Não é só pelo beijo

BeijoFinalAmor

Quando terminei minha graduação em Comunicação Social, em 2011, apresentei uma monografia intitulada “Argentina 1 x 0 Brasil: tolerância e preconceito homofóbico na América Latina”. O tema era a representação dos personagens LGBT nas telenovelas de ambos os países, fazendo um comparativo e mostrando o quanto o Brasil estava atrasado. Mergulhei fundo no assunto, li o que vários teóricos pensaram sobre a relação entre sociedade e TV, assisti a um vasto material audiovisual, e entreguei um trabalho com mais de cem páginas – do qual tenho algum orgulho.

Na época, minha conclusão foi que a TV é espelho do seu contexto social, ao mesmo tempo em que reforça costumes e padrões. Vários casos me fizeram acreditar que a televisão, ao contrário do que se pensa e se prega no senso comum, não tem todo esse poder de manipulação. Se ela tenta “fazer a cabeça” dos telespectadores, de uma maneira completamente oposta a que eles veem o mundo, não funciona. As pessoas rejeitam aquele conteúdo. Ao contrário do que se possa imaginar, novamente, fiquei satisfeito com essa conclusão.

Muitos que defendem a poda dos gays na TV afirmam que a exibição de um beijo, por exemplo, seria má influência para as crianças e os adolescentes. É uma declaração preconceituosa, claro, mas quem a faz não tem vergonha de ser preconceituoso. Acreditam, de fato, que homossexualidade, bissexualidade e transexualidade pode ser um hábito adquirido. Sem entrar nesse aspecto da discussão, minha descoberta na monografia já põe por terra esse posicionamento. Se a TV não tem tal poder de manipulação que se pensa – ainda mais atualmente, com a Internet – ela tampouco poderia transformar alguém em gay. Portanto, exibir cenas de carinho entre casais gays, como existe entre casais heterossexuais, não causaria estrago em ninguém. Uso a palavra estrago propositalmente – porque os oposicionistas pensam assim. É lógico pensar que o oposto é verdadeiro: cenas de beijos e de sexo entre personagens heterossexuais não muda a orientação de um homossexual. Simples.

niko-felix-familia

Só que a exibição de um beijo gay na TV quebra o tabu, claro. Desconstrói o monstro para conservadores e, de certa maneira, acostuma o público a uma realidade que existe. A representação dos LGBTs na TV não aumenta nem diminui sua presença no mundo. A ausência deles na TV também não. A homossexualidade existe. Sempre existiu. Não é porque a novela mostra personagens assexuados afetados que os gays reais deixam de fazer sexo. Senhorinha, deixe de se enganar. Senhorzinho, aceite. E, caso não, há sempre o controle remoto. Da mesma maneira que se vira o rosto quando não se quer ver algo na vida, muda-se de canal na televisão.

Aqui chego ao tão comentado beijo do Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Frangoso) na novela “Amor à Vida”, escrita por Walcyr Carrasco e dirigida por Mauro Mendonça Filho. Sua existência e exibição, claro, é um avanço. É um antes e depois na TV Globo, que já censurou tantos outros beijos entre gays e lésbicas, gravados e cortados de última hora. O alarde quanto ao assunto? Não é espantoso. É uma novidade, e merece mesmo ser explorada à exaustão. Só a repetição – com outros casais, outros beijos, outras cenas – tornará essa questão uma trivialidade. Só o tempo fará com que um beijo gay não seja diferente de um beijo hetero (que não vira meme no Facebook e nem ganha as páginas dos jornais). Mas, agora, iniciou-se essa caminhada. Não vejo motivos para reclamações. Li que “enquanto o beijo for reservado para o último capítulo, não acontecerá mais nada”. É claro que não. Mas deve-se começar por algum lugar. E começamos! Não é hora para mau humor.

Como destaquei no título desse post, não é só pelo beijo, é pelo que ele representa. Félix e Niko, ao formarem um casal comum, que se beija, espelham nossa sociedade. As pessoas pediram pelo beijo. Não foi uma questão de classe, de comunidade, de ativismo. Não foram apenas gays pedindo pelo beijo gay. O público torceu pelo final feliz, que merecia esse simbolismo. “Amor à Vida” mais do que espelhou uma sociedade na qual existem. Espelhou uma sociedade mais tolerante. Carlos Tufverson, da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual do Rio de Janeiro, declarou que o final da novela “virou celebração de Copa do Mundo”. E foi isso mesmo. Depois de tanto tempo censurado, o beijo enfim veio. É uma questão sociopolítica. Com atraso, mas veio. Com atraso, reflexo de uma sociedade atrasada, mas que começa a se arrastar para frente. Que felicidade! Agora é só não permitir que esse seja um fato isolado. 2014 começou bem.

Isso passou na televisão aberta em 2010 na Argentina:

Um dia chegaremos lá.

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