Malu Rodrigues conta tudo sobre os bastidores do filme “Confissões de Adolescente” em longa entrevista

A atriz Malu Rodrigues, a Bia da série “Tapas & Beijos”, tem 20 anos e cara de 15. Por isso, ganhou um dos papeis principais no filme Confissões de Adolescente, que chega aos cinemas na sexta (10/1), como uma adaptação atualizada do livro da Maria Mariana e da série de TV homônima. Mas é só a cara que é de garotinha. Seu discurso é de uma veterana, decidida e firme em suas posições. Foi ela, por exemplo, que contestou algumas das decisões do diretor Daniel Filho (dos dois “Se Eu Fosse Você”) durante as filmagens. Conhecido por ser um carrasco, como ela mesma o define nessa entrevista ao Fala, Leonardo!, o cineasta colocava medo em Sophia Abrahão, Bella Camero e Clara Tiezzi – as três atrizes que completam o elenco protagonista. Em Malu? Não. Nela, ele despertava seu instinto assassino. “Eu queria matar o Daniel algumas vezes”, confessa. “Ele pegava muito no meu pé”.

'Confissões de Adolescente - O Filme' (crédito Dilvugação) (80)

Aclamada em musicais como “O Mágico de Oz” e “Despertar da Primavera”, Malu foi a única das quatro que não foi submetida a testes para entrar no elenco do filme, orçado em R$ 5,9 milhões. Daniel Filho lhe ofereceu o papel em uma reunião. Na conversa, ele contou que sua personagem, Alice, interpretada por Daniele Valente na TV, teria cenas de sexo. O mote de sua história é a perda da virgindade. “Tudo bem pra você?”, perguntou. Ela, que polemizou ao ficar nua no teatro, quando ainda era menor de idade, mostrou logo sua personalidade: “Depende. Pelada por quê?”. Outras poderiam ter dito imediatamente sim ou não. É conhecida, por exemplo, a história de que Regina Duarte, aos 28 anos, recusou o convite para protagonizar o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (o 2º mais assistido da história do cinema nacional) justamente porque não queria tirar a roupa. Para Malu, isso não é um problema, desde que exista contexto. Ela topou, mas fez Daniel convencê-la da necessidade.

Foi a primeira vez que ela fez o diretor se explicar. Já vinculada ao projeto, descobriu que ele queria praticar um método muito particular de filmar: impedir o elenco de ler o roteiro, escrito por Matheus Souza (de “Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida”). O script de cada cena só seria entregue no dia de filmá-las. O objetivo era imprimir o frescor adolescente na telona, valorizando a espontaneidade e o improviso. Malu não gostou. “Fui mandante de uma revolução”, lembra. “Fazer um filme que a gente não tem ideia de como é o personagem? A gente implorou, pediu pelo amor de Deus, para poder ler o roteiro pelo menos uma vez”. Deu certo: conseguiu. Mas só leu uma vez. “Tiraram o texto da gente de novo, mas pelo menos sabíamos como era a história e lembrávamos algumas coisas”.

Menos assustador, mas tão perturbador quanto, foi quando ele avisou que não queria nenhum tipo de maquiagem em cena. As adolescentes do filme não podiam parecer patricinhas, maquiadas para ir à escola. Malu concordava, mas também não queria aparecer destruída na tela do cinema. “A gente contrabandeava maquiagem!”, brinca a atriz. “Eu estava fazendo três trabalhos ao mesmo tempo. Tinha dia que acordava às 4h de manhã para apresentar peça em São Paulo e voltava para o Rio de Janeiro à noite para filmar. Falei ‘pelo amor de Deus, vou chegar com cara de ‘dormindo’”. Mas não adiantou. Ele não cedeu dessa vez. Pelo menos, ela tentou. “Um dia, ele falou que eu ia assistir ao filme e terminar amando-o. A primeira coisa que disse para ele quando assisti foi ‘Daniel, eu te amo’. E ele disse ‘eu também’.

Você tem 20 anos, e “Confissões de Adolescente” também. Você tem alguma memória da série e da dimensão desse projeto para os adolescentes daquela geração?
Com a série, não tive contato, porque era muito nova. Mas eu li o livro quando era pequena e gostei muito. Sempre quis ver a peça, mas nunca consegui, porque estava em cartaz com algum musical. Trabalho desde criança, então não conseguia parar para assistir. Algumas amigas minhas fizeram as montagens mais recentes, e eu ficava sabendo das coisas por elas, cheia de vontade de ir ver.

Muitas atrizes importantes passaram pelo elenco da peça, ao longo dessas duas décadas. É diferente fazer um trabalho que outras, reconhecidamente tão boas, já fizeram antes? Você teme comparações?
Eu acho que a responsabilidade existe em qualquer trabalho. A gente não ficou pensando muito em comparações ou em como fizeram antes. A gente teve uma reunião com o Daniel no início e perguntou se devia assistir à série ou a algum episódio específico para cada personagem. Ele disse que preferia que não assistíssemos, porque não queria nenhuma referência. Então, acho que a cobrança era muito maior por trabalhar com ele e por saber do peso do projeto, do que por medo de comparações.

O elenco não teve acesso ao roteiro completo antes das filmagens e só recebia as falas do dia na hora de filmar. Como foi essa dinâmica de trabalho?
Foi meio assustador. Eu sou muito caxias e gosto de estudar em casa para chegar com tudo pronto. Foi difícil, mas funcionou no fim das contas. O Daniel queria esse frescor adolescente de não saber falar, e falar um em cima do outro. Às vezes a gente mudava uma palavra ou outra, porque tinha acabado de decorar o texto, e ele foi super compreensível neste ponto. A gente ensaiava bastante e conseguia gravar quase tudo de primeira. Mas, na verdade, eu fui a mandante de uma revolução. Ele não queria que a gente lesse o roteiro inteiro nem uma vez, mas falei ‘Ah, não. Fazer um filme que a gente não tem ideia de como é o personagem?’ A gente implorou, pediu pelo amor de Deus, para poder ler o roteiro pelo menos uma vez. Aí ele deixou. Senão como ia saber como era a personagem? Eu faço a menina que tem a primeira vez e fica grávida, mas ela é como? Lemos o roteiro uma vez e ele falou ‘Agora quero que vocês esqueçam tudo e vamos filmar’. Tiraram o texto da gente de novo, mas pelo menos sabíamos como era a história e lembrávamos de algumas coisas.

O Daniel Filho tem fama de rígido. A Sophia Abrahão contou que tinha medo das broncas dele. Como foi sua relação com o diretor no set?
Eu queria matar o Daniel algumas vezes, né? (risos) Mentira. Acho que é uma coisa dele, por ser daqueles diretores mais antigos. Ele tenta puxar o melhor de você. Pegava muito no meu pé, porque minha personagem tem uma dramaticidade maior, eu acho. Não é nada pessoal e ficava só no estúdio. Sabia que era para tirar o melhor de mim. Sem dúvida, ele tirou o melhor de mim. Um dia, ele falou que eu ia assistir ao filme e terminar amando-o. A primeira coisa que disse para ele quando assisti foi “Daniel, eu te amo”. E ele disse “eu também”. Então, ele é um pouco carrasco, mas também é super carinhoso fora de cena. Nas minhas cenas mais complicadinhas, nas quais tinha que ficar pelada, ele foi um amor. Era tudo com respeito, com carinho, com cuidado. Foi um processo bem intenso, mas gostoso. O resultado é o que importa.

cassioefilhas'Confissões de Adolescente - O Filme' (crédito Dilvugação) (171)

Qual foi o momento mais difícil das filmagens?
Acho que a cena mais difícil de fazer foi a que a Alice descobre que está grávida. Não tenho nada próximo a mim nesse sentido – nenhuma amiga ou familiar que tenha ficado grávida muito nova. Então, tive que procurar algumas pessoas que não eram tão amigas, conversar e descobrir como era. Algumas fizeram aborto, nunca contaram pra ninguém e contaram pra mim. Foi um processo bem legal em termos de estudo. Mas, em termos de sensação, foi a cena mais difícil.

Como só recebiam as falas na hora de gravar, você sabia que ia fazer essa cena no dia de filmá-la ou foi uma surpresa?
Sabia. Eles avisavam mais ou menos um dia antes o contexto da cena, explicando o que ia acontecer. A gente só não tinha as falas, então ia meio preparada para o que ia acontecer. Eu lembro que esse foi o dia que o Daniel mais pegou no meu pé. Eu estava muito exausta, e foi a última cena do dia, então… foi bem difícil.

E de onde você tirou a carga emocional para fazê-la?
Acho que cada um tem uma coisa que lhe faz chorar. Eu sou muito ligada à música, porque faço musical desde criança. É algo muito presente na minha vida e acho que cada um tem uma música que desperta um sentimento assim. Então, sempre que tinha que chorar em alguma cena, o Daniel me deixava quietinha em um canto, me concentrando, e só me chamava na hora de gravar. Ele falou “Bota uma música e fica na fossa”. Falei “ok”, botei a música e, em dois segundos, estava chorando aos prantos e pensando nas meninas com quem conversei.

E qual era a música?
Ah, é uma música que ninguém deve conhecer. Inclusive, mostrei para os outros depois e todo mundo falou que era uma música linda, que não tinha porque chorar com ela. Mas, gente, é uma música que me toca. É “Falling Slowly”, que é daquele filme que virou musical na Broadway e fez um sucesso enorme – “Once”. Eu tinha acabado de voltar de viagem e assistido lá.

Escute a música:

O Daniel Filho pediu que vocês ficassem sem maquiagem em cena. Sei que isso é um drama para as mulheres. Como isso afetou sua vaidade?
A gente contrabandeava maquiagem! (risos) Mentira! Quando começou, o Daniel falou que não queria maquiagem nenhuma e que era para ser o mais natural possível. A gente implorou para usar pelo menos um corretivo nos dias em que tivéssemos com mais olheira. Eu estava fazendo três trabalhos ao mesmo tempo: “Tapas & Beijos”, o musical “O Mágico de Oz” e o filme. Tinha dia que eu acordava às 4h da manhã para apresentar peça em São Paulo e voltava para o Rio de Janeiro à noite para filmar. Eu falei: “Pelo amor de Deus, eu vou chegar com cara de ‘dormindo’!”. Acabou que ficou por isso mesmo e a gente aceitou. O filme é muito naturalista, muito bonitinho, muito fofo. Tinha que ser assim mesmo. Se fosse de outro jeito, pareceriam adolescentes patricinhas montadinhas e não era isso que ele queria. Realmente, uma menina de 16 anos não vai para a escola de blush e rímel de manhã.

O Christian Monassa faz seu par romântico e vocês têm muita química em cena. Já se conheciam antes?
Então, não! (risos) Na verdade, o Christian me conhecia de vista, porque tinha alguns amigos que faziam musical comigo. Nada muito próximo. Mas o Daniel fez questão de deixar as cenas mais íntimas para os últimos dias de filmagem, então a gente já estava junto há praticamente dois meses. Tivemos uma preparação com a Luiza Thirré, que também ajudou todo mundo a se conhecer bem e ficar mais próximo – todas as meninas, todos os namorados, enfim. Todo mundo virou muito amigo, então foi tranquilo. Que bom!

Em quase toda entrevista que você deu sobre o filme, teve que falar sobre a cena de sexo e de nudez. Na época de “Despertar da Primavera”, também houve uma polêmica com relação a essa questão. Na sua opinião, o erotismo artístico ainda é um tabu para as pessoas?
Eu acho que o sexo é um dos assuntos mais polêmicos para o adolescente e não poderia deixar de ter no filme. É o mais complexo também. Ficar menstruada não muda muita coisa. Pra mim, pelo menos, não mudou nada. Mas, quando você tem a primeira vez, o primeiro namorado, o primeiro amor, o corpo e a cabeça mudam mesmo. Mexe com muita coisa. Então, você realmente cresce. Por isso que eu acho que quanto mais cedo pior! Então, realmente não podia deixar de ter, e dessa maneira, sem nenhum pudor, nenhuma restrição, nenhuma censura. Não tem porque não mostrar o peito… Acho que sexo sempre vai ser meio tabu. Há famílias e famílias, e cada um é educado de uma forma. A conversa deveria ser a principal coisa entre pais e filhos. Eu estudei em colégio de freira e sei que muitos colégios têm aula de sexualidade, então acho que quanto mais informação menos problemas, como a gravidez na adolescência.

'Confissões de Adolescente - O Filme' (crédito Dilvugação) (85)

Ok. Você estudou em colégio de freira. De onde vem esse despudor para tirar a roupa em cena?
Acho que quem quer ser ator se entrega de corpo e alma. A gente não pensa muito. Se tem contexto e tem a ver com a cena, porque não? Se tivesse que raspar a cabeça, pintar o cabelo, qualquer coisa, eu faria. Claro que tudo tem limite. Tem coisas que realmente não são necessárias. Depende muito do contexto, da cena, da história. O ator tem que se despir de qualquer vergonha e qualquer medo. Isso não existe na nossa profissão. A gente está ali para se doar por inteiro e contar a história daquele personagem. Não é a Malu que está ali, é outra pessoa, é a Alice. Já passei por poucas e boas, desde o sapatinho da Dorothy me apertando por três horas na peça até pegar cachorro que faz cocô e xixi em cena. Então, é isso, né? A gente se entrega de uma maneira inexplicável.

Ter feito uma cena de sexo no teatro facilitou o trabalho no cinema? Afinal, são menos pessoas assistindo no estúdio…
No teatro, é mais longe, né? (risos) No cinema, é uma tela gigantesca e, na hora de gravar… as pessoas estão mais próximas. No teatro, a gente ensaia tanto, que acaba ficando algo muito orgânico, então você não pensa que tem 600 ou mil pessoas te assistindo. Se você pensar, você entra em pânico e não faz nada. Tem que entrar, se jogar, fazer o seu melhor e pronto. Eu sou muito tímida, então acho que foi pior no filme, que é tudo muito minimalista. No estúdio, está todo mundo muito próximo, é frio, tem uma luz em cima e, quando corta, você está lá pelada. O Daniel foi um querido e tirou todo mundo do estúdio no dia. Só ficou quem realmente precisava ficar. Foi tudo muito coreografo – não há uma mão fora do lugar, é tipo um balé -, então foi melhor, porque não tinha quase ninguém. Mas acho que teatro é mais fácil.

Que situação te faria dizer não para um diretor?
A gente está ali para mentir um pouco, então nada que precisasse ser de verdade, como uma cena de sexo real ou consumo de drogas. Tudo bem, desde que dentro de um contexto. Precisa ficar pelada? Precisa. Por quê? Tem que entender o conceito com o diretor. Eu não fiz teste [para “Confissões”], então na primeira vez que me encontrei com o Daniel, em uma conversa, ele virou e perguntou se eu teria problemas em ficar pelada. Falei: “Depende. Pelada por quê?”. Ele me contou a história e concordei, tudo bem. Acho que depende de cena para cena, de personagem para personagem. Tudo tem que ser conversado.

Depois de “Confissões”, quais serão seus próximos projetos?
Volto com “Tapas & Beijos” na Globo. Começo a gravar de novo no fim de fevereiro e entra no ar assim que terminar o “Big Brother Brasil”. Talvez tenha também o “Confissões 2” para a gente filmar no fim do ano. Além disso, estou com minha peça, que é linda de morrer, para comemorar os 70 anos do Chico Buarque. É o novo musical do Charles Möeller e Claudio Botelho, “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”.

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