bandidos

Fui assaltado e, minutos depois, outros bandidos me abordaram

Tem dia que, se a gente sabe, não sai nem de casa.

Só queria me distrair. Era meu segundo encontro com Alejandro, um chileno com pinta de modelo, e esse é o nome dele mesmo, porque não poupo nomes reais de personagens internacionais que não serão afetados pelo que digo. Enfim. Nós havíamos nos conhecido na sexta, passeado pela orla, conversado, e nos dado bem. Decidimos fazer o mesmo na noite de sábado. Ele estava hospedado em Copacabana, ali em frente à estação do metrô Cardeal Arcoverde, e nos encontramos para sentar na areia, olhar o mar e jogar conversa fora. Não seria a primeira vez que eu faria isso, embora a informação já deixe muita gente em alerta de “isso não vai prestar!”. De fato, não prestou.

Já passavam das 23h e nós estávamos ali sentados, como se não houvesse amanhã há algum tempo, quando vi um rapaz caminhar decidido em nossa direção. Digo rapaz porque não sou capaz de especificar sua idade: talvez adolescente, talvez homem, talvez 17, talvez 21, vai saber. Não pedi RG. O vi e falei para o Alejandro: “tem um cara estranho vindo pra cá”. Eu não gosto de pré-julgar ninguém, do tipo “aquele cara tem cara de bandido”, o que, obviamente, me torna suscetível. O sujeito veio mesmo para cima da gente. Nós, sentados no chão, ele, de pé, não havia muito o que fazer. Ele pediu dinheiro. Não lembro as palavras que usou. Alejandro nada entendia, porque não falava português, e calado ficou. Coube a mim dizer que não tínhamos. Mais incisivo, o cara falou que queria dinheiro. Eu disse que realmente não tinha, até então acreditando que ia conseguir me livrar daquela peça.

Era um bandido de verdade, porém. Ele se abaixou, tirou um facão debaixo da camiseta, e encostou a ponta na minha cintura “Não tô brincando, não. Passa o dinheiro, passa o celular, eu quero celular!”. Tentei explicar que não tínhamos celular, que tínhamos só ido dar uma volta, mas ele não estava disposto a ouvir minha mentira. Alejandro paralisado estava, paralisado ficou. O ladrão só tirou a faca da minha cintura para botar na bochecha dele. Eu não senti medo. Nunca sinto, não sei explicar muito bem o porquê, mas já passei por tantos assaltos nesta vida que consigo me manter frio e tranquilo. Não pensei que aquela faca podia realmente ser enfiada em mim, mas lembrei que minha mãe sempre diz “para não resistir e entregar tudo”. Geralmente, eu não lembro disso, e resisto. Mas, ali, eu lembrei. Em parte, talvez, porque brotaram da areia mais de dez pivetes, que nos cercaram e violaram todos os bolsos, bolsas e buracos possíveis capturando tudo que havia de valor. Quando senti todas as mãos me invadindo, entendi que não tinha como sair dali com meus pertences. Era tanta mão que eu nem senti o momento que o celular foi retirado de mim. Quando saíram de perto, minha primeira reação foi enfiar a mão no bolso para ver se ele ainda estava ali, ingenuamente. Levaram tudo. Até garrafa d’água. Minha carteira com documentos e o Riocard, para voltar para casa, pedi que deixassem. Deixaram, atirados na areia, para que eu catasse humilhantemente – e vitoriosamente por tê-los, também.

Não olhei para o Alejandro durante essa limpa que nos faziam. Eu estava mais preocupado que a faca, se estivesse bem amolada, pudesse me penetrar sem querer com um esbarrão enquanto me sacudiam e viravam de cabeça para baixo em busca de valores. Pegaram até moedinhas que eu nem sabia que tinha, enquanto eu controlava a faca com o olhar. Mas uma hora acabou. Deixando-nos com as roupas do corpo, se levantaram e se foram. O que carregava a faca, no entanto, voltou e pressionou a arma branca na minha perna ameaçadoramente. “Vai ficar escondendo o dinheiro mesmo?”. Eles já tinham pegado toda minha grana, mas ele aparentemente não tinha visto. Naquele momento, sim, pensei que estava perdido. Eu não tinha mais nada, mas ele achava que era mentira minha, e aquilo podia valer uma facada. Rapidamente peguei a carteira para mostrar que estava vazia, e um companheiro dele voltou e disse “já pegamos, já pegamos, vamos”. Ele se levantou e se foi. Acabou.

Meu celular. Meu celular. Meu celular. Eu só conseguia pensar que estava sem celular, que teria que comprar outro, e ia percebendo que também não tinha mais bolsa, não tinha mais livro, não tinha mais guarda-chuva. Alejandro falava apenas da faca, visivelmente traumatizado, abalado. Havia sido seu primeiro assalto. “Bem, você pelo menos tem uma história para contar quando voltar para casa”, eu disse. “Essa vai ser a história que menos vou querer contar”, ele respondeu, e começamos a pensar nas consequências daquela cena. “Minha mãe vai me matar”. “Minha mãe vai falar muito”. “Minha mãe vai reclamar de eu viajar sozinho”. “Minha mãe vai perguntar se sou louco de estar de noite na praia”. Coisas do tipo. Quem tem mãe entende.

Qual a nossa surpresa quando me viro de costas e vejo um homem – “com pinta de bandido”, porque eu já havia abandonado o politicamente correto naquela altura – pegando minha bolsa na areia e mexendo nela. O bando tinha deixado-a para trás, vazia. “Vai lá e diz que é sua”, o Alejandro disse. Eu não achei que era boa ideia. Fiquei na minha. Mas o cara veio. Aparentemente, estávamos atraindo atenções naquela noite. Ele veio, disse que tinha visto o assalto, perguntou se levaram tudo mesmo, e eu percebi que ele estava interessado em arrancar mais.

– Levaram tudo. Eram tantas mãos que nem senti pegarem o celular.

– Eram mais de dez.

– Mais de dez? Eu não contei. Fiquei focado na faca.

– Eram. Eu vi. Eles estão assaltando todos os dias, do Forte até o Leme.

– Ah, que ótimo.

– Eu também ia assaltar vocês. Estava de olho desde que vocês chegaram, mas deixei pra lá. “Não, vou deixar eles ali na paz, na moral”. Aí vieram os outros…

É isso aí. Ele estava me confessando sua vontade de me assaltar também, e lamentando ter dado mole para que outros fizessem primeiro. Que vida é essa? É real? Eu comecei a achar graça do que estava me acontecendo. “Ah, que maravilha! Todo mundo queria me assaltar!”. Eu ri. O Alejandro não entendia nada que estava sendo dito. Eu estava de boa, na certeza de que mais nada poderia ser levado. Não tinha mais nada. Isso me deixou leve. Era uma sensação boa estar com um bandido, que tinha visto outros me assaltarem, e sabia que eu não tinha nada a fornecer. Era cômico. Pedi minha bolsa de volta, e ele disse que “pô, tô precisando de uma bolsa”. Eu ri. Ele chamou o amigo dele, para certificar a intenção do assalto.

O amigo era mais divertido. Chegou, se sentou na areia com a gente, riu da ironia daquilo tudo comigo. Também me zoou por ser assaltado e estar rindo cinco minutos depois. Me deu esporro por levar celular caro para a praia. Mandou o amigo me dar a bolsa de volta. Me indicou onde havia visto o bando jogar meu livro para o alto. Fui lá e peguei. Achei canetas, lápis, papeis que eu nem sabia que tinha. Peguei. Sentei com ele de novo. Era um cara legal, o bandido que não me assaltaria porque sabia que eu estava na pior. A dupla contou que havia me poupado porque “só assaltam gringos”, “não querem sacanear brasileiros”, “mas aqueles ali, oh, não perdoam ninguém não”. Olhamos em direção ao Leme e vimos o bando assaltando outras pessoas e correndo para o calçadão. Caramba.

– Vocês não aprendem. Vir com coisa cara para a praia. Já foi assaltado quantas vezes na praia?

– Essa é a primeira vez, na verdade.

– Sempre tem uma primeira vez!

Decidi contar para o Alejandro o que estava acontecendo – “esses caras também queriam nos assaltar, mas deixaram para lá e vieram os outros… mas eles são legais” – e o chileno arregalou os olhos. Deu um risinho falso. Estava tenso. Mais tenso do que tudo. Talvez procurasse a faca deles com o olhar. Acho que não tinham. Não me mostraram. Zoaram o chileno. “Ele ficou paralisado, nem respirava enquanto eles estavam aqui”. É, ficou mesmo. O bandido legal começou, então, a me dar dicas para me safar de assaltos na praia, ou diminuir as chances de ser assaltado, ou minimizar as perdas. Ele gostou de mim. Eu gostei dele, também. Pediria o Whatsapp se tivesse um celular. Era gente finíssima. Terminamos a noite rindo, e eu achei que ele não ia embora mais. Mas eles foram e disseram que “qualquer coisa, estamos ali”. Achei gentis me protegendo depois que já perdi tudo. Despedimo-nos e fomos para o calçadão digerir aquilo tudo. Eu e Alejandro, pensando na faca, nos celulares, nas mães, no prejuízo, no perigo. Ficamos de manter contato. Estávamos conectados para sempre como quem vive um assalto junto. Isso é especial.

Dois ou três depois, vi a notícia de que uma turista argentina foi esfaqueada durante um assalto de noite, na praia de Copacabana. Ela não resistiu, morreu. Lembrei do que tinha vivido, lembrei da informação de que “estão fazendo isso todo dia, do Forte ao Leme”. Acho que só então entendi que eu podia ter morrido também, que podia não estar aqui para contar essa história, e isso é muito louco. Foi por um triz. Fiquei pensando nisso. Com a argentina, se foi um pouco de mim. Eu me senti presente no que não vi, mas imagino como foi. Mas ela também fica um pouco em mim, vivo, renascido, muitos diriam. É essa cidade que vivo, e com ela vou ter que lidar.

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