“Porta dos Fundos” lança DVD com esquetes do canal do Youtube: leia a entrevista completa

porta dos fundos

Nenhum vídeo do Porta dos Fundos tem menos de duas milhões de visualizações no Youtube. O número é impressionante, sem dúvidas, mas também revela um grande potencial de crescimento – afinal, a população brasileira é de 200 milhões de pessoas. De olho nisso, o grupo decidiu expandir os negócios e lançar um DVD com os 28 primeiros esquetes postados no canal virtual, acrescidas de extras com comentários dos vídeos e um minidocumentário. Não é coincidência que o produto chegue às lojas no mês do Natal, com tiragem de 15 mil cópias. “[Agora é possível] dar o ‘Porta dos Fundos’ para sua mãe que não vê Internet”, explica o ator João Vicente de Castro, um dos criadores do grupo, sentado no escritório da Universal Music, no Rio de Janeiro, onde ocorreu a coletiva de imprensa do lançamento do DVD, na terça (3/12). O ator Gregório Duvivier, um dos sócios, completa: “O público que não tem acesso à Internet e compra DVD é gigantesco e não pode ser desprezado. Outro dia, uma moça me encontrou na rua e disse que me conhecia de algum lugar. Falei que deveria ser da Internet e ela me respondeu ‘Não, eu não frequento bate-papo’”.

A declaração gera risadas na sala, logo no início da entrevista. Marcada para as 17h30, ela só começou as 18h45, porque todos chegaram atrasados, culpando o engarrafamento cotidiano da Barra da Tijuca. Está aí um bom tema para um vídeo: o caótico trânsito carioca. É possível que o assunto apareça nos próximos esquetes: o “Porta dos Fundos” tem 36 roteiros aprovados que ainda não foram produzidos. Além disso, eles também planejam uma série para o canal virtual e um filme para os cinemas, além do livro, que já está nas livrarias. TV, não, apesar do seu inegável alcance massificado. “Dá para ir? Dá. A gente teria interesse se o projeto fosse muito legal? Teria. Mas não é o caso. Não estamos buscando isso arduamente agora”, explica o ator Antonio Pedro Tabet, protagonista do vídeo “Quem Manda”, que teve mais de 8,6 milhões de acessos.

O grande mérito da “Porta dos Fundos”, aliás, é ser grande sem precisar da TV. Atualmente, a produtora trabalha com 40 funcionários. O diretor geral Ian SBF – o responsável por “fazer as coisas correrem”, como ressalta Fábio Porchat – conta que eles trabalham todos os dias. “Obviamente, não é todo dia gravando. Cada dia é uma coisa diferente. E quem não está no escritório está em casa escrevendo”. Ou comendo. Enquanto o amigo fala, Porchat devora a mesa de petiscos na sua frente. “Eu não almocei, tá? Só para dizer… Por isso estou fazendo essa favelinha”, brinca, com a boca cheia. É difícil ficar perto deles e não rir.

porta-dos-fundos-nos-cinemas

Foi noticiado que vocês processaram uma empresa de lubrificantes que usou o nome Porta dos Fundos…
Fábio: Não, a gente não processou ninguém.

E vocês já receberam processo por algum esquete?
Ian: Não. Também não.
Fábio: A gente é muito “não”, né? (risos) Não, não, não!

Quando vocês fizeram o esquete da Xuxa, vários sites noticiaram como se fosse alarmante tocar no nome dela. Muitos pensaram que rolaria um processo.
Antonio: Você viu os créditos no vídeo? O roteiro é dela também.
Pausa no ambiente.
Antonio: Mentira! (risos)
Gregório: Até eu fiquei surpreso agora! (risos)
Ian: Eu achei que ia ter alguma repercussão, mas não vi nada.
Gregório: Quando a gente lançou, todo mundo falou “processos em 3, 2, 1”. Todo mundo postou dessa maneira. Mas não deu em nada. Só uma vez que o Marco Feliciano falou que ia processar, mas não fez nada também.
Fábio: A Xuxa adorou! Ela é superfã!
Antonio: As pessoas tem um pensamento muito carola na Internet. Ouvem algo que não estão acostumados a ouvirem na TV e pensam que pode dar problema. Mas se você parar para pensar é um esquete bem humorada e que fala super bem da Xuxa. Pior seria se o personagem falasse assim “Não quero transar com a Xuxa de jeito nenhum!”. Claro que ele queria transar com a Xuxa. Ela é linda, ela é ótima, maravilhosa, enfim.
João: (risos) Deixa seu recado! Vai!
Antonio: O único motivo que ela poderia ter para processar seria dizer “Eu nunca transaria com esse cara”, que no caso sou eu. Aí eu que processaria ela! Ia ser uma dízima periódica infinita.
João: Comédia ficou muito linkada a processo, né?
Fábio: Três caras foram processados na história da comédia. Todo o resto nunca foi processado. Leandro Hassum nunca foi processado, eu nunca fui, a gente nunca foi, Bruno Mazzeo nunca foi. Então, na verdade, a exceção virou a regra só porque é mais polêmico e fala-se mais disso.
Antonio: Nunca fomos e nunca seremos processados.

Mas na hora de fazer os esquetes, há algum tipo de preocupação nesse sentido?
Gregório: Temos o foco natural na comédia, no humor. O grande objetivo é divertir as pessoas. Se a gente vê que algo está mais ofensivo do que engraçado, não filma, pela simples razão de que não é bom. Nem é por medo de processo.
Antonio: Para a gente, se algo parece ser ofensivo na leitura do roteiro já deixa de ser engraçado. Uma coisa anula a outra.
João: Fazer polêmica por fazer polêmica está claro que não é nosso caso.
Fábio: A gente fala de assuntos super áridos. Não é “Ah, não vamos falar sobre nada!”. A gente fala de religião, de racismo, suicídio.
Gregório: O “Porta” provou muito isso: não existe tema tabu. O que existe são abordagens boas ou ruins. A gente já falou de tudo. Não tem nenhum tema que a gente não tenha resvalado ou abordado. Quando você trata com o cuidado necessário, com responsabilidade, acaba que o foco fica na comédia e não na polêmica.

Normalmente, alguém pode chegar com alguma ideia para roteiro?
Gregório: Normalmente, não. A gente é bem fechado.
Fabio: O pessoal de dentro do “Porta” tem a liberdade de propor ideias, e isso não tem problema nenhum.
Gregório: O que acontece é que somos 36 pessoas e todo mundo está tendo ideia. A gente já tem uma frente enorme de ideias. Tem roteiro até maio do ano que vem!
Fabio: A gente tem hoje 36 roteiros aprovados, que não foram feitos.

A “Porta dos Fundos” se tornou um fenômeno e todo mundo quer uma fatia disso. Há algumas participações especiais nos vídeos, e imagino que existam muitos se convidando para participar. Como vocês lidam com esses convites?
João: A gente aceita alguns, nega outros. (risos)
Fábio: Tem que ser orgânico. Não pode ser assim: “Ah, o Felipão quer participar. Mas a gente tem esquete para o Felipão? Não, mas coloca aqui…”.
Antonio: Na verdade, depende muito do nome. Eu já falei para eles, desenvolvendo um roteiro, que gostaria muito de gravar um esquete com o [jornalista esportivo] Léo Batista. É meu sonho de consumo! Nunca vai acontecer, mas eu adoraria. Por quê? Porque eu tenho uma ideia.
Ian: Você já tá jogando agora para ver se rola! (risos)
Antonio: Mas pode chegar uma pessoa e acharmos que não tem nada a ver. Outras estão acima do bem e do mal, tipo a própria Xuxa ou a Sandy. Se elas disseram “quero fazer”, a gente vai dar um jeito de pensar em uma ideia legal.

O público se acostumou com a cara de vocês e é surpreendido quando aparece alguém diferente, como a Fernanda Paes Leme em “Homens”. Mas é surpreendido justamente porque vocês não abusam desse artifício. Há também uma preocupação em dosar as participações especiais?
Fábio: A gente tem essa preocupação sim, senão vira um especial de fim de ano da Globo e não é isso. Se tiver toda hora…
João: Tem que fazer sentido. Tipo “Só a Xuxa pode fazer isso”.
Ian: Toda vez que a gente teve participação especial foi porque achou engraçado, e não para gerar audiência. Isso é o que move a gente: achar engraçado. Já percebemos que, para gerar audiência, não precisamos disso, porque as pessoas gostam de ver o pessoal do “Porta” e isso já basta. Então é só quando é engraçado mesmo.

Falando em especial da Globo, como estão as propostas para o “Porta” ir para a televisão?
João: Várias. Sempre.
Antonio: Muitas.
Gregório: Já rolaram, mas já deixaram rolar também, porque não rolaram. Caraca, isso foi meio Caetano, meio Gil, né?
Antonio: A última que rolou foi há muito pouco tempo, então acho que rolarão outras. Sempre dizemos a mesma coisa: se tivermos um projeto para televisão, vamos fazer, mas no momento estamos adorando fazer isso. Não temos nada contra televisão, entendeu?

Quando o “Porta” começou a ganhar força, vocês falavam que preferiam a Internet porque tinham mais liberdade criativa. Depois, o Zeca Camargo fez um post no blog dele, defendendo que a maioria dos esquetes poderia passar na TV, com adaptações mínimas. Isso mudou a percepção de vocês?
João: É que eu não sei se isso é tão real na prática. Eu acho que faz sentido tudo que ele escreveu. Particularmente, achei muito legal tudo que ele escreveu, mas não sei se na prática é assim. Mas também não é isso que faz a gente não ir [para a TV].
Antonio: O Porchat tem uma frase muito boa que é o seguinte: antigamente, há um ano, as pessoas usavam a Internet como um trampolim para a TV, e a gente não usa a Internet como um trampolim para a TV. A gente está na Internet porque a gente quer. O Porchat fala que a Internet é a piscina. A gente está na piscina, no lugar que a gente quer. Ir para a Tv seria um movimento tão paralelo quanto lançar um programa de rádio, uma revista ou um jornal. Dá para ir? Dá. A gente teria interesse se o projeto fosse muito legal? Teria. Mas não é o caso. Não estamos buscando isso arduamente agora.
Fabio: “Vamos lançar um seriado na TV”… Por que a gente não lança na Internet, no “Porta dos Fundos”?

Eu entendo o que vocês falam, mas saiu uma matéria no jornal “O Globo” falando como se a “Porta dos Fundos” servisse de vitrine para que arrumassem trabalhos na televisão. Para muita gente – os nossos pais, talvez – uma pessoa só faz sucesso se está na TV. O que vocês acham disso?
Fábio: Acho que a gente está colaborando para que as pessoas entendam que isso não é uma brincadeira. É sério, é uma empresa com 40 pessoas, que ganha milhões e movimenta…
João: “Fábio Porchat diz: ‘virei milionário’”. (risos)
Fábio: Eu não! O “Porta dos Fundos” ganha milhões.
Antonio: Outra coisa. Se você pegar qualquer ator do “Porta” que não está na TV aberta e colocar andando na rua, do lado de 80% do elenco da Globo, ele vai ser mais reconhecido. É verdade! Vai chamar mais atenção. Óbvio que Tony Ramos, Antonio Fagundes, esses são monstros…
João: …mas se colocar do lado do Fabio, não sei não! (risos)

Como foi a mudança da “Porta dos Fundos” na vida de vocês?
Gregório: O “Porta” mudou totalmente a vida de todos nós, de todas as maneiras. Acho que posso falar em nome de todos. Só vejo o lado bom. É muito legal o reconhecimento, é incrível. O “Porta dos Fundos” explodiu e provou que o humor que a gente acredita tem um público. Isso é muito bom, é muito importante. Tem muita gente que gosta do humor que a gente gosta, que a gente vê. O “Porta” provou que nós não somos minoria. O humor que a gente gosta não é minoritário, é popular. Foi isso que mudou. Mostrou que o que a gente acredita tem público.

E quais os planos para o filme do “Porta dos Fundos”?
Fabio: Isso é uma coisa que a gente quer de verdade: fazer um filme, estrear no cinema. É um projeto que a gente acredita, mas não tem nem o roteiro ainda. É uma vontade, uma ânsia. A ideia é fazer, claro, com o mesmo elenco, a mesma pegada, a mesma direção do Ian, com a mesma galera, só que no cinema. “Porta dos Fundos” é isso. Se a gente chegar e fizer “Os Ursinhos Carinhosos”, as pessoas vão dizer “Ué, isso não é ‘Porta dos Fundos’” e não é mesmo. A mesma coisa se o “Jackass” decidir fazer um programa com as pessoas jogando baralho. Essa essência do que é a gente não pode mudar. A gente gostaria de ver tudo que a gente faz. Volta e meia, assisto como uma fã um esquete nosso que não escrevi e não participei da gravação. Assisto, me divirto, rio. É o tipo de humor que eu gostaria de ver.

Vocês acompanham os concorrentes?
Ian: Parei de ver TV há muito tempo! (risos)

Já existiam canais bem sucedidos no Youtube, mas o “Porta dos Fundos” redimensionou e deu outro sentido a ser bem sucedido na Internet.
Antonio: A gente redimensionou, na verdade, o termo bem-sucedido, né? Ah, tá. (risos)
Fábio: Que escroto! (risos)
João: Eu já vi cinco manchetes do EGO nessa entrevista aqui. (risos)
Fabio: Não, o termo bem sucedido na Internet…
João: Eu não vejo nenhum que seja o que a gente faz, realmente.

Mas agora tem o pessoal da velha MTV criando canais e apostando nisso também…
João: Eu realmente não assisti.
Fabio: Também não vi ainda…
Gregório: Caraca, a MTV virou tipo Tupi, né? (risos) “A velha MTV…”. Quem diria, né? A velha MTV! Mas é! A extinta…
Fabio: A gente redimensionou porque atingiu um lugar mundial mesmo. Estamos indo amanhã para Portugal para lançar o livro do “Porta dos Fundos” lá. Eu vou fazer show lá e já está lotado – de portugueses! Não é de brasileiros. Os portugueses são fãs do “Porta dos Fundos”. Já temos todos os vídeos legendados em inglês e espanhol, inclusive no DVD. As pessoas lá fora estão assistindo muito. É o canal que cresceu mais rápido na história do Youtube, então atingiu o mundo. Não dá mais para pensar só aqui. Na TV aberta, você viu, viu; não viu, acabou. Na Internet, você vê onde quiser, quando quiser. Se não estiver na China, vê livremente, a hora que quiser.

Li que vocês tinham um projeto de criar uma plataforma própria para não ter que dividir receita com o Youtube/Google. Confere?
Ian: Não. Jamais! Nunca, nunca! Pelo contrário, a gente quer sempre ser um canal do Youtube.
Fabio: Mais um não pra você! (risos) A gente tem uma relação muito próxima com o Youtube, sobretudo o Ian, que viaja para lá, conversa…
Antonio: Somos parceiros do Youtube. Eles são ótimos para a gente, e a gente é muito bom pra eles. Não tem porque separar.
Gregório: O “Porta” não existiria com a força que tem se não fosse a força do Youtube também, com certeza.

Então, 2014 é o filme e…
Fabio: Seriado!
Gregório: Dentro do canal do “Porta”, vamos lançar outras coisas. Deve ter um seriado uma vez por semana…

Tem nome?
Gregório: Não, não, não. A gente também não tem roteiro. O que a gente quer é transformar o “Porta” em um canal com uma programação variada, plural.
Fabio: Exatamente. Quem sabe um reality?

Uma resposta para “Porta dos Fundos” lança DVD com esquetes do canal do Youtube: leia a entrevista completa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s