe: as escolinhas – creches, maternais, não sei qual o nome que dão para isso hoje em dia – adoram qualquer gancho para dar uma boa festa e suspender as aulas. O desejo dos “professores” por não dar aulas (bastante inúteis quando você ainda não aprendeu nem a escrever, é verdade) só não é maior do que o das crianças em não assisti-las. Então, quando chegam estas épocas de Dia dos Pais, das Mães, do Índio, do Palhaço, da Avó, do Avô, da Árvore, do Bichinho de Estimação, do Lápis, do Quarto ou até mesmo do Copo D’água, a primeira coisa que os donos dessas instituições fazem é organizar uma festinha. E comprar tintas para pintar a cara das crianças com motivos temáticos.

No caso do Dia dos Pais especificamente, as criancinhas não tem os rostos pintados, mas recebem a incumbência de colorir uma gravatinha para o papai. Comigo, pelo menos, era assim. Eu gostava de pintar, como já disse, mas, nesta situação, era algo especialmente difícil. Lembro-me de como as outras crianças se empenhavam nesta tarefa e eu não. Elas queriam muito agradar aos pais, que, para elas, eram seus super-heróis, como dizem as mensagens das propagandas comerciais nesta época do ano. Meu pai não era um herói para mim (estava bastante longe disso…). Eu não ia entregar aquela gravatinha para ele. Meu pai nunca ia às festinhas do colégio.

Só uma vez que ele foi. Eu era bem novinho – estamos falando de uma fase pré-alfabetização – então não me lembro muito bem. Acho que minha mãe ligou para ele, explicou a situação e meu pai se propôs a ir àquela comemoração do colégio. E eu pintei a gravatinha para ele. Sem qualquer simbolismo, apenas pintei com as minhas cores preferidas (ainda estava naquela fase do azul). Encontrar o meu pai nunca foi sinônimo de diversão, então eu não estava muito animado. Eu só queria cumprir a minha parte do acordo (é curioso como tudo que diz respeito a ele sempre cai nessa palavra…).

O combinado é que ele passaria na casa da vovó para me buscar, me levar ao colégio (que era na minha esquina) e, juntos, participarmos da festinha. Até porque não fazia sentido eu chegar antes, sem meu pai, na festa do Dia dos Pais. Deu a hora marcada e eu já estava pronto, circulando pela casa, de certa forma ansioso (nem que fosse para acabar logo com aquilo), olhando pela janela para ver se ele já tinha chegado. Fiz esse processo algumas vezes e nada de ele aparecer. Está aí outra diferença entre nós: eu sou pontual, ele não. Os ponteiros do relógio do teto da parede da sala andavam e meu pai não chegava. Bateu aquela dúvida: será que ele tinha esquecido? Provavelmente. Comecei a achar que ele não viria mais e então ligaram para saber o que estava acontecendo.

Repito: não me lembro bem, mas não devem ter conseguido estabelecer contato de primeira, porque o tempo continuou passando e meu pai não chegava. A festinha era na sexta-feira e não exatamente no Dia dos Pais (senão não seria interessante para a escola), então era bem provável que ele tivesse se esquecido.

Mas, por fim, ele apareceu. Sem dar qualquer tipo de explicação – o que me leva a crer que, sim, ele tinha se esquecido, mas minha mãe o lembrou “há tempo” – me colocou no carro (para ir até a esquina!) e entramos no colégio. Lá, entreguei a gravatinha para ele e a festa acabou. Com o atraso dele, havíamos perdido tudo (o que não devia ser muita coisa, mas, naquela época, era significativo para mim). Não foi uma experiência emocionante. Não foi um dia especial. Pelo contrário. Mas é o Dia dos Pais mais antigo que eu me lembro.

Felicidade é utopia

Você às vezes não tem a impressão de que a felicidade é uma utopia? De vez em quando, eu desconfio, pelo menos, de que ela é reservada apenas às crianças, sempre tão ingênuas e despreocupadas seja qual for o caos em que vivam. Agora, os adultos… a gente está sempre correndo atrás da felicidade. Ela é um objetivo nunca alcançado. Tô certo ou tô errado?

As pessoas vivem para perseguir a felicidade, cometendo erros e acertos com a única intenção de serem felizes. Mas morrem antes de conseguir, parece. Claro: temos momentos felizes. Mas a felicidade como uma constante… não acontece. A gente conquista algo, fica feliz e logo nos vêm novas preocupações e, de novo, estamos correndo atrás daquela boa sensação. É quase um vício (ou, talvez, uma obrigação). É mais fácil estar do que ser feliz. Repare bem.

Pensa comigo: o que você mais quer na vida? Pensou? Agora, me diga: e depois que você conseguir isso? Como vai ser? Pois é. Sempre falta alguma coisa para a nossa felicidade ser completa. O que a gente mais quer não é SÓ o que a gente quer. Os desejos são múltiplos e, ao se alcançar o primeiro, passa-se a correr atrás da concretização do segundo e assim sucessivamente. Nunca acaba, porque, durante o processo, surgem novas metas. Carreira, sucesso, casamento, filho, caridade, não importa.

Já as crianças… Elas vivem dia após dia, aproveitando cada um sem se importar com o amanhã. Elas não correm atrás de felicidade alguma. Elas sonham e, assim, são felizes. Elas não se preocupam em torná-los realidade, porque, para elas, seus sonhos já são bastante reais. Sonhar é real. Isso basta, de certa forma.

Sou fruto de uma geração que cresceu sob a ideologia de Xuxa: “querer, poder, conseguir”. E isso dava força às minhas fantasias. Cresci e comecei a torná-las reais. Mas elas passam. Você quer comprar um carro, por exemplo. Você compra, realiza seu sonho, você fica em êxtase, mas depois de um mês aquilo já é banal. Não dá para viver olhando para trás. A gente olha para frente. O que vem por aí?

Ainda com relação à Xuxa, ela sempre foi um bom retrato da felicidade. Mulher sempre sorridente, bonita, rica, com sucesso, uma carreira estável, uma legião fiel de fãs, uma filha bonita e saudável, um affair aqui, outro acolá. Então, a gente imagina: ela chegou “lá”. Mas aí a mãe é internada com pneumonia, sofre de Mal de Parkinson e diabete. O irmão também andou doente, que eu li.

E o que aconteceu? Xuxa virou capa de revista ao dizer, durante a comemoração de 25 anos de casa na Globo, que estava triste (“Hoje, eu não sou feliz”). E – tratando-se do segmento que cuida de celebridades – a declaração merecia mesmo a manchete. Xuxa, mulher sempre sorridente (…) outro acolá… triste? É de se chocar. É questão de se questionar: se até ela fica triste, como pode a felicidade constante existir? Não existe. E eu deveria ter desconfiado quando ela se separou de Marlene Matos… porque não era feliz com ela.

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