Por trás da fama de metido

Viro a esquina e te vejo virar na outra. Temos uma calçada inteira de distância, mas te reconheço de longe. Continuo caminhando, em sua direção, simulando naturalidade. Como quem não te viu. Como quem só vai te ver quando passar por você. Às vezes olho para o chão, fingindo preocupação com o calçamento, às vezes olho para frente, para mostrar que sou seguro de mim. Na minha cabeça, só um pensamento: cumprimento ou não cumprimento? Não sei.

Talvez você nem se lembre de mim. Talvez reconheça meu rosto, mas não saiba de onde me conhece. Não é todo mundo que tem a minha memória. Eu lembro até de quem vi no ônibus, algum dia da minha vida. É difícil que me esqueça de algum rosto. Só finjo que esqueço, porque sei que as pessoas se esquecem, então também posso usufruir desse direito. Mas não esqueço. Você esquece? Cumprimento? Você se aproxima. Sei que me viu. Será que você pretende me cumprimentar? Está fingindo que não me viu, esperando se aproximar mais. Como eu?

Vai ser uma levantada de queixo, demonstrando reconhecimento? Ou um “oi” sonoro? Vai ter sorriso? Vou ser simpático? Ou educado basta? Olho para o outro lado da rua, fingindo interesse. Será que você se lembra de mim? Será que se lembra e está interessado sobre minha vida nova? Não quero parar para conversar. “Oi, tudo bem? E as novidades? E sua mãe?”. Por favor, não. Sem necessidade. Vamos ficar só no oi sonoro. É cordial, é suficiente.

Você se aproxima. Nós nos olhamos. De um jeito cego. Chegou a hora. Vai ser oi sonoro mesmo? Estou quase desistindo e optando pela levantadinha de queixo, com um sorriso forçado. Faz mais meu feitio. É mais a minha onda. Valeu? 1, 2, 3 e… Você passa direto. Passa direto. Direto! Shit. Agora você tem certeza absoluta que eu sou metido. Vai espalhar por aí que passa por mim pela rua e eu finjo que não conheço.

É claro que você se lembrou de mim e é claro que contribuí para uma má fama. Você agora vai se reunir com todas as outras pessoas que ignorei na rua e me maldizer. “O Leonardo? Passa pela gente e nem cumprimenta. Deus me livre!”. É. Você faz o tipo de pessoa que diz “Deus me livre”. Deus não te livrou. Eu te ignorei. Fiquei mal na fita. Pensei, pensei, pensei e na hora optei pelo mais fácil.
Não que um “oi” arranque pedaço. Nem uma levantadinha de queixo. Mas… né? Passar direto é seguir a inércia. E se você não se lembrasse de mim? Seria ridículo. Eu teria cumprimentado à toa, e ficado no vácuo. Ou você teria notado meu cumprimento e me achado maluco. Ou, pior, ficado constrangido por não se lembrar de mim, parar sua caminhada, e tentar se recordar de onde nos conhecemos, estalando os dedos. Desnecessário. Mas, eu sei, seria mais digno. Afinal, te conheço, e se espera que não finja o contrário. Não somos amigos, nunca fomos, mas também nunca nos fizemos qualquer mal.

Eu poderia ter fingido que era um tique nervoso. Digo, se você não notasse que dei uma levantadinha de queixo em cumprimento. Ou talvez me fazer de bobo, desse tipo de pessoa que confunde as outras na rua, e vive abordando desconhecidos pensando que são amigos próximos. Isso funcionaria. Você sabe que existe isso.

Só que também existe aquela possibilidade de você não querer me cumprimentar e, se eu o fizesse, te colocaria em uma situação chata. “Ai, lá vem o Leonardo, sempre cumprimentando… Cumprimentador!” Você tem todo direito de não querer dar uma levantadinha de queixo para mim. E eu não quero contestar isso. Longe de mim. Nem faço questão desse cumprimento. Poderia ser chato, de verdade. Como aquele cara, que não sei quem é, mas cisma em me dizer bom dia/boa tarde/boa noite sempre que passo por ele. Nunca conversamos, nunca sequer me dirigi a ele, mas ele sabe que me conhece de vista e teima em me cumprimentar. Quando não o faz, penso até que está puto comigo. Mas nem o conheço, e seria uma loucura se ele estivesse. Talvez me ache metido também… Talvez ele faça testes para ver se eu o cumprimentaria, se partiria de mim a ação, algum dia, caso ele desistisse de ser proativo. Não partiria. Não partiu com a gente, menos com ele. Mas não quero ser como ele. Você me entende?

Olho para trás. Você está virando a esquina. Nem olhou pra trás. Eu também viro, naquela de onde você veio. Que situação. Mais um. Tenho certeza de que você esperava um cumprimento. Por que deveria partir de mim? Não sei. Talvez você conheça aquele cara que sempre me cumprimenta. Talvez eu tenha que cumprimentar outras pessoas por aí, antes que elas o façam, para equilibrar o universo. Ou a minha vida. Ou minha rede de contatos, pelo menos. É engraçado. Eu te conheço. Você, de alguma maneira, faz parte da minha rede de contatos. Não a do Facebook. A rede da vida. Essa que a gente constrói vivendo por aí. Nossas vidas se cruzaram, com menor importância, é verdade, mas se cruzaram. Somos parte da mesma rede. Nós nos conhecemos. Até sei o seu nome. Mas não te cumprimento.

Responder a Por trás da fama de metido

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s