2014 foi um ano difícil

2014 foi um ano difícil. Geralmente, quem diz isso é porque perdeu algum familiar próximo e passou o primeiro Natal de luto. Não é meu caso. Ainda bem. Compadeço-me de quem teve essa experiência. Seu ano foi difícil mesmo. Sinto até um pouco de culpa por dar continuidade a esse texto, mas cada um carrega a sua cruz. O meu ano não foi difícil dessa maneira óbvia. Foi difícil do tipo “um ano inteiro na terapia tentando aceitar o quanto a vida estava em oposição ao que deveria ser”. É péssimo – e péssimo significa mais que difícil – quando tudo o que te resta é tentar lidar melhor com algo insatisfatório, em vez de reverter a situação. Ao menos, acho que cheguei a dezembro melhor do que estava em janeiro. Sofro e me desespero menos hoje do que ontem. Mas ainda não me resigno, e me questiono se essa suposta evolução é de fato boa.

promessas-capa

Quando olho minha lista de resoluções para este ano, sinto-me estagnado. Quase nada foi feito. Não eram exatamente pontos inalcançáveis. Nada como comprar minha primeira mansão ou dar a volta ao mundo da noite para o dia. Eram metas dentro da realidade, e ficaram apenas no plano das ideias. Algumas se repetiram e entraram nas resoluções de 2015, no maior estilo “agora vai!”. Outras eu deixei para lá, assumidamente desistente. Acho que é assim com a maioria das pessoas. Devo estar me tornando, se já não me tornei, um clichê social: do tipo que faz resoluções e não realiza. Do tipo sem determinação, que promete começar uma dieta na segunda e sempre prorroga para a outra semana. Eu fiz isso com abdominais neste ano: autoboicote seguido de autoboicote. No momento, minha desculpa é que não é viável fazer qualquer abdominal nesse verão de 45ºC. Convenhamos. Vamos deixar para o outono. Não sei como você aguenta.

Eu estou me segurando para não dizer que meu ano foi e que minha vida é uma bosta. Tendo a essas declarações exageradas para expressar como me sinto – que é uma bosta. Mas, você sabe, 2014 também abriu meus olhos para realidades que me impedem de falar algo parecido. Fico envergonhado de pensar assim, de ter um drama burguês, um sofrimento de classe média. Não dá para remoer muito uma tristeza por algo inalcançado do topo da pirâmide com pessoas em situação de necessidade na base dessa mesma pirâmide. Só que uma chateação frívola ainda é uma chateação genuína.

INVEJA

Vou apresentar minha questão de outra maneira. 2014 foi o ano da inveja – e fiz esse balanço há pouco, nessas reflexões que a maioria de nós faz na proximidade da virada do ano. A inveja pautou os últimos meses, com diferentes caras e em diversas situações. Vale aqui um adendo: eu odeio inveja. O fato de 2014 ser o ano da inveja é bem nítido de um ano de bosta, na opinião de alguém que despreza a inveja (no caso, eu). Para mim, ela expressa o pior que alguém pode sentir por outra pessoa, às vezes camuflado de algo mais brando.

Eu sei que fui invejado, mais de uma vez e por mais de uma pessoa. Sempre tem aquela pessoa que curte tudo que você posta no Facebook, e não está exatamente a fim de você. Você sabe que é uma curtida do tipo “queria estar no seu lugar”. E é uma bobeira, porque eu não sou uma pessoa invejável, mas as pessoas se esbaldam com bem pouco mesmo. E vivemos a época da autoexposição e, consequentemente, da inveja. Ao mesmo tempo em que sinto nojo, sei que provoco esse sentimento nos outros ao fazer uma edição virtual e mostrar apenas o que minha vida tem de melhor (ou seja, de invejável). Só que o melhor é 5% do todo. Quem me inveja, pode-se dizer, inveja uma vida inexistente e artificial. E falo de mim porque sou eu que escrevo, mas me atrevo a generalizar. Olhe sua timeline e diga-me se não é uma vitrine de autoexposições com o único intuito de provocar inveja: seja da comida japonesa, do banho de piscina, da viagem internacional, do tanquinho, da nova aquisição, do novo namorado, enfim, as possibilidades são infinitas ou perto disso.

Tanto é que nem eu resisti. Levei a questão para o consultório este ano, devastado e decepcionado comigo mesmo: senti inveja. Eu culpo nossa geração virtual, com a provocação de inveja via ostentação em Facebook e Instagram, mas eu me dei conta que estava sentindo-a na mesa de um bar. E, você pode não acreditar, mas acho que foi a primeira vez que senti (não garanto, porque posso ter sentido na infância, sem autoconsciência). Fiquei mal comigo mesmo, porque achava que era imune a isso. Para mim, era uma questão de caráter, e o meu se tornou frágil naquela situação. Minha psicóloga tentou me mostrar que inveja é um sentimento humano e eu sou humano, como todo mundo, sujeito a senti-la também. Mas eu realmente achava que estava acima disso. Descobri que não.

2014 foi um ano difícil, e eu sintetizá-lo com a palavra inveja é a maior prova disso. Por isso, em 2015, tentarei fugir para outro lado. Fazer a minha parte. Vou tentar passar três meses sem postar fotos, para não gerar inveja no universo. Sei que essa declaração é pedante, mas garanto que não é uma questão de ego: qualquer um pode gerar inveja em qualquer um. Quando você posta uma foto de sua cadelinha de banho tomado e enfeitadinha com um laço na cabeça, alguém está te invejando, querendo seu bichinho para si. São coisas simples assim, que a gente não se dá conta. Por isso, vou fazer essa experiência. E, com relação a mim, acho difícil me pegar invejando os outros. Espero que tenha sido um episódio pontual e que demore outras décadas para acontecer de novo. Inveja é um sentimento horrível, de verdade, mas que vem pautando a rotina da sociedade contemporânea, com uns se informando sobre a vida dos outros por suas timelines, sem a necessidade de trocar um “bom dia”. Quando todo mundo quer mostrar que está bem (porque a felicidade se tornou uma obrigação), tornamo-nos todos artificiais, invejáveis e invejosos. Não quero compactuar com isso. Xô, sentimento ruim! Que venha 2015 e que sirva para alguma coisa.

Anúncios

Uma resposta para 2014 foi um ano difícil

  1. Gildete oliveira

    Realmente 2014 foi o ano da inveja e da ostentação, as pessoa se expondo demais. Cada um querendo mostrar que sempre tem mais poder aquisitivo que o outro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s