Eu só quero chegar em casa

Estou em casa. Finalmente. Achei que não conseguiria chegar nunca. São 3h25 da manhã e confesso-me muito cansado, porque estava na rua desde as 13h. Preferia dormir, mas tenho que contar essa história. Talvez para acreditar que ela realmente aconteceu. Moro no Rio de Janeiro, como você deve saber. Cidade grande, cidade turística, cidade da TV Globo, cidade do carnaval, cidade que vai receber a Copa e as Olimpíadas. Não é pouca bosta. É muita bosta.

Saí de Niterói por volta de 00h30 e cheguei ao centro do Rio 1h da manhã. Queria descer na Central, mas quando me dei conta o ônibus já estava quase na Candelária. Erro meu, falha minha, desci sem reclamar. Há ônibus que passa ali para mim, então tudo bem. Esperei um pouco, esperei dois poucos, esperei três poucos. Não havia vivalma. Tomei coragem e caminhei até a Central (não é pouca coisa!), onde estaria mais movimentado, pelo menos. Ao chegar lá, comprovei minha tese: estava cheio de gente. Ótimo. Esperei um pouco, esperei dois poucos, esperei três poucos. Nenhum ônibus que me servisse. Nenhum. Só passava para Curicica – e não tenho nada para fazer lá. Comecei a me cansar.

Avistei um posto de gasolina com uma placa de “Banco 24 horas” e fui sacar dinheiro para pegar um táxi. Mas o banco 24 horas estava fechado. Não questionei a incoerência da questão, e voltei para o ponto de ônibus, já exausto. Pernas e vista pedindo arrego. Esperei um pouco, esperei dois pouco, esperei três poucos… e nada. Até passou uma van clandestina que me servia, mas estava lotada, e todo mundo avançou em cima dela mesmo assim. Se estivesse vazia, teria lotado.

Comecei a achar que “não era pra ser”. Minha mãe diria que, talvez, meu anjo da guarda estivesse me protegendo. Não era para eu sair dali, porque talvez não fosse a hora para chegar em casa. Talvez algo ruim fosse acontecer no caminho. É, comecei a viajar na maionese para manter o bom humor. Só que, então, iniciou-se uma porradaria entre dois pivetes na Central. Eles rolavam no chão, as pessoas os cercavam, meio torcendo, meio querendo separar. Um caos. Descartei a hipótese do anjo e decidi caçar um táxi que aceitasse cartão. Parei um, parei dois, parei três, parei quatro e desisti. Parece que não há taxistas com máquina de cartão na cidade. Sentei naquela calçada imunda, de bermuda branca.

Mandei mensagem para todo mundo, contando minha situação. Não parecia real. Eu só queria voltar para casa. Decidi, então, pegar um daqueles ônibus para Curicica, saltar no caminho, entrar em um Santander e sacar dinheiro para pegar um táxi. Olha a volta toda que teria que dar para chegar em casa. Mas já passavam das 2h, e eu não estava mais avaliando o que era certo ou errado. Fiz isso.

Dentro do ônibus, na altura do Maracanã, ouço um tiro. Fico assustado, como todos os outros passageiros, e lembro da questão do anjo da guarda. Será? Ai meu Deus. Por sorte, foi um tiro único e sem explicação. O ônibus seguiu viagem por mais dois minutos… até que foi cercado por viaturas. Vários carros policiais passaram de cada lado do ônibus e, mais a frente, pararam um carro. Pronto, novo caos. Instalou-se o engarrafamento. O relógio marcava 2h25.

Por fim, saltei e entrei em uma agência do Santander. Olhei para o primeiro caixa eletrônico e estava desligado. Olhei para o segundo, idem. Terceiro, também. Quarto, adivinha! Só o último estava ligado – o que acendeu uma chama de esperança no meu coração. Enfiei o cartão e, bem, a máquina não leu. Era como se não tivesse enfiado nada. Retirei, enfiei de novo, retirei, enfiei, retirei, enfiei e nada. Bizarro. Saí desolado e fui até outra agência, três quadras a frente. Mas lá a situação era pior. Todas as máquinas desligadas. Qual o sentido disso? Não era para ser 24h? O intuito não é esse? Que façam igual ao Banco do Brasil, que detesto, então: fechem a as agências de noite. É um desserviço, mas pelo menos não ilude.

O dinheiro que eu tinha na carteira não dava cinco reais. Mas eu não aguentava mais. Tentei parar mais uns táxis, em busca de um que aceitasse cartão. Perguntei a seis e desisti. Novamente, estava em um ponto de ônibus sozinho e andei a longa avenida até um ponto com gente. Sem cerimônia, me joguei no chão. Só me restava esperar – o dia amanhecer, talvez. Já eram 2h50. Nem nos meus piores pensamentos achei que chegaria tão tarde em casa nesse sábado. Era para ser um programinha light.

Pra lá de 3h, aparece um ônibus, que me deixará a cinco quadras de casa, mas é o que tem para hoje. Entro quase irradiante, embora minha aparência diga o contrário. Ok, consegui, penso. Vou chegar em casa. Andei muito, me revoltei demais, mas vou chegar. No fim, vai dar certo. Só que não. Para completar a noite, um passageiro deixa a lata de cerveja cair em cima de mim. Uma lata cheia. Em cima da minha bermuda branca. É a cereja do bolo. Grito? Xingo? Ameaço de morte? Não. Estou cansado. Sorrio.

Cheguei em casa, mas com muito perrengue. Algumas questões ficaram na minha cabeça. Que cidade é essa que se predispõe a receber os turistas no Carnaval, na Copa, nas Olimpíadas ou, mais recentemente, no Ano Novo, mas não dispõe do transporte mínimo para os cidadãos? O preço da passagem de ônibus aumentou, teve protesto (e tragédia), mas a frota parece ter diminuído. Não se pode mais andar de noite? Avisem, pelo menos. Estava quase implorando: “Por favor, apareça um ônibus! Quero muito pagar três reais!”. O pior do aumento do preço é esse: vemos a piora no serviço a cada ano.

Quanto aos táxis, em que mundo vivem? Somos uma cidade turística! Tem que ter máquina de cartão!!! Sim, com três exclamações. Como não, gente? Se o Rio de Janeiro não tem condições mínimas de habitação, como quer receber visita? Fiquei pensando nisso. De que adianta servir caviar para o hóspede endinheirado se não tem o que comer no resto do ano? É uma questão. Simplesmente não havia ônibus para voltar para casa. Nem táxi com máquina de cartão. Nem agência com caixas eletrônicos funcionando. Ou seja, estava impedido de chegar em casa. E não moro em nenhum fim de mundo, em nenhum beco, por mais incrível que pareça. Não sei lidar.

A gente não precisa se comparar a muito longe para ver que está ruim. São Paulo que é São Paulo, com todos seus defeitos, funciona infinitamente melhor de noite. Curitiba, nem se fala. Se duvidar, até Niterói. Rio, tá difícil.

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2 respostas para Eu só quero chegar em casa

  1. Gabriella Paes Leme

    Leo, conhece a cooperativa de taxi Pontual ? Já passei por muitooo perrengue com banci fechado de madrugada e ela me salva. Aceita cartão, crédito e débito. Vale a pena e de madrugada parece que tem mais taxi que durante o dia ! O telefone é 2520-7696 ! Beijo

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