Quando eu tinha 9 anos e me perdi da minha mãe no Réveillon de Copacabana

Adoro Réveillon. Ai, como eu adoro Réveillon! Todo mundo em comunhão, com pensamento positivo, aquela multidão vestida de branco, bebendo espumante barato, distribuindo sorrisos felizes com a chance de recomeçar do zero (poderiam ter uma perspectiva diferente e pensar “mais um ano perdido e nada aconteceu”, mas os depressivos ficam em casa e a positividade impera). Sempre preferi o Réveillon ao Natal. Não que você tenha que comparar as duas festas, absolutamente. Mas eu prefiro. Os Natais tendem a ser repetições de si mesmos, enquanto o Réveillon é sempre diferente. Você se cerca de pessoas diferentes, em lugares diferentes, pede ao universo coisas diferentes, reza por inquietações diferentes, joga flor pra Iemanjá por desejos diferentes… e, o melhor de tudo, não tem ninguém para te lembrar “do verdadeiro significado da data”. O verdadeiro significado do Ano Novo é ser o Ano Novo mesmo. Fim de papo.

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O pedinte, eu e a visita

Dez horas da noite e a campainha toca. Se ainda morasse com a vovó, ela ficaria irritada e diria que não se aparece na casa dos outros uma hora dessas. Mas moro com minha mãe e nos limitamos a ficar curiosos sobre quem possa ser. Abro a janela e, mesmo sem óculos, reconheço a pessoa. É um cara que passou aqui pedindo esmola há cerca de duas semanas.

– Oi?
– Oi, não sei se você se lembra de mim…
– Não me lembro não. – Faço o maluco.
– Você outro dia me ajudou com dinheiro para o leitinho do meu filho.
– Ah…
– …
– Bem, eu tô sem nada hoje, desculpa. – Está chovendo e minha solidariedade termina quando me imagino atravessando o corredor embaixo d´água.
– Não vim pedir nada hoje não.
– Ah, desculpa então. – Me pergunto se ele acredita que somos amigos e veio me fazer uma visita.
– gkogfgigndjgoejngmdfjgdgjdkf. – não consigo entender o que ele diz, porque a chuva está realmente barulhenta, mas aceno com a cabeça, fingindo compreensão – Você estava lendo, né?
– Não. – Por que ele está perguntando isso?
– Estava sim.
– Não estava não. – Começo a me irritar.
– Sei que estava, porque a gente fica assim, com a vista cansada, depois que lê. – Ele se referia aos meus olhos semicerrados na tentativa de enxergá-lo. 1,75 grau de miopia em cada olho.
– É, estava sim.
– Então, você não tem leite ou fubá para eu levar pro meu filho?
– Desculpa, não tenho mesmo. – Realmente não tenho, porque só usamos comida congelada aqui em casa.
– Eu e minha mulher vamos andando até o Méier, passando de casa em casa e pedindo. Tá frio, né? Você não tem um casaco para me dar?
– Olha, não tenho mesmo… – Mais uma vez, não menti, não tenho. Faz pouco tempo que nos mudamos e nos desfizemos de muita roupa.
– Que Deus te mantenha assim… – tenho medo do que ele vai falar – … atencioso. Agora vou tocar ali…
– Vai lá. Boa sorte! Boa noite!

Bonzinho só se fode: minha saga na chuva para salvar o Nico

BUENOS AIRES – Já é noite e chove pra caramba. Fecho todas as janelas do apartamento, percebendo tardiamente que a água está molhando o piso. Seco o que posso, pensando no sermão que o Nico vai me passar pelo descuido. “Sos muy bobo eh”, consigo ouvi-lo dizer. Olho para fora e agradeço por estar dentro de casa. Pelo menos isso.

O celular toca. É uma mensagem dele, dizendo que está sem carteira e seu casaco impermeável. Ele quer que eu o busque na faculdade para socorrê-lo da chuva. Olho novamente para fora. “É sério isso?” – respondo e começo a me vestir, meio a contragosto.

Quando desço, vejo algumas pessoas na entrada do prédio, ressabiadas de encararem a chuva. Há poças enormes na rua, mas a calçada está caminhável. Encaro. Desço a rua até a avenida onde tomarei o ônibus. Ao chegar à esquina, uma onda molha minhas pernas na altura das minhas batatas. Para ser rápido, saí sem meias e agora meus pés estão encharcados. Sinto meus tênis pesados de tanta água.

Não há como chegar ao ponto de ônibus. A avenida está inundada. As pessoas permanecem imóveis onde estão, cercadas de água em pequenas ilhas de cimento. Penso em voltar para o apartamento e enviar um sms contando a impossibilidade de socorrê-lo. Mas me lembro de todas as vezes em que queria ajudá-lo e não pude. Decido ir. Afinal, o que mais pode acontecer? Meus tênis já eram.

Meto os pés, um seguido do outro, na piscina que se formou na calçada. Levanto-os alto para andar e piso com toda firmeza que me é possível. Tenho um guarda-chuva, que mantém a parte de cima da minha cintura seca, mas me causa desconforto com a ventania.

Chego ao próximo ao que seria o ponto de ônibus em dias secos. Fico ali, ilhado, ao lado de algumas pessoas. Os transportes passam direto, deduzindo que ninguém vai encarar a piscina, cujo volume só aumenta, para sair dali. Eu vou. Faço sinais mais bruscos para que percebam isso. Um para. Me arrasto até ele e entro, olhando pra trás e pensando: “Só eu mesmo”. Mando um sms para o Nico dizendo que quero matá-lo.

Quando desço, a chuva já parou. Olho a faculdade, sem nenhuma poça d`água ao redor, e me direciono à entrada lateral, onde ele estará, ansioso para estrangulá-lo. Entrego o casaco e a carteira, não sem antes dar um show de ironias. Ele tenta se desculpar e conto a minha saga.

– A chuva parou. Mas você sabe que seria horrível voltar para casa caminhando embaixo da chuva.
– É, seria. Mas foi horrível para mim, que não esqueci nem a carteira nem o casaco.
– Coitado!
– É. Também estou com pena de mim.

Esperamos pelo ônibus que nos levará de volta ao apartamento. Tudo que eu quero é tomar banho. Ele pergunta, brincando, se eu coloquei a mesa. Mas eu coloquei, de verdade. “Você tá sendo fofo hoje”. Aham, mas continuo querendo matá-lo. Percebemos que os ônibus não estão parando aí e caminhamos até outro ponto, pisando em um lamaçal. Como todo castigo para corno é pouco, quase caio. Deslizo e me desequilibro, levando duas garotas que vêm atrás da gente a morrerem de rir. Também rio. É melhor que chorar. Da próxima vez, vou fingir que não recebi sms nenhum. Melhor.

A aventura de assistir a um show do Aerosmith em Buenos Aires

Quando surgiu a ideia de assistir ao show da banda Aerosmith em Buenos Aires, enxerguei nisso uma aventura: viajar para outro país para ver um show (que passou pelo Brasil com uma apresentação em São Paulo). Nunca cheguei a tanto. Já cogitei, mas fazer… não.

Ingressos e passagens compradas, não pensei que poderiam haver maiores problemas. Mas a vida me surpreende – principalmente quando delego tarefas ao Nico (ele não é muito bom em planejamentos).

Missão: descobrir como chegar ao Estádio Único de La Plata, o local do show, que fica há 1h30 de Bs As (algo como Rio-Petrópolis). Meios: Internet. Resultado: dois números de ônibus; uma preferência.

E confiei totalmente no planejamento dele (erro meu!). Saímos de casa por volta das 7h15 (o show estava marcado para 9h30) e fomos para as proximidades de um terminal de ônibus, por onde passaria o nosso. Buscamos o ponto onde Nico achava que era e não encontramos.

De repente, o ônibus passou. Fiz sinal, mas não adiantou, porque lá os motoristas não param fora do ponto (nada de jeitinho brasileiro). Reparemos no caminho percorrido e o seguimos, buscando o ponto. Não achamos – de novo.

De repente, mais dois ônibus. Vimos de onde vinha. Corremos pra lá. Ponto? Nenhum. A hora tava passando. Já eram mais de 8h. Nico estava desesperado. Eu estava me resignando a assistir ao bis.

Decidimos tomar o outro ônibus, que saía de dentro do terminal e, nesse momento, me perguntei por que não havíamos feito isso antes. Compramos a passagem (mais cara que a outra), encaramos uma fila grande e viajamos com uma menina rindo e conversando, aos gritos, logo atrás. Tenso.

Mas como todo castigo para corno é pouco… houve um acidente de carro na estrada, que causou um super engarrafamento. A hora passava rapidamente e o cenário não mudava. Fiquei tenso. Dormi. Acordei. Nada. Dormi de novo. Acordei. 9h15. Longe ainda.

Chegamos em La Plata superatrasados, às 10h, torcendo para que a banda ainda não houvesse subido ao palco. Tomamos um táxi para o estádio e logo descobrimos que estávamos mais longe do que pensávamos.

E urubu, quando tá sem sorte, o de baixo caga no de cima. O taxista era lento e, para completar, ficamos parados do lado de cá dos trilhos para que o trem passasse. Bizarro. Quando chegamos ao estádio, já nos avisavam na entrada: o show começou.

Corremos. Corremos. Corremos. E nada. Fecharam várias ruas antes do estádio em si, então estávamos longe, mais uma vez. Nico queria que eu corresse mais, esquecendo que eu tenho problemas respiratórios. Caminhei bufante.

Entramos na terceira música, satisfeitos por termos chegado. Conseguimos um bom lugar e, quando começamos a nos divertir, caiu o toró. Choveu horrores até o fim do show – isso mesmo: quando acabou, a chuva cessou. Não era nosso dia.

Mas o show foi muito bom. Steven Tyler não parece um sexagenário e demonstrou mais energia do que eu – ele não deve ter carne no nariz (mas tinha um olho roxo e dentes postiços recém-colocados, além de uma voz bastante oscilante). De qualquer forma, valeu a pena a penação.

O melhor momento para mim foi “I Don’t Want to Miss a Thing”, porque era a única música que eu sabia cantar quase inteira. Nico, que sabia todas, discorda. Ele gostou mais de “What It Takes”, que é a – em suas palavras – “a melhor música do mundo… de Aerosmith”! Steven cantou essa com a bandeira da Argentina pendurada no pescoço.

Eu, ilhado; Rio, inundado

Tipo de coisa que a gente nunca pensa que vai passar: que uma chuva vá inundar o lugar que você está, te ilhando

Tipo de coisa que acontece: chove e inunda o lugar que você está, te ilhando

Estava eu, morto de fome e dor cabeça, voltando para casa depois de um dia cansativo (faculdade+estágio) com uma lista extensa de preocupações, quando começou a chover. Que saco, vou ter que abrir o guarda-chuva, pensei, ao saltar na Praça da Bandeira para fazer a minha troca de ônibus. Mas, logo, minha reclamação pareceu ridícula. A chuva vinha de todos os lados e, em pouco tempo, eu tava todo úmido. O guarda-chuva não adiantava de nada. Mas meu ônibus chegou. Que sorte!

Entrei e todos os lugares estavam ocupados. Que azar! Não vou poder ler o meu livro (A República – Platão, que passeia entre os extremos de interessante e tedioso), pensei. Fui para perto da porta e lá fiquei curtindo uma música no fone de ouvido (Someone like you – Adele). É impressão minha ou esse ônibus não tá andando?, me questionei. Já faziam mais de 10 minutos que estavamos parados ali, entre a UERJ e o Maracanã. Uma gringa (coitada!) me perguntou:

– fkfspenfsbsfdjsfosfjsfjsfowksffskf?
– Quê?
– Aqui é o antigo Jardim Zoológico?
– Nãããão! Ainda falta muito!
*ela faz cara de tédio*
*eu faço cara de pois é*

Dou uma ligadinha para a minha mãe para contar a novidade. Tô parado aqui na UERJ. Tá engarrafado, não sei bem. Ligo para a minha amiga

– Tá alagado aí na tua casa?
– Não. Ainda não.
– Estranho, porque estou aqui parado há mais de dez minutos. O ônibus tá até desligado.
– Deve tá alagado em alguma parte.
– Pois é. Tô vendo que vou passar a minha noite aqui no ônibus.
– Cidade olímpica!

Minha mãe liga de novo. Quer saber se já tô chegando. Explico para ela que a situação é preocupante e que estou exatamente no mesmo lugar da ligação anterior, sem perspectiva de mudança. Ela, com algum esforço, me convence a descer do ônibus e tentar a sorte. É o que eu faço.

OBS: Mães não sabem de nada. Não as escute.

Foi só eu ficar do lado de fora para entender o que estava se passando do outro lado daqueles vidros embaçados. Estávamos ilhados. Para onde quer que eu olhasse, só via água. Me cercando, uns carros estacionados (com motoristas dentro) tentando não se afogarem. Há cinco metros, carros com água até o capô. E eu, ali. Péssima idéia, mãe, pensei. Passei por cima dos carros – vamos evitar detalhes – e logo resolvi fechar o guarda-chuva, que era um acessório ridículo naquele momento, e tirar a camisa para não pegar uma pneumonia. Entrei na lagoa (porque aquilo era uma lagoa, imunda, mas era).

Olha pra cima, Leonardo, me ordenei, para evitar ver a água amarronzada e as sujeria na qual eu estava me metendo. Essa água é de esgoto, Leonardo!, um anjo da guarda me dizia. Cala a boca, anjo, ordenava. E caminhei no esgoto, sem nenhum dom similar ao de Moisés para abrir caminhos nas águas. Com algum esforço, entrei na UERJ e cortei caminho por dentro dela – ou achei que fazia isso. Na saída principal, lagoa de novo. Mas aí eu já tava cheio de leptospirose mesmo. Já não ligava mais. Encarei. Alguns loucos faziam o mesmo que eu. Os passivos, que prezam a saúde, ficavam embaixo de marquizes e pendurados em grades fugindo da água e esperando o sol aparecer para secar tudo e salvar suas vidas.

Vim nadando, evitando mergulhar, até a Vinte Oito de Setembro, que tinha alguns trechos caminháveis e outros com igual correnteza. Andar na inundanção exige pernas fortes, que eu nem sabia que tinha. Exige, também, coragem e alienação (eu não pensava, por exemplo, que podia tomar um choque elétrico, um raio na cabeça ou cair ali e morrer afogado na correnteza, como aconteceu com companheiros meus – li as notícias hoje). E segui. Minha mãe me ligava.

Mas eu não conseguia atendê-la. Meu celular não ligava mais. Perda total. Eu sentia coisas nojentas no meu pé. As minhas coxas doíam e ardiam quando roçavam uma na outra. Eu havia me machucado. Bem, era claro e evidente que eu tava na merda (literalmente), então, eu ia até o fim. Vamos batalhar e chegar em casa!, me estimulava. Quando via as pessoas nos pontos de ônibus, esperando sabe-se lá Deus o quê, me dava pena. Vão ficar aí até amanhã. Comecei a pensar nos chocolates que me esperavam em casa, como uma espécie de objetivo ou prêmio depois da tormenta.

Passei por poucas e boas até chegar ao Engenho Novo, onde já me sentia em casa. Ali, eu conhecia as áreas que alagavam. Há! “Alagavam”. Meu conceito desse verbo mudou. O que antes era alagado, para mim, é agora uma poça d’água, na qual passo por cima tranquilamente. Só me preparo mentalmente quando noto que a água vai passar do meu joelho. Senão, vamos lá. Eu devia ter sido escoteiro…

No caminho, vi pessoas completamente perdidas, sem entender o que estava acontecendo e por que os ônibus não passavam. Pensei em explicar, mas não o fiz. Não queria perder tempo. Às 23h30, ou algo assim, consegui entrar no meu lar – e perceber que tudo que estava na minha bolsa de carteiro era um caso de perda total (inclusive aquele livro da biblioteca). Eu havia saído do trabalho às 20h. Geralmente, chego em casa 21h15.

Googleei:

Fiz 5km de caminhada, na água. Uma hidroginástica.

Saldo da chuva: todo conteúdo do fichário, molhado; prova da minha amiga, molhada; livro da biblioteca, encharcado; carteira, com todos, exatamente todos, os meus documentos, completamente molhada; celular, afogado (perda total); perna, ferida; tênis, no lixo.

Medo: que isso se repita.

Quando o horóscopo acerta

Dia 4:

No período que vai de 04/12 (Hoje) a 06/12, procure se recolher um pouco mais, Leonardo, pois você estará num momento particularmente vulnerável, que pode incorrer inclusive em doenças físicas.

Dia 5:

Show do Caetano e Gadú + Tempestade – Guarda-Chuva = Encharcado.

Dia 7:

Rinite + Dor de Garganta + Atchim = Levar a sério isso de horóscopo.

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