A experiência de Jardim Gramacho

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Quando saí do carro, não vou mentir, não vi nada. Só senti, e foi calor. Houve o choque término entre o ar condicionado do automóvel e o ar abafado da comunidade de Jardim Gramacho. Em seguida, olhei ao redor. Ainda não sei se enxerguei. Senti certa confusão. Apesar de ter muita gente (à nossa espera), o cenário parecia abandonado, devastado, esquecido. Notei que o chão era de terra batida e pensei “antes sol do que chuva”, já com o suor escorrendo instantaneamente. Por fim, enxerguei as pessoas. Era muita gente – adultos, ainda. Alguns já estressados pela fila, pela demora, pelo calor, pela desordem. Vi as crianças, então, andando descalças, alheias a qualquer questão de higiene. Uma menina com aparência de sete anos atravessando a rua com o irmão menor pela mão. Questionei-me sobre os pais deles e pude perceber que a cena se repetia: crianças descalças, indefesas, expostas. A metros dali, havia bocas de fumo – eu não sabia disso naquele momento, mas já achava a situação perigosa. Rapidamente entendi: era outra realidade. Não a minha.

Fui parar lá quase que por obra do acaso. Semanas antes, havia visto a publicidade de uma campanha de arrecadação de brinquedos e cestas básicas no Instagram, e senti vontade de participar. Entrei em contato com a organizadora, Paula Passos, e me engajei. Comprei alguns brinquedos, divulguei, convoquei amigos, pedi para pessoas influentes divulgarem… Não tenho muito dinheiro, mas estava com vontade de ajudar, e colaborei com contatos e contatos de contatos. Deu certo. É curioso, mas, quando algo é para o bem, acontece! Graças a uma amiga, a namorada do Zezé Di Camargo divulgou a campanha e uma seguidora dela enviou mil brinquedos para doação! Mil! Antes mesmo do dia da entrega, eu já estava com a sensação de missão cumprida. Mas fui lá… Não ia perder a melhor parte.

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Formamos um grupo, no qual eu não conhecia ninguém, e seguimos em direção ao Jardim Gramacho, mais precisamente à sede do projeto Ide Missões. Acho que, neste caso, minha mãe perdoaria o fato de entrar no carro de estranhos. Eu não teria chegado lá sozinho. Não é perto. Eu já tinha pensado nisso antes: por que Gramacho? Não poderíamos ajudar crianças de outro lugar, de uma comunidade mais próxima? Mas depois me repreendi: por que não Gramacho? Eu já estive em outras favelas antes, mas lá realmente é diferente. Como disse, é um lugar abandonado – não só pelo governo, mas parece que por tudo e todos. É diferente. Lembrei da cidade de Encarnación, no Paraguai, na fronteira com Posadas, na Argentina. Um lugar que achei bem feio quando visitei, há alguns anos. Com a desativação do lixão, muitas famílias de Jardim Gramacho perderam sua renda. Para aquelas crianças que nós fomos levar presentes, a primeira oportunidade de emprego é no tráfico de drogas. Entende a situação? Há falta de perspectiva.

Primeiro, foram entregues as cestas básicas. Participei pouco dessa parte, porque estava ajudando a separar os brinquedos por faixa etária e sexo, mas vi algumas cenas impressionantes. Uma cesta ou outra era mais caprichada e tinha panetone para o Natal. Quem a recebia ficava extremamente agradecido. Eu vi uma mulher comemorar o panetone como quem ganha algo muito valioso. Foi quando me toquei que nem sei quanto custa isso, mas que todo ano jogo um fora, quase inteiro. Eu e minha mãe compramos só para a vovó comer na ceia, mas nenhum de nós gosta, então acaba indo para o lixo depois.

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Tinha também muita roupa – mas muita mesmo, resultado de várias doações – e os adultos eram ávidos em fazer uma busca na torre amontoada, selecionando o que interessava. Os organizadores diziam que as roupas seriam entregues outro dia, mas muitos não resistiam. Eu fiquei particularmente tocado quando um menininho de seis anos não gostou do presente que recebeu (crianças tão sinceras!) e eu fui lá dentro pegar algo legal para ele.

– O que você gosta?

– O que tem aí?

Achei a réplica ousada e quase pensei que ele não precisasse tanto dos brinquedos, fazendo exigências, mas fui paciente:

– Tem um monte de coisa. Você tem que me dizer o que você gosta (felizmente, tínhamos muitas opções e as crianças podiam sim escolher).

– Tem roupa?

Ele estava descalço e sem camisa – algo que, naquela altura, eu já estava erroneamente acostumado a ver (estava calor, mas algo me dizia que ele estaria da mesma maneira se a temperatura fosse outra) – e só então notei que aquele menino tinha outras necessidades. Ele estava tentando conseguir uma vestimenta como presente, e não um brinquedo, porque sua carência era mais acentuada, talvez. Afinal, que criança prefere ganhar roupa ao invés de brinquedo? Fiquei espantado, mas compreendi as entrelinhas. Ele não era eu.

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Também me chamou a atenção como essas pessoas pensam sempre em alguém mais. Não posso dizer que não são egoístas, porque vi sim muita criança disputando brinquedos específicos. Duas meninas arrancaram da minha mão uma boneca maneira e ficaram puxando a caixa de um lado para o outro ao som de “peguei primeiro!”. Mas acho isso normal, principalmente no contexto social deles. O que quero dizer é outra coisa. Ouvi tanto “posso levar para minha irmã?”, “posso levar para meu neto?” e similares. Podia ser mentira, claro, podia ser ganância de querer pegar mais do que os outros, mas eu acreditei em todos. Quem me pediu levou. Felizmente, acumulamos muitos brinquedos, então não tinha porque ficar de miséria. Mesmo quem já tinha pegado algo e me pedia outra coisa, eu entregava. Uma garota, que devia ter uns 12 anos, estava saindo com uma caixa de presente, uma boneca e mais alguma bobagem e, quando me viu cheio de arcos de cabelo no braço, pediu um, esperando um não como resposta. Deu para ver no rosto dela que ela achava um excesso ganhar um arco. Só que obviamente não era. Era só um arco! Qual você quer?

Uma enormidade me separava daquelas pessoas, e eu nem sabia que isso era possível. Eu me considero pobre e pé no chão. A maioria dos meus amigos tem situação financeira melhor do que a minha. Mas, lá em Gramacho, eu me senti tão privilegiado e percebi que sou tão alienado. Algumas cenas e algumas perguntas me pegavam de surpresa, porque eu não esperava que elas existissem realmente. E, mesmo o que eu vislumbrava… há um mundo entre saber que existem pessoas que passam fome e, de fato, passar fome. Nunca cheguei perto disso. Sempre tive todos os brinquedos que queria e sempre que precisei de roupa pude comprar. Talvez eu, e muita gente, não me atente para a saciedade de necessidades básicas, justamente porque não saciá-las nunca foi uma questão. A gente naturaliza o que para os outros é uma batalha diária: o que comer, por exemplo.

Eu entendo todas essas pessoas que vivem fazendo caridade e dizem “quem mais ganha sou eu”, porque foi exatamente assim que me senti. Você volta para casa revitalizado, com ótimos sentimentos. Mas não dura muito, confesso. Quando você para e pensa que ajudou apenas um dia daquelas pessoas e elas têm outros 364 para enfrentar, bate uma tristezinha. Quando você pensa no futuro daquelas crianças, cercadas de boca de fumo, bate um desespero. Há alguma perspectiva? Dá medo até de pensar no assunto. Mas tem que pensar. Você não consegue fechar os olhos depois de ter visto tanto.

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2 respostas para A experiência de Jardim Gramacho

  1. Tenho muita vontade de fazer um voluntariado algum dia, mas ainda me falta a iniciativa. Você ter escrito sobre me fez ver que é muito mais simples do que eu imaginava. Te admiro ainda mais pela atitude! 😉

    • Leonardo Torres – Autor

      Eu também tinha muita vontade e pouca iniciativa. E é tudo muito mais simples do que a gente pensa. É tão pouco pra gente e significa tanto para os outros!

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