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Primeiro capítulo do meu livro novo, Rumor

Porque, sim, eu tenho um livro novo :O

1.

Eu poderia começar a contar minha história a partir do momento em que venci o  programa de TV Top Top Girl, assinei contrato com uma agência de modelos, me tornei amada por todo o país, e fiquei famosa internacionalmente aos 18 anos. Poderia dizer que sou bem sucedida, com contratos milionários e uma agenda de contatos de fazer inveja a qualquer ser humano. Poderia reclamar do jet lag e do assédio constante dos fãs e paparazzi sempre que coloco o pé para fora do apartamento em Nova York. Mas eu tenho problemas muito maiores hoje em dia – a começar por ter perdido tudo isso.

Minha história começa no Rio de Janeiro mesmo, no terraço de um hotel da Praia de Ipanema, com vista para o Morro Dois Irmãos e o Cristo Redentor – se é que isso pode me conferir algum glamour a esta altura do campeonato. Eu estava falida e esquecida. Não havia mais fãs, paparazzi ou jornalistas, mas o pior é que não havia dinheiro. Minha agenda de contatos? Ninguém me atendia mais. Perdi meus amigos e meu prestígio social exatamente um ano após tê-los ganhado. A emissora de TV lançou a 2ª temporada do programa Top Top Girl, não renovou o contrato comigo e decidiu investir tudo o que lucrou com meu trabalho em Chandra Spinielli, a nova vencedora. Sem o apoio do canal, me vi com uma mão na frente e outra atrás, esquecida pela agência, que aparentemente só me arranjava trabalhos por causa da parceria com o programa de TV, que mostrava os bastidores da minha carreira depois que venci. De repente, acabaram os desfiles, as capas de revistas e até as notícias nos sites de fofoca. No site models.com, que mostra o ranking dos modelos que mais estão trabalhando no momento, meu nome não aparecia há muito tempo. Virei só uma ex-Top Top Girl. Fim do sonho, início do pesadelo.

A única pessoa que continuou do meu lado quando a fama se esgotou foi Abimael Velázquez, um fã que se tornou amigo e assessor pessoal. Um fã de nome estranho, eu sei, por isso o chamo de Abi. Dividimos um apartamento de um quarto em Copacabana (foi prêmio do programa, com dois anos de condomínio pagos) e, juntos, cultivamos nosso ódio por Chandra. Abi acredita que sou perfeita – e portanto, muito melhor do que ela – e eu faço o possível para alimentar sua ilusão. Foi ele o culpado pelo início desta história. Estávamos neste hotel para uma reunião com Adalberto Batista, editor da revista Naked. Abi queria que eu posasse nua para voltar à mídia, e havia conseguido esse encontro. Eu não gostava da ideia, mas aceitara escutar a proposta, que não chegava a ser impressionante.

Adalberto fazia parecer um favor me colocar na revista, dizendo que só trabalhava com celebridades em ascensão e que eu estava em declínio. “A Naked é a única revista erótica que conseguiu se manter após o boom dos sites pornográficos gratuitos, graças ao nosso padrão de qualidade”. Ele me humilhava sorrindo e ainda me fazia ficar exposta ao sol, deitada na espreguiçadeira à beira da piscina. Odeio sol. Tenho sardas. Passo bloqueador, mas não confio. Terminei a reunião mal-humorada. Assim que ele foi embora, andei ao encontro de Abi, que estava sentado em um dos sofás brancos do local, na área coberta.

– Odeio esse cara. – disse, olhando para o horizonte para evitar encará-lo. Estava com raiva dele por ter me convencido a encontrar Adalberto.

– Mas e aí? O que ele falou? – Abi era assim, fofoqueiro e curioso.

– Tenho até vergonha de repetir.

– Me diz! Você não vai me matar de curiosidade, né? – ele parecia totalmente à vontade naquele ambiente fino, embora nós soubéssemos que aquela não era a sua realidade. Abi se fartava com os farelos do que sobrara do meu sucesso.

– Você não vai acreditar. – olhei para ele pela primeira vez desde o fim da reunião, através dos meus enormes óculos escuros quadrados, e abaixei meu tom de voz, quase cochichando – Ele disse que aumenta meu cachê em 10% se eu sair informalmente com ele. “Sair”. – fiz as aspas com os dedos no ar e dei um sorriso irônico, que para bom entendedor significava “Olha só no que você me meteu”.

– Só 10%? – ele murchou – Ouvi dizer que ele dobrou o pagamento da última capa depois que ela aceitou acompanhá-lo em uma viagem.

– Vai ver ele não gosta de ruivas.

No mundo da moda, o tom do meu cabelo me ajudou por algum tempo, como uma marca registrada, mas ultimamente tem sido um problema. A cor já foi o motivo alegado em vários castings para me dar um ‘não’. – Abimael, não quero fazer isso.

Chamei-o pelo nome e não pelo apelido. Ele fingiu não notar.

– Para te falar a verdade, também não gosto dessa ideia. Sair com o Adalberto só para ganhar um aumento no cachê é quase uma prostituição.

– É prostituição, Abi! É óbvio que não vou fazer isso. Que horror! Você está louco? – teria me ofendido se não soubesse que ele não falava por mal – Eu não quero é posar nua. Eu sou modelo. Modelo de verdade. Divulgo roupas e conceitos, não meu corpo. Não preciso disso.

Ele não concordava: achava que eu precisava posar nua, sim. Balançou a cabeça em dúvida, mordeu os lábios e franziu as sobrancelhas. Dei um gole na limonada que Adalberto havia me pagado e virei o rosto. Eu sabia que precisava de dinheiro, porque minhas economias estavam se esgotando, mas não acreditava no ponto ao qual estava chegando.

– Ainda falta um mês para o Fashion Rio. – voltei a encará-lo.

– E nenhuma grife te convidou para desfilar.

– Eu sei. Mas vou dar um jeito. Você vai ver.

Não queria mais ficar ali. Agarrei sua mão, me levantei e o levei a fazer o mesmo – não sem que ele terminasse de beber o resto do espumante que Adalberto havia lhe pagado antes. Notei que ele não tinha pressa para ir embora e tentei não me irritar. Precisava me afastar daquele local para esquecer a reunião, a proposta indecente e a humilhação.

O elevador demorou a chegar. Embora o hotel tenha apenas oito andares, também só conta com dois elevadores, que nunca estão no andar em que precisamos. Entramos, apertamos o botão do térreo e a porta começou a fechar, quando uma menininha correu para tentar entrar a tempo. Pensei em fingir que não a vi e ignorá-la, mas fiquei com pena e apertei o botão que segura a porta. Era a minha boa ação do dia. A garotinha entrou e percebi que ela estava pingando.

– Você não é aquela modelo?

Meu corpo vibrou com aquela pergunta. Não sei dizer há quanto tempo não era abordada. Tinha a impressão de que todos haviam sofrido uma lavagem cerebral ou simplesmente não se importavam mais com a minha presença quando me reconheciam. A sensação foi de ter ganhado na Mega Sena. Eu ainda tinha uma fã! Como iria posar nua e estragar o imaginário daquela criancinha linda?

– Sou eu mesma!

– Te reconheci pelo cabelo. Falei para minha mãe que era você, mas ela não acreditou.

– Pode dizer para ela que você estava certa. – abaixei-me para conversar melhor com minha fã mirim, enquanto o elevador descia. Já não me importava com os pingos dela.

– A Chandra também está aqui?

Chandra. Chandra. Chandra. Levantei-me num estalo, como se ela tivesse dito que tinha uma doença contagiosa. A garota que pingava não era minha fã.

– Não, não está. Não sabemos da Chandra, ok? – Abi intercedeu, irritado, enquanto a porta se abria e nós saíamos disparados do elevador, em passos quase sincronizados, até a porta do hotel. Não precisávamos sequer nos olhar para saber que o dia havia piorado após aquela cena. Eu teria chorado à noite, escondida no banheiro, remoendo essa situação, se meu dia não fosse dar uma guinada de 180º em seguida. Mas eu ainda não sabia o que me esperava, então cultivei o mau humor plenamente.

Assim que os seguranças abriram a porta do hotel para que passássemos, tivemos uma surpresa. Havia uma grade enorme, de ponta a ponta, como as que separam os setores em shows de estádio, cercando a entrada do local. Antes que pudéssemos perguntar o porquê daquilo, fomos guiados à saída, ao som de “tenham um bom dia”. De repente, surgiram vários paparazzi de trás de carros, disparando flashes no meu rosto, enquanto eu me limitava a sorrir no automático, com medo de ficar feia nas fotos. Eles provavelmente estavam me confundindo com alguém. Abi, como nos tempos áureos, teve que me ajudar a passar pelo tumulto e me guiar até o carro. Eram cerca de 30 pessoas em cima de mim – fomos saber depois – mas a impressão era de que havia muito mais gente. Nem todos eram fotógrafos.

– Você e o Zac Cullum estão namorando? – me perguntou a repórter de uma revista de fofoca, que eu conhecia de alguns eventos.

– Há quanto tempo vocês se conhecem? – questionou outro, antes que eu tivesse tempo de responder à primeira.

– Você já gostava das músicas do Zac? – era Sidney Toledo quem aparecia de repente na minha frente, com um caderninho na mão. Ele era o repórter de celebridades mais conhecido (e antigo!) do Rio de Janeiro e, naquele momento, muito mais famoso do que eu. Sidney fora o responsável, naquela semana, pela separação de um casal de atores que estava junto há dez anos. Ele noticiou que a atriz traía o marido com um montador de cenários. Não se falava de outro assunto na mídia desde então.

– Quem não gosta das músicas do Zac? – rebati, pensando que era importante respondê-lo, já que poderia precisar dele no futuro. No passado, já havia precisado e ficado na mão, mas nunca se sabe.

Consegui entrar no carro e Abimael deu a volta para assumir o banco do motorista. Antes de ligar o rádio para abafar o barulho externo das pessoas batendo no vidro da minha janela, me perguntou:

– O que é tudo isso? – embora assustado, notei que ele estava gostando do frisson.

– Não estou entendendo nada. Por que acham que eu namoro o Zac? – disse, de olho no visor traseiro, onde o tumulto ficava cada vez menor conforme nos afastávamos.

Abi começou a rir. Ele estava feliz. Eu também ri, mas por causa do mal-entendido. Nunca havia ido a um show do Zac Cullum, embora ele já tivesse se apresentado no Brasil várias vezes. Antes, eu não tinha dinheiro. Depois, tempo. Agora, dinheiro novamente. Nem nas listas VIP me colocavam mais. Como iria namorá-lo? Nunca sequer o vira pessoalmente.

– Abi, as grades! O Zac deve estar hospedado no Fasano, e por isso acharam que estamos juntos quando me viram sair de lá. Só pode ser isso!

– Verdade! Você não é burra não, hein. Só é mal aproveitada.

– Gente louca! Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

– Depois de tanto tempo, você ainda não se acostumou com esse povo? Vou fazer o retorno para vermos melhor.

Vimos dezenas de fãs, repórteres e paparazzi espalhados na calçada do hotel. Zac definitivamente estava hospedado lá. Não havia outro motivo para tamanho alvoroço.

 

À noite, na varanda do meu apartamento, que apesar de pequeno tem uma vista linda para a praia, comemos barras de cereais como janta, sentados nos pufes coloridos que trouxe da última viagem a Nova York. Abi ainda remoía a questão das fotos para a Naked. Ele não falava, mas eu sabia, justamente porque estava calado. Já eu pensava nos meus inúmeros problemas, incluindo Jonatas, meu ex-namorado. Nós nos separamos assim que venci o concurso, fiquei famosa e tive que viajar de um país ao outro o tempo inteiro. Ele não aguentou o tranco, o que acho muito compreensível, e pediu para terminar comigo. Na época, tentei me convencer de que era mesmo o melhor a ser feito. Jonatas era atendente de um restaurante fast food, o que não tinha nada a ver com a minha vida nova. Ele não era o perfil de namorado ideal para uma modelo de sucesso internacional. Mas eu ainda gostava dele. E ele de mim. Viramos amigos de novo e nos falávamos diariamente por mensagens no celular, com alguns encontros eventuais. Além disso, eu devia R$ 5 mil para ele – algo que explico mais tarde.

Jonatas e eu nos conhecíamos desde crianças, quando éramos vizinhos no Lins de Vasconcelos, bairro apertado entre o Engenho Novo, o Méier e meia dúzia de favelas, no subúrbio da cidade, em uma época em que não existiam UPPs. Ele ainda morava lá, na mesma casa, e era meu único contato com o passado. Desde que me estabeleci de novo no Rio de Janeiro, estávamos nos reaproximando – mas eu tentava deixar Abi de fora disso. Ele se decepcionaria se descobrisse o quanto eu posso ser imperfeita. Por isso, esperei que ele fosse ao quarto usar o computador para que eu pudesse responder à mensagem de Jonatas no celular. Ele havia me convidado para ir ao cinema.

Onde? Que horas?

 

Eu te busco às 19h no sábado.

 

Jonatas tinha um carro velho que eu não queria 1) estacionado na porta do prédio; 2) ao alcance dos olhos do Abi; 3) ao alcance dos meus olhos; 4) morto no meio do caminho. Minha época de ajudar a empurrar o carro já havia passado.

Botafogo. Saída do metrô na Muniz Barreto, às 19h30.

 

Você que manda.

 

Com certeza.

 

Fiquei mais alguns minutos ali, esparramada no pufe, olhando as ondas quebrarem na areia, até que Abi me gritou do quarto, pedindo que eu fosse até lá. “Quero te mostrar uma coisa!”. Eu não queria ver nada, mas fui. Rastejando-me, mas fui.

– O que há de tão importante?

– Olha isso! – ele me indicou a tela do laptop e baixou o volume da música que tocava – Estão falando de você.

 

Coluna X9, com Sidney Toledo

 

Dalila Arce desconversa sobre affair com Zac Cullum

 

O cantor de rock Zac Cullum, no Brasil para uma série de shows, está conhecendo melhor a modelo Dalila Arce, vencedora da 1ª temporada do programa Top Top Girl. Ela esteve no hotel do astro americano, em Ipanema, nesta segunda-feira e não quis comentar o affair. “Quem não gosta das músicas do Zac?”, se limitou a dizer.

Segundo amigos próximos, os dois estariam trocando e-mails há meses, desde que foram apresentados em uma festa em Los Angeles, onde ficaram pela primeira vez. O rumor é de que foi amor à primeira vista e a turnê no Brasil seria uma desculpa de Zac para estar perto da modelo.

Separado há três meses da atriz mexicana Violeta Herrera, com quem ficou casado por exatos 35 dias, o cantor já estaria pensando em pedir a brasileira em casamento. Será que ela aceita?

 

 

– Vou ligar para o Sidney e desmentir essa bobeira agora mesmo. – imaginei o Jonatas lendo aquela notícia e ficando decepcionado comigo, embora duvidasse que ele acessasse sites de fofoca. Imediatamente, comecei a procurar o telefone do jornalista no meu celular, mas Abi o arrancou da minha mão, suspendendo-o no alto.

– Você não vai fazer nada disso! Não percebe a oportunidade?

– Que oportunidade?

– Esse rumor vai te ajudar muito! – notei que os olhos dele brilhavam, apaixonados pela própria teoria – Quanto mais pudermos prolongar isso, mais tempo você fica na mídia. Você nem vai precisar sair com o Adalberto para que ele aumente seu cachê.

– Não vou posar nua, Abi. Já disse.

Ele revirou os olhos, impaciente.

– Tá bom. Mesmo assim. Você não percebe que podemos lucrar com essa história? As chances de te chamarem para o Fashion Rio serão muito maiores se acreditarem que você é a nova namorada do Zac. O relacionamento de vocês atrairá atenção para o desfile!

– Não temos nenhum relacionamento. – fiz questão de lembrar, porque achei que ele começava a acreditar no que tinha lido. Eu não iria sair por aí mentindo que estava com o Zac. De jeito nenhum. Isso podia ser melhor que posar nua, mas não queria construir uma carreira apoiada no oportunismo.

– Você não precisa nem mentir. É só não desmentir. – ele parecia ler meus pensamentos e isso começava a me preocupar.

– Não sei não…

– Por favor! – Abi estava com as mãos encontradas, rogando – Acredita em mim, vai dar certo.

– Se não der certo, vou ficar desmoralizada…

– Vai dar certo.

– Tá. Vou ficar na minha. – cedi, caindo de costas na cama. Abi começou a comemorar com os braços para cima, como se tivesse feito um gol. Eu ainda não estava convencida, mas ele parecia muito confiante sobre o plano.

– Posso pedir mais uma coisinha?

Não respondi.

– Além de não desmentir o rumor, vamos alimentá-lo?

Suspirei, fechei os olhos e levei as mãos à cabeça, tapando os ouvidos. Necessitava voltar à mídia, porque precisava conseguir novos trabalhos para ganhar dinheiro. Uma necessidade levava à outra. Era assim que funcionava a indústria das celebridades. Pensei no sucesso que alcancei e no anonimato que readquiri. Não era possível que o melhor da minha vida já tivesse passado. Eu tinha só 19 anos.

– Tudo bem, eu aceito. – eu não queria ouvi-lo falar novamente da Naked.

– A sorte bateu à sua porta, Dalila! Fique feliz! – ele se jogou em cima de mim, com todo o seu peso, para me abraçar. Ele estava muito contente com a possibilidade de me ver brilhar novamente.

– Não acredito no que estou me metendo…

Mas me meti mesmo assim.


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