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Cantores brasileiros ultrapassam a fronteira e fazem sucesso na Argentina

O show de Daniela Mercury passou por quatro cidades argentinas só em 2010: “Amo o povo argentino e tenho lindas lembranças de grandes concertos que já fiz por lá” (Divulgação)

“A cor dessa cidade sou eu. O canto dessa cidade é meu”. Imagine esses versos cantados com sotaque espanhol. Isso é normal para Daniela Mercury. Com a sua turnê de 2009, a baiana lotou o Teatro Gran Rex, o Orfeo Superdomo, o Metropolitano e o Luna Park. Todas são casas de shows argentinas. Em 2010, ela repetiu o feito com seu álbum ‘Canibália’ e voltou ao país para mais quatro apresentações. “Sempre fui muito bem recebida na Argentina. O carinho que eles têm por mim é muito especial. O calor humano dos hermanos sempre fez com que eu me sentisse em casa”.

Daniela não é um caso à parte. Ao contrário do que possa se pensar, a Argentina consome muita música brasileira. Prova disso é que as lojas de CDs e DVDs da capital Buenos Aires reservam uma sessão especial para os artistas. E a área exclusiva não é pequena não. Ali se encontram álbuns de Maria Rita, Gilberto Gil, Tom Jobim, Rita Lee, Marisa Monte, Alexandre Pires e Caetano Veloso, por exemplo. A oferta é reflexo da imensa demanda existente. Como se pode ver, a rivalidade dos campos não se estende à arte.

Para Daniela, o futebol é uma paixão comum entre os países e, ao mesmo tempo em que os separa, os mantém muito próximos: “E a música é a linguagem universal que nos une”. Em sua última turnê lá, ela foi assistida por 13 mil pessoas. Tratada como estrela, deu entrevistas a rádios e canais de televisão. A baiana cantou até no programa da apresentadora Susana Gimenez, a ‘diva argentina’ – mais ou menos uma versão latina da Hebe Camargo. Tanta popularidade já rendeu a Daniela duetos com grandes cantores nacionais como Mercedes Sosa – a quem ela faz uma homenagem em seu show – Diego Torres, Marcela Morelo e Fito Páez.

Ele, aliás, é um admirador assumido da música brasileira. Fito, considerado um dos maiores compositores do país vizinho, se esforça para falar em português em suas passagens pelo Brasil – em 2010, ele finalizou seu CD em um estúdio carioca e fez apresentações em Porto Alegre e São Paulo. Prova dessa admiração são as parcerias que ele já fez. Além de Daniela, Fito já cantou com Paralamas do Sucesso, Titãs, Rita Lee, Zélia Duncan e Caetano Veloso.

Durante a temporada de shows na Trastienda Club, em Buenos Aires, em 2010, Fito Páez aceitou abrir mão das músicas de seu último álbum e cantar apenas seus sucessos. Mas ele fez questão de cantar uma música: ‘Vaca Profana’, de Caetano. “Eu conheci essa canção em um show que fiz com ele no Copacabana Palace. É bem difícil de cantar, mas eu vou tentar”. A plateia escutou atenta ao ídolo cantar em português e, ao fim, aplaudiu forte.

O carinho por Caetano não é exclusividade de Fito. Entre 2000 e 2010, o baiano vendeu 240 mil cópias de seus CDs e DVDs na Argentina. O cantor diz que os argentinos são o melhor público do mundo. “Melhor até que o brasileiro. Não faz barulho quando estou cantando e é puro entusiasmo quando termino a música”. Daniela Mercury concorda com ele: “Eles são muito calorosos, apaixonados, atenciosos. Aprendem as letras e ficam atentos às coreografias”. Os depoimentos são de quem tem experiência no assunto. Caetano, por exemplo, já se apresentou diversas vezes na Argentina. Mas um ano especial foi 2010. Os ingressos dos dois shows que ele fez em março esgotaram e, por isso, um terceiro foi marcado para maio. A apresentação extra aconteceu na Feira do Livro, um evento anual, e reuniu nada menos que 45 mil pessoas.

O número só não é maior do que o público para o qual Gilberto Gil se apresentou no mesmo ano. Durante as comemorações do Bicentenário da Independência Argentina, um milhão de pessoas estiveram na Avenida 9 de Julio para assistir a um super show com vários cantores. Entre os nomes nacionais, uma apresentação se destacava: a de Gil. Mais uma prova da adoração pela música brasileira, se tratando de um evento extremamente nacionalista. O estudante Nicolás D’Orazi, de 21 anos, estava no show: “Tinha muita gente lá. As pessoas vieram de toda parte do país só para isso”.

Nicolás D’Orazi é fã de Rita Lee e Lulu Santos (Arquivo Pessoal)

Nicolás ouve cantores brasileiros desde pequenininho. Quando criança, era axé o que tocava na sua casa. “Viajava no verão com meus pais para o Brasil e voltávamos ouvindo as músicas que estavam na moda, nos atualizando”, conta. Hoje em dia, seu gosto musical mudou. Enquanto sua mãe segue com o axé e pede para ele baixar músicas da Ivete Sangalo na Internet para ela, ele prefere Rita Lee e Lulu Santos. “Na última vez que a Rita Lee veio, quis ir ao show dela, mas não deu”. Ele também quer ir ao show da Daniela Mercury: “Ela vem sempre e é muito agradável. Os argentinos gostam dela e da simpatia que irradia”.

Outra baiana que conquistou o povo do outro lado da fronteira pela simpatia é Ivete Sangalo. O DVD ‘MTV Ao Vivo’ vendeu mais de 40 mil cópias lá, sem grandes divulgações. Ela tem um fã clube, o Nación Ivete Argentina, desde 2008, que já conta com três mil fãs. Eles ligam para as rádios e pedem para que toquem as músicas dela. O objetivo é divulgar seu nome no país para que ela vá fazer um show lá. Ivete só se apresentou na Argentina uma vez, na época da Banda Eva, há dez anos, em uma boate brasileira. “Ela nunca mais voltou. Queremos trazê-la de volta!”, conta a presidente do fã clube Lorena Tames, de 31 anos.

Os fãs são fervorosos. Embora Daniela Mercury acredite que não é preciso entender português para sentir a alegria e compreender a poesia das músicas brasileiras, Lorena conta que muita gente está aprendendo o idioma por causa de Ivete. “Tem um monte de cursos de português aqui. E mesmo quem não sabe, aprende pelo menos a cantar as músicas dela”. Paula Soledad, de 27 anos, é uma das integrantes do fã-clube que aprendeu o português. Mas essa não é nem de longe a sua maior conquista.

Como Ivete não vai à Argentina, Paula veio ao Brasil para ver o show da cantora. Ela tinha planejado uma viagem a Búzios, mas descobriu que na mesma época haveria um show em São Gonçalo, na Baixada Fluminense. Abandonou o pacote de viagem já pago e comprou ingressos para ver Ivete. “Perdi três dias de hospedagem em Búzios e fui para São Gonçalo. Mas valeu a pena, foi o melhor show da minha vida. Ela transmite muita energia e alegria”. Tanta empolgação tem explicação: ao saber que havia uma fã argentina na plateia, a produção de Ivete Sangalo convidou Paula para assistir ao show de cima do trio. “Foi incrível. Depois tirei uma foto com ela”.

A vida de Paula e de outros fãs pode ficar mais fácil a partir de agora. O último DVD de Ivete Sangalo, ‘Multishow Ao Vivo’, gravado no Madison Square Garden, em Nova York, faz parte de uma estratégia de marketing para lançar a carreira internacional dela,  principalmente na América Latina. Quanto à Argentina, fica evidente a atenção da cantora com o país ao convidar para cantar com ela no DVD o cantor Diego Torres, sucesso nacional que já fez uma versão em espanhol para a música de Lulu Santos ‘Como uma onda’ (que virou Como uma ola).

Membros do fã clube argentino de Ivete Sangalo vem ao Brasil para assistir ao show dela (Arquivo Pessoal)

Quem também tem uma legião de fãs sedentos por sua presença no país é Xuxa. Entre 1991 e 1993, quando teve um programa de televisão no país – o El show de Xuxa – a Reina de los bajitos conheceu o que são os fãs seguidores. “Tinha mais ou menos 650 táxis cadastrados que me seguiam. Hoje em dia, eles vêm ao Brasil só para me ver. Eu fico encantada. São perseguidores já”, brincou, em entrevista ao Altas Horas, da Rede Globo, em 2009. Na ocasião, havia fãs argentinos na plateia, provando o que ela dizia.

Antes mesmo de ser contratada para trabalhar na Argentina, Xuxa lançou, em 1990, um disco em espanhol que, de cara, foi platina triplo. Depois de estrear o programa, as vendas desse mesmo álbum alcançaram 2,75 milhões e ela ganhou o disco de diamante duplo. O álbum seguinte, Xuxa 2, repetiu o mesmo número. Assim, ela se tornou uma das cantoras brasileiras – ainda que prefira ser chamada de animadora – que mais vendeu fora do país. Xuxa solamente para bajitos – seu último trabalho em espanhol – foi lançado em 2005 na Argentina, portanto mais de dez anos depois de ter deixado de trabalhar para esse público, e vendeu 40 mil cópias do DVD.

O que pode ser uma surpresa para os brasileiros, certamente não é para os argentinos. Em recente enquete realizada no site do jornal de maior circulação do país, o Clarín, para saber qual cantora brasileira era a mais querida lá, não deu outra: Xuxa venceu com 32,9% dos votos.  Gal Costa ficou em segundo, Daniela Mercury em terceiro e empatadas em quarto ficaram Marisa Monte, Elisa Regina e Maria Bethânia. Quanto a essa última, foi Vinícius de Moraes, queridíssimo pelos portenhos no auge da Bossa Nova, quem a levou para cantar na Argentina pela primeira vez. Desde então, ela volta com frequência para apresentações por lá.

Rogério Flausino grava o álbum em espanhol do Jota Quest no estúdio Circo Beat, de Fito Páez, em Buenos Aires (Divulgação)

Agora, quem quer vencer enquetes argentinas é o Jota Quest. Inspirados no Paralamas do Sucesso, que teve muito êxito na Argentina e em 1992 lançou um CD com versões de suas músicas em espanhol, a banda mineira fez o mesmo. A ideia é fazer do Jota Quest um sucesso na Argentina nas mesmas proporções que no Brasil. O convite partiu da Sony Music Argentina, que se interessou pela forma como a banda mistura rock, pop e funk.

Rogério Flausino, o vocalista da banda mineira, está animado com os novos voos. “Enquanto produzíamos o CD em Buenos Aires, fizemos um show para 200 pessoas em uma boate. Ninguém conhecia a gente, mas nos receberam muito bem. Foi a maior zoeira!”. Essa apresentação foi fundamental para abrir espaço nas rádios. “Viram que tocamos de verdade e aí o tratamento foi outro”.

O álbum – lançado em novembro e intitulado Dias Mejores – conta com faixas como Encontrar a alguién, Amor Mayor, La Plata e Una vez más, além de uma participação da dupla Dante Spinetta e Emmanuel Horvilleur, dois dos principais nomes do funk e do hip hop argentinos. Se a vendagem de outros CDs brasileiros na Argentina representar alguma coisa, o Jota Quest tem grandes chances de ser mais um sucesso na terra vizinha. De pequenos shows com 200 pessoas na platéia para turnês com um público muito maior – a tendência é essa.

Carinho que vem de antes

Vinícius de Moraes e Elis Regina já eram queridos pelos argentinos

Não é de hoje que a música brasileira faz sucesso na Argentina. Pelo contrário. Elis Regina e Vinícius de Moraes, por exemplo, são lembrados até hoje por lá. “Tarde em Itapoã”, um dos grandes sucessos do compositor, foi escrita, ao contrário do que possa se pensar, em um apartamento de Buenos Aires. Essa e outras curiosidades estão no livro “Nuestro Vinícius”, recém-lançado pela autora argentina Liana Wenner – provando a dimensão dele no país.

A publicação se propõe a desvendar a relação do cantor e compositor com a Argentina e o Uruguai. Para Liana, Vinícius virou um mito na Argentina porque as pessoas viam nele uma válvula de escape à ditadura. Vinicius, bebendo muito mais do que ‘socialmente’, representava uma fuga ao conservadorismo da época. Vinicíus de Moraes, aliás, foi uma figura muito presente naquelas terras entre 1968 e 1976 e tinha até um apelido especial, dado pelos argentinos: “Buda da Bossa Nova”.

Este novo gênero musical foi o responsável por elevar o nome do Brasil ao cenário musical mundial e a Argentina foi privilegiada por estar tão perto daqui. “Até hoje, as pessoas aqui gostam muito de bossa nova”, conta Paula Soledad. Vinícius de Moraes fez tanto sucesso lá que seus discos concorriam com os de artistas nacionais e seus shows eram frequentes e sempre lotados. Ele chegou até a gravar um disco ao vivo em Buenos Aires, ao lado de Maria Creuza e Toquinho.

 

Muito amor: A filha da cantora Julia Zenko se chama Elis, em homenagem a Elis Regina (Foto: Javier Castillo)

Ele cantava em português nas suas apresentações na Argentina – o que podia ser considerado um empecilho. Mas os argentinos até preferem assim. Nicolás acha que os artistas expressam melhor seus sentimentos quando cantam em seu próprio idioma. “Gosto de quando cantam em espanhol, me sinto familiar. Mas prefiro que façam isso com uma música ou duas e não um álbum inteiro. É melhor que cantem na língua nativa. O português é lindo de se escutar”.

O mesmo pensa Julia Zenko, uma renomada cantora argentina que gravou um álbum inteiro em tributo a Elis Regina. “O português me encanta. Nunca tinha gravado em outro idioma que não o meu, mas quando tentei fazer as versões das músicas em espanhol, elas não soavam da mesma maneira no meu coração”. O primeiro contato dela com a música brasileira aconteceu quando ainda era pequena, porque seu avô morava em São Paulo, mas ela só conheceu Elis depois da morte da cantora. “Foi por volta de 1985. Um amigo me emprestou um disco dela e eu comecei a buscar todos os outros para escutar”.

O gosto por ela foi tanto que, além do CD em sua homenagem, Julia colocou o nome de Elis na sua filha mais nova. “Todo mundo sabe da minha admiração por ela”. Julia lamenta não ter podido assistir a um show de sua “ídola” e ter que se consolar com os DVDs. Mas Elis Regina não é a única cantora brasileira de quem ela gosta. Julia também ouve Djavan, Gal Costa e Ivan Lins, cujos shows ela já assistiu. “Sou muito fã do Ivan Lins. Queria fazer um dueto com ele. O amo”. A declaração é dela, mas fala por muitos. Quando se trata de música brasileira, é esse o sentimento dos argentinos.

Por Leonardo Torres
Escrito para disciplina Jornalismo de Revista da Universidade Veiga de Almeida (2010.2)
Para publicação na Revista Veiga +

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