Você se tornou o adulto que queria?

Estava lendo uma coluna da Martha Medeiros, que tratava de algum outro tema qualquer, quando essa pergunta me veio à mente. É comum que eu me desprenda da leitura de um texto para um devaneio introspectivo, enquanto meus olhos continuam percorrendo as letras e as palavras, frase a frase, sem que eu assimile nada. Sou capaz de ler uma reportagem inteira sobre demissões em massa de operários pensando em um assunto completamente diferente – como, sei lá, “o que vou responder caso ele venha falar comigo?”. Obviamente, chego ao fim da matéria sem saber do que ela se trata, e tenho que voltar para o início, forçando a concentração. Isso é normal? Sempre que me acontece, fico com medo de estar desenvolvendo um analfabetismo funcional, o que é duro de admitir, mas eu admito, porque é assim que a gente consegue ajuda. Mas, nesta leitura específica, isso me valeu. Não lembro sobre o que era a coluna da Martha (desculpa aí!), só me recordo que me despertou essa questão: “você se tornou o adulto que queria?”.

Eu poderia sair às ruas perguntando exatamente isso às pessoas, e com certeza ouviria histórias muito interessantes. Daria até um livro. Isso se não esbarrasse apenas em monossilábicos. Sim. Não. Não sei. Mas eu não sou o tipo de pessoa que sai às ruas falando com estranhos, de qualquer forma. Poderia perguntar à minha lista de “amigos” no Facebook, mas me detive em imaginar as respostas. Será que aquela garota queria ser mãe tão cedo? Será que ele, quando criança, queria se tornar um manipulador psicopata? Será que ela desejava ser uma adulta segura e confiante, mas detestável? Alguns nomes me passaram à cabeça, enquanto eu ia estudando-os. A verdade é que a vida prega surpresas e, quanto mais vivemos, mais percebemos que nosso suposto controle é bastante ilusório. Quer dizer, comigo é assim. Minha psicóloga me atenta que tenho mania de falar no plural.

Há ainda uma diferença entre o que queríamos ser e o que acharíamos que seríamos. Por exemplo, um filhinho de papai poderia querer ser artista e ter certeza de que seria empresário, por obrigação de dar continuidade ao império da família. Você me entende? E esse mesmo cara, hoje em dia, pode estar internado em uma clínica de reabilitação – nem o que ele queria, nem o que achou que seria. Eu sempre me confronto sobre quem sou e quem queria ser. A chegada dos 25 anos foi uma fase extremamente difícil, porque me sentia frustrado e fracassado por não ser nada do que achei que seria. O meu querer e achar sempre estiveram emparelhados. Não era independente financeiramente nem realizado profissionalmente, não morava sozinho em um apartamento na Zona Sul (ou em qualquer outra zona), nem tinha meu motorista particular. O que me consola é que olho ao redor e percebo que minha geração demora cada vez mais a sair de casa. Muitas pessoas, claro, por preguiça e comodismo. Mas não só. Já vi algumas matérias sobre isso, algo que chamavam de geração-canguru, o que considero um nome bastante triste de se carregar.

Eu sou uma pessoa muito focada no trabalho, então minhas análises acabam caindo no âmbito profissional quase que exclusivamente. Se as conquistas me atormentam, posso dizer que, em termos, sou o adulto que queria: jornalista que trabalha com arte. Exatamente o que eu queria. Talvez não como eu achasse que seria, mas pelo menos não estou fazendo contabilidade ou assinando papeis burocráticos. Nunca quis ser esse adulto que anda de terno e gravata no centro da cidade. E não sou. Quando estou no teatro e converso com um artista que admiro muito e já sabe quem eu sou, eu me sinto um pouco do adulto que queria ser.

Mas a Martha Medeiros me levou para outras paisagens, além do pensamento profissional. Tornei-me o adulto que queria ser? Bem, eu sempre disse que não queria ter filhos antes dos 50 anos e realmente não quero crianças por enquanto (não que eu esteja perto dos 50!!!). Em compensação, me apaixonei por três irmãozinhos de Belford Roxo, e vou visitá-los com a maior frequência que posso, sentindo-me culpado quando passo muito tempo sem ir. Foi uma adoção emocional – que eu nunca imaginei que me aconteceria. E fico feliz de ter acontecido.

Além disso, eu não dirijo, nunca fiz autoescola e nem tenho pretensão ainda. Tenho medo desde criança. Nesse aspecto, sou o adulto que queria ser: passageiro. Das plásticas, eu desisti. Não diminui nariz, boca, orelhas e barriga, como passei infância e adolescência dizendo que faria. Não me tornei o adulto plastificado que queria – e hoje em dia acho melhor assim. Perderia minhas características e, de alguma forma, é uma segurança se reconhecer no espelho. Mas também não sou o adulto que queria ser quando vejo meu reflexo e lá estão um óculos nos olhos e um aparelho nos dentes.

Eu queria ser poliglota, e hoje em dia fico tenso sempre que tenho que usar o inglês, que não é bom, não. O espanhol, pelo menos, está nos trinques. Mais do que isso, não tenho mais disposição para aprender. Quem sabe, algum dia. Não me tornei o adulto que queria ser. Eu queria ser mais simpático? Achei que, crescendo, a timidez e a introspecção talvez virassem características do passado? Acredito que sim. Queria isso no meu íntimo? É possível. Mas, também, é nisso que me reconheço e percebo uma linha de coerência na minha vida. Eu queria ser mais descolado e me sentir bem em qualquer lugar. Mas sou uma farsa nesse sentido. Eu não queria ser uma farsa, certamente.

Ainda pensando, não achei que teria tantos amigos. Nem que me sentiria tão só, às vezes, tantas vezes. Uma menina do colégio falava sobre “se sentir sozinha na multidão”, e me fugia à compreensão. Há anos, entendo. “Amores líquidos”, sabe? É difícil viver no mundo como ele é atualmente. As relações são muito frágeis. Eu queria ser um adulto de mais relações sólidas. Mas acho que é quase impossível. A gente vai se enganando para viver…

Eu queria ser um adulto que só fizesse sexo com amor.
E sexo só com camisinha. ✓
Eu queria ser um adulto que não bebesse. ✓
Nem usasse drogas. ✓
Eu queria ser um adulto que desse festas de Natal e Réveillon.
Eu queria ser um adulto que praticasse o desapego.
Eu queria ser um adulto que não jogasse lixo nem fizesse xixi na rua. ✓
Eu queria ser um adulto que tivesse lido todos os clássicos e os grandes filósofos. E ter visto todos os filmes importantes, tipo daquele livro “1001 antes de morrer”.
Eu queria ser um adulto que apresentasse o “Fantástico”.
Eu queria ser um adulto que não se importasse com o que os outros falam.
Eu queria ser um adulto sincero e transparente. ✓
Eu queria ser um adulto que não falasse muito palavrão. ✓
Eu queria ser um adulto que fizesse a barba todos os dias.
Eu queria ser um adulto que não acordasse cedo. ✓
Talvez seja impossível encontrar alguém que, analisando bem, tenha se tornado exatamente o que pensou para si, em todos os aspectos, até porque nossas vontades e perspectivas mudam. Será que a Rainha da Inglaterra é o que pensou que seria? “Rainha da Inglaterra”, tá aí uma expressão que gosto de usar. Ou o Eduardo Cunha. Ou a Sandy. Ou a Madonna. A Dilma. O Alberto Youssef. Acho que é importante se manter fiel a nós mesmos, mas não presos a nós mesmos, também. Nem aos outros, principalmente.

6 respostas para Você se tornou o adulto que queria?

  1. Leo, tava falando exatamente isso com a minha roommate hoje. 28 anos, e tá tudo tão “under construction”, mas ainda assim tão diferente do que eu imaginei que estaria! É bom, mas frustrante ao mesmo tempo. De positivo enxergo o fato de que significa que a gente não tá vivendo no automático, mas se questionando e fazendo por onde se tornad aquilo que a gente quer (e com segurança/liberdade pra mudar de ideia quando achar necessário). Adorei a lista e o texto! Beijo!

    • Leonardo Torres – Autor

      Você para que está arrasando. Puro lacre e destruição, como sempre. Estou sempre torcendo aqui de longe ❤ Eu tento ver o lado positivo também dessas questões, graça à minha querida psicóloga hahaha

      • Hahahahaha seu querido! Só agora vi sua resposta! Lacre, destruição (por sua conta isso aí, mas td bem hahaha) e insegurança, incerteza, frio na barriga… e tá tudo bem! 🙂 Brigada, Leo! Mais uma vez repito: é tudo recíproco e eu fico muito feliz de te ver alcançando tanta coisa e ocupando seu espaço. De verdade! ❤

  2. Érica

    Muito bom, Leo!
    Tbm acho q ninguém consegue se tornar exatamente o q esperava, ou pelo menos, não no tempo em que esperava..
    E quando vc percebe com 25 anos que na verdade nunca refletiu bem sobre o q gosta e o q queria ser, começa repensar sua vida, principalmente profissional, e resolve recomeçar. (E nesse mundo louco e apressado em que vivemos se sente velha e atrasada com 25 anos..)
    Mas acho q vc tá indo bem, Leo! Rs Ainda tem mts anos de adulto pra realizar td isso ai! Hehhe

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s