Sonho ≠ Sonho

Sempre achei estranho que sonho, como objetivo de vida, tivesse o mesmo nome que sonho, aquele filminho que passa quando a gente dorme. E é assim em outros idiomas também. Dream. Sueño. Você não acha esquisito? Entendo que ambos são saídas da realidade, mas de maneiras tão distintas que mereciam palavras diferentes. Se passarmos do substantivo pra o verbo, o primeiro é quase sempre conjugado no presente, em menção a algo a conseguir no futuro, enquanto o segundo é sempre no passado, em referência à história assistida na última noite de sono. Isso atesta os lados opostos para os quais se direcionam. Sonho. Sonhei.

De volta ao substantivo, o que motivo essa reflexão, temos ainda um sentimento de posse com relação ao primeiro. Esse é quase sempre meu sonho, seu sonho, nosso sonho. Ao segundo não se refere assim – embora ele também seja meu, seu, nosso. Mas é involuntário. O primeiro é consciente, escolhido, criado. O segundo vem do inconsciente (ou do subconsciente, não lembro mais a termologia correta para o que quero comunicar). Mas o primeiro sonho implica quase sempre uma ação, tanto de motivação quanto de realização. O segundo, obviamente, não. Não se tem poder de controle sobre ele. Sonho. Sonho.

Tem gente que não sonha – nem um, nem outro. Não tem algo grande que queira conseguir ou realizar, e tampouco vivencia historinhas quando dorme. Considero dopado, em ambos os casos, quem é assim. Sem sonho. Sem sonho. E tem gente que sonha, mas não sonha, e vice-versa. Sempre pela metade. Meio dopado, aqui ou acolá.

Falando isso, lembro-me que o primeiro sonho é sempre ideal. O segundo às vezes teima em ser pesadelo. Vê como são diferentes? Um sonho pesadelo, nunca. Um sonho pesadelo, possível. No primeiro sonho, ninguém sonha o pior. Ou sonha? Aprendi a não gostar muito de expressões generalizadoras: ninguém, todos, tudo, nada. Quase sempre há exceções. Mas, ao que me refiro, é no mínimo incomum que alguém sonhe algo ruim, principalmente para si. Mas, no segundo sonho, é praxe – independente da idade, do sexo, da cultura ou da religião: tem-se pesadelos. Não se sonha em encontrar o Bicho Papão. Mas se sonha com o Bicho Papão.

Sonho às vezes não se explica, ou se explica muito mal. Em ambos os casos. Sonho. Sonho. Mas o primeiro move uma vida. O segundo, se duvidar, até paralisa. Mas também serve como indicador. Há quem mude uma vida inteira por causa de um sonho ou de um sonho. Mas a maioria leva a vida ao redor de um sonho, sem dar muita importância para um sonho. Sonho. Sonho.

Sonho x sonho. Mereciam palavras diferentes, talvez não por suas diferenças, mas pelo menos para evitar confusões textuais. Você talvez tenha se atrapalhado. E eu nem mencionei o da padaria.

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