Magia de Carnaval

Eu sei que não é todo mundo que entende o poder de comoção de uma escola de samba. E lamento. É pura arte. O maior espetáculo do planeta, realmente. Quem me conhece sabe que eu amo. Desde criança, o que eu mais gostava no Carnaval era ir à concentração das escolas ver os carros alegóricos na rua. Eu ficava absolutamente encantado com aquilo tudo. Na época, apenas sonhava em um dia assistir aos desfiles lá dentro da Sapucaí. E foi um passo após o outro até que isso acontecesse. A primeira vez que fui, minha mãe não tinha as informações e ficamos na arquibancada popular, já na dispersão – muito ruim. Depois, fui ao desfile das escolas mirins, em outro ano entrei para o desfile do grupo de acesso… Já era grande quando vi pessoalmente minha Beija-Flor, que eu sempre assistia só pela TV. Foi uma emoção inexplicável, e sempre que vou à Sapucaí sou tocado de alguma maneira, seja desfilando ou curtindo.

Neste ano, vivi um momento muito ímpar, e escrevo para não perdê-lo, porque a memória falha. Foi no desfile da Viradouro, que cantou “O Alabê de Jerusalém, A Saga de Ogundana”. Já na reta final da apresentação, um dos carros alegóricos parou bem na frente de onde eu estava e ficou ali por um ou dois minutos. Eram várias pessoas em cima dele, mas uma em específico chamava a atenção: uma mulher de seus 50 e tantos. Ela se apropriava do samba-enredo de tal forma, com tamanha interpretação, que parecia ser sua autora. O que se via não era uma foliã cantando o samba da escola, e sim uma atriz interpretando um monólogo apaixonadamente. “Ó, meu Brasil, cuidado com a intolerância, tu és a pátria da esperança, à luz do Cruzeiro do Sul. Um país que tem coroa assim tão forte não pode abusar da sorte que lhe dedicou Olorum”. Ela sofria com aquela composição, e nos convencia do seu sofrimento.

Meus olhos fixaram nela, e dali não saíram. Eu tinha consciência do que estava acontecendo, do que estava me acontecendo, e não conseguia parar de olhá-la. Eu não queria parar de olhá-la! Perguntava-me se as outras pessoas do camarote também estavam prestando atenção naquele primor. A cada verso que passava, ela ficava mais encantadora, hipnotizadora, uma artista. “Meu nome é Alabê de Jerusalém, voltei à Terra pra matar saudade. Vim falar de amor, de tolerância e igualdade”. Que mulher! Que força! Que carisma! Que luz! “O rei dos reis que conheci se espanta e chora com essa guerra santa, que sangra esse planeta azul”. Como o samba ficava claro na boca daquele ser humano, meu Deus! Que poder de transmissão de mensagem. Eu não estava nada menos que impressionado.

As pessoas começaram a levantar os celulares e apontar para ela. Não fotografavam pela estética das fantasias e alegorias. Filmavam o que aquela mulher era capaz de fazer. Inexplicável. Meu olho encheu de lágrimas. Só aquilo bastava pela noite toda. Foi lindo demais. Quando aquela alma iluminada terminou um ciclo do samba-enredo, e as pessoas entenderam isso, ela foi ovacionada. Todo mundo começou a aplaudi-la. Primeiro um, depois outro, e outro, e todo mundo! Contagiante. Uma comunhão! E eu fiquei tão feliz de fazer parte daquilo. A lágrima desceu do olho. E, ela, ao perceber o reconhecimento, se emocionou, chorou, agradeceu. E tudo isso muito rapidamente, porque o show tem que continuar, e ela voltou à sua carga dramática. Que mulher! Babamos.

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