Menos fotos, mais vida

Venho tentando voltar a escrever aqui, mas sempre me falta tempo ou inspiração. Cheguei a esboçar alguns textos, e quase todos começavam com essa frase anterior, que eu julgo ser uma maneira sincera de reaparecer aqui depois de tanto tempo. Eu, mal ou bem, sou conhecido entre os que me cercam pela sinceridade, e não poderia deixar isso de lado na retomada. Quando houve as manifestações de 15 de março, cheguei a escrever um texto inteiro, sobre como as pessoas andam encarando política como torcida de futebol, mas o deixei de molho para dar tempo ao tempo. Ontem, li um texto da Eliane Brum sobre os mesmos protestos e tive certeza que seria imprudente da minha parte publicar minha perspectiva dos fatos. A dela é ótima e vocês deveriam lê-la. Sobre o que eu falo então?

Eu venho experimentando uma nova forma de viver. Quer dizer, nova para mim. Um passo para trás na história da humanidade, talvez, para poder dar dois para frente. Desde o dia 1º de janeiro, não posto fotos minhas nas redes sociais. Foram vários os motivos que me levaram a tomar essa decisão, mas basicamente eu entendi que todos nós vivemos para mostrar aos outros que estamos vivendo, e isso não me parece saudável. A maioria de nós só posta fotos de bons momentos da vida, o que revela muito de cada pessoa, mas também causa um efeito negativo, na minha opinião. Amigos, colegas, conhecidos e pessoas que a gente nem lembra que existem passam a acompanhar nossas vidas por essas fotos, que são, na verdade, uma compilação pessoal de “greatest hits”. Então, todo mundo acha que sabe da vida de todo mundo, mas, na verdade, só se sabe uma parte mínima, a publicável. De alguma forma, isso passou a me incomodar. Por que ficar mostrando minha vida para os outros? Por que querer aparecer dessa forma? Certa vez, a mãe de um amiguinho de infância – com quem eu não falo desde a infância – me encontrou no supermercado e me parabenizou porque eu “estou sempre com os famosos”. Aquilo me incomodou tanto, que gastei uma sessão inteira de análise falando sobre o assunto. Era uma pessoa sobre quem eu não sabia nada, e ela estava tirando conclusões sobre minha vida. Meus problemas financeiros, familiares, emocionais, ela não sabia. Mas julgava minha vida boa pelo que eu mesmo estava mostrando para ela, e para o mundo.

Acredito que toda minha geração foi induzida a se comportar assim, primeiro com blogs, depois flogs, e por fim as redes sociais e aplicativos de celular. Eu exponho minha vida – parte dela – na Internet desde que eu tinha dez anos de idade. Nos últimos anos, consegui que o Fotolog e o Flogão apagassem minhas contas antigas. Elas registravam com detalhes todo meu crescimento, minha escrita e meus pensamentos da pré-adolescência aos 18 anos. Isso não é normal. Minha mãe não viveu assim. Minha avó não viveu assim. Quem queria saber da vida delas, tinha que procurá-las, telefonar ou mandar uma carta. E elas contavam apenas se quisessem. Para saber da minha vida, bastava digitar o www – e eu nem saberia que você estava se inteirando. Então, de alguma forma, precisei de uma pausa para respirar. Estipulei três meses off de imagens, o que acabará no dia 2 de abril. Como toda mudança brusca, essa foi penosa. Tirei fotos que quis muito postar, pelo hábito, mas não morri quando não postei. Mostrei para alguns amigos próximos e pronto.

Meu egocentrismo me levou a registrar, em uma espécie de diário breve, todo esse processo e vou compartilhar aqui no blog no mês que vem. Digo as vezes que preferi não tirar fotos com medo e não resistir e divulgá-las, e as vezes em que tirei sim, mas não postei, por mais que quisesse muito. Mas essa experiência me mostrou uma nova forma de viver. Sinto que passei a viver mais para mim mesmo, em vez de viver para mostrar aos outros. E isso é, sem dúvidas, um aprendizado. Recomendo a todos menos exibicionismo, pelo menos por um período, curto que seja.

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2 respostas para Menos fotos, mais vida

  1. Olha, Leonardo, estou aqui aplaudindo teu texto e tua inciativa. Parabéns!!!
    Essa superexposição a que estamos nos sujeitando, realmente, não pode ser normal. Vou, pra ontem, rever meu comportamento nas redes, que já não têm mais a mesma ênfase de antes… e vai passar a menos ainda.
    Peço licença para compartilhar teu texto com meus alunos do 8o. ano, eis uma assunto que merece reflexão urgente por parte da gurizada.
    Abç.

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