A sorte vista pelo microscópio

Ela engravidou e foi morar com o pai da criança, rejeitada pelo próprio pai, que não aceitou a “gravidez sem casamento”. Ambos pobres, muito pobres. Ela se mudou para o lote da família dele, em Belford Roxo, dividindo o espaço com a sogra, a cunhada e um monte de gatos vira-lata em um barraco improvisado. Um ambiente quente, claustrofóbico, cheio de mosquitos, com o chão de terra batida e o teto repleto de goteiras. Oito anos se passaram, e a situação se agravou. Em vez de um, agora ela tinha três filhos – tidos antes da ligação das trompas. Ela e o marido desempregados, vivendo com R$ 182 do Bolsa Família. A obra na qual ele trabalhava chegou ao fim, e foi dispensado. Na mesma época, a chuva intensificou e fez transbordar o valão que é a vista de sua casa. O barraco encheu, e eles perderam o pouco que tinham. O marido não aguentou o tranco. Surtou. Passou a tomar remédios controlados e a se dopar manhãs e tardes inteiras, com as noites em transe. Crises de ansiedade, que assustavam as crianças e consumiam o tempo e o pouco dinheiro dela com idas a hospitais. Mesmo passado tanto tempo, seu pai ainda não aceitava o relacionamento sem casamento, e se negava a ajudá-la, embora pudesse. Mônica tem um pai que nega apoio, um marido inutilizado e três filhos para criar. Sua miséria virou capa de jornal, como retrato das pessoas que vivem abaixo da linha pobreza no Rio de Janeiro. A coroação de uma vida que ela já sabia que não era fácil.

– Mas ela tem sorte. – diz a sogra.

Eu não consigo entender. Rio por educação, aquela risadinha singela que se dá para não ter que falar nada. Como mera confirmação da recepção da mensagem. Mas podia ser também uma risadinha irônica, lamentavelmente irônica, tristemente irônica.

– Sua sogra disse que você tem sorte. – eu comento pouco depois, como quem aponta o absurdo da sentença.

– É! Eu tenho mesmo. – ela me diz, enquanto me mostra as caixas de remédio que o marido toma, a papelada do processo para conseguir aposentadoria por invalidez (para ele), e outros problemas que eu não consigo nem assimilar. Ela me pede uma palmilha ortopédica para o menino, cuja receita ela não consegue encontrar no meio da bagunça. E um colchão, que ela não precisa dizer o porquê, é evidente. Onde que essa mulher tem sorte? Aquilo começa a latejar na minha cabeça, e termino o dia com fortes dores. Mônica tem sorte. Mônica está na miséria e é sortuda. Isso não é uma antítese?

Por fim, entendo. Ela sabe que tem gente em pior situação. Sim, sempre tem. Seus filhos são bonitos e saudáveis. Inteligentes. Os remédios do marido podem ser comprados na Farmácia Popular, o que a faz gastar menos com medicação. Ela, mal ou bem, tem um teto – em condições precárias, mas tem. O barraco é quente como o inferno, mas ela tem um ventilador. Apenas um, que fica no quarto com o marido que dorme, mas podia ser nenhum. E tem o Bolsa Família. R$ 182 é muito pouco, mas imagine se a renda total fosse traço. Mônica tem sorte, porque saiu no jornal, em uma reportagem que poderia ser a humilhação pública e a rotulação do seu fracasso como mulher. Mas, ao contrário disso, atraiu doações – comida, itens de higiene e limpeza, brinquedos, material escolar. Mônica sabe que há muitas pessoas em situação de miséria como ela, e nem todas estão recebendo ajuda. Então, sim, Mônica tem sorte. Claro que tem.

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