Amizade depois dos 25

Sabe aquele papo de que, com o amadurecimento, a gente descobre quem é amigo de verdade? Balela. Quem cunhou e disseminou essa teoria apenas envelheceu e viu que os amigos não estavam mais tão disponíveis como antes: como na infância, em que se encontravam para brincar todos os dias, ou como na adolescência, em que qualquer hora era hora de se reunir para brigadeiro na panela e fofocas ao vivo. Se esse cidadão, o mesmo de “amigos de verdade se conta em uma mão”, vivesse na era digital, teria popularizado muitas frases amarguradas mais. Afinal, quem ainda reserva tempo para se encontrar?

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[Dica da semana] Peça desculpas

Não gosto de quem fala que não se arrepende de nada do que fez, só do que não fez. O passar dos anos e nosso amadurecimento (mínimo, que seja) também serve para que olhemos nossos atos anteriores de outra maneira. Quem nunca pensou “e se eu tivesse agido diferente?” é porque não percebe que também falha. O tempo todo.

Eu, por exemplo, sempre quero fazer tudo certinho, mas erro pra caramba. Erro tentando acertar. Erro sem dar importância. Erro sem me dar conta. Erro achando que acerto. Erro disfarçadamente. Erro por implicância. Erro por raiva. Erro por amor. Erro por birra. E tenho esse direito, se erro para aprender. O chato é quando erro com os outros, o que, por mais que não queira, também acontece.

É quando repenso meus atos que percebo a maioria dos erros que cometi com os que me cercam. Não sou mais o mesmo de há cinco, dez anos. A essência se mantém, mas definitivamente há várias discordâncias entre o passado e o presente, o que me permite perceber como me comportei mal em diversas situações.

E se errei (erramos), por que não corrigir isso? Nunca é tarde demais. É melhor fazer um acerto depois de 50 anos do que deixar um erro para a eternidade. Porque erro é assim: a gente morre, mas ele permanece na Terra, repercutindo. Por isso, é do meu feitio reaparecer na vida de pessoas que talvez nem se lembrem mais de mim para pedir desculpa. A maioria acaba desculpando, porque a mágoa já passou, e a experiência se torna boa para ambas as partes. Vale a pena tentar. Corrija um erro e peça desculpa para alguém que não se lembra mais do seu erro (mas se lembrar, melhor ainda! Fica mais genuíno). Errar de verdade é não tentar corrigir.

Resenha: American Pie – O Reencontro

Assisti a “American Pie: O Reencontro” (American Reunion) de coração aberto. Adorava a franquia na minha adolescência – incluindo os spin-offs – e achei ótima a ideia de reunir o elenco original 13 anos depois. Mas a proposta não se sustenta por muito tempo. A continuação prova que “American Pie” não tem mais fôlego e se apoia em clichês e piadas fartamente exploradas nos longas anteriores.

A trama acompanha o casal Jim (Jason Biggs) e Michelle (Alyson Hannigan), que agora têm um filho para criar. Se antes o grilo era a virgindade, agora é o desgaste da vida sexual de um casamento. O foco, claro, é o sexo. Na primeira meia hora, “American Pie” entrega a incapacidade de se renovar e apela para um nu frontal de Jim e uma série de topless do elenco de apoio – elementos pouco atrativos em 2012, de tão banalizados. Soa gratuito.

O apetite sexual dos personagens continua o mesmo – com destaque para Stifller (Seann William Scott), que costumava ser engraçado – mas eles não parecem ter amadurecido. Só mudou a carcaça. Ao se reencontrarem, as antigas atrações e paixões vêm à tona com a mesma força e eles não pensam muito antes de mergulhar no passado. A única exceção é Jim, que faz de tudo para se manter fiel à Michelle.

Um ponto alto do filme é o confronto de gerações que ocorre em uma festa. Jim e sua turma se desentendem com alguns adolescentes e percebem o quanto eram idiotas antigamente (não admitem, no entanto, o quanto ainda são). Isso proporciona um afastamento do filme do público teen – algo reforçado pelas constantes referências ao longa original (algo que para o atual público de 15/16 anos não fará sentido e soará como piada interna).

Regado a bebidas e drogas, o roteiro tenta humanizar mais os personagens, explorando a passagem de tempo na vida deles, mas não convence (o mais engraçado é o pai de Jim, interpretado por Eugene Levy, que atuou na franquia inteira). São as mesmas confusões e trapalhadas bobocas de sempre, só que agora com menos graça. Afinal, são 8 filmes “American Pie” ao todo. Chega, né? O pior é que a história ainda levanta a deixa para um 9º.

Ponto de vista, evolução e passado condenável

Tudo é questão de ponto de vista. Antes, rotina. Hoje, insanidade. Antes, prioridade. Hoje, sem importância. Quer dizer, sem importância não. Nada muda da água para o vinho. Não vamos exagerar. Mas é possível a transformação da água para a água com gás – o que é quase um similar do refrigerante. Hoje, importância mínima, vamos definir assim.

É de se desconfiar de quem é obcecado por algo e, um tempo depois, não guarda mais nenhum sentimento com relação àquilo. Guarda, sim. Só não admite. É normal sentir vergonha de quem fomos no passado, por mais que isso seja uma besteira. Quem fomos construiu quem somos. Fez sentido na época. A evolução exige um subdesenvolvimento anterior.

Nosso mundo adolescente não deixa de existir quando chegamos à vida adulta. Apenas mudamos a maneira de lidar com determinados pontos. Há outra postura, um discernimento maior, que surge a partir de novas perspectivas. O mundo se expande, aumentam os problemas e as obrigações. Quer dizer, normalmente…

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