O valor de um sorriso (e de dois, de três e de quatro também)

Quando a gente viaja, fica aberto ao novo, ao diferente, ao inusitado. A gente para e ouve o artista de rua na praça histórica. Compra artesanato, que quase sempre é igual ao que tem perto da sua casa. Compra pinturas que jamais compraria em território conhecido. Solta dinheiro com agrado. Acha tudo lindo. É mais generoso e feliz, com a moeda internacional. A gente enxerga o mundo, e não apenas olha com automatismo. Esse pensamento tinha me vindo à cabeça durante uma caminhada pela orla de Copacabana, há sete dias, quando vi esculturas de areia, hippies com seus artefatos e músicos em quiosques. Com inveja dos turistas, parei e apreciei. Porque feliz é o turista.

Tal foi a minha surpresa, sete dias depois, eu, imerso no automatismo, surpreendido no vagão do metrô. Estava correndo do Kinoplex São Luiz, no Largo do Machado, para o Estação Botafogo, com cerca de cinco minutos para chegar à sessão do próximo filme. Kinoplex e Estação são, aliás, nomes de redes de cinema, para os desavisados. E ir de um ao outro é algo que só quem faz maratona no Festival do Rio entende. Mas releve. O fato é que eu basicamente estava mergulhado na minha preocupação de não chegar a tempo, quando tomei o metrô, torcendo para que aquilo voasse tipo trem-bala.

Não sei quanto tempo passei dentro daquele vagão. Meu percurso era de apenas duas estações. Foi rápido. Mas foi delicioso. Sim: andar de metrô foi delicioso. Era um sábado, nada de rush. Nada convencional, melhor dizendo. Assim que entrei, percebi dois latinos (não sei de que país, mas falavam portunhol) tocando uma música. Já estavam no fim, mas foi suficiente para que eu fosse contagiado. Arrancaram um sorriso de mim. Dois. Três. Quatro. Como eram carismáticos! Não é que eles chegavam, tocavam e cantavam. Faziam uma apresentação completa, com dancinhas bem humoradas e interação com os espectadores. Era difícil olhar para eles e não sorrir. Algo inexplicável. Desse tipo de cena que só vivendo, porque não dá para passar a frente em relato. Mas eu tento…

Não eram esses, mas podiam ser.

Não eram esses, mas podiam ser.

Quando acabaram aquela música, avisaram que fariam a saideira. E as pessoas quase fizeram um “aaaaaah” como no fim das entrevistas do Jô Soares. Brincaram que era a hora do “chapeuzinho” e que não valia tentar pular pela janela (o que, de qualquer maneira, não é possível, porque a janela do metrô não abre). Eles me faziam sorrir… muito. Quebraram a tensão da correria. E eu mesmo estava triste que minha estação estava chegando (filme? que filme? foi uma bosta, a propósito). Várias pessoas deram moedas, notas. Todas deram sorrisos. Eu dei cinco reais. Pensei: qual o valor do meu sorriso? Quanto merece quem me descontrai em um momento de tensão? Mais, certamente, mas estava com dinheiro contado. Levaram a nota e meus votos de felicidade. Que mudem, para melhor, o dia de outras pessoas, como mudaram o meu.

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