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2014 foi um ano difícil

2014 foi um ano difícil. Geralmente, quem diz isso é porque perdeu algum familiar próximo e passou o primeiro Natal de luto. Não é meu caso. Ainda bem. Compadeço-me de quem teve essa experiência. Seu ano foi difícil mesmo. Sinto até um pouco de culpa por dar continuidade a esse texto, mas cada um carrega a sua cruz. O meu ano não foi difícil dessa maneira óbvia. Foi difícil do tipo “um ano inteiro na terapia tentando aceitar o quanto a vida estava em oposição ao que deveria ser”. É péssimo – e péssimo significa mais que difícil – quando tudo o que te resta é tentar lidar melhor com algo insatisfatório, em vez de reverter a situação. Ao menos, acho que cheguei a dezembro melhor do que estava em janeiro. Sofro e me desespero menos hoje do que ontem. Mas ainda não me resigno, e me questiono se essa suposta evolução é de fato boa.

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A experiência de Jardim Gramacho

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Quando saí do carro, não vou mentir, não vi nada. Só senti, e foi calor. Houve o choque término entre o ar condicionado do automóvel e o ar abafado da comunidade de Jardim Gramacho. Em seguida, olhei ao redor. Ainda não sei se enxerguei. Senti certa confusão. Apesar de ter muita gente (à nossa espera), o cenário parecia abandonado, devastado, esquecido. Notei que o chão era de terra batida e pensei “antes sol do que chuva”, já com o suor escorrendo instantaneamente. Por fim, enxerguei as pessoas. Era muita gente – adultos, ainda. Alguns já estressados pela fila, pela demora, pelo calor, pela desordem. Vi as crianças, então, andando descalças, alheias a qualquer questão de higiene. Uma menina com aparência de sete anos atravessando a rua com o irmão menor pela mão. Questionei-me sobre os pais deles e pude perceber que a cena se repetia: crianças descalças, indefesas, expostas. A metros dali, havia bocas de fumo – eu não sabia disso naquele momento, mas já achava a situação perigosa. Rapidamente entendi: era outra realidade. Não a minha.

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