Amizade depois dos 25

Sabe aquele papo de que, com o amadurecimento, a gente descobre quem é amigo de verdade? Balela. Quem cunhou e disseminou essa teoria apenas envelheceu e viu que os amigos não estavam mais tão disponíveis como antes: como na infância, em que se encontravam para brincar todos os dias, ou como na adolescência, em que qualquer hora era hora de se reunir para brigadeiro na panela e fofocas ao vivo. Se esse cidadão, o mesmo de “amigos de verdade se conta em uma mão”, vivesse na era digital, teria popularizado muitas frases amarguradas mais. Afinal, quem ainda reserva tempo para se encontrar?

Eu algumas vezes cheguei à minha psicóloga dizendo que “estou sem amigos”, o que não é verdade (ela sempre me atenta a isso). Mas o que importa é a verdade ou como nos sentimos? Minha psicóloga, geralmente, diz que a galera “não está disponível, naquele momento, que eu quero”, e só isso. Eu acredito mesmo. Mas acho que, depois dos 25, é difícil estarmos disponíveis uns para os outros. O dia tem 24 horas, a semana tem sete dias, e nunca dá tempo de fazer tudo, então porque doar algumas horas para outra pessoa? Francamente. De qualquer forma, estamos todos conectados o tempo todo via Facebook e Whatsapp. Não é como se fôssemos nos afastar deixando de nos encontrarmos. Não mais. Mas é outro tipo de relação.

Alguém pode se perguntar de onde eu tirei essa divisão de águas aos 25 anos. Eu respondo: é uma pesquisa científica da Universidade de Massachussetts. Mentira. Mas sempre quis citar uma pesquisa de Massachussetts. Essa galera de Massachussetts pesquisa muito, se você reparar bem. Mas, como eu dizia, eu tenho sim uma explicação para os 25. Além de ser uma idade com a qual eu realmente tenho fixação, é o nome do disco novo da Adele, que eu botei para ouvir durante a escrita desse texto. Mentira. Isso não tem nada a ver. Mas eu tô ouvindo o álbum mesmo (é bom!). É muito claro isso dos 25. Nesta idade:

(x) Você geralmente já terminou a faculdade, o que ainda mantinha sua relação mais presencial com a galera. Ninguém assume, mas faculdade acaba te deixando com vibe de escola por mais tempo. Note que só depois cada um segue sua vida.

(x) Está todo mundo trabalhando várias horas por dia, passando mais tempo que o desejado preso no trânsito, indo à academia porque é a geração saúde, indo à psicóloga porque é difícil lidar com essa vida, e fazendo alguma outra atividade extracurricular, que a gente não chama mais de extracurricular porque somos adultos. Ou seja, agenda milimetricamente ocupada.

(x) Seus amigos começam a ter filhos pequenos em casa, o que consome todo o tempo e energia deles. Quando conseguem marcar algo com você, carregam as crianças junto, e você tem que fingir que acha engraçadinhos aqueles gritinhos interrompendo qualquer conversa. Você percebe que não dá mais para conversar de verdade.

(x) Seus amigos engatam relacionamentos realmente sérios e só saem “de casal” – e você não é necessariamente obrigado a achar legal o(a) parceiro(a) do(a) seu(sua) amigo(a). Na verdade, geralmente, você não acha, senão era você que estaria namorando com ele(a), não é verdade?

(x) Seus amigos se casam, o que geralmente inclui fazer compras, lavar o banheiro, limpar a casa, levar os bichinhos no veterinário, receber o encanador, pensar em como se alimentar diariamente, e fazer sexo com regularidade. Definitivamente, é difícil marcar de encontrar alguém.

Dá para perceber? O 25 é simbólico. Isso pode chegar mais cedo ou mais tarde para você, mas chega. É a fase em que a vida de todo mundo muda, e fica difícil conciliar agendas. Sim, todo mundo passa a ter uma agenda, o que é estranho: ter que marcar hora para encontrar alguém que dividia colchão com você nas férias de verão. You know what I mean. As conversas passam a ser mais ou menos assim (virtualmente, claro):

– Saudade! Vamos marcar algo!
– Saudade também! Quando você pode?
– Posso sábado!
– Ih, sábado não posso. Aniversário de namoro. Domingo?
– Domingo não dá. Tenho chá de bebê. Semana que vem então?
– Vou estar fora da cidade. E na outra?
– Tenho prova do concurso.

Fim da conversa. Quando as duas pessoas percebem que estão tentando marcar para daqui um mês, perdem o tesão e deixam a conversa morrer. Vão tentar de novo depois de seis meses, e não conseguir. Até que percebem que não se veem há um ano, ou dois. Note que estou falando de relações um-a-um. Se, por acaso, se tratar de um grupo de amigos (da escola, da faculdade, sei lá de onde), a dificuldade de conciliar agendas é ainda maior. Chega mesmo a ser impossível. Aliás, quanto mais membros tiver o grupo, mais chances de fracasso presencial. Se o virtual ainda existir, se dê por satisfeito, sinceramente. Presencial só com os colegas de trabalho, que acabam virando amigos por estarem compulsoriamente mais perto (aka falta de opção).

Amizade depois dos 25 é muito complexo. Na infância, por exemplo, eu morava em uma vila e todo dia acordava e ia chamar os amiguinhos para brincar. Eu gritava “GABRIEL, VAI BRINCAR?”, mas era um mero código para dizer “GABRIEL, APAREÇA LOGO”. Não havia chance de ouvir um não como resposta. Eu sabia que, sim, o Gabriel iria brincar. Na adolescência, quanto tempo os amigos passam enfiados na casa uns dos outros? Qualquer lugar é melhor que a própria casa. E todos sempre estão juntos. Fazer parte de um bando, na verdade, é empoderador. Depois, quando você está na faculdade, ainda gasta algumas horas depois da aula jogando papo fora com a galera. Ou mata as aulas para ir beber na esquina. Todo mundo acompanha a vida de todo mundo diariamente. E tem os amigos de fora, que de alguma maneira também conseguem manter o ritmo de antes. Todo mundo reclama de muita prova, muito trabalho, estágio, mas ainda não têm ideia do que está por vir.

Por que estou falando isso tudo com um textão? Porque tenho mais de mil “amigos” no Facebook e volta e meia me sinto solitário. Obviamente, desses mil, considero uns 20 amigos mesmo. E cinco “amigos de verdade”, para não contrariar o inventor das frases de efeito amarguradas. Para manter uma boa convivência, me nego até a morte a nomear os tais cinco. Mas entende? Reduzindo o número ao máximo, ainda é difícil ter uma frequência de encontros presenciais com esses. Eu não sei como era antigamente. Sem Internet, as pessoas deixavam simplesmente de se comunicar? Mandavam cartão no Natal e consideravam isso amizade? Não sei. Porque, obviamente, elas também trabalhavam, namoravam-e-viravam-siameses, casavam, tinham filhos, etc., etc., etc. Talvez a comunicação digital, em vez de afastar as pessoas, como muito se prega, tenha mesmo aproximado, dessa maneira virtual. Era isso ou nada. Já pensou?

Tudo muda na vida, inclusive os relacionamentos. Nem sempre para melhor. Acho mesmo que amizades duradouras têm fases, principalmente se são amizades que você traz da infância e adolescência. Eu entendo, de verdade. Mas, como canta Adele,

I feel like my life is flashing by
And all I can do is watch and cry
I miss the air, I miss my friends
I miss my mother, I miss it when
Life was a party to be thrown
But that was a million years ago

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