Amizade depois dos 25

Sabe aquele papo de que, com o amadurecimento, a gente descobre quem é amigo de verdade? Balela. Quem cunhou e disseminou essa teoria apenas envelheceu e viu que os amigos não estavam mais tão disponíveis como antes: como na infância, em que se encontravam para brincar todos os dias, ou como na adolescência, em que qualquer hora era hora de se reunir para brigadeiro na panela e fofocas ao vivo. Se esse cidadão, o mesmo de “amigos de verdade se conta em uma mão”, vivesse na era digital, teria popularizado muitas frases amarguradas mais. Afinal, quem ainda reserva tempo para se encontrar?

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Um dia é tempo suficiente para eu saber se vou te amar ou não

“Se você gosta dele, e ele gosta de você, por que não ficam juntos?”. Criança costuma pensar assim, com sabedoria e simplicidade. Eu, até bem pouco tempo, também era adepto desse raciocínio tão lógico quanto inocente. Mas parece que, quando você começa a envelhecer, se torna inevitável dificultar a matemática. Não sei quando ocorreu essa transição, mas ela ocorreu. 1+1 passa a não dar 2 necessariamente, porque você descobre outras nuances e variáveis nessa que, de uma soma básica, se torna uma equação complexa. É quando você passa a jogar – contra aquele com quem você deseja fazer par no futuro. Note bem: joga-se contra, e não com.

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2014 foi um ano difícil

2014 foi um ano difícil. Geralmente, quem diz isso é porque perdeu algum familiar próximo e passou o primeiro Natal de luto. Não é meu caso. Ainda bem. Compadeço-me de quem teve essa experiência. Seu ano foi difícil mesmo. Sinto até um pouco de culpa por dar continuidade a esse texto, mas cada um carrega a sua cruz. O meu ano não foi difícil dessa maneira óbvia. Foi difícil do tipo “um ano inteiro na terapia tentando aceitar o quanto a vida estava em oposição ao que deveria ser”. É péssimo – e péssimo significa mais que difícil – quando tudo o que te resta é tentar lidar melhor com algo insatisfatório, em vez de reverter a situação. Ao menos, acho que cheguei a dezembro melhor do que estava em janeiro. Sofro e me desespero menos hoje do que ontem. Mas ainda não me resigno, e me questiono se essa suposta evolução é de fato boa.

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Sonho ≠ Sonho

Sempre achei estranho que sonho, como objetivo de vida, tivesse o mesmo nome que sonho, aquele filminho que passa quando a gente dorme. E é assim em outros idiomas também. Dream. Sueño. Você não acha esquisito? Entendo que ambos são saídas da realidade, mas de maneiras tão distintas que mereciam palavras diferentes. Se passarmos do substantivo pra o verbo, o primeiro é quase sempre conjugado no presente, em menção a algo a conseguir no futuro, enquanto o segundo é sempre no passado, em referência à história assistida na última noite de sono. Isso atesta os lados opostos para os quais se direcionam. Sonho. Sonhei.

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Coisa. Coisa. Coisa.

Toda noite, antes de dormir, ou cochilar, ou passar oito horas seguidas insone, eu tenho um insight. Penso “hum, que ideia legal, vou guardar para desenvolver amanhã”. No dia seguinte, eu não lembro mais de nada, claro. Quer dizer, lembro que tive uma ideia. Mas não consigo recordar qual. Deve acontecer com todo mundo, eu espero. Com todo mundo que tem ideias, ao menos. Os latentes. Os potenciais.

Meu aniversário está chegando e, meu Deus, eu acho que falo isso em todo post. Mas é um assunto que me perturba. Mais alguém com menos de 30 anos fica angustiado com aniversários? Não sei. Mas eu fico, desde que fiz 20. E esse ano, dizem por aí, posso completar 25, que é um número muito importante para mim. Nessa idade, eu gostaria de estar realizado, com a vida feita, em busca de supérfluos. Mas isso não aconteceu. Quer dizer, eu ainda tenho algumas semanas para tentar reverter o quadro, só que duvido que faça em semanas o que não fiz em anos. 25, mais precisamente.

Eu não sou normal. Tenho me dado cada vez mais consciência disso. E não sou normal de um maneira legal – tipo um gênio. Não, eu não sou normal, do tipo meio louco. Do tipo que faz essa afirmação e se preocupa se algum dia algum recrutador de uma vaga de emprego a lerá e a achará suficiente para me desclassificar. Bem, eu não sou normal mesmo. E meio louco não é louco inteiro. E isso aqui pode ser uma obra de ficção. Tenho a meu favor o fato de estar escrevendo às 3h18 da manhã. Nada do que alguém declara depois de meia noite deveria valer. São palavras-abóbora.

Escrevo a essa hora, em vez de fechar o olho e tentar dormir, na esperança do insight aparecer a tempo de ser registrado neste texto. Mas algo me diz que a ideia só virá quando eu relaxar e papar mosca. Papar mosca. Há quanto tempo eu não dizia isso. Papar mosca me remete à mesma época de bobocas e babacas. Ou seja, há duas décadas, porque estou quase fazendo 25 anos, o que é um quarto de século. Tenho certeza que é um problema quando você começa a falar sua idade em frações de século. 100 anos. Não espero chegar lá para dizer “um inteiro”. Já tenho dores de coluna demais. Eu não tinha, mas fui a um homeopata que disse que eu deveria sentir muitas dores, e eu realmente comecei a senti-las. Gostaria de acreditar que são psicológicas, para eu psicologicamente eliminá-las. Sou muito sedentário. Disseram-me que esse estilo de vida acarretaria danos, mas achei que se referiam aos 40 anos. Os 25 são os novos 50, talvez.

E tem esse aniversário… Não sei se comemoro. Não vejo motivos para comemorar nada ultimamente. Não que eu seja um cara deprimido (evito a banalização do termo clínico), mas sim um cara difícil. Do tipo que não quer viver de aparências – mas que também se ressente da ideia de passar o aniversário em branco. Sou filho de pais separados desde sempre, então estou acostumado a ter duas celebrações, dois presentes, tudo em dobro. A ideia de não ter nada é inquietante. Mas também alentadora. Como disse: comemorar o quê? “Cheguei aos 25”. Não é como se eu tivesse duvidado que chegaria… Estou considerando a hipótese de, em vez de reunir a galera (não sei nem se tenho uma mais), encher a mochilinha e me isolar em algum lugar legal. Ou ir para balada, que é uma maneira de reunir as pessoas, sem ter que conversar com elas. Desconsiderando o fato de que eu não gosto de baladas. Cada vez mais, entendo que, por não beber, a vida me é mais difícil. Estou sempre aqui, presente, sóbrio, ciente. Não me dou refresco. Ou só me dou refresco.

E o insight não veio. Acho que não dá para forçar esse tipo de coisa. Coisa. Minha professora de português praticamente não deixava que escrevêssemos essa palavra. É como uma declaração de falta de vocabulário. Coisa. Coisa. Coisa. Sempre evito escrever coisa. Mas, neste texto, liberto-me. Que coisa! C-o-i-s-a. Palavra boa de se dizer. Melhor que coisa só coisinha. Ou treco. E trecotinho. Trecotinho é de uma poesia. Lembra tricô, mas de uma maneira menos sênior.

Às vezes, quase sempre, me pergunto o que será da minha vida. Recentemente, tive provas de que tudo pode acontecer, inclusive nada. Esse clichezão da natureza. Na minha trajetória, especialmente, coisas se vão da mesma maneira que vêm (coisas!). Dizem que tem a ver com Iemanjá. Ou algo assim. Não entendo muito bem, mas é o balanço das ondas do mar – indo e vindo, incessantemente. É como se, para mim, fosse mais custoso agarrar algo, como a água do mar, por exemplo, que você fecha a mão na onda e quando abre ela está vazia. Tudo pode acontecer, inclusive nada. Por isso, sempre é bom ter uma garrafa. Ou um baldinho. Embora eu não entenda porque vá querer guardar a água do mar. Ainda mais poluída.

Nem entro no mar, se está impróprio para o banho. Não é deixar de viver com medo de sofrer (com uma doença de pele, no caso). Viver é se arriscar, e sofrer faz parte. Mas se arriscar é diferente de se suicidar. Quem se arrisca tem uma chance de acerto. Quem se suicida, não. Há controvérsias… mas o que digo é: ter medo de sofrer é antecipar uma possibilidade, diferente de ter certeza do iminente sofrimento. Além do mais, são sempre os mais corajosos que se ferram. Eu me considero bastante corajoso, em vários aspectos, então permito-me ter cautela em tantos outros. Como o mar poluído. Ah, o mar.

Não sou normal. Já começo a bocejar, e minha cabeça tá ficando ruim. Insisto nesse insight, mas isso não se força. Acontece, e nada está acontecendo no meu cérebro agora. Escrevo de olhos fechados, cansado, como a criança que não aguenta e adormece à espera do Papai Noel. Figura boa essa – o Papai Noel. Sempre traz presentes. Estou precisando de mais Papais Noéis e menos, sei lá, duendes. São os duendes que roubam e escondem nossas coisas (!) né? Desagradáveis. Roubaram minha vida inteira, talvez. Sou como Holly, à espera dos acontecimentos: “quando nossa vida vai começar?”. E Gerry diz que já começou. Já? Mas nem Gerry eu tenho. Geralmente, eu sou o Gerry. E Gerry morre. É, “P.S. Eu Te Amo”, você sabe.

Bem, o insight não veio. Não vem. São 4h. Esperei bastante. Boa noite.

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