[Dica da semana] As Verdades Que Ela Não Diz – Marcelo Rubens Paiva

as verdades que ela não diz

Ainda estou tomando posse novamente da minha rotina, e não me sinto muito abastecido de conteúdo para compartilhar. Assisti a um show da Fernanda Abreu, vi os filmes “Minha Vida Dava um Filme” e “Gravidade”, e li o livro As Verdades Que Ela Não Diz. Para a dica da semana, vou ficar com a obra do Marcelo Rubens Paiva (porque sei que todos já viram o filme do Alfonso Cuarón).

O livro foi lançado no ano passado, então muita gente pode ter lido também, mas sei que é desproporcional a relação entre leitores e espectadores. Eu fui apresentado à obra durante um debate na Bienal do Livro, do qual participou o autor – que, como você bem sabe, tem “Feliz Ano Velho”, “Malu de Bicicleta” e “E aí, Comeu?” no seu currículo. “As Verdades Que Ela Não Diz” é uma coletânea de contos sobre a relação homem-mulher, ora namorados, ora casados, ora amantes. Li na estrada e gostei muito.

Não vou negar que me incomoda um pouco a escrita escrachada do Marcelo Rubens Paiva. Não é vulgar, longe disso, mas não tem nada de sutil. O autor tem essa simpatia aguçada pela temática sexual, e narra tudo como o homem que é, sem papas na língua. Foi assim em “A Segunda Vez Que Te Conheci” – a história do repórter que vira cafetão – responsável pelo meu primeiro contato com o autor. E é assim nesses contos. Mas eles têm muito humor, o que suaviza tudo.

Ri sozinho lendo esse livro. Há vários trechos cômicos e contos inteligentemente irônicos. “Desavença Italiana” é particularmente bom e divertido. Vou até colar aqui. Vai que assim te convenço a ler todo o resto. Retirei do site do Estadão:

Domingo. Se deliciavam no café da manhã, dia da semana em que tudo era permitido: queijo gordo, geleias, croissant, ovos com salchicha, até bacon. Combinaram na lua de mel em Cancún que em todos os domingos teriam um café da manhã digno de um resort mexicano.

Liam o jornal e se esbaldavam. Mas de férias de repente do nada ela se virou para ele e sugeriu depois de ler o caderno de economia: “Vamos nos separar?”

Ele estava com a xícara erguida. Deteve o movimento. Olhou pensativo. Deu um gole no café. Delicioso. Era ele quem o preparava como um connaisseur. Depositou a xícara sobre o caderno de esporte e respondeu: “Bora”.

Ela estendeu a mão para firmar o pacto: “Promete?”

Ele estendeu a sua. Apertaram, olhos nos olhos: “Prometo”.

Voltaram a ler o jornal. Ele abriu o caderno de cultura, e ela leu os editoriais. Depois de um tempo, ela comentou:

“Você aceitou tão rápido. Já tinha pensando nisso?”

“Na verdade, não. Tá vendo como mesmo depois de tantos anos você não me conhece?”

“Não conheço, mesmo. Achei que ia fazer um escândalo, tentar me convencer do contrário.”

“Tô de boa. Você sugeriu com tanta convicção, que achei que é a coisa certa. Senti isso. Reparou como a gente sempre sabe o que o outro está pensando antes de ele falar?”

“É o convívio.”

“Como você quer fazer?”

“Não pensei nisso ainda.”

“Posso ir prum flat.”

“De boa?”

“Sempre quis morar num. Imagine… Você deixa o quarto uma zona, vai trabalhar, volta, e ele está arrumadinho.”

“Posso ajudar a decorar?”

“Lógico. Você tem um puta bom gosto. Por isso me casei com você. Entre outras coisas…”

“Tipo?”

“Ah, você é uma baita gostosa, linda…”

“Cê acha, é?”

“Puxa, agora que vou morar sozinho, vou falar palavrões. Acho tão avançado homem que fala palavrão, desprendido…”

Ela pegou na mão dele, colocou-a no seu rosto, beijou, abaixou para o peito. Ele fez carinhos neles, ela tirou e disse: “Achei que ia brigar pelo apê”.

“Nada de separação litigiosa. Acho coisa de gente rancorosa, mal resolvida…”

“Meu Deus, o que a gente fala pras crianças?!”

“Hum, boa pergunta. Precisamos de um motivo.”

“Bora dar um Google.”

“Motivos mais comuns em divórcios? Elas não são mais crianças, estão já namorando, na faculdade, daqui a pouco vão morar com amigos, fazer intercâmbio na Espanha. Estão se lixando para nós. Vão até gostar. Terão duas contas bancárias para explorar.”

“E pros amigos, o que a gente diz?”

“Vamos falar da crise dos sete anos. Sempre tem a desculpa da crise dos sete anos.”

“Mas nós somos casados há 20.”

“Vamos dizer que há 13 anos a gente não superou a crise dos sete.”

“Ninguém vai cair nessa.”

“É verdade. Vou dar um Google. Olha, só não vale falar que decidimos por causa da falta de tesão, que com o tempo diminuiu a frequência. Acho muito baixo-astral casal que se separa e sai espalhando que não transava mais, que pareciam dois irmãos na cama…”

“Até porque no nosso caso não é verdade. Nossa média é alta, comparada a outros casais.”

“Então, por que nos separamos?”

“Boa pergunta. Deixa eu ver… O que diz o Google?”

“A conexão tá lenta…”

“E se a gente não disser nada?”

“Como assim?!”

“Ué, se perguntarem, a gente faz aquela cara dissimulada, sabe? De gente fechada que não gosta de falar das suas intimidades.”

“Hum, você é tão esperto. Me dá um tesão. Por isso me casei com você.”

Ela o abraçou para trás e beijou o pescoço dele.

“Pensei que fosse por causa da minha barriga tanquinho.”

“Tanquinho industrial?”

Ela deu um apertão na gordura da cintura dele e começou a recolher a louça. Ele ficou se examinando, se apalpando, se olhou no reflexo da janela: “Preciso emagrecer. Agora que sou um divorciado de meia-idade disponível no mercado”.

“Relaxa. Mulheres não ligam pra isso.”

“Não? E do que elas gostam? Conta outra…”

“De cara interessante.”

“Será que sou um cara interessante?”

“Você vai catar geral, será seletivo ou dará um tempo sozinho?”

“Não me decidi. Posso catar geral?”

“Por mim… Exceto minhas amigas, OK?”

“Por que não?”

“Nem vem!”

“Estou pensando em partir pra outra geração.”

“Que faixa?!”

“Dez anos a menos, no máximo.”

“Ufa, que susto. Tudo bem. Deve ser interessante pegar uma geração diferente, outros costumes, bandas, gírias, lugares, bares. Contanto que não seja a geração dos nossos filhos. É doente, isso.”

“E você?”

“Não planejei nada. Mas…”

“Fala.”

“Ai, tenho vergonha…”

“Pode se abrir. A gente é amigo agora.”

“Você não vai me zoar? Tá bom, eu falo. Eu queria pegar, sei lá… Outra mulher. Pronto, falei.”

“Uau! Que legal.”

“Ah, nunca fiquei. Me sinto uma careta. Hoje em dia é tão normal. Deve ser uma experiência diferente. Já levei cantadas de umas mulheres bem interessantes. Gatas.”

“Você sente atração?”

“Não sei explicar.”

“Mas você não vai virar lésbica, nem coisa do tipo.”

“Sei lá. Por quê?”

“Porque daí teríamos o motivo. ‘Ah, se separaram porque ela é gay, sempre foi, desde pequena, ficou anos casada com aquele cara, mas no fundo gosta de mulher’.”

“E daí? Deixa falar. Te incomoda? Antigamente até iam pensar, ‘pô, o cara é tão devagar que a mulher trocou por outra, o cara nem sabe fazer direito’. Hoje em dia as pessoas estão mais abertas. Até a sua turma do clube.”

“Dane-se. Eles vão é morrer de inveja quando me ver na piscina com uma gata dez anos mais nova com um baita corpão e um biquininho mínimo…”

“Bobo. Você nem vai na piscina com medo de pegar doença de pele, seu hipocondríaco!”

Riram. Terminaram de lavar a louça. Começaram a enxugar.

“O título do clube fica com quem?”, ela perguntou.

“Se tiver algum entrave no estatuto, pode ficar pra você. Vou pegar um flat com piscina.”

“Boa. Posso vender o meu carro? Não aguento mais esse trânsito. Tô pensando em andar só de bicicleta agora.”

“Coisa de sapata.”

“Hiii, começou a gozação.”

“Ah, acho bacana. Alguém tem que fazer alguma coisa pelo planeta.”

“E os livros?”

“A gente divide: o que eu não li fica pra mim e vice-versa.”

“Os móveis?”

“Posso ficar com a LCW? É design do Charles Eames. Deve caber no flat.”

“Olha só… Não sabia que você era ligado em design.”

“Você não sabe muita coisa de mim, baby. Tem cem anos que o cara desenhou essa poltrona. É um clássico.”

Começaram a guardar a louça. Ele desmontou a cafeteira italiana, tirou o pó, limpou, a segurou um instante. Perguntou: “Posso ficar com a cafeteira?”

“Oi?”

“Não consigo tomar café de outra.”

“Foi tio Modesto quem me deu.”

“Eu sei.”

“É uma Moka legítima.”

“Hoje em dia qualquer supermercado vende.”

“Então compro uma.”

“Só consigo fazer café nesta daqui.”

“Não.”

“Não o quê?”

“A cafeteira não sai daqui.”

“Me apeguei a ela. É a única coisa que estou pedindo, além da LCW.”

Disputaram a cafeteira.

“Me dá aqui. Quer fazer cafezinho nela pra sua Lolita, seu pedófilo. Não vai!”

“Solta! Você não vai usar a herança do tio Modesto com um sapatão, sua degenerada!”

Cada um segurou uma parte dela. Até ela se dividir, e ambos rolarem pelo chão. Cena patética presenciada pelos filhos recém-chegados à porta da cozinha.

O resultado foi óbvio. Não se separam, pois não queriam abrir mão daquele bem. Estão casados até hoje. Nunca mais tocaram no assunto. Única diferença é que ela ficou mais gostosa depois que começou a andar de bike, e ele perdeu a barriga proeminente graças à natação no clube. E começou a falar palavrão.

Anúncios

Responder a [Dica da semana] As Verdades Que Ela Não Diz – Marcelo Rubens Paiva

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s