Ops, esqueci.

Quando é que a gente começa a se esquecer ?

Minha avó tem Alzheimer, e eu gosto de falar isso porque quando você fala descobre que avós e avôs de muitos amigos também têm. As pessoas não comentam, normalmente, mas é uma doença mais comum do que se imagina. Eu não imaginava. Depois que minha avó foi diagnosticada, há alguns anos, descobri tantas histórias de pessoas próximas… É como se fosse um clubinho secreto, o dos netos do Alzheimer. Será que existia alguma comunidade do tipo no Orkut? É possível. O Alzheimer é a “doença do esquecimento”. Pelo menos, é assim que a gente explica para a vovó quando ela pergunta. É uma doença degenerativa, o que significa que não tem cura, não tem volta, é ladeira abaixo. É muito triste, na verdade. Em maior ou menor grau, implica em sofrimento para o doente e quem está em volta. O quadro da vovó, felizmente, é estável, e não é dos piores. Ela sabe quem eu sou, quem minha mãe é e, principalmente, quem ela mesma é. Isso é ótimo.

Dizem que quem tem casos na família tem uma predisposição maior para desenvolver a doença. Falam também que o Alzheimer pula uma geração, o que, na prática, quer dizer que os netos podem ser os esquecidos de amanhã. Eu, no caso. Houve uma época que eu estava esquecendo muita coisa, e um dia esqueci um compromisso sério, de trabalho, o que me assustou demais, porque eu sou a pessoa mais responsável do mundo. Falei para minha psicóloga: “acho que estou com Alzheimer” precoce. Eu tinha visto aquele filme da Julianne Moore, que ela tem Alzheimer precoce. Foi o que falei na terapia: é possível.

– Quantos anos a Julianne Moore tem no filme? – ela questionou, imaginando a resposta.

– 50 anos. O que ainda é cedo para os padrões normais do Alzheimer.

– Quantos anos você tem?

– 25. – era minha idade na época.

– Ah, então, tá.

Minha psicóloga teve essa fase debochadinha, mas passou. Ela voltou a gostar de mim, eu acho. Então eu não tenho Alzheimer (confio nela). Ao menos, não ainda. Mas eu esqueço coisas. Você também esquece. Eu sei que você esquece porque eu costumava lembrar de tudo, tudo aquilo que as pessoas ao meu redor tinham esquecido, então estou acostumado ao esquecimento alheio. Há uns dez anos atrás, eu poderia descrever em retrospecto cada dia da minha vida com sagacidade – o que aconteceu em casa, no colégio, em cada encontro com a Sandy, em casa viagem, em cada diálogo com cada pessoa que cruzou minha vida. Minha memória parecia infinita (o que me ajudou muito nas provas do colégio e da faculdade). Mas, hoje em dia, tudo isso parece um borrão. O colégio. Sandy & Junior. Minha casa. Minha família. Meus amiguinhos. As conversas. Tenho flashes, sei que vivi, mas não lembro de detalhes, ou da ordem cronológica dos fatos. Às vezes, no meio de uma conversa, um saudosista cita um episódio antigo de nossas vidas em comum, e eu só consigo pensar em como eu jamais me lembraria daquilo sozinho. Ou pior: falam de algo que eu não lembro sequer de ter vivido. Isso assusta, especialmente para uma pessoa que ainda tem na memória uma cena de quando tinha dois anos de idade. As pessoas não se lembram nem de ser vivas aos dois anos de idade, e eu sei disso. Por muito tempo, sempre se assustaram quando eu contava que me lembro do dia que minha mãe foi fazer minha matrícula na creche. Eu tenho lembranças de mim no carrinho de bebê. Você tem? No berço, não tenho. Quando penso em berço, penso em fotos minhas no berço – são das fotos que me lembro de ter visto. Mas não é sobre isso que quero falar: as lembranças. É sobre os esquecimentos.

Quando é que a gente começa a esquecer? Quando as lembranças dos, sei lá, 12 anos de colégio viram um slide-show de cinco minutos na nossa cabeça? Foram 12 anos! Quero lembrar de 12 anos! Não do colégio, especificamente. É só um exemplo. Quando é que a gente passa a não lembrar o porquê de uma pessoa não prestar? Quando é que a gente lembra de ter doído, mas não lembra mais da dor direitinho? Ou das alegrias… qual o momento em que “o melhor dia da sua vida” é condensado em um flash? Acredito que nossa memória é um HD externo: com grande capacidade, mas ainda assim limitado. Por conta própria, ele otimiza o conteúdo para continuar recebendo mais arquivos. Na otimização, compactua, edita, elimina, reduz mil vezes… Sem nos consultar, sem pedir autorização, sem ao menos notificar: “olha, isso aqui… pluft! Sumiu!”.

Nem as viagens… Você faz uma viagem de um mês, e cinco anos depois, quando pensa nela, ou se esforça para pensar nela, o que vem à cabeça são três ou quatro imagens, meia dúzia de histórias. Com você também é assim? Por sorte, temos as fotos. Elas têm o poder de te levar de volta no tempo, congelando momentos que o cérebro não congela. Mas nem tudo é fotografado. No caminho, muito se perde, aparentemente sem qualquer critério. Por que eu lembro de algo banal, como alguém específico dizendo que uma árvore do colégio fedia, quando eu tinha seis anos, e esqueço de histórias engraçadas que meus amigos dizem ter vivido comigo? Percebe? Qual o critério dessa cabeça, meu Deus!? Eu não sei. Mas é estranho. Sem critérios, a gente tende a lembrar mais das coisas boas ou das coisas ruins? Eu cada vez percebo mais que lembro de ter vivido coisas ruins, mas os detalhes me escapam. Ela fazia maldades, mas quais eram? Ele foi um escroto, mas por quê mesmo?

Certo dia, eu estava falando de relacionamentos com minha psicóloga – olha ela de volta ao texto – e citei um garoto babaca em comparativo. Eu adoro fazer comparativos. Eu disse algo como “porque, no início, ele era legal, era tudo normal…”. E ela me interrompeu: “não foi ele que apareceu do nada pedindo para ficar na sua casa, e vocês mal se conheciam?”. Meu Deus! Era ele! “Eu não lembrava disso”, eu disse. “Estou aqui para isso”, ela disse. E foi então quando entendi o significado de memória seletiva, para o bem ou para o mal. Nossa cabecinha – falo por mim e por você – edita as histórias, esquecendo, ignorando, eliminando partes, e ressaltando e valorizando outras. O que acontece com o que ninguém se lembra? É como se não tivesse existido? Sabe aquilo de “uma pessoa só morre de verdade quando morre a última pessoa que se lembra dela”? É mais ou menos isso. É como se, algo esquecido por todos, nunca tivesse existido, se perdesse no tempo. Isso é muito louco – esse esquecimento. Eu gostaria verdadeiramente de me lembrar de tudo. Gostava de quando tinha uma memória incrível. A autoconsciência do esquecimento é desagradável. Será que algum dia lembrarei desse texto? Outro dia alguém comentou aqui no blog em um post que eu não lembrava de ter escrito. Reli e achei bonitinho, fofo. Uma pessoa era tocada por algo que eu havia escrito há anos e não significava mais nada para mim. Ao comentar, ela me trouxe aquilo de volta – o texto, a cena retratada, as sensações. Mas não me lembro do dia que escrevi. Quer dizer, tem coisas que realmente se perdem. Não dá para lembrar de tudo. O Alzheimer da vovó é uma potencialização disso: torna um HD externo em um cartão de memória sem vergonha. E eu fico aqui pensando, sem chegar a lugar nenhum, até me esquecer disso também.

Anúncios

Responder a Ops, esqueci.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s