[Dica da semana] A quê ficar atento no Oscar

Como todo ano, tentei ver o máximo possível de filmes indicados ao Oscar. Só não compartilhei a maratona aqui, porque estou atolado com os preparativos para o Carnaval e para o site Teatro em Cena (que preciso abordar melhor aqui). Mas vou usar esse post para chamar a atenção para o que mais gostei neste ano. Vamos por categorias.

A premiação é domingo (2/3), em pleno Carnaval. Para quem não curte a folia, é uma boa desculpa para correr contra o tempo e encarar uma maratona de cinema. Eu vou pra folia, porque sou desses.

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Melhor Filme
“12 anos de escravidão”
“Gravidade”
“Trapaça”
“Capitão Phillips”
“Clube de compras Dallas”
“Ela”
“Nebraska”
“Philomena”
“O lobo de Wall Street”

“Ela” (Her), do Spike Jonze, não tem a menor chance de levar o prêmio, mas é o meu queridinho do ano. O filme acompanha a paixão do Theodore (Joaquin Phoenix) por um sistema operacional com a voz da Scarlett Johansson. É material suficiente para uma semana inteira de reflexões. A trama mostra como somos uma geração de solitários vivendo um autoengano. Fiquei particularmente tocado.

Diretor
Alfonso Cuarón, de “Gravidade”
Martin Scorsese, de “O lobo de Wall Street”
Steve McQueen, de “12 anos de escravidão”
Alexander Payne, de “Nebraska”
David O. Russell, de “Trapaça”

Deve dar Cuarón nesse ano, como nas premiações anteriores. Merecidamente. “Gravidade” soube explorar a tecnologia de uma maneira inovadora. Uniu o que há de mais high-tech com boas interpretações (Sandra Bullock está indicada por este filme). Geralmente, os filmes muito futuristas abusam dos efeitos em detrimento do trabalho de atuação. Aqui, não. Difícil sair do cinema não impressionado.

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Ator
Christian Bale, de “Trapaça”
Bruce Dern, de “Nebraska”
Leonardo DiCaprio, de “O lobo de Wall Street”
Chiwetel Ejiofor, de “12 anos de escravidão”
Matthew McConaughey, de “Clube de compras Dallas”

Desculpe-me Leonardo DiCaprio, mas Matthew McConaughey, está brilhante em “Clube de Compras Dallas”. Não é só seu emagrecimento para o personagem, um portador da AIDS, que chama a atenção no trabalho. McConaughey está convincente, de uma maneira que você acredita que aquele cara realmente existe. Impecável. A história é muito rica, e ele soube dar o seu melhor para contá-la, e se apropriar do melhor dela para fazer seu trabalho. É bonito de se ver. Perto desse filme, DiCaprio e “O Lobo de Wall Street” são apenas engraçadinhos – e me refiro a ele particularmente por ser o favorito.

Atriz
Cate Blanchett, de “Blue Jasmine”
Sandra Bullock, de “Gravidade”
Judi Dench, de “Philomena”
Amy Adams, de “Trapaça”
Meryl Streep, de “Álbum de família”

Briga de gente grande, mas não consigo ver a estatueta nas mãos de outra que não a Cate Blanchett. Faltam-me até os argumentos, porque, para mim, é uma escolha óbvia. A louca Jasmine, criação do Woody Allen, é tão boa que eu quis ver o filme duas vezes. E eu não vejo um filme mais de uma vez há muitoooo tempo. Cate fez um trabalho tão sensível, tão delicado, tão na medida certa. Apaixonante.

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Ator coadjuvante
Barkhad Abdi, de “Capitão Phillips”
Bradley Cooper, de “Trapaça”
Michael Fassbender, de “12 anos de escravidão”
Jared Leto, de “Clube de compras Dallas”
Jonah Hill, de “O lobo de Wall Street”

Eu realmente acho que Barkhad Abdi também merecia o prêmio, mas Jared Leto… que delícia de atuação! A transformação foi tanta que não vi sombra do vocalista do 30 Seconds to Mars em cena. Além do mais, seria formidável que um ator ganhasse o Oscar por um personagem transgênero.

Atriz coadjuvante
Sally Hawkins, de “Blue Jasmine”
Jennifer Lawrence, de “Trapaça”
Lupita Nyong’o, de “12 anos de escravidão”
Julia Roberts, de “Álbum de família”
June Squibb, de “Nebraska”

Se a escolha de ator coadjuvante me é penosa, a de atriz nem tanto. Não fico com Jennifer Lawrence dessa vez. Sério. A cena de June Squibb brigando com os golpistas oportunistas da família já é melhor do que todo “Trapaça”. E Lupita Nyong’o que te faz esquecer que é uma atriz em “12 Anos de Escravidão?”. Senti-me diante de uma verdadeira escrava sofrida assistindo ao filme. E isso merece prêmio.

Filme estrangeiro
“Alabama Monroe” (Bélgica)
“A grande beleza” (Itália)
“A caça” (Dinamarca)
“The missing picture” (Camboja)
“Omar” (Palestina)

Prefiro não emitir opinião, porque só assisti a “Alabama Monroe”, “A Grande Beleza” e “A Caça”.

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Roteiro original
Eric Warren Singer e David O. Russell, de “Trapaça”
Woody Allen, de “Blue Jasmine”
Craig Borten e Melisa Wallack, de “Clube de compras Dallas”
Spike Jonze, de “Ela”
Bob Nelson, de “Nebraska”

Porque no meu mundo é presunção de quem acha que barra Woody Allen.

Roteiro adaptado
Billy Ray, de “Capitão Phillips”
Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke, de “Antes da meia-noite”
Steve Coogan e Jeff Pope, de “Philomena”
John Ridley, de “12 anos de escravidão”
Terence Winter, de “O lobo de Wall Street”

Só não amei “O Lobo de Wall Street”, do qual também gostei. Disputa complicada. Chamaria a atenção para “Philomena” pela denúncia da história, mas acho que, desses, o que mais me impressionou foi mesmo “12 Anos”. Você termina o filme meio que anestesiado. A história te prende do início ao fim, e choca, e provoca, e incomoda, e surpreende.

Categorias técnicas, não comentarei.

[Dica da semana] Mais teatro, menos Caio Castro

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Busquei a entrevista do Caio Castro para a Marília Gabriela (exibida no GNT em setembro e reprisada recentemente) e não encontrei a parte em que ele diz que não gosta de ler nem de ir ao teatro. Só vi outros trechos – como o que ele diz ser evangélico. Mas tudo bem. Pelas notícias que li, ele falou mais ou menos que só vai ao teatro e dá uma lida de vez em quando para ficar por dentro dos assuntos com os colegas de profissão. Lamentável, sim. Mas ele não atacou ninguém, e vem sendo atacado desde então. Grandes nomes dos palcos o chamaram de anta e de ignorante. Minha declaração favorita, porém, é a do Miguel Falabella: “Não é ator. É desinibido”. Foi no ponto certo. Mas ainda é um ataque. Acho deselegante atacar os coleguinhas. Mais cedo ou mais tarde, eles se encontrarão em algum corredor (não uma coxia) e ficará um clima chato.

Caio Castro, querendo ou não, tendo caído de paraquedas ou não, é um representante da classe artística. Sendo artista ou não. Então é mais do que compreensível que atores se revoltem com suas declarações. Mas também é fácil entender o lado dele – um garoto que, até participar de um concurso de atores do “Caldeirão do Huck”, era só um adolescente estudante, cursando o técnico de Sistema da Informação. Ele nunca havia atuado até ser selecionado pela produção do programa, graças a uma foto enviada. Isso explica muito: uma foto. Sua carreira começou assim.

Para quem gosta de ler e/ou de assistir a peças, é difícil aceitar quem não goste. Mas existe muita gente, muita, muita, muita mesmo que não tem contato com literatura e a arte dos palcos. Não gosta, porque não tem acesso, porque não tem o hábito, porque não tem incentivo, porque não tem dinheiro, ou simplesmente porque não gosta mesmo. É um direito. Tem gente que não gosta de música, sabia? Já ouvi disso. Eu não gosto de futebol e sei que, para quem é fanático e assiste às partidas de todos os times, eu sou bizarro. O mundo é assim… e que bom!

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Caio Castro é Caio Castro por ser bonito. Todo mundo o conhece por causa disso. Nunca vi ninguém falar dele por suas habilidades de interpretação. É sempre pelo corpo gostoso. Talvez pelo charme. E, ok. Isso também tem seu mérito. Horas de academia exigem dedicação. O chato é que, em uma profissão que lida tanto com a sensibilidade, lhe faltou justamente isso. Ele não foi sensível o suficiente para dar-se conta de que pegaria mal falar algo assim. Em vez disso, ele disse, e deu o motivo que todos queriam para avacalhá-lo: a confirmação de que é vazio. Deu ruim.

Eu sempre gostei de teatro – e decidi explorar mais esse prazer recentemente (clique aqui para acompanhar) – mas não gostava de ler quando era mais novo. Hoje em dia, leio dois, três livros de uma vez. Mas antes, não. Preferia fazer mil outras atividades a ler. Foi minha mãe que me incentivou. E uma ótima professora do colégio também. Caíram nas minhas mãos os livros certos. E acho que isso é tudo. Jô Soares certa vez discursou sobre a experiência do teatro assim: se a peça é boa, é maravilhosa; se é ruim, é péssima. Alguém tem que fazer a escolha certa por você, na primeira vez. Senão, você não vai mesmo querer voltar.

Sou suspeito para falar, é claro, porque sou profundo defensor das artes – não apenas na vida do Caio Castro, que trabalha como ator, mas na de todos. Acredito que as manifestações artísticas agregam valor no camarote que é o cérebro. Isso é bom para qualquer ser humano, em qualquer fase da vida. Como uma professora minha pregava, você tem que botar pra dentro antes de querer botar pra fora. Mas não condeno quem não pratica. Lamento. Caio Castro não é vilão. É vítima da falta de instrução. Botou pra fora sem botar pra dentro antes.

Dica da semana: vá assistir a uma boa peça e deixe o mimimi sobre Caio para o jantar.

[Dica da semana] Tempo em Movimento – Lulu Santos e Luiza Possi

Nós já não somos
Como um dia nós sonhamos
Somos o que a vida fez de nós
Que fizemos de nós mesmos
Viver é escolher
Entre o instinto e a razão
Entre a cabeça e o coração
Os caminhos da alegria e da dor
E do bem-querer
Da solidão
E nada é por acaso

Os versos são do Lulu Santos (que eu amo de coração) e do Nelson Motta (que quem ama o Lulu de coração gosta dele por tabela). Caíram no meu colo ontem, quando assisti ao clipe da música, que se chama Tempo em Movimento e é um dueto entre Lulu e Luiza Possi. Sabe quando você está ouvindo algo despretensiosamente e algo te faz prestar atenção? Foi assim. Compartilhem desse momento comigo:

Viver é aceitar
Nossos bons e maus momentos
Entre razões e sentimentos
Entre o medo e o desejo de amar
Amanhecer, anoitecer
Tempo em movimento

Lulu e Nelson sempre cativam pela simplicidade das palavras e pela força da mensagem. E eles, os dois, têm essa capacidade de me tocar com o que escrevem. Sempre que vou aos shows do Lulu, me identifico com cada palavra que sai de sua boca. Há músicas para o presente, para os medos do futuro, para as histórias do passado – e, a cada vez, me dou conta de uma nova associação.

“Tempo em Movimento” casou com uma história que estou escrevendo. Quando a ouvi pela primeira vez, voltei a barrinha do Youtube para ter certeza de que os versos diziam “somos o que a vida fez de nós / que fizemos de nós mesmos”. É o tema da minha personagem, com certeza. Já virou. Se tudo der certo, e espero que dê, essa citação abrirá meu próximo livro. Sim, haverá um próximo 😉

Eu só quero chegar em casa

Estou em casa. Finalmente. Achei que não conseguiria chegar nunca. São 3h25 da manhã e confesso-me muito cansado, porque estava na rua desde as 13h. Preferia dormir, mas tenho que contar essa história. Talvez para acreditar que ela realmente aconteceu. Moro no Rio de Janeiro, como você deve saber. Cidade grande, cidade turística, cidade da TV Globo, cidade do carnaval, cidade que vai receber a Copa e as Olimpíadas. Não é pouca bosta. É muita bosta.

Saí de Niterói por volta de 00h30 e cheguei ao centro do Rio 1h da manhã. Queria descer na Central, mas quando me dei conta o ônibus já estava quase na Candelária. Erro meu, falha minha, desci sem reclamar. Há ônibus que passa ali para mim, então tudo bem. Esperei um pouco, esperei dois poucos, esperei três poucos. Não havia vivalma. Tomei coragem e caminhei até a Central (não é pouca coisa!), onde estaria mais movimentado, pelo menos. Ao chegar lá, comprovei minha tese: estava cheio de gente. Ótimo. Esperei um pouco, esperei dois poucos, esperei três poucos. Nenhum ônibus que me servisse. Nenhum. Só passava para Curicica – e não tenho nada para fazer lá. Comecei a me cansar.

Avistei um posto de gasolina com uma placa de “Banco 24 horas” e fui sacar dinheiro para pegar um táxi. Mas o banco 24 horas estava fechado. Não questionei a incoerência da questão, e voltei para o ponto de ônibus, já exausto. Pernas e vista pedindo arrego. Esperei um pouco, esperei dois pouco, esperei três poucos… e nada. Até passou uma van clandestina que me servia, mas estava lotada, e todo mundo avançou em cima dela mesmo assim. Se estivesse vazia, teria lotado.

Comecei a achar que “não era pra ser”. Minha mãe diria que, talvez, meu anjo da guarda estivesse me protegendo. Não era para eu sair dali, porque talvez não fosse a hora para chegar em casa. Talvez algo ruim fosse acontecer no caminho. É, comecei a viajar na maionese para manter o bom humor. Só que, então, iniciou-se uma porradaria entre dois pivetes na Central. Eles rolavam no chão, as pessoas os cercavam, meio torcendo, meio querendo separar. Um caos. Descartei a hipótese do anjo e decidi caçar um táxi que aceitasse cartão. Parei um, parei dois, parei três, parei quatro e desisti. Parece que não há taxistas com máquina de cartão na cidade. Sentei naquela calçada imunda, de bermuda branca.

Mandei mensagem para todo mundo, contando minha situação. Não parecia real. Eu só queria voltar para casa. Decidi, então, pegar um daqueles ônibus para Curicica, saltar no caminho, entrar em um Santander e sacar dinheiro para pegar um táxi. Olha a volta toda que teria que dar para chegar em casa. Mas já passavam das 2h, e eu não estava mais avaliando o que era certo ou errado. Fiz isso.

Dentro do ônibus, na altura do Maracanã, ouço um tiro. Fico assustado, como todos os outros passageiros, e lembro da questão do anjo da guarda. Será? Ai meu Deus. Por sorte, foi um tiro único e sem explicação. O ônibus seguiu viagem por mais dois minutos… até que foi cercado por viaturas. Vários carros policiais passaram de cada lado do ônibus e, mais a frente, pararam um carro. Pronto, novo caos. Instalou-se o engarrafamento. O relógio marcava 2h25.

Por fim, saltei e entrei em uma agência do Santander. Olhei para o primeiro caixa eletrônico e estava desligado. Olhei para o segundo, idem. Terceiro, também. Quarto, adivinha! Só o último estava ligado – o que acendeu uma chama de esperança no meu coração. Enfiei o cartão e, bem, a máquina não leu. Era como se não tivesse enfiado nada. Retirei, enfiei de novo, retirei, enfiei, retirei, enfiei e nada. Bizarro. Saí desolado e fui até outra agência, três quadras a frente. Mas lá a situação era pior. Todas as máquinas desligadas. Qual o sentido disso? Não era para ser 24h? O intuito não é esse? Que façam igual ao Banco do Brasil, que detesto, então: fechem a as agências de noite. É um desserviço, mas pelo menos não ilude.

O dinheiro que eu tinha na carteira não dava cinco reais. Mas eu não aguentava mais. Tentei parar mais uns táxis, em busca de um que aceitasse cartão. Perguntei a seis e desisti. Novamente, estava em um ponto de ônibus sozinho e andei a longa avenida até um ponto com gente. Sem cerimônia, me joguei no chão. Só me restava esperar – o dia amanhecer, talvez. Já eram 2h50. Nem nos meus piores pensamentos achei que chegaria tão tarde em casa nesse sábado. Era para ser um programinha light.

Pra lá de 3h, aparece um ônibus, que me deixará a cinco quadras de casa, mas é o que tem para hoje. Entro quase irradiante, embora minha aparência diga o contrário. Ok, consegui, penso. Vou chegar em casa. Andei muito, me revoltei demais, mas vou chegar. No fim, vai dar certo. Só que não. Para completar a noite, um passageiro deixa a lata de cerveja cair em cima de mim. Uma lata cheia. Em cima da minha bermuda branca. É a cereja do bolo. Grito? Xingo? Ameaço de morte? Não. Estou cansado. Sorrio.

Cheguei em casa, mas com muito perrengue. Algumas questões ficaram na minha cabeça. Que cidade é essa que se predispõe a receber os turistas no Carnaval, na Copa, nas Olimpíadas ou, mais recentemente, no Ano Novo, mas não dispõe do transporte mínimo para os cidadãos? O preço da passagem de ônibus aumentou, teve protesto (e tragédia), mas a frota parece ter diminuído. Não se pode mais andar de noite? Avisem, pelo menos. Estava quase implorando: “Por favor, apareça um ônibus! Quero muito pagar três reais!”. O pior do aumento do preço é esse: vemos a piora no serviço a cada ano.

Quanto aos táxis, em que mundo vivem? Somos uma cidade turística! Tem que ter máquina de cartão!!! Sim, com três exclamações. Como não, gente? Se o Rio de Janeiro não tem condições mínimas de habitação, como quer receber visita? Fiquei pensando nisso. De que adianta servir caviar para o hóspede endinheirado se não tem o que comer no resto do ano? É uma questão. Simplesmente não havia ônibus para voltar para casa. Nem táxi com máquina de cartão. Nem agência com caixas eletrônicos funcionando. Ou seja, estava impedido de chegar em casa. E não moro em nenhum fim de mundo, em nenhum beco, por mais incrível que pareça. Não sei lidar.

A gente não precisa se comparar a muito longe para ver que está ruim. São Paulo que é São Paulo, com todos seus defeitos, funciona infinitamente melhor de noite. Curitiba, nem se fala. Se duvidar, até Niterói. Rio, tá difícil.

[Dica da semana] Helena da Bruna Marquezine; veja as melhores falas

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Acho que nunca recomendei que ninguém visse novelas. Não é o tipo de coisa que se faça. “Essa está tudo muito boa. Assista!”. A gente faz isso com livros, filmes, peças de teatro, séries e até com remédios, mas com novelas não. É um compromisso muito grande assistir a uma novela, de segunda a sábado, por oito ou nove meses. Quem não tem o costume de assistir dificilmente consegue criar esse hábito. Afinal, deve-se abrir mão de uma hora por noite de vida. Por isso, nunca vou recomendar que ninguém se torne espectador de alguma novela. Guardo o sabor de uma boa trama para mim, sempre. Mas…

Sempre há um “mas”, e o meu é a Helena da Bruna Marquezine. Meu Deus! Essa está muito boa. Assista! Você não pode perder. Sim, falo sério. Que personagem! Que humor diferente! Fui conquistado. E quero que você seja também. A Helena da Bruna Marquezine, parte da novela “Em Família” (a nova do Manoel Carlos), é assanhada, irônica, sedutora, provocadora, sacana, nervosa, adolescente. O melhor de tudo é também o pior: ela foi reservada apenas para o início. Depois do 10º capítulo, a personagem será interpretada por Júlia Lemmertz em sua fase adulta. Então tudo que eu digo é: assista às cenas da Helena adolescente. Depois, você pode até largar a novela. Você realmente não precisa engatar na trama. Só veja as cenas dela no site da Globo, se preferir. Juro: são boas demais. Tipo… demais. Encare como esquetes de humor.

Talvez Bruna Marquezine esteja com resquícios da favelada espevitada Lurdinha, de “Salve Jorge”, é verdade. Já pensei nisso. Mas está funcionando. Na nova novela do Maneco, que ele promete que será sua última, a Helena mantém um namoro com o primo Laerte, que é obsessivo por ela, e violento de tão ciumento. O que uma Helena normal faria? Terminaria essa relação, que é indesejada pela família e pelos amigos. Mas a Helena da Marquezine, não. Ela marca o casamento, ao mesmo tempo em que briga com ele o tempo todo. Helena provoca a loucura do amado, ao mesmo tempo em que gera preocupação entre os que a cercam. Tanto para ele quanto para os demais, liga o fo**-se. Porque a nova Helena é isso, desencanada, e ama dois caras. Além do Laerte, ela também é apaixonada por Virgílio – seu melhor amigo. E fala que o ama na cara do namorado e que esse amor não é apenas de amigo. É amor mesmo. Helena é dessas, minha gente.

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Te passo algumas citações:

Na formatura (veja aqui):
-Você tem medinho de perder o namorado, é?, diz inimiga.
– Ai, Shirley, me faz rir, amor. No dia que eu perder um namorado para você, eu corto os pulsos.

Antes da formatura (veja aqui):
– O beijo da mulher que vai me fazer feliz pelo resta da vida, diz Laerte.
– O beijo do homem que precisa me dar em troca toda essa felicidade, rebate Helena.

Dentro do carro (veja aqui):
– Se você continuar assim, eu fujo de você e vou pro Rio morar com minha tia, diz Helena.
– Eu vou atrás de você, diz Laerte.
– Aí que eu dou queixa de você. Falo que você está me ameaçando.

Na aula de coral (veja aqui):
– Você devia escolher um namorado mais educado e menos selvagem que esse daí, diz professora.
– Desculpa, mas não te perguntei sua opinião sobre o meu namorado, responde Helena.
– Você está me desacatando?
– Não. Imagina. Só estou dizendo que quem escolhe meus namorados sou eu.

Na cantina do colégio (veja aqui):
– Você estava maravilhosa ontem à noite, diz Laerte.
– Que é, Laerte? Vai ficar me lembrando de ontem à noite? Ontem à noite foi ontem à noite. Hoje é um novo dia.

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No pátio da escola, com Laerte ajoelhado (veja aqui):
– Levanta! Que cena ridícula é essa?

Na aula de Educação Física (veja aqui):
– A Shirley já deve ter feito a reportagem completa nos mínimos detalhes da minha briga com Laerte ontem no aeroclube, né? Já devem ter rido, feito comentários engraçados, botado para fora todo esse veneno armazenado nos seus coraçãozinhos podres. Então, já que o show acabou, vamos ao jogo.

No corredor de casa, nua na frente do tio (veja aqui):
– Desculpa. Eu não vi você!, diz o tio.
– Para de olhar pra mim!, diz Helena, aos risos.
– Fiquei até suado agora.
– Você tava olhando pra mim!
– O que eu faço agora?
– Acho que você devia deixar eu passar, para colocar uma roupa.

Saindo da piscina (veja aqui):
– Sai de cima de mim, Laerte! Que grude!
– O que houve? Você está estranha desde ontem!
– Estou pê da vida! Aquela conversa no bar ontem… Que vai atrás de mim para me proteger.
– E não?
– Proteger de quê?
– Dos idiotas que estão sempre atrás de você querendo tirar lasquinhas.
– Se eles querem tirar lasquinhas, é porque são idiotas mesmo. Porque poderiam estar tirando lasconas.

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Não é só pelo beijo

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Quando terminei minha graduação em Comunicação Social, em 2011, apresentei uma monografia intitulada “Argentina 1 x 0 Brasil: tolerância e preconceito homofóbico na América Latina”. O tema era a representação dos personagens LGBT nas telenovelas de ambos os países, fazendo um comparativo e mostrando o quanto o Brasil estava atrasado. Mergulhei fundo no assunto, li o que vários teóricos pensaram sobre a relação entre sociedade e TV, assisti a um vasto material audiovisual, e entreguei um trabalho com mais de cem páginas – do qual tenho algum orgulho.

Na época, minha conclusão foi que a TV é espelho do seu contexto social, ao mesmo tempo em que reforça costumes e padrões. Vários casos me fizeram acreditar que a televisão, ao contrário do que se pensa e se prega no senso comum, não tem todo esse poder de manipulação. Se ela tenta “fazer a cabeça” dos telespectadores, de uma maneira completamente oposta a que eles veem o mundo, não funciona. As pessoas rejeitam aquele conteúdo. Ao contrário do que se possa imaginar, novamente, fiquei satisfeito com essa conclusão.

Muitos que defendem a poda dos gays na TV afirmam que a exibição de um beijo, por exemplo, seria má influência para as crianças e os adolescentes. É uma declaração preconceituosa, claro, mas quem a faz não tem vergonha de ser preconceituoso. Acreditam, de fato, que homossexualidade, bissexualidade e transexualidade pode ser um hábito adquirido. Sem entrar nesse aspecto da discussão, minha descoberta na monografia já põe por terra esse posicionamento. Se a TV não tem tal poder de manipulação que se pensa – ainda mais atualmente, com a Internet – ela tampouco poderia transformar alguém em gay. Portanto, exibir cenas de carinho entre casais gays, como existe entre casais heterossexuais, não causaria estrago em ninguém. Uso a palavra estrago propositalmente – porque os oposicionistas pensam assim. É lógico pensar que o oposto é verdadeiro: cenas de beijos e de sexo entre personagens heterossexuais não muda a orientação de um homossexual. Simples.

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Só que a exibição de um beijo gay na TV quebra o tabu, claro. Desconstrói o monstro para conservadores e, de certa maneira, acostuma o público a uma realidade que existe. A representação dos LGBTs na TV não aumenta nem diminui sua presença no mundo. A ausência deles na TV também não. A homossexualidade existe. Sempre existiu. Não é porque a novela mostra personagens assexuados afetados que os gays reais deixam de fazer sexo. Senhorinha, deixe de se enganar. Senhorzinho, aceite. E, caso não, há sempre o controle remoto. Da mesma maneira que se vira o rosto quando não se quer ver algo na vida, muda-se de canal na televisão.

Aqui chego ao tão comentado beijo do Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Frangoso) na novela “Amor à Vida”, escrita por Walcyr Carrasco e dirigida por Mauro Mendonça Filho. Sua existência e exibição, claro, é um avanço. É um antes e depois na TV Globo, que já censurou tantos outros beijos entre gays e lésbicas, gravados e cortados de última hora. O alarde quanto ao assunto? Não é espantoso. É uma novidade, e merece mesmo ser explorada à exaustão. Só a repetição – com outros casais, outros beijos, outras cenas – tornará essa questão uma trivialidade. Só o tempo fará com que um beijo gay não seja diferente de um beijo hetero (que não vira meme no Facebook e nem ganha as páginas dos jornais). Mas, agora, iniciou-se essa caminhada. Não vejo motivos para reclamações. Li que “enquanto o beijo for reservado para o último capítulo, não acontecerá mais nada”. É claro que não. Mas deve-se começar por algum lugar. E começamos! Não é hora para mau humor.

Como destaquei no título desse post, não é só pelo beijo, é pelo que ele representa. Félix e Niko, ao formarem um casal comum, que se beija, espelham nossa sociedade. As pessoas pediram pelo beijo. Não foi uma questão de classe, de comunidade, de ativismo. Não foram apenas gays pedindo pelo beijo gay. O público torceu pelo final feliz, que merecia esse simbolismo. “Amor à Vida” mais do que espelhou uma sociedade na qual existem. Espelhou uma sociedade mais tolerante. Carlos Tufverson, da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual do Rio de Janeiro, declarou que o final da novela “virou celebração de Copa do Mundo”. E foi isso mesmo. Depois de tanto tempo censurado, o beijo enfim veio. É uma questão sociopolítica. Com atraso, mas veio. Com atraso, reflexo de uma sociedade atrasada, mas que começa a se arrastar para frente. Que felicidade! Agora é só não permitir que esse seja um fato isolado. 2014 começou bem.

Isso passou na televisão aberta em 2010 na Argentina:

Um dia chegaremos lá.

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